20 maio 2008

MAIS RIQUEZA E CADA VEZ MAIS POBRES

Tendo como pano de fundo factores como a elevada taxa de pobreza infantil (23%, quando na população adulta é de 21%),” a conclusão a tirar é que o tema das próximas campanhas eleitorais vai ser ”O Social” - "Resolver os problemas sociais".
Depois de terem criado as condições para os números que o JN revela vai ser giro ver como é que os mesmos políticos nos vão anunciar a boa nova.

Entretanto, os candidatos à liderança do PSD recusam-se a dialogar uns com os outros. É uma família desavinda, a confirmar o que há uns anos dizia um conceituado político, de um outro leque partidário, que o principal adversário de um político não está num outro partido, mas sim dentro do próprio partido e concluía: “sabe, os aparelhos partidários são estruturas pérfidas, trituradoras”.

Verdade, verdade, é que são estes aparelhos pérfidos que conquistam o poder e que governam os povos. Talvez aí estejam algumas das razões para os grandes níveis de pobreza que se observam em todos os países, mesmo naqueles em que o volume de riqueza gerada cresce ano após ano.
Enfim, o que se pode esperar quando a política se exerce, de modo concertado e geral, com o nível que esta interessante e actual crónica, publicada no mesmo JN, denuncia.

Estes dias que passam, 110


Perder bem, ganhar mal

Pior do que o chamado mau perder é o mau ganhar. E é pior porque o vencido tem uma desculpa, uma má desculpa para a cólera que sente por ter perdido.
Eu sei que é politicamente correcto afirmar que se deve guardar modéstia no momento da vitória mas de quando em quando podemos arriscar um passo desses. A vitória bebe-se lenta, pausada, descansadamente. Assim dura mais.
Todavia há sempre um quiddam que desconhece estas pequenas, vulgares verdades. São coisas que se não aprendem na escola, na universidade mesmo se se consegue um doutoramento. Fazem parte daquilo que se poderia chamar educação informal. A chamada “gente bem” fala de “tomar chá em pequeno” a propósito deste misto de bons modos, contenção e simplicidade.
Vem tudo isto a propósito de um artiguinho, mais um, de um dos comentaristas de última página de um jornal de referência. A criatura resolveu fazer um penoso exercício de ironia sobre o resultado da votação na Assembleia da República sobre a questão do Acordo Ortográfico. Pergunta aos “derrotados” se já repararam que o mundo continua igual, como se da votação naquele areópago de escassa ciência filológica e ortográfica, pudesse sair outra coisa do que a que saiu. Há vezes em que me pergunto se o homenzinho pensa o que escreve ou se dispara mais depressa do que a própria sombra.
Toda a gente sabia que o “Acordo...” ia passar na AR. Os partidos tinham dado as necessárias ordens para que a ordem reinasse. E de todo o modo a votação não se destinava a aprovar o Acordo que infelizmente fora já aprovado por uma assembleia tão competente como a actual.
O que os contrários ao acordo diziam, e dizem, é que não só nada se ganha com ele mas que é provável que se perca muito. A ridícula argumentação de que o acordo fará da língua portuguesa (notem que digo portuguesa e não brasileira ou outra coisa qualquer) uma língua importante. Primeiro porque já é falada por cerca de duzentos milhões de pessoas (que ele iça à categoria de terceira língua mais falada do ocidente, provavelmente porque o russo não lhe parece ocidental) e depois porque assim já não deixamos os brasileiros passarem-nos a perna na competição ortográfica do português. Mal sabe o pobre que quando se trata de aprender português é geralmente recomendado aprendê-lo com brasileiros porque pronunciam todas as letras. E parece não perceber que mesmo com este mau acordo continua a haver discrepâncias ortográficas. Ou seja que os estrangeiros aprenderão a variante brasileira mais depressa do que a portuguesa como é natural.
O que o autor da prosa ligeira parece não perceber é que não é o número de falantes ue determina a importância de uma língua mas a força política e económica dos países e povos que a falam. E a cultura. E aí corremos sérios riscos de estar num lugar bem mais modesto do que o simples número de falantes poderia indicar.
Mas o esforçado articulista não contente com o esmagar a oposição com esta rotunda vitória no parlamento entendeu crismar todos os anti-acordo com o facinoroso apodo de “nacionalistas”. Deve estar contentíssimo com esse subtil esquema de nos chamar reaccionários como se sequer isso fosse verdade. Convenhamos, se ser progressista é ser como o senhor Tavares então vou ali e já volto. O pobre ainda não percebeu que a defesa a outrance do acordo nos termos espúrios em que está (mal) redigido é tão só a última tentativa “imperial” de fingir que há uma ortografia una do português. Mesmo que se tenham importado letras que foram sempre desnecessárias (w, k e y) por termos outras que as substituíam. Ou seja: aboliu-se o trema porque se encontrou um modo mais fácil de conseguir o mesmo efeito mas importa-se o K quando para o efeito já cá havia o C e o Q! Eu chamaria a isto um relento de colonialismo, uma tentativa grosseira de permanecer no lombo dos colonizados mais um bocadinho...
Todavia nada disto perpassou pela cabecinha fértil do articulista . só se lembrou da voluptuosa vitória na AR. Inesperada vitória! Amarga derrota dos protestantes. Estamos varados, tristes, inconsoláveis e o mundo lá fora ri-se de nós, faz-nos caretas o que seria de fato, um feio ato se nós, sempre, incorrigíveis não trouxéssemos no bolso uns cc a mais para enfiar no meio das palavras.

19 maio 2008

Santo Ivo, Padroeiro dos Advogados

19 de Maio
Santo Ivo, presbítero, +1303, padroeiro dos advogados,
Nasceu em 1253, nas proximidades de Treguier, na Baixa Bretanha. Aos 14 anos, foi a Paris, onde tirou o curso de filosofia e teologia, direito civil e direito canónico. Ordenado sacerdote, por quatro anos foi juiz eclesiástico na diocese de Rennes. Era chamado o Advogado dos Pobres. Residiu no solar de Kermatin que herdou dos pais. Nele se encontravam um hospital e um recolhimento para velhos e um orfanato para crianças abandonadas. Um dia livrou uma pobre mulher da prisão, quando lhe faltava apenas o veredicto final. Não houve, enquanto viveu, advogado de tanto renome e homem mais estimado na Bretanha. Vinham ter com ele os ignorantes, pobres e servos que os senhores oprimiam e que Ivo defendia. Santo Ivo granjeou a estima de todos pela integridade de vida e pela imparcialidade de seus juízos. É o padroeiro dos advogados.

in wwwevangelhoquotidiano.org

18 maio 2008

4º Aniversário

Cumprem-se hoje quatro anos desde a data de abertura desta loja de escrevedores. Um sítio que tem proporcionado reflexões, debates, opiniões e evocações. Com liberdade e responsabilidade. O que deve satisfazer todos os incursionistas, os actuais e os que foram rumando a outras paragens.
Um abraço para todos.

17 maio 2008

“Flexibilização protegida”

No debate que corre no PSD tenho procurado acompanhar as intervenções de Passos Coelho. É o candidato que tem um “passado sem história”, não é responsável por nenhuma das decisões políticas que não deixam o país evoluir. Neste particular, muitos outros milhões de portugueses, por essa mesmíssima razão, poderiam beneficiar, legitimamente, do benefício da dúvida e candidatarem-se...

Só que mais ninguém se candidatou e se o fizessem teriam a mesma sorte que os outros dois candidatos do PSD, que nunca aparecem nas notícias. Este simples facto, dos outros dois não aparecerem e Passos Coelho merecer a bondade da comunicação social, já indicia que afinal o seu passado não terá sido assim tão pouco intervencionista quanto parece. Mas, enfim.

Na recente intervenção de Passos Coelho, a apresentar o seu programa, que os jornais reproduzem, disse que a sua grande prioridade é a reforma do Estado.

Confesso que me entusiasma esta ideia. Desde os anos 90 que se fala e legisla sobre a “Reforma da administração pública” ou a “reforma do Sector Público” ou a “modernização da administração pública”, etc. A vontade reformadora tem sido expressa de muitos modos, feitios e com muitos decretos, portarias e resoluções.

Como é que Passos Coelho pretende “reformar o Estado” não vem dito, mas aparece o objectivo da reforma: “O Estado deve competir com os privados” no domínio da educação e da saúde. Interessante esta ideia de um Estado a agir no mercado em competição com as empresas. Também fixa o prazo de duas legislaturas para “retirar o Estado da economia”. Bom, não sei o que é que isto quererá dizer, mas admito que deve querer dizer alguma coisa. No que respeita às relações laborais defende a ideia mobilizadora de se avançar para uma “flexibilidade protegida”. Bom, aqui é que a coisa se torna mesmo obscura.

“Retirar o Estado da economia”; flexibilidade protegida” são as duas grandes ideias inovadoras que Passos Coelho propõe para as próximas duas legislaturas e que agradarão a alguma comunicação social. Depois aparecem as ideias do costume: “reduzir a carga fiscal sobre as empresas e as pessoas”, “reformar a despesa pública”, “por as pessoas no centro das políticas”.

Passos Coelho pode não ter assumido grandes responsabilidades executivas (públicas) no passado. Mas se são estas as suas propostas mais significativas, então, aquilo que o separa dos demais candidatos é mesmo essa coisa de nunca ter exercido funções públicas executivas.

Diário Político 84


Correu, no Público, uma forte discussão entre dois historiadores sobre massacres de judeus em Portugal. O do século XVI, a propósito do qual se inaugurou um recente monumento expiatório no Largo de S Domingos e o que eventualmente sucedeu durante a conquista de Lisboa aos mouros.
Não vou discutir se houve ou não este segundo (por data primeiro) massacre. É provável que, se havia judeus dentro de muros estes tenham sido massacrados, como de resto o foram muçulmanos e até cristãos que estavam no lugar errado no momento errado. A guerra nunca foi feita de forma civilizada, pelo menos no Ocidente. E no resto da rosa dos ventos também não me consta que fosse feita com luvas de renda.
O que me incomoda nesta discussão é o tom moralizador com que se analisa com os olhos do presente um passado de sangue e violência. Sobretudo se esse passado refere a escravatura (de negros de preferência) ou vítimas judias. A má consciência ocidental tem destas coisas. Adora o remorso mesmo que, como é o caso, não tenhamos qualquer culpa pelo que foi feito há quinhentos, mil, dois mil ou mais anos. Confesso que não me sinto minimamente responsável pela inquisição, pelo tráfico negreiro, ou pela pirataria portuguesa nas costas do Malabar. Se fosse egípcio também não me sentiria culpado pelos massacres ordenados por Ramsés II. E se fosse judeu não perderia o sono ao recordar como o povo de Israel conquistou a terra do leite e do mel.
No caso dos massacres de judeus, temos que, no que é seguro, houve uns milhares de vítimas que o zelo fanático de dois frades (dominicanos?) apontou à mão justiceira (?) da populaça cristã. O rei (D Manuel) estava longe, as autoridades municipais não tiveram mão na multidão enfurecida e as mortes dos judeus ocorreram certamente acompanhadas de roubos, violações e demais mimos próprios destas infâmias. Quando o rei regressou, houve devassas ordenadas por ele e castigos exemplares. Ou seja, o rei detentor do poder judicial não hesitou em defender a legalidade e fazer rolar cabeças. Com processos devidamente organizados como é timbre da justiça e da legalidade. Isto não ressuscitou as vítimas, nem reparou as infâmias mas poderá ter evitado, durante muitos e longos anos, outros pogroms. Se tivesse ocorrido o mesmo na Rússia, se os criminosos perseguidores tivessem sido perseguidos pelos juízes do czar talvez também se tivesse evitado a cultura do pogrom que nunca deixou de existir naquelas latitudes.
Teria gostado de ler no monumento uma palavrinha de apreço pela actuação civilizada de D Manuel. Não me repugna que a Igreja Católica reconheça que foi alguém dos seus quem atiçou o ódio vesgo e irracional da turbamulta. A Igreja tem uma especial maneira de lidar com o tempo e com as suas actuações. Como estou fora dela não discuto a virtude dessa postura.
O que me aborrece (no vero sentido da palavra) é alguém que me representa (por exemplo o Dr. Mário Soares há uns anos e na veste de Presidente da Republica) vir de metafórica corda ao pescoço (também metafórico) pedir perdão pelas ignomínias perpetradas por um grupo de aventesmas criminosas que eram portuguesas. Eu sei que fica bonito mas é ridículo. É que a nossa visão do mundo (a nossa Weltanschauungen – toma lá que já bebes) não é de modo algum a mesma dos antepassados. Aquilo que eles tinham por verdadeiro e essencial, p.ex. a fé, já não suscita cruzadas. Duvido que se o Senhor Arcebispo de Mitilene se pusesse aos urros a pedir gente para ir libertar Jerusalém dos judeus e dos muçulmanos tivesse dez criaturas aos saltos e de olhos ardentes a responder “Deus o quer!”. Provavelmente propunham-lhe uma viagem organizada pela agência Abreu com paragem em Petra e numa praia do mar Vermelho por complemento.
Dito isto convém esclarecer que o facto de me recusar a sentir-me responsável pelos latrocínios do tempo dos afonsinos não implica que ache que as matanças desse tempo eram boas e justas. A história não volta atrás nem deve ser uma espécie de julgamento moral feito no futuro. Aliás, a ser certo o que li, sobre a conquista de Lisboa, verifico que o historiador coevo não hesitou em condenar uma série de excessos dos cristãos sobre a população vencida. Li descrições idênticas sobre outras conquistas (Alcácer do Sal ou Silves) e comovi-me com o modo como o narrador contava a saída de homens, mulheres e crianças vencidas. Notei, e julgo que não me enganei, uma verdadeira piedade nessas descrições fortes. Isto significa que, apesar de nesse tempo, os valores religiosos se imporem de tal modo que a morte do infiel era uma bênção ou quase, havia em não poucas pessoas humanidade suficiente para se apiedarem do “outro”.
Finalmente, da mesma discussão, julguei ver algo que igualmente me incomoda. Portugal não foi um bom lugar para os judeus sobretudo a partir do século XVI mas houve países bem piores. E mesmo nos que eram mais acolhedores para os judeus, Veneza, por exemplo, não deixou de se inventar ghettos (a palavra é veneziana) trajes especiais, horas de recolher, impostos especiais enfim um arsenal de medidas que hoje consideraríamos discriminatórias. E que mesmo lá, e nessa altura, também o eram.
Curiosamente se houve zonas onde os judeus portugueses foram recebidos e mais ou menos bem tratados foi no Magrebe e no império otomano. Ou seja em regiões de predomínio muçulmano. Isso não significa que hoje em dia essas mesmas regiões sejam saudáveis para os filhos de Israel. Como Israel também não parece ser o melhor dos mundos para um árabe, sunita, chiita ou de qualquer grupo minoritário.
Resumindo: faça-se a história mas deixe-se no tinteiro os moralismos fáceis. Vale?

D’Oliveira (lembrado de um outro do mesmo nome queimado em efígie em Lisboa. E dizia que nunca tivera tanto frio como nesse dia. Estava com as costas quentes e longe.)

16 maio 2008

Au Bonheur des Dames 122


Uma “passa” no avião

O país comoveu-se com o(s) cigarrinho(s) fumado(s) pelo senhor Primeiro Ministro no voo para Caracas. Convenhamos que é demais. Sª Ex.ª nessa ida ad loca infecta tinha todo o direito de se drogar. Basta atentar no que o homenzinho do lenço vermelho lhe disse e lhe chamou: camarada, amigo, irmão... Meu Deus, só faltou beijá-lo na boca, à boa e velha maneira soviética. Mesmo que o beijo fosse de Judas, como atentando nos fundos petro-venezuelanos investidos na guerrilha colombiana, que volta e meia rapta um portuga, se poderia pensar. O governo com que o Senhor PM foi conversar tem destes vezos. Abraça o presidente da Colômbia de manhã e à noite manda uns dólares às abnegadas FARC. Que em troca limpam o sarampo a uns fieis do senhor Uribe. A política internacional é muito complicada...
Mas voltemos ao tabaquinho consumido pelo senhor PM e à gritaria que ele suscitou. Um homem não é de pau, malta! Um porradão de horas num avião superlotado dá um stress do catorze, que diabo.
Por mim, que fume. E notem que deixei esse agradabilíssimo vício há uma boa dúzia de anos. Por aposta, raios me levem! Bem pensado, ainda bem que o fiz, porque senão agora andava por aí, alucinado, à procura de um sítio em que pudesse dar umas passas enquanto, por exemplo, escrevo este post, aqui na esplanada do costume, abrigado por via do frio e da chuva que espreita. No vidro avisam-se os “estimados clientes” que é proibido fumar. Ao lado um anúncio canalha replica em letras garrafais “proibido fumar, permitido chupar”. Não, não é o que pensam, á tão só um anúncio a umas merdas que se chupam...
Claro que nesta minha generosidade vai um pouco de censura. Não foi o senhor PM e o (des)governo a que ele preside quem atirou à marabunta fumante uma proibição total de puxar pelo cigarro, pelo cachimbo, pelo charuto? Sem apelo nem agravo? E ai de quem transgredir. Multa nele, forte e feia. Terão multado o cidadão José Sócrates? Irão multá-lo? Ou basta o seu solene pedido de desculpas e aquela absurda promessa de deixar de fumar? Então aquele homenzinho de bigode farfalhudo da ASAE que é que anda a fazer? Olhe que multar um PM dá uma grande pinta. E mostra, urbi et orbi, que a lei é para todos. TAP incluída que veio pressurosa e mesureira dizer que nos voos fretados não há proibição de esfumaçar! Multem-me essa companhia, raios!
(a propósito: já viram a generosidade da TAP? Oferece um voo – só de ida - à Madeira por 60 €. Por esse preço vou a Roma para a semana que vem. E até posso ver o Papa que sempre é mais interessante do que o soba local)
O senhor PM entretanto terá dito hoje (enfim, ontem) que o alarido sobre o seu cigarro era um torpe ataque político. A habitual conspiração das forças de bloqueio. Os fundamentalistas que a ele, PM, metem dó. Onde é que eu já ouvi isto?
Eu, a S.ª Ex.ª não reprovo o cigarrinho, muito embora possa, eventualmente, discutir a marca do dito. Um PM não pode andar a fumar um mata-ratos qualquer. Outro galo cantaria se, verbi gratia, o senhor PM tivesse usado tabaco picado, mortalhas decentes e enrolado (à mão, se faz favor), e bem lambidinho, um cigarro. Isso, essa manufacturação do cigarro merece perdão por eu entender que entra nas excepções ditas de alimentos tradicionais que a ASAE e o governo desconhecem. Um cigarro feito à mão, com cuspo próprio, é como uma cacholeira alentejana, um queijo do Rabaçal, um frango pica o chão de cabidela. É telúrico, valha-me S Miguel Torga!
Voltando à vaca fria: o senhor PM não deveria chamar fundamentalista a ninguém quando, por um incidente menor, desata a prometer ir a Fátima a pé, perdão, deixar de fumar.
Mais: prefiro um PM que fume a um PM proibidor. Prefiro vê-lo a sacudir preguiçosamente a cinza em cima do senhor ministro das finanças, do que ouvir um dos seus soporíficos sermões sobre o maravilhoso estado da Nação e sobre a excelsa bondade da política levada a cabo pela senhora ministra da educação, por (mau) exemplo.
Finalmente, muito me temo que esta promessa, feita depois das louvaminhas de Chavez, não vá mais longe do que outras mais graves e mais próximas que já são apenas uma saudade apesar de terem sido feitas no calor da campanha eleitoral que alcandorou S.ª Ex.ª ao lugar que hoje ocupa.
Mas, mesmo nesse caso, sempre direi que, pelo menos este escriba, não lhe levará a mal a quebra da promessa. Cesteiro que faz um cesto...

15 maio 2008

Estes dias que passam, 109


Rui Feijó

Morreu esta noite. O corpo já não dava mais, os anos também já não eram poucos, os amigos quase todos desaparecidos, restavam, alguns com a idade das filhas mais velhas. Eu, por exemplo.
Raras vezes, enfim algumas, senti uma morte como se de um pai (ou um irmão) se tratasse. O tio Marcos, o Zé Valente, o Fernando Assis Pacheco, o Jorge Delgado, o António Abreu ou o Luís Neves. Se a comoção não me perturbasse, lembrar-me-ia de mais alguns, provavelmente. Mas a emoção, as lágrimas e uma súbita sensação de frio intenso, embotam-me a memória e a razão.
Esperava esta morte. Há seis meses, talvez mais. Nas últimas vezes que estive com o Rui, a morte espreitava já. Um cansaço, uma curiosidade já amortecida, algum desprendimento, sinais violentos que nem a mais optimista das amizades consegue não ver.
Rui Feijó é praticamente o último de uma geração. Da geração que viu nascer o “neo-realismo”, que fez de cabo a rabo a resistência ao Estado Novo, que nunca cedeu, nunca parou de lutar e que, já devastada conseguiu chegar a Abril de 74. Para trás ficavam as militâncias partidárias, as conspirações (o Rui esteve na rede Shell), as aventuras literárias (a “Vértice” de que ele foi um dos proprietários -!!!-; as “Antologias do conto moderno” de que ele obviamente foi um dos animadores; a colaboração constante – e constantemente peada – em jornais e revistas; a intervenção critica e literária – foi ainda ele que me honrou apresentando um pequeno livro que escrevi e um editor generoso publicou) e a defesa obstinada dos perseguidos políticos. Na sua casa estiveram escondidos e protegidos muitos refugiados (por todos o Manuel Alegre), foi um dos membros mais activos da “Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos” (e também por isso lhe sou devedor porquanto foi esta Comissão que imediatamente divulgou a minha penúltima prisão e alguns dos que me lêem sabem o que isso significa(va) para quem era preso quase subrepticiamente no meio do medo e da indiferença. Os presos além de presos não existiam na opinião pública, nos jornais sequer, muitas vezes, nos amigos).
Poucos dias antes do 25 de Abril, contactei-o para me ajudar numa missão relativamente arriscada. Tratava-se de constituir uma frota de viaturas para transportar os militares de Abril para a fronteira no caso de alguma coisa correr mal. O Rui já passara a barreira dos cinquenta mas nem sequer hesitou. “Às ordens meu capitão!”, disse com um sorriso de orelha a orelha. E durante esses dias de esperança e febre parecia o mais novo de nós. E no dia 25, logo pela madrugada, lá estava ele fresco como uma rosa, pronto para o que desse e viesse. Felizmente, os nossos préstimos não foram necessários de modo que a aventura revolucionária se esfumou numa longa peregrinação pela cidade do Porto, numa madrugada carregada de promessas.
Homem de uma cultura absolutamente invulgar, deixou uma marca forte em quantos o conheceram. Bastará ler as memorias de vários intelectuais da mesma geração para ver aparecer sempre com um elogio uma menção a Rui Feijó. Elogiosa, obviamente. Por sobre ser um homem de bem, foi um homem do seu tempo. Um homem sábio, humilde, generoso e um cidadão exemplar.
Possamos ter na hora última alguém que de nós diga o mesmo.

* Rui Feijó foi presidente da Câmara de Lousada (logo depois do 25 de Abril), deputado pelo Partido Socialista à Assembleia Constituinte, Delegado Regional do Norte da Secretaria de Estado da Cultura. Pertenceu ao MASP e esteve nos Estados Gerais como membro do Conselho Coordenador de Cultura.

** O título geral deste post "estes dias..." tem origem num livro de Pierre Van Paassen. O Rui era um grande admirador deste autor. Ora aqui está uma oportunidade de o homenagear.

O perigo para a saúde de ser adepto de futebol

A alguns dias do início, a 7 de Junho, do Euro 2008, as mulheres desesperadas pela perspectiva de longas noites de futebol poderão soprar ao adepto seu marido: " Querido, atenção à tua saúde”. " Que estar afundado no sofá à frente da televisão, bebendo cerveja e comendo batatas fritas ou pizzas não era bom, nem para o colesterol nem para as artérias, já se desconfiava. Mas acrescentar o stress de ver a sua equipa favorita perder ou a emoção suscitada pela vitória é o que qualquer sistema cardiovascular precisa para sofrer um golpe. Um recente estudo publicado no muito sério New England Journal of Medicine revelou que ver um jogo muito provavelmente aumenta o risco de acidentes cardíacos. Os serviços de urgência registam um pico de afluência nas duas horas seguintes a um encontro desportivo. Certos cardiologistas questionam-se, sem se rirem, se não seria necessário suprimir os penaltis. Antes de chegar a esta improvável medida extrema, os médicos aconselham a " não ver jogos importantes após um enfarte ou numa situação de elevado risco" , explica, à AFP, o doutor Hervé Douard, cardiologista do CHU de Bordéus. O argumento de que ver um bom jogo permite esquecer o stress do trabalho já não é válido. Decididamente, pode-se morrer!

Sandrine Blanchard, in Le Monde

Justiça e Defesa Nacional

Em França discute-se a restrição de acesso dos Juízes de Instrução Criminal a dados que importem segredo no interesse da Defesa Nacional. O acesso a documentos secretos passa a depender de autorização da autoridade administrativa específicamente competente para a desclassificação do documento em causa. E, quando autorizada, a onsulta do documento terá de ser feita presencialmente pelo Magistrado.

Segundo Le Monde, o projecto prevê que "Lorsqu'un magistrat envisage de procéder à une perquisition dans des lieux classifiés ou abritant des secrets de la défense nationale, il remet à l'autorité administrative compétente une décision écrite et motivée indiquant la nature de l'infraction, (…) les raisons justifiant la perquisition et l'objet de celle-ci."L'effet de surprise de la perquisition disparaîtrait de fait. D'autant que l'autorité administrative est alors censée transmettre cette "décision" du juge au président de la commission consultative du secret de la défense nationale (CCSDN), seul habilité à déclarer une "déclassification temporaire, totale ou partielle" du lieu visé par le magistrat. La perquisition, si elle est autorisée, se ferait alors en sa présence. Par ailleurs, "les saisies et les mises sous scellés" ne pourraient "porter que sur des documents non classifiés ou déclassifiés". Seul le président de la CCSDN pourra prendre connaissance des "informations classifiées" et décider, ou non, de les transmettre au magistrat instructeur."

14 maio 2008

Maio, maduro Maio 4


Os filhos de D Camilo
e os afilhados de Peppone


1. No caso de por aí haver ainda leitores de Giovanni Guareschi, autor dos famosos “D. Camilo” onde se retratava uma Itália do Norte no imediato doppo guerra, convém esclarecer que o título é mesmo o que está aí em cima. D. Camilo o façanhudo mas bondoso arcipreste é que aqui se apresenta como pai relegando o ex-resistente comunista Peppone para o lugar de padrinho.
Isto vem a propósito do “Maio” italiano, dos seus intervenientes, do seu cenário (mais uma vez o Norte, boa parte do Centro e focos isolados no Sul) e, já agora, das classes sociais envolvidas.
Numa obra (“L’anno degli studenti”, De Donato ed., Bari, 1968) publicada a quente, em pleno processo, Rossana Rossanda (que nessa época ainda estava no C.C. do PCI embora em trânsito para o grupo Il Manifesto) disso dá conta quando, refere a brutal explosão demográfica na universidade: em 1968 há dez vezes mais estudantes do que em 1923. Em grosso, as universidades italianas (e a de Roma mais que todas) rebentam pelas costuras com o meio milhão de estudantes universitários que as frequentam. O mercado do trabalho começa a parecer reduzido perante a iminência de saída de cerca de oitenta mil novos diplomados por ano. Números não confirmados davam uma taxa de emprego na ordem dos 35% para os recém-licenciados.
O sistema político, por sua vez parece bloqueado. Uma sempiterna Democracia Cristã (a de Moro, exactamente) governa com eventuais apoios dos partidos de centro esquerda (sociais democratas de Saragat, sobretudo, mas também o velho PSI de Nenni). É o que fica conhecido por “compromisso histórico” O PCI, o mais poderoso e o mais original partido comunista da Europa Ocidental é claramente o segundo partido de Itália mas nem a sua ampla base social, a sua gigantesca máquina municipal e regional, a sua enorme influencia sindical, ou o prestigio dos seus intelectuais, o auxiliam na entrada no círculo do poder.
Contemporaneamente, ainda existem, e com singular influência, quer uma direita mais ou menos respeitosa, quer os neo-fascistas que por vários anos se distinguirão pela agressividade e pelos atentados que cometerão. Dir-se-á que são um grupo pequeno, ou uma constelação de pequeníssimos grupos. Pode ser, mas tentarão, e conseguirão por várias vezes, levar a cabo acções violentas e eficazes na medida em que alguma esquerda extra-parlamentar lhes responderá numa escalada que acabará nos longos “anos de chumbo”.
O bloqueio do sistema advém ainda da situação do Mezzogiorno e particularmente da Sicília. As máfias variadas que de Nápoles ao extremo sul pululam e a sua grande irmã siciliana controlam a base DC das regiões (e vão adquirindo crescente influência nas clientelas dos restantes partidos, PC excluído, honra lhe seja.
É neste cenário que numerosos grupos de estudantes, particularmente os de Trento, começam a manifestar-se. Ocupações, seat-in, cursos livres “universidade critica”, enfim mais ou menos as mesmas movimentações que se observam ou observarão nos restantes países europeus. Com uma diferença (e de peso), todavia: aqui a discussão política é mais nacional e recorre menos às lutas internacionais (Vietnam, anti-imperialismo, América Latina etc...).
Segunda diferença, e não menos importante: o Partido Comunista Italiano não vira costas ao movimento studentesco. Luigi Longo, o seu secretario geral recebe mesmo diversos elementos estudantis e reconhece ao movimento capacidade e razões para se incorporar numa frente ampla naturalmente dirigida pelos comunistas. É pouco? É de certeza muito mais do que em qualquer outro pais europeu. Mas dura pouco, obviamente. A ala mais ortodoxa do PCI (Giorgio Amendola, entre outros) critica o movimento estudantil, aponta-lhe as origens burguesas, o esquerdismo (a famosa doença infantil...) e a incapacidade política.
Convenhamos. Amendola não deixa de ter também razão. O movimento reúne tendências extremamente variadas, desde estalinistas empedernidos (mal vistos desde a época de Togliatti) até maoístas e trotskistas que também não cabem nos quadros “euro-comunistas” avant la lettre do PCI.
Em termos simples os estudantes apenas podem contar com o apoio de Rossanda e seus amigos. É pouco como depressa se verá.
Por outro lado, apesar do movimento não ter o beneplácito do único partido que poderia fornecer-lhe uma base operária real, não deixou de se projectar no mundo do trabalho. Não só porque havia jovens operários que se sentiam seduzidos pela militância dos jovens intelectuais mas também porque o mundo fabril acolhia muitos emigrantes do mezzogiorno menos politizados que os seus camaradas do Norte (e mais sensíveis à contestação da autoridade e dos poderes istalados) mas também porque as condições de trabalho eram extremamente duras.
Convém não esquecer que a Itália saíra de uma experiência muito dura. O regime mussoliniano, o fascismo puro e duro, quebrara o velho sindicalismo, perseguira as elites sindicais e reforçara o poder do patronato. A guerra com o seu cortejo de derrotas, sacrifícios e bombardeamentos, a guerra civil (e no norte foi exactamente isso o que ocorreu), travada entre resistentes, republicanos de Saló e ocupantes alemães, deixaram uma Itália devastada que nos anos sessenta ainda se estava a recompor.
E se é verdade que os ajustes de contas foram violentos não é menos verdade é que o golpe palaciano contra o Duce (que é deposto pelo Grande Conselho do Fascio) salvou muito colaborador da ditadura e forneceu um atestado de bom comportamento democrático a inumeráveis e respeitosos seguidores do regime deposto. A guerra fria e o governo da Democracia Cristã resolveram boa parte das questões políticas com a proclamação da República e o exílio do Rei. Também parece pouco. E é.
Não admira que num quadro destes onde se mistura uma DC desvirtuada, que aposta na “estratégia da tensão”, um centro esquerda que a ampara, um Estado dentro do Estado (a Máfia) um Sul reduzido à função de fornecedor de mão de obra barata, uma Administração corrupta e pesada e um PC impotente, a solução comece a ser procurada fora do sistema.
E é isso que um grupo de teóricos brilhantes se vai dedicar. A partir da experiência do “movimento” o passo seguinte traduz-se na criação de grupos políticos que se dedicarão à luta no meio fabril. Não pela via sindical mas recorrendo primeiro ás “acções exemplares”, ao combate contra os neo-fascistas particularmente activos e implicados em vários atentados bombistas (que obviamente começaram por ser assacados a anarquistas) e a acções de doutrinação. A Itália jovem e de esquerda é um labirinto de publicações teóricas, de jornais militantes, de revistas onde se encontra de tudo. Neste ponto estão a milhas dos franceses que os italianos devem achar bastante primitivos.
E até 1969 é este em linhas gerais o quadro em ue se insere a movimentação estudantil. A universidade é esporadicamente ocupada, as lutas com a polícia são frequentes, a discussão com os partidos políticos permanece aberta mas vai perdendo força e o Governo e as forças policiais continuam a apostar no esvaziamento do movimento, a tolerar a escalada dos grupos neo-fascistas e a sua cultura de violência ao mesmo tempo que se desenham cada vez mais nítidas as opções pela “strategia della tensione” (dentro da DC elabora-se a teoria de que é preciso incentivar os conflitos exteriores para depois se chamar a DC como bombeiro) apoiada na denúncia dos extremismos opostos (gli opposti estremisti): o perigo vermelho e o perigo negro que hão-de servir à polícia como indicadores de investigação (pista rossa e pista nera).
Numa segunda e última parte veremos (assim o espero) como é que um movimento tão espontâneo e interessante desagua nos anni di piombo com a sua caravana de atentados, cisões, assassínios e outras infâmias.

Na elaboração deste texto servi-me sobretudo de algo muito falaz: a memória de longas conversas, em Lisboa (1969), com Enrico de Angelis que me forneceu os primeiros documentos sobre o movimento; com Maria Baptisti, militante do Potere Operaio em Berlin, Novembro-Dezembro de 1970 e com Giancarlo (licenciado em Química mas porteiro de um hotel em Pescara. A sua militância num grupo insignificante – Stella Rossa – fora suficiente para entrar numa lista negra do patronato da indústria química.).
Obviamente repassei brevemente a obra de R Rossanda, já citada e o nº 44 de “Partisans” (Oct-Nov 1968:"le complot international", nomeadamente o texto “Théorie et Praxis du mouvement etudiant italian” de Carlo Donolo). Há um par de meses encontrei e voltei a perder alguns textos da época emanados das universidades de Turim, Trento, Roma e Milão. Se voltarem a reaparecer no labirinto desta biblioteca, pô-los-ei digitalizados para apreciação dos curiosos, mormente o leitor José.

* gravura: manifestação estudantil nas Galeria V. Emannuelle em Milão

13 maio 2008

Farmácia de Serviço 43

Robert Rauschenberg (1925-2008)

82 anos era já uma bonita idade mas custa sempre perder um amigo, um mestre, um artista, alguém que admiramos. O jovem Dada, o idoso pop despediu-se hoje. Fica uma obra empolgante,
rica (as mais das vezes feita com recurso a materiais recuperados) e fica sobretudo uma lição de rigor.
Era o último de uma geração de grandes nomes da arte americana na segunda metade do século XX: Willem de Kooning, Jasper Johns ou Roy Lichtenstein.
Juntos revolucionaram profundamente a percepção que tínhamos dos Estados Unidos e dos seus artistas. Mais: influenciaram também muitos artistas europeus e asiáticos contribuindo para uma ideia menos eurocêntrica dos caminhos da criação artística.

Concerto

SONS E TIMBRES DO ÓRGÃO IBÉRICO
TERCEIRO CONCERTO "MÚSICAS EM DIALOGO"

Sábado, 17 de Maio de 2008 pelas 17 horas
Igreja de S. Lourenço (Grilos)
Largo do Colégio
Entrada gratuita

IL CONCERTO ARIOSO
CAROLINE DI ROSA , FLAUTA DE BISEL
GIAMPAOLO DI ROSA, ORGÃO

Programa

J. VAN EYCK (1590-1657)
Fantasia e Echo
Engels Nachtegaeltje (flauta)

lmprovisaçào (órgão)

H. U. STAEPS (1909-1988)
Virtuose Suite
AIlegro deciso
Allegretto
Andante moderato con grantd’espressione
Presto possibile (flauta)

P. DE ARAUJO (1610-1684)
Obra do II tom (órgão)

J. S. BACH (1685-1750)
Allemanda (da Partita BWV 1013) (flauta)

Prelúdio e fuga em Do maior BWV 846
Prelúdio e fuga em Do menor BWV 847 (órgão)

L. ANDRlESSEN (1939)
"ENDE" (duas flautas)

12 maio 2008

A estratégia do Porto

O FCPorto não vai recorrer da decisão da Comissão Disciplinar.
Já, por sua vez, o Presidente Pinto da Costa vai levar o caso até às últimas consequências.

Se obtiver ganho de causa (o que julgo irá acontecer), só há que pedir a revisão da decisão em relação ao clube e fica o assunto resolvido sem que se perca tempo e dinheiro.

Contagem de prazos

No Código de Processo Civil, considera-se que uma notificação, por carta registada, é recebida no terceiro dia posterior ou no dia útil imediatamente a seguir se aquele não for útil.

Assim, uma notificação remetida numa sexta-feira considera-se recebida na segunda-feira seguinte.

No Código de Processo Penal, prevê-se para o mesmo caso que a notificação se considera recebida no terceiro dia útil posterior.

Deste modo, a carta remetida numa sexta-feira, considera-se recebida na quarta-feira seguinte.

Pensava eu que era assim, até porque a formulação legal em ambos os Códigos é diversa.

Pois bem, hoje tive de pagar uma multa, porque a Senhora Juíza dum certo Tribunal entende que a contagem se faz sempre do mesmo modo (o previsto em processo civil).

Fui logo advertido de que não vale a pena reclamar, porque, sendo aquele o entendimento da Senhora Juíza, não há recurso!...

E andamos a perder tempo com estas questões. O legislador devia ser claro e não permitir dúvidas tão comezinhas ...

11 maio 2008

Missanga a pataco 52


Perplexidades de um da Naval (Associação Naval 1º de Maio, se faz favor)

Não percebo nada de futebol. Ou, pelo menos, deste futebol. Sou do tempo em que se dizia off side, back e outras inglesices do mesmo teor. Sou do tempo em que raramente um jogador mudava de clube, ou porque o dinheiro não era o mais importante, ou porque mesmo sendo havia o brio de defender o clube do coração.
E sou da Naval. E de Buarcos. E do futebol na praia, com banho de mar no fim. Enfim, sou um inocente.
Dizem-me que nas decisões agora anunciadas (Porto, Boavista e Leiria, mais um par de árbitros) a prova produzida decorre da intercepção de telefonemas que no processo principal (o famoso Apito Dourado) não terão cabimento por não terem sido obtidas segundo as regras da arte. É assim? Assim mesmo? Ou seja, por não se respeitarem determinados formalismos, a prova cai inexoravelmente até ao ventre da mãe terra ajudada pelo autoclismo legislativo. É assim?
Concorde-se ou não com este excesso formal, ele existe e faz lei. Essa lei, e só essa é a que deve ser aplicada pelos Tribunais. Dura lex sed lex, ou branda lei mas lei e basta!
Não acredito em tribunais de outro tipo, mormente os desportivos. Não acredito em tribunais ou em juízes eleitos, provavelmente porque não sou americano. Aceito mal esses tribunais especiais (a simples palavra arrepia-me, mesmo se não forem “plenários”...Explico-me?) e no caso em apreço só os tolero se a sua disciplina for idêntica aos Tribunais comuns, se a prova produzida correr pelo mesmo caudal que a que se produz nos Tribunais.
Em segundo lugar, repetindo que sou da Naval e de mais nenhum clube, muito menos de qualquer “grande” e jamais do Boavista, meu desagradabilíssimo vizinho, desagradou-me saber pelo noticiário das sete da manhã o que só foi oficial às cinco da tarde. Acho o processo deselegante para não dizer infame. Venha ele de um juiz togado ou dum assistente da faculdade de Direito de Coimbra (a minha faculdade e a minha universidade).
Mais me perturba verificar que afinal o “apito final” se resume a três clubes e não à boa vintena de que toda a gente fala. Então a corrupção é assim tão pouca?
Não vou cair na inocência de pensar que um clube que ganha (no mesmo ano da tentativa de corromper árbitros) o campeonato português, o da Europa e o do Mundo andasse a tentar ganhar a dois clubes pequenotes, frangões, mesmo, passe o termo que não pretende ser insultuoso.
Eu, navalista, sei bem que o meu clube é o melhor do mundo. Todavia rir-me-ia a bandeiras despregadas se o senhor Pinto da Costa achasse necessário comprar um árbitro para garantir uma vitória do FCP sobre a gloriosa (e mais antiga, como se sabe) Associação Naval 1º de Maio. Eu sei que somos temidos mas tanto também não, que diabo!
Outra coisa que me suscita alguma perplexidade, pese embora estar do outro lado um jovem assistente que até tem um diploma seguramente maravilhoso em Direito do Desporto (boa piada, em Portugal, esta do direito do desporto numa terra em que o desporto é de bancada e se chama futebol...) é a tal alegação de “coacção”. Eu já disse que não gosto do Boavista, muito menos dos seus dirigentes mas coacção? Coacção é uma palavra grave, carregada de significado que não se pode perder por veredas subtis e imaginativas. Eu ainda me recordo do dr. Santana Lopes (outro que tal) a sportingamente avisar de conspirações em Canal Caveira, ameaçando varrer tudo como numa feira em Fafe (com que ninguém fanfa) ou os eternos dirigentes de outros clubes mal habituados a perder que avisam que vão estar atentos, atentíssimos, que não se responsabilizam pelo que as massas associativas possam fazer quando justamente indignadas pelas barbaridades arbitrais se virem forçada a fazer justiça pelas próprias e inocentes mãozinhas. Nem assim se falou de coacção, pelo que presumo que desta vez a coisa foi mesmo à moda de Chicago dos velhos tempos: “ou marcas uns pennaltys para a malta ou comes...” Uma espécie de Jorge Coelho mais encorpado e menos parlapatão, estão a ver o estilo?
Fico-me por aqui porque não compete a um paisano de Buarcos, navalista, meter-se no curral dos grandes. Todavia mantenho: sinto-me perplexo. Provavelmente é porque não sei o suficiente de futebol e muito menos de Direito. Se for esse o caso, não leiam o que está escrito aí em cima. Se o leram já, esqueçam-no. Se não o esquecerem rezem por mim um Pater e cinco Ave Marias. Se não me servir por demasiado pecador talvez sirva aos da Liga no caso de se verificar que eles meteram o pézinho delicado na argola. Vale?

10 maio 2008

Portugal...



«... não tem meios para ser ...
Portugal»

Apito Final

Fico perplexo. e não quero acreditar!

Ontem fomos bombardeados com a decisão do "Apito Final". Ouvi discutir questões jurídicas, categorias, interpretações, argumentos, ... e a habitual festa do argumentário jurídico.

Não ouvi foi descrever os factos. Nem percebi como foram provados. E tenho dificuldade em perceber a gravidade do que se passou.

A avaliar pelos relatos do outro Apito ("dourado"), a ser verdade o que vem publicado na imprensa, só me posso rir. A menos que as relações sociais e os contactos entre as pessoas passem a ser proibidas e diabolizadas.

Aliás, todos os jogos são nulos, porque o público coage os arbitros. Basta assistir a um jogo de futebol.

Se calhar havia uma solução. O Benfica era legalmente declarado campeão nacional permanente e dispensado de competir (isso deixava-se para os outros clubezecos)!

BOM FIM DE SEMANA

Hoje (Sexta-Feira) é um dia sim. O Governo aprovou um novo plano estratégico para a habitação social, o que é notável e vai trazer benefícios a muitos e muitos portugueses; A Segurança Social penhorou mais de cem mil faltosos, arrecadando muitas dezenas de milhões de euros, o que é muito importante para o cumprimento da lei e para as finanças públicas; O Primeiro Ministro reconheceu que o Governo até merece ser censurado, atitude que revela grande sabedoria e maior sentido de humildade, desacreditando aqueles que não lhe reconhecem essas qualidades (até agora); Por sua vez, o Ministro das Finanças admitiu que o euro forte pode estar a atingir o ponto em que pode trazer problemas para Portugal, tal constatação apenas pode prenunciar a inversão na valorização do euro e a correspondente baixa dos produtos petrolíferos, como se sabe, a subida do euro tem sido acompanhada pela forte subida dos preços destes produtos; A Associação os Revendedores de combustíveis apresentou (hoje) um plano ao Governo para baixar em 22 cêntimos o preço dos combustíveis, o que significa que o Governo vai poder mostrar que ainda detém o poder de definir o preço do gasóleo; A GALP aprovou a distribuição de 265 milhões de euros pelos accionistas, o que está em consonância com a crise provocada pelo forte crescimento do preço dos combustíveis e mostra que apesar da crise algumas empresas obtiveram excelentes lucros, o que é muito bom para a economia e para o equilíbrio do país.

Para os que me acusam de apenas ver e transmitir o lado negativo das coisas, ficam aqui registadas algumas boas notícias, com impacto na vida de muitos.

CONVITE

Memórias do cidadão José Dias

O blog Margem Esquerda, anuncia (e convida) que José Dias vai estar no Porto, no próximo dia 13, pelas 18 horas, na FNAC, para apresentar o seu mais recente livro, Memórias do cidadão José Dias.

No dia 13, pelas 18 horas, se puder esteja na FNAC, em Santa Catarina e traga um amigo

09 maio 2008

Estes dias que passam, 108


Ora, ora...

Bob Geldof
chamou criminosos aos dirigentes de Luanda. E daí? Foi surpresa para alguém? Haverá por estas bandas uma pessoa que desconheça esta evidência triste e brutal?
Eu sei, com pesar o reconheço, que a verificação do que se passa em Angola é, para muitos (quase todos) dos que se solidarizaram com a luta anti-colonial, um terrível exercício.
Poderia pensar-se – e muitos porventura pensarão – que foram inúteis os sacrifícios, os medos, as angústias - a prisão por vezes – que a solidariedade com os povos coloniais acarretou.
Como de costume, o problema está mal equacionado. Ser contra o estado de coisas reinante nas colónias não implicava, nem implica, solidariedade com os governantes que depois da independência foram surgindo.
E no caso de Angola isso é patente. Muitos dos primeiros lutadores anti-coloniais já morreram, muitos outros, mais, mesmo, foram perseguidos, há um largo grupo deles espalhado por esse mundo, exilados, fugitivos dos cleptocratas de Luanda. Do primeiro núcleo de dirigentes angolanos poderiam referir-se logo à a cabeça os Pinto de Andrade (Mário e Joaquim) ou o Viriato da Cruz. Esmagados pela história e pelos zelosos burocratas do MPLA e pelas sucessivas e infamantes polícias políticas que eles criaram.
A história dos últimos trinta anos de Angola é sinistra: a lista dos mortos, dos presos e dos desaparecidos faria empalidecer de inveja o senhor general Pinochet ou os seus colegas argentinos. A guerra civil aberta ou larvar deu azo a tudo, a começar pelo roubo sem peias das riquezas nacionais, pelo escândalo das ligações às quadrilhas internacionais e pela violência cada vez mais insuportável das declarações dos dirigentes angolanos e pela miséria agressiva da sua imprensa.
Angola é uma pústula no coração de África e isso sabemo-lo todos desde há muito.
O que, eventualmente se desconhecia (???!!!) era a cumplicidade objectiva de grandes grupos financeiros nacionais e internacionais com a ditadura angolana. Ficou agora à vista com as reacções às declarações de Geldof. Ou melhor: reforçou-se.
De facto, esta nova ida em força para Angola tem, para as empresas portuguesas e estrangeiras um ónus fatal. Elas sabem com quem vão contratar. Elas sabem a quem vão untar a pata. Elas sabem que a arraia miúda de Luanda ou do interior não verá senão uns trocos das imensas somas que os negócios gerarem. O resto vai direito para os bolsos da ladroagem, para os bancos de certos paraísos fiscais, se é que não se acoitam escondidos por aí.


08 maio 2008

Trinta anos depois

Esta notícia do JN faz-me lembrar o drama que se abateu sobre a minha família faz hoje precisamente trinta anos. Nesse dia 8 de Maio de 1978 perdi duas tias que caminhavam em peregrinação a Fátima. Integravam um grupo de Soalhães, Marco de Canaveses, onde se incluía mais um tio e um primo meus, e foram colhidas mortalmente por um automóvel desgovernado na zona de Águeda. Ainda hoje as lembranças das horas passadas no hospital de Águeda nessa manhã estão bem presentes em mim. Actualmente, os cuidados são maiores e há mais divulgação, mas os resultados dos últimos anos continuam a ser desastrosos.
Com o tempo, tenho constatado também que muitas destas peregrinações se institucionalizaram. As manifestações primárias (e, por isso, autênticas) de fé coabitam com grupos de peregrinos que caminham como se fossem na direcção da romaria, ano após ano. Para não falar das peregrinações de “cinco estrelas”, organizadas para as elites católicas lisboetas.
Confesso a minha incompreensão com o silêncio da nomenclatura católica face a esta realidade e com o seu alheamento relativamente às condições em que ocorrem estas peregrinações. É pena que as suas atenções tenham estado sempre mais direccionadas para os resultados apurados no Santuário de Fátima.

07 maio 2008

06 maio 2008

Crise de Abastecimento de Produtos Alimentares?

Segundo a comissão europeia os produtos alimentares, na Europa, irão sofrer um aumento, este ano, de cerca de 40%. A especulação, afirmam os especialistas comunitários, será responsável em mais de 30% por este aumento.

A repentina crise no mercado dos produtos alimentares só poderia estar associada à crise financeira provocada pelo “subprime” americano e que se repercutiu globalmente. Ou seja, a crise é provocada pelos grandes especuladores que procuram compensar as perdas no mercado das acções e na queda do dólar, deslocando os seus negócios para a bolsa das matérias-primas, onde se transaccionam os produtos alimentares.

A questão que se pode colocar é a da saber qual o papel dos Governos nesta história toda. Até pode parecer que se revelam incapazes de actuar perante a força do mercado. Contudo, o que se passa é que estão a criar as condições para que se obtenha m novo equilíbrio, que o sistema se auto-regule. Os governos procurarão minimizar os estragos, conter os famintos (distribuindo pratos de arroz, alguns subsídios e porrada se for preciso) de modo a que a espiral civilizacional se eleve e passe a um novo estádio, mantendo os genes vitais.

Anote-se que nestas coisas da especulação Portugal revela grande competência. Só dois exemplos:

Primeiro, o preço do pão. Segundo os jornais o preço do trigo subiu 10% nos últimos três meses. Contudo, em Portugal o preço do pão terá subido 50% no mesmo período, pelo efeito conjugado do aumento de preço/unidade e da diminuição do peso/unidade.

Segundo exemplo, o preço dos combustíveis. Ainda segundo a comunicação social, apesar do aumento do preço do petróleo no mercado internacional, o aumento de peço praticado pelas empresas petrolíferas que actuam em Portugal é bem superior ao aumento registado pelas empresas congéneres que abastecem outros países europeus.

E o Governo que faz perante estes aumentos especulativos? Pelo menos uma coisa sei que faz, arrecada os impostos, cujo montante cresce proporcionalmente ao aumento dos preços, mesmo que provocados por agentes especuladores.

Conclusão (um tanto ou quanto enviesada): Do ponto de vista fiscal, os Governos são os segundos grandes ganhadores com os movimentos especulativos. Portanto, como é aos Governos que compete cuidar do interesse colectivo, até se poderá concluir pela bondade da especulação…

05 maio 2008

Missanga a pataco 51


O Alentejo, os pobres, Cuba e as cataratas

Está a causar grande escândalo o envio de doentes para Cuba. Vão fazer operação às cataratas. Vão quase cegos, fartos de anos de espera. Chegam lá e, além da operação, são submetidos a check-ups gerais e, como foi possível, hoje, ouvir na televisão, regressam melhor, a ver e tratados de outras maleitas de que padeciam.
Quem me costuma ler sabe bem que não nutro pelo regime cubano qualquer carinho. Acho aquela gente tão detestável quanto qualquer outra tirania, actual ou passada.
Todavia, tenho de me render a uma evidência: as pessoas regressam a ver, satisfeitas, por preços que são acessíveis tanto mais que fazem lá todo o post-operatório.
Parece, contudo, que à Ordem dos Médicos, ao Ministério da Saúde e a mais algumas criaturas cujos interesses me parecem pouco claros, causa espécie esta transumância sanitária .
Comecemos pelo excelso Ministério: de repente entende que é possível fazer o dobro das operações que se faziam até agora. E vai entrar em acordos com hospitais privados para o efeito.
A pergunta inocente é esta: por que é que os não fez antes, tanto mais que, mesmo com as centenas ou milhares de operações em Cuba, havia uma enorme lista de espera? Uma lista que, a avaliar pelas prometidas e actuais metas, dá para cinco anos, sem contabilizar as urgências que irão aparecer inevitavelmente. Porque, ao que me informam, crescerá a procura destes serviços de saúde.
Continuemos pela Ordem: alguma vez questionou o problema? Alguma vez se lembrou de recomendar um sistema análogo ao cubano, rápido e expedito, um sistema que em quinze, vinte dias receba um camião de alentejanos idosos e os devolva sãos e a ver às localidades de origem?
Eu não vou cair na facilidade, maliciosa, ainda por cima, de pensar que à Ordem o que dói é o “cacauzinho” que os seus representados deixam de receber. A Ordem crê firmemente no juramento de Hipócrates e decerto estará disposta a recomendar aos médicos e às clínicas privadas um forte desconto para restituir a saúde ocular aos portugueses pobres.
Deixo para terceiro lugar essas criaturinhas que provavelmente pensam que nisto há uma conspiração bolchevista internacional que transforma cataratas capitalistas em perigosos agentes do Komintern. É a revolução que vencida nas urnas, regressa nas córneas dos operados. Convém prevenir o SEF, a Guarda Fiscal, o SIS, os senhores Ministros da Saúde e da Administração Interna, sem esquecer o da Justiça.
Olho nesta alentejanada vermelhuça e de mau agouro.

A Coruña


A bonita cidade de A Coruña, assim mesmo, com a grafia galega, foi o destino que escolhi no fim-de-semana anterior, aproveitando a boleia do Dia da Liberdade, em Portugal.
Uma cidade cheia de vida, plena de actividade e que se estende entre as praias e o seu importante porto de mar, bem perto do Norte de Portugal. Almoçar na imponente Praza Maria Pita, a mulher que, segundo a lenda, se notabilizou na defesa da cidade na guerra contra os franceses, passear no seu casco histórico, deliciar-se com as fachadas das varandas envidraçadas que são um dos ex-libris da cidade, deleitar-se com o passeio marítimo, do Riazor até à Torre de Hércules, são algumas das muitas formas de deixar o tempo correr naquela cidade da Galiza, para além das tapas, do pescado e das cañas. Os apreciadores dos divertimentos nocturnos também têm muito por onde se entreter (e aqui não posso deixar de me lembrar de um fim de ano aí passado, não é caríssimo carteiro?).
Entre outros pontos de interesse, recomendo uma visita ao Domus, a Casa do Homem, um equipamento localizado junto ao mar e que inicia os mais novos, de forma muito interessante, no mundo do ADN, das células e da natureza humana.
A minha viagem coincidiu com um jogo Deportivo-Barcelona e lá tive de levar o meu ZP a viver a experiência de assistir ao vivo a um jogo da liga espanhola, uma das melhores do mundo. Estádio cheio, vibração total, novos e velhos, homens e senhoras, todos ao rubro. No fim, restaurantes e mesons cheios, tudo a “tapear” e a confraternizar. Um espírito de festa totalmente diferente do que se vive entre nós. Tão perto na distância, mas tão longe no espírito (e nos euros, já agora...).

Na foto, vê-se um monumento de homenagem aos fuzilados na guerra civil, debruçado sobre o mar, na zona das Adormideras. Aí perto está também a Casa das Palavras, um espaço que acolheu os restos mortais dos muçulmanos que morreram na guerra e que lhes presta homenagem.

04 maio 2008

Maio, maduro Maio 3


Ao longo destes textos tentarei dar um testemunho. Porque de certo modo vivi Maio. Intensamente. Cá e nos locais onde ele foi mais visível. Boa parte do que hoje sou, devo-o a esses últimos anos da minha vida universitária. Boa parte do meu empenhamento político posterior esteve marcada por Maio. Pouco importa o que isso queira exactamente dizer. Basta ler as revistas, os jornais, os livros que de repente voltam a inundar as bancas para perceber que o fenómeno não é unívoco e que, como num outro antigo texto disse (e tê-lo-ei aqui já citado) Maio pode ser (deve ser) encarado como o fim de uma época mas também como o início de outra. Em segundo lugar, o que se convencionou chamar Maio não se reconduz a Paris (de resto era exactamente isso o que se dizia lá, o que se sentia lá. Aquilo não era uma questão franco-francesa e o General de Gaule bem o compreendeu). É duvidoso que sem outros exemplos (os seat-in e os teach-in dos campus americanos, por exemplo) os acontecimentos se tivessem desenrolado como se desenrolaram. Parte dos militantes mais politizados estava ao corrente do que se passava na Alemanha, na Itália ou na Espanha (Portugal era mais ignorado, pesem embora os esforços dos emigrados portugueses que já não eram assim tão poucos).
E cá, apesar da censura, dos bloqueios ideológicos (que os havia...) também não eram desconhecidos muitos dos temas que afloraram na discussão em França. O movimento estudantil português estava umbilicalmente ligado ao francês. As famosas teses de Grenoble (..o estudante é um jovem trabalhador intelectual...) eram conhecidas, por vezes glosadas. A França era a principal fornecedora de literatura política, o francês ainda era a língua estrangeira mais falada por cá. E havia os laços criados pela crescente emigração económica e política para lá.
Dito isto, que é mais importante do que se julga (ou do que transparece em certas opiniões de que tenho tido conhecimento), pareceu-me interessante intercalar nestes textos algumas notas de carácter pessoal. Aliás, nos dois posts anteriores apenas citei livros que na altura li (exactamente no ano de 68, para ser mais exacto) e boa parte do que deixei como conclusão já fazia parte duma apreciação que, não sendo generalizada, se ia fazendo em Coimbra e, provavelmente nas outras duas cidades universitárias.
Resolvi, pois, recorrer ao meu catálogo de livros comprados (que mantenho desde 1959!!!) e, vendo que livros comprei em 68, tentar traçar um retrato, não de uma geração (não pretendo tanto) mas pelo menos de um militante estudantil que eventualmente se assemelha a mais alguns.
Em 68, andava muito interessado em estudar o colonialismo (razões não me faltavam...) e com um pouco de sorte perceber melhor a história e as culturas africanas bem como a questão negra americana. Hamidou Kane,l’aventure ambigue”; Ruytinx, “la morale bantoue”; J Jahn, Muntu, las culturas neo-africanas”, Césaire, “Une saison au Congo, R. Wright, “Écoute, homme blanc"; Malcolm X. "le pouvoir noir"; e um controverso Sartre, “Colonialismo y neo-colonialismo", uma edição argentina das “Situations V” milagrosamente encontrada numa livraria de Coimbra. Anos antes tinha lido “Reflexões sobre o racismo” que agrupavam o belíssimo “Orfeu Negro” e “A Questão Judaica” e devo confessar que, neste campo, ainda hoje me sinto tributário do pensamento de Sartre.
Também estava a começar a ler muitos autores ditos clássicos que chegavam através das colecções de bolso francesas (Garnier-Flamarion e 10-18, fundamentalmente): Rabelais, Voltaire, Toepffer, Tillier, Casanova; teatro (Beckett, Hochutt, - “Soldats” – Arthaud, O’Casey, Stanislavsky), história, além de, obviamente, política: algum Marx mais duro, Sombart, demasiado Mao, Bukarine, Friedman, Rosa Luxemburgo – “Marxisme contre dictature” -, Henry Lefebvre, K. Korsch e, muito na hora, Marcuse. De facto aparecera uma edição brasileira do “Homem Unidemensional” sob o título pavoroso de “Ideologia da sociedade Industrial” que aliás li depois do “La fin de l’utopie”, Dutschke, já citado em anterior texto, Cohn Bendit, “le gauchisme”; o “Discours de la guerre” de Glucksman e algo que na altura me impressionou bastante: “Traité de savoir vivre a l’usage des jeunes generations” de Vaneighen.
Deixei para um apartado especial desta lista o inevitável Althusser e os “cahiers marxistes-leninistes” comprados quase sempre numa livraria da rua Git-le-Coeur, hoje dedicada à BD para adultos! Era a China, claro, o farol iluminado pelos livros de Edgar Snow e de L. Bianco, lidos também neste ano. A ironia da história, se de ironia se trata, é que estas últimas leituras foram já defensivas: o milagre chinês começava a parecer-me suspeito e o “petit livre rouge” pareceu-me intragável. Pior só uma senhora que anos mais tarde foi muito popular entre os aprendizes de revolucionário: Marta Harneker! Dela li, na melhor das hipóteses um cento de páginas, e ainda hoje, tantos anos depois, me arrependo. Fica para desconto dos meus muitos pecados!
Hoje em dia, parece fácil (e soa a desculpa...) dizer isto. Todavia, em minha defesa, sempre acrescentarei que na mesma altura li Caillois, Bataille, um largo grupo de surrealistas, Queneau (a Sally Mara), Jarry (Tout Ubu), Lautréamont, Borges, Herberto Hélder (de que fui e sou fanático), Stendahl, Appolinaire (“Alcools”) Guillevic, Char (“Fureur et mystére), Pound (uma “Antologia poética”, traduzida para português) Saint John Perse, Ritsos e Enzensberger. E Baudelaire, todo! A poesia, sobretudo, mas também algum romance iam-me vacinando contra as derivas ideológicas mais dogmáticas. A explosão de Maio e o Agosto em Praga confirmaram ou fortaleceram as minhas ulteriores escolhas. E mostraram-me que era possível fazer política, ser contra, sem estar devedor de parelhos políticos que se iam revelando “cadaverosos”.
Não vou prosseguir esta lista que agora me parece enorme. Recordo-me, sem vergonha nem remorso que, academicamente, 68 foi um ano, digamos, “improdutivo”. Agora, à distância percebo porque preteri as sebentas e as deixei estar quietinhas numa estante donde só terão saído tarde e a más horas.
E convenhamos: quando tudo parecia estar a ser posto em causa (até os EUA tinham apanhado em cima com a ofensiva do Tet no Vietnam!) que valia um curso? E a "revolução" parecia tão sedutora...

*A fotografia pertence à série "Biblioteca a rebentar pelas costuras procura casa onde caiba" e seriam reconhecíveis os meus amados surrealistas, os dadaístas, os situacionistas, Vaneighem e Debord ao canto) bem como uma série de livros sobre África entre uma estatueta africana verdadeira!- e a fotografia de um trisavô (José Costa Alemão, capitão de 2ª linha, explorador no sul de Angola, que viveu rico e morreu pobre). Uma das fotografias em cima dos livros retrata o Maio possível português: Coimbra, Abril de 69. Lá chegaremos...



02 maio 2008

Estes dias que passam 107



A derrota de Napoleão começou aqui.
As imagens retratam o levantamento de 2 de Maio e as subsequentes execução dos populares revoltosos.
Porque foram populares os que se levantaram contra os "franchutes" nesse 2 de Maio de Madrid e de Móstoles. Gente simples e chã que atacou o mais poderoso exército do mundo, com navalhas, facas de cozinha, paus e pouco mais. Em nome de um rei que o não merecia e que, mais tarde, seria considerado um dos piores reis de Espanha. De todo o modo, mesmo que agora se adorne demasiadamente a história, a verdade é que a guerra de independência foi um dos momentos altos da longa história de Espanha.

Quo vadis, Kami?

Carta aberta aos meus amigos

Não dou notícias há muito tempo, não escrevo nem comento nos blogs, nem umas graçolas reenvio por e-mail.
E no entanto nunca passei tanto tempo ao computador (nem sequer quando, entre Janeiro e Março, "de perna ao peito", andei a "arrumar" o Inc...).
Et pour cause! O objecto está de tal forma associado ao meu dia a dia de trabalho (o mundo dos candidatos a emprego e do import-export ao alcande de um rato...) que, quando chega a hora do lazer (se é que chega…), só me apetece fechá-lo.

Mas ter o tempo hiper-ocupado com a concretização, para breve, de um projecto que há muito acalentava (quando comecei a perceber que, por razões familiares/pessoais, teria de deixar o Ministério Público, era um projecto/sonho difuso, muito difuso mesmo, a que me agarrava) é, para além de um grande desafio, um enorme prazer e fonte de genica e boa-disposição. Para mais, esta entrada no mundo do empreendedorismo está a ser/vai ser uma interessante fonte de melhor conhecimento das realidades culturais e socio-económicas deste cantinho ao sul, pedaço ainda assim privilegiado do dito “país real”… (*)

Alguns de vós sabem do que se trata – a abertura de uma livraria/espaço de exposições em Faro, integrados num Espaço de Memória, projecto de O Mundo em Gavetas, que surgiu do encontro com a inesgotável criatividade e vontade de fazer do José António Barreiros.






Mas, para saberem mais, o melhor é abrirem este link:
www.omundoemgavetas.com/novidades.html

O objectivo é abrir a 14 de Junho (assim a Câmara de Faro não boicote com a sua proverbial inércia no despacho dos processos). Teremos a apresentação de um novo livro do José António Barreiros editado por O Mundo em Gavetas e uma exposição alusiva – o pretexto é o centenário do nascimento do escritor Ian Fleming. O tema genérico dá pelo título de 00Fleming.
O livro será lançado no Espaço dos Exílios, no Estoril, no dia 28 de Maio, data do centenário propriamente dito.

Claro que, quando tiver a certeza absoluta da data da abertura em Faro, informarei. Como é um sábado (para os lisboetas antecedido de feriado) e o tempo estará certamente óptimo, é mais um bom pretexto para virem gozar as delícias do Sul :)

(*) Por via das dezenas de CVs que consultei e das várias entrevistas que já fiz a candidatos a emprego pude contactar com a realidade do que lia acerca da quantidade de jovens licenciados desempregados ou à procura do 1º emprego – não que o não tivesse sentido já na vivência dos meus próprios filhos (e filhos de amigos) , ele lançado às feras no mundo do recibo verde, com um curso técnico de 1 ano que lhe deu logo trabalho, tirado depois de obter a licenciatura num curso superior em universidade pública e “de bom tom”, a Nova; ela – por opção, é certo - sozinha no mundo das profissões liberais, na perspectiva de nem a um mês de ausência pós maternidade se poder dar ao luxo … (é para rir ouvir o Marinho e Pinto, Il. Bastonário da OA, reivindicar licença de maternidade para as advogadas! E eu a pensar que se tratava de uma profissão em que a relação profissional/cliente é tendencialmente insubstituível, como acontece com os psicólogos clínicos, profissão exercida pela minha filha!)

Mas constatei também realidades positivas: depois de terem acabado com as escolas comerciais e técnicas, os responsáveis pelo ensino lá perceberam que havia muitos jovens que, para singrarem na vida, precisavam de competências técnicas de nível médio e, na verdade, as vias técnicas de ensino pós escolaridade obrigatória, que dão equivalência ao 12º ano, têm bons currículos disciplinares; idem quanto a certos cursos de formação proporcionados via Centros de Emprego!
Claro que nem sempre isto basta se não se teve uma boa formação de base e, por exemplo, apesar de se cursar o 2º ano de gestão, se escreve com manifestos erros ortográficos e não se é capaz de compor meia dúzia de linhas num e-mail de candidatura/apresentação…

Enfim, o "noticiário" vai longo, não escrevo há tanto tempo que as ideias por partilhar se atropelam e sai tudo em turbilhão ficando, ainda assim, quase tudo por dizer…
bem ao contrário do JAB que escreveu hoje (mais) dois lindíssimos posts, cuja leitura não resisto a recomendar:

http://joseantoniobarreiros.blogspot.com/2008/05/regressado-aos-sonhos.html


Com este post envio abraços e beijinhos aos amigos e cordias cumprimentos aos leitores

Da vossa Kami, que também responde por Little Palha


01 maio 2008

adenda a Maio, maduro Maio, 2


1. assassínio de Benno Ohnesorg
2. rudi dutschke em 1967



(fotografias pilhadas na internet, obviamente)

Maio, maduro Maio 2


Pálida Mãe

Deutschland, bleiches Mutter”: nunca o verso de Brecht foi tão verdadeiro como neste caso. Porque agora estamos diante dos filhos da guerra e do nazismo. Os filhos que, como Rudi Dutschke, não se sentiam bem na chamada “Republica Democrática” e achavam que a República Federal estava vendida aos “Konzern”, à América e à burguesia.
São estes órfãos que se engajam em todos os combates. Assumiram ingenuamente as culpas de pais e avós e sentem ser seu dever remir em pouco tempo os longos anos do terceiro Reich e da guerra. E causas não lhes faltam: desde o apoio aos refugiados iranianos e contra o Xá, às campanhas de solidariedade com o Vietnam. Curiosamente o principal bastião da juventude combatente é Berlim.
Berlim nos late sixties e depois é um pequeno oásis. Temendo a fuga de habitantes, dado a cidade ser uma ilha no meio da RDA, o governo federal concede subsídios, anima empregos, facilita a vida na cidade cercada. De todo o modo é a predominância de pessoas idosas e de jovens. E entre estes numerosos estrangeiros, bolseiros, refugiados, gente que começa a criar as redes de alternativos, os primeiros ambientalistas, enfim boa parte do que mais tarde constituirá o melhor da herança destes anos de luta.
Porque de luta se trata. Contra o regime do Xá da Pérsia, o protegido dos americanos, o homem cujas mãos estão, no dizer de muitos, tintas do sangue de Mossadegh, para já não falar das vítimas da SAVAK a famosa polícia secreta que persegue com a mesma constância islamistas, comunistas ou simples democratas. Será numa manifestação (Junho de 1967) contra o regime persa que um polícia assassinará Benno Ohnesorg. E é a partir desse momento que Berlin entra no ciclo das grandes manifestações.
(curiosamente, tenho desde há dias, uma carta minha enviada a meus pais em Dezembro de 71 e datada de Berlin: aí lhes falo da morte de Georg von Rauch, um militante da RAF (Rote Armee Fraktion) quase a nossa vista. As manifestações que se seguiram terão sido o último suspiro deste ciclo iniciado anos antes. A deriva tragicamente terrorista deste grupo, que não obstante teve mais apoios do que seria de esperar, é também uma das heranças do Maio alemão)
A segunda frente de luta dos jovens alemães é mais grave e porventura mais séria: o silêncio dos pais sobre os anos do nazismo. E convenhamos que alguma (muita) razão teriam. E dos dois lados do muro. Quer Adenauer quer Ulbricht acharam melhor passar uma esponja sobre os milhões de “pequenos nazis” (a expressão é originária da RDA), sobre a sua responsabilidade histórica, os crimes, os silêncios e as cumplicidades.
A guerra fria ajudou, obviamente. E é aí, ou é também aí que entronca o anti-americanismo radical dos estudantes alemães. Convenhamos que é uma ironia o facto de o auge da contestação se localizar na cidade que só o poderio americano defendia dos russos e dos seus aliados alemães.
Perguntar-se-á qual o papel da RDA, do comunismo à alemã, nisto tudo. Independentemente da alegação de que alguns refugiados da RAF se terem acolhido nela, das ligações entre a RAF e alguns grupos palestinianos, destes por sua vez terem passagem franca pelo leste europeu, conviria talvez recordar que para a grande maioria dos esquerdistas alemães a RDA era a pura incarnação da degenerescência burocrática e penitenciária do ideal comunista. Os bisnetos de Rosa Luxemburg e de Karl Liebknecht, desconfiavam do desvio soviético, dos seus aplicados discípulos orientais, liam os heterodoxos e juravam por Adorno e Marcuse. É provável que a famosa teoria dutschkiana da acção exemplar e da provocação à polícia fossem consideradas pequeno-burguesas ou, pior ainda, doenças infantis e esquerdistas pelos ideólogos do SED, o extraordinário Partido Socialista Unificado, pseudónimo do comunismo alemão oriental. Dutschke propõe “desmascarar” os poderes instituídos obrigando-os a defender-se violentamente da ofensiva das minorias conscientes que, todavia, não restringem o seu campo de actuação ao país mas antes estão em consonância com os movimentos revolucionários de todo o mundo e sobretudo com os que, de algum modo, escapam à lógica soviética. Daí o apoio ao Che, ao Viet-Cong e às organizações contestarias emergentes um pouco por toda a parte.
A reacção é, evidentemente, violenta. Em Berlin, e no resto da Alemanha, a imprensa do grupo Springer ataca diariamente e com inusitada linguagem a minoria estudantil liderada por Rudi o Vermelho. O SPD tenta meter na ordem a sua organização de juventudes, o Sozialisticher Deutscher Studentenbund (S.D.S.) de que Dutschke é um dos líderes. A polícia vai metodicamente fichando os militantes e apoia sem reservas as “provocações” que lhes são feitas na Universidade Livre de Berlin. E o que tinha de acontecer, acontece: a 11 de Abril de 1968 (repare-se na data) dispara três tiros sobre Rudi em plena rua. E é, de certo modo, o fim brutal de uma carreira: Dutschke sobreviverá 11 anos ao atentado mas as sequelas do atentado afastá-lo-ão da política e da Alemanha. Aliás a sua morte acidental é ainda resultado do atentado.
Sob certo prisma, a breve carreira de Dutschke e o seu desaparecimento abriram caminho à radicalidade absoluta da RAF. Não me repugna acreditar que esta pequena organização viu esse atentado como prova absoluta da impossibilidade da luta pacífica ou, pelo menos, da luta não terrorista.
Não se pretende aqui desculpar a deriva terrorista (e finalmente inócua do ponto de vista revolucionário) dos Baader, Meinhof, Esslin et alia. Entre 1972 e 1988 mataram gente e morreram (suicidaram-se, ou foram suicidados) quase todos os seus membros. Nos dois últimos anos terão sido libertados condicionalmente os últimos elementos ainda vivos da organização. A sua pegada na História (com H ou h) foi mínima se é que já não se apagou. A reunificação alemã enterrou a RAF sob os destroços do muro, das fábricas abandonadas, e das ilusões perdidas. |Não me custa dizer que ainda bem.

* o cartaz (de que tive um exemplar!, que saudades...) é do SDS e significa em livre tradução: "Todos falam do tempo. Nós não."

** De Rudi Dutschke pode ler-se "Écrits Politiques", Christian Bourgois ed., Paris, 1968