Noémia de Sousa: cem anos
mcr, 22 de Setembro 2026
Duas páginas(!) dedica o Público ao centenário de Noémia de Sousa, a "mãe dos poetas moçambicanos" no dizer de Zeca Afonso
Já nestas páginas (enfim nas paginas da anterior plataforma, SAPO) escrevi sobre esta poeta que permanece desconhecida não só em Portugal onde nunca foi publicada mas também nos palor, Moçambique incluído apesar de ter sido lá que o seu único livro foi editado ("Sangue Negro, Associação dos Escritores Moçambicanos, 2001, patrocínio dos Caminhos de Ferro de Moçambique).
É curiosa a história desta poetisa, que a partir de finais dos anos 50 se tornou uma ausência mítica para mais exilada primeiro em Portugal, depois em França de onde regressaria muito mais tarde para Lisboa onde morreu pouco depois da publicação do seu livro. Suponho que não terá nunca voltado a Moçambique de onde foi forçada a fugir depois de saber que a PIDE já andaria a vigia-la.
Também se sabe que a sua escassa produção acabou antes dos 25 anos que ela mesma teria entendido mais tarde que a sua poesia era muito juvenil, pouco trabalhada e provavelmente demasiado protestatáraria. Excesso de autocrítica, modéstia, incapacidade de produzir longe do torrão natal abruptamente abandonado...
Pessoalmente, estou em completo desacordo com ela, entendo que os seus versos tem força, autenticidade, ritmo suficiente originalidade para merecer o elogio de Zeca Afonso.
Aliás, a notícia extensa do "Público" revela que terá sido editado uma biografia da poeta da autoria de Nelson Saúte que tem sido uma das vozes mais fortes e interessantes da crítica moçambicana.
Sabe-se, também, que no Brasil, terá sido reeditado o livro já referido a cargo da editora Kapulana.
Não há, porém, notícia de edições portuguesa, sequer de projecto de edição.
Tenho uma memória, eventualmente falsa, de ter lido num jornal de Lourenço Marques algum poema seu. Contudo, poderei estar a associar tal eventual leitura ao facto de, na mesma época (anos 54 a 57) ter lido Craveirinha e algum outro poeta desde Reinaldo Ferreira a Rui Knopfi
Foi porém, nos meus anos de universidade que comecei a conhecer os poetas moçambicanos, a lê-lose mesmo, em certa altura, a ajudar a venda de algumas edições da Casa dos Estudantes do Império.
Também pela mesma altura, tive a honra e o prazer de conhecer Noémia de Sousa. Em boa verdade foi durante um dos agitados "Dia do Estudante" que terei entrado na cantina do Técnico com alguém que ma apresentou. Todavia, tal encontro foi fortuito, curto porque na altura havia urgência em ir para a rua, desafiar a polícia, protestar, enfim o dia a fia dos activistas associativos universitários. Aliás, eu vinha de Coimbra e dependia muito de quem me pilotava na contestação lisboeta.
ao longo dos anos, dos muitos anos, fui criando uma grande biblioteca sobre Áftica onde apenas vivi entre o 3º e o 5º ano do liceu. Mais tarde ainda fui a Moçambique por três vezes nas férias grandes (1962, 1963 e1965). No entanto, apesar de ter muitos amigos africanos e independentistas nunca mais lá voltei e não creio que alguma vez volte.
De todo o modo, como escrevi numa introdução a um catálogo da minha coleccão de arte africana " nós saímos de África mas a África não saiu de nós."
Vou assistindo entristecido e indignado à pobre sorte de várias ex-colónias que pouco mais são do que países falhados graças a elites corruptas, ineficazes, enquistadas em ideologias emprestadas e incapazes de resolver oa problemas dos seus povos. Sistemas viciosos de partido único, de violência política e policial, de incapacidade para sequer garantir a segurança nacional (como se vê nos imensos territórios do norte de Moçambique onde um guerrilha infame de radicais islâmicos leva de vencida as tropas do Governo mais capacitadas para matar civis do que para combater inimigos vindos de fora mas apoiados lá dentro ainda que por minorias. Um desastre que só não é maior porque tropas africanas estrangeiras tem vindo ajudar a tropa nacional.
Por vezes pergunto-me se o não regresso de Noémia à terra natal não resultaria de uma profunda desconfiança no regime moçambicano da época. Que, de resto, não foi meigo para com os seus intelectuais, muitos dos quais perseguidos ou suspeitos. Mas isso é uma outra história que pouco tem a ver com o centenário do nascimento de Noémia que, não por acaso, escreveu um belo poema intitulado " deixem passar o meu povo"...
Está por cumprir este pedido mesmo se, como dizia uma camponesa moçambicana vítima de uma cheia ruinosa "Nós gostamos de viver". E, de facto gostam, resistem, sobrevivem como aquela jovem mulher, vitima de uma outra cheia que deu â luz sobre o ramo de uma árvore para onde conseguiu fugir. Provavelmente é da mesma forte raça de Noémia que faria agora cem anos e que deixa um livro pequeno , eventualmente obra de principiante mas principiante que trazia em si bem acesa a chama da poesia, da poesia que sobrevive a tudo e ilumina tudo. tarde ou cedo...