11 junho 2008

Diário Político 86

Declaração de interesses
Conheço João Benard da Costa desde há muitos anos mas as nossas relações são mínimas. Por junto leio de vez em quando os seus artigos no Público, infelizmente sem grande constância porquanto são normalmente excelentes. Aliás ganhou há dias o prémio João Carreira Bom de crónica o que deve querer dizer alguma coisa.

Como dirigente da Cinemateca Portuguesa, o mínimo que se pode dizer é que não desmerece dos dois anteriores a quem se deve uma obra exemplar. Benárd conseguiu ser um digno sucessor e de tal modo o terá sido que quando fez setenta anos, houve um enorme coro nacional a pedir que por uma vez o Governo o mantivesse contrariando assim a regra da passagem á reforma por limite de idade. Ou seja, o pais cinéfilo e mais geralmente o pais culto, demonstraram sem ambiguidade o quanto prezam JBC.

Espanta-me por isso ler no Público um desabrido ataque ao director da Cinemateca assinado por quem durante dois anos foi seu superior. Refiro á Drª Isabel Pires de Lima, ex-ministra da Cultura cujo desempenho à frente do Ministério não queria, por mera piedade, comentar.
A ex-ministra, ora no seu papel de deputada veio defender um projecto extraordinário proveniente de um auto-intitulado Circuito Universitário de Cineclubismo do Porto que reivindica um centro de programação da cinemateca no Porto.
Comecemos por isto que é simples e devia ser sabido: Normalmente, com raríssimas excepções, apenas há uma cinemateca por país. E há apenas um organismo porquanto uma cinemateca não é exactamente um armazém de filmes mas algo mais. É igualmente um complexo laboratorial que os trata, restaura, conserve e protege; um centro de documentação; uma biblioteca e um museu. É também um centro de exibição em condições especialíssimas e um centro de intercâmbio internacional de filmes.
Por estas razões, e por muitas outras que uma simples consulta aos Estatutos da Cinemateca permite saber, é que normalmente só há uma cinemateca por país.
Aliás, no já referido intercâmbio de filmes existe normalmente, creio mesmo que sempre, uma cláusula de exibição unicamente em cinemateca. E compreende-se: o estado dos suportes exige um tratamento altamente profissional que, neste momento, não seria possível ter em qualquer sala do Porto (ou em qualquer sala de Lisboa, cinemateca exceptuada).
Portanto quando o Director da Cinemateca Portuguesa, de seu nome João Bénard da Costa, vem dizer que não pode dar mais do que apoio moral aos subscritores de uma petição de um Circuito Universitário de Cineclubismo do Porto que reclama mais exibição cinematográfica no Porto de obras anteriores a 90 , está a dizer algo que qualquer contínuo do Ministério da Cultura sabe.
A drª Isabel Pires de Lima que foi, ministra da cultura até ser despedida há um par de meses, veio alvoroçada e como “deputada” do círculo do Porto (vê-se que as eleições parlamentares já não estão longe) atacar JBC e defender algo que nunca a vi defender enquanto foi ministra. Alguém, por aí, viu alguma declaração, algum compromisso, alguma promessa, sobre um eventual pólo de programação da cinemateca no Porto, durante os anos em que Sª Exª se esforçou no ministério que detinha a tutela da cinemateca “propriedade pessoal” de Bénard? É com alguma tristeza que vejo esta senhora (que quanto ao Porto deixou cair a direcção do IPPAR na guerra com Rio... deixando o Museu Soares dos Reis encolhido junto ao túnel de Ceuta) que perdeu todas as guerras em que irreflectidamente se meteu e saiu sem glória da Ajuda) a vir agora falar sanhudamente do “autismo” de Bénard (Público, como se disse, sexta-feira, 6 de Junho, p. 51) num artigo de opinião que nem sequer um Santana Lopes assinaria.
Mas há mais: a ex-ministra resolveu falar sobre o público numeroso que há 40 e 30 anos havia no Porto. E que até alimentou dois cineclubes. É verdade que o Cineclube do Porto chegou a ter quase 3000 sócios. E que no Porto havia uma boa dúzia de grandes salas que se mantinham sem grandes problemas.
Não menos verdade é que, excepção feita, à “Cinema Novo” e ao seu “Fantasporto”, a exibição portuense está de rastos, os cineclubes vegetam e que tal facto vem de longe. Precisamente desde meados de oitenta, altura em que começou (e ainda não parou) uma quebra de público e de cineclubistas acompanhada por um afunilamento na exibição (hoje em dia não se vê praticamente outro cinema que não seja o americano) e pelo fim das grandes salas.
Paralelamente, assistiu-se à explosão do vídeo e agora dos novos suportes de tal modo que qualquer pequeno grupo que queira conhecer os clássicos pode recorrer à distribuição onde, apesar de tudo, se encontram à vontade umas larguíssimas centenas de filmes. E se for necessário sair do mercado nacional: qualquer Amazon fornece a preços quase de saldo milhares de fitas desde Griffith até Fellini, de Renoir até Dreyer. Aqui neste blog (cfr. “Farmácia de Serviço) já se deu notícia de várias belíssimas edições de filmes. E se disto falo, é apenas porque, na sua ignorância, a ex-ministra da cultura fala em cópias de filmes novos suportes a ser fornecidos pela cinemateca em colaboração com as mais diversas instituições. Não é preciso: basta ir ao mercado que uma filmoteca de qualidade organiza-se em menos de um mês e por pouco dinheiro. Olhe, só nestes últimos tempos, o Publico (como antes outros jornais) está a disponibilizar uma trintena de filmes sob a égide dos “cahiers du cinema”.
Eu não sei que mal terá o João Bénard feito à drª Pires de Lima. Será que ela não gosta do seu artigo semanal e brilhante no Público? O homem fala de coisas interessantes, mostra cultura e inteligência, duas coisas que eventualmente agastarão a senhora ex-ministra. Mas, que diabo, basta, passar à frente e não os ler, coisa que eu teria feito com o texto dela não fora o caso de em letras garrafais ter visto uma menção ao “autismo” do João e à presumivel “coragem (que falta a todos mas não a esta novel padeira de Aljubarrota) de dizer que o rei vai nu” (sic).
A drª Pires de Lima, fala já em fim de artigo na “Casa das Artes”. Para quem não saiba trata-se de uma dependência da antiga Delegação Regional de Cultura do Norte, que um triste Lopes atirou para o mato. A drª Pires de Lima foi ministra durante dois anos: que fez por este espaço, em obras, dizem, que dinamização propôs, onde estão os despachos, os estudos, os documentos, que é que aquelas casas (pois há também a casa-mãe que parece que esteve alugada não sei a quem) beneficiaram do seu esplendoroso biénio no Ministério? A nudez forte do abandono teve porventura algum fantasmático e fantasioso paninho a tapá-la?
Estamos habituados a ver este país entregue a ferrabrazes que na oposição juram fazer mil coisas. Quando por milagre injusto chegam à mesa do orçamento esvaziam-se-lhes os ímpetos e a vontade. Regressam à feliz inocência de onde nunca deveriam ter saído e zás! Ei-los que, como o sapo boi, incham a barriga e imitam o dó de peito. Mete dó!

Em nota de rodapé: A Cinemateca e a Delegação Regional do Norte programaram no Auditório Nacional Carlos Alberto, por várias vezes, ciclos de grandes cineastas em v.o. O resultado foi catastrófico: o tal público que enche a imaginação desmemoriada da drª Pires de Lima brilhou pela ausência. Se bem recordo, houve um ciclo dedicado a Murnau que teve uma média de seis espectadores. Por acaso estava lá, bem como o Henrique Costa e a Manuela Bacelar o que significa que juntos já significávamos 50% do numeroso público...
Mas continuemos: a Cinemateca Portuguesa tem um orçamento ridiculo e vive no fio da navalha. Onde é que deve JBC cortar para satisfazer o apetite saudável da juventude universitária e cineclubista do Porto?
Eu sei que alguém me viria dizer que circulou uma petição na Internet e que essa petição obteve um impressionante número de assinaturas. Assinar é a coisa mais fácil do mundo e permite passar por culto sem pagar um cêntimo. Espanta-me que esses assinantes, e há pouco estive com dois (envergonhados...), não se decidam a tornar-se sócios do que resta em matéria cineclubista. A resposta destes meus dois amigos foi que não estavam para essa chatice. Como não estão para a mesma chatice os inexistentes espectadores que abandonam dia após dia a única distribuidora que ainda trazia filmes diferentes a uma sala do Porto. Daqui a pouco, restarão nas salas pipoqueiras dos centros comerciais apenas as distribuidoras do mainstream cinematográfico americano. Onde andam os buliçosos rapazes e raparigas (ou vice-versa) do tal circuito universitário?
Mas se à juventude se perdoam estas grandiloquências reivindicativas quanto mais não seja por falta de informação, o mesmo não pode ocorrer com quem, apesar de tudo, teve responsabilidade no sector cultural. Dá a ideia que, uma vez fora do MC, a Dra Pires de Lima resolveu ajustar contas antigas ou actuais e que para o efeito arranjou um bode expiatório na pessoa de Benard da Costa que, convenhamos, nisto de cultura, e não só, poderia dar lições magistrais à senhora deputada pelo círculo do Porto.
É por estas e por outras que sou a favor dos círculos uninominais na eleição de deputados: a gente pode não voltar e com isso libertar o parlamento de algumas inutilidades.

Maio, maduro Maio 6


... Fomos testemunhas duma época
Em que daqui a cem anos ninguém acreditará
Nessa altura será compreendida a revolução nosso túmulo
E os que manipulavam o rádio

Vitezlav Nezval
(em memória de V. I. Lenin, “Pantomina”, 1924 – recolhido em Prague aux doigts de pluie, Éditeurs Francais Reunis, Paris, 1960)

Os leitores perdoarão a pequena ironia da citação que abre este texto sobre 1968 nos países do “outro lado”.
Convenhamos que, agora, é difícil compreender o panorama político e social da Polónia, da Checoslováquia e da Jugoslávia nesse longínquo ano de 68. Aliás juntar três realidades tão diferentes é um risco que se assume mas que se espera justificar. Pretende-se apenas mostrar como é que um regime mais ou menos idêntico em três países responde a reclamações que de início eram extremamente moderadas e não o punham em causa.
Comecemos pelo caso polaco.
Tudo começou pela proibição da peça “Os antepassados” de Mickiewicz, autor do século XIX, cuja peça é um manifesto contra a política czarista, numa época em que a Polónia estava ocupada pela Rússia.
A época não estava para zurzir no grande irmão mesmo que os odiados czares já só fossem passado. E não estava porque, no caso em apreço, a Polónia era governada por Gomulka, um comunista discretamente anti-russo mas suficientemente cauteloso para não permitir que no seu país se instalasse uma desordem idêntica á que grassava na vizinha Checoslováquia.
Depois, assistia-se, nos circuitos internos da inteligentsia polaca a uma ofensiva “anti-burocrática” de que a “Carta ao Partido Operário Unificado Polaco” de Kuron e Modzelewski era o mais recente exemplo.
Em termos muito gerais, a batalha que se travava nas universidades polacas tinha muito a ver com a liberdade de expressão que, estranhamente tinha feito uma breve aparição na Polónia na sequência da contestação de Bierut e na ascenção de Gomulka. Jornais tinham aparecido (por todos Po Prostu) grupos de discussão e os famosos “Conselhos Operários”. Todavia, logo que a nova situação se estabilizou, as coisas voltaram ao ritmo anterior. Po Prostu foi silenciado, os conselhos foram descritos como um desvio anarquizante e as centenas de militantes que se tinham revelado começaram a ir para a prisão.
A elaboração do manifesto de Kuron e Modzelewski, resultado iasás de múltiplas contribuições e reuniões, respondia a esse ataque ás liberdades um tempo reencontradas.
A peça de Mickiewicz, apareceu no momento errado e sobretudo a sua estreia ocorria durante o desenvolvimento do processo checo. Se se acrescentar que o ambiente económico era pouco entusiasmante, logo se percebe que estavam reunidas as condições para uma explosão universitária que para ter êxito precisaria de apoio nos meios sindicais e nas fábricas.
Algumas greves esporádicas terão entusiasmado os estudantes que ocuparam algumas universidades e saíram para a rua. Mas os operários ficaram quietos e o fogo que ameaçava consumir a nação polaca foi apagado como fogo de palha que ao fim e ao cabo foi. Em Maio o movimento estava extinto. Gomulka poderia continuar a governar reprimindo aqui, diminuindo a pressão acolá. Durou mais vinte anos.

Na Jugoslávia, país tecnicamente não enfeudado a Moscovo, com liberdades inimagináveis para os habitantes do bloco de leste (liberdade de emigrar, de viajar, de criar empresas privadas etc..., o movimento tem origem num facto sem qualquer importância: uma rixa entre estudantes e uma brigada empenhada numa “acção de trabalho”.
A milícia intervém e os estudantes apanham pela medida grande. No dia seguinte são milhares a desfilar desde a cidade universitária nos arrabaldes até ao centro de Belgrado. Nova intervenção da milícia e novos combates de rua.
A greve universitária é proclamada, as faculdades são ocupadas e o já clássico Maio repete-se aqui em Junho.
A imprensa apodera-se do assunto. Os estudantes barricados sobem o tom das suas criticas. Não é só a intervenção da milícia que é criticada mas também as insuficiências do ensino, a falta de saídas profissionais para os licenciados, a “burguesia vermelha” de Belgrado e a falta de solidariedade internacional com os Vietnam e a revolução mundial.
Do lado do poder as acusações também não faltam: partidários de Djilas, saudosos do antigo regime monárquico, trotskistas ou, inimigos da Federação!, isto é nacionalistas pequeno-burgueses.
Finalmente, quando se pensaria que a situação atingia o paroxismo e que se assistiria a uma repressão selvagem, Tito, chefe indiscutível, que forjara o seu poder na resistência aos invasores alemães e na oposição à União Soviética, intervém e salomonicamente declara encerrado o conflito: a maioria dos estudantes é sã e tem razão. A culpa dos acontecimentos é toda de uma ínfima franja de anarquistas, da falta de cuidado da polícia e da situação internacional.
A intervenção dos “irmãos de armas” comunistas na Checoslováquia e a brutalidade com que é feita perante um vago e comedido protesto ocidental, convencem estudantes contestatários e autoridades diversas a esquecer afrontas antigas e fingir que tudo vai pela melhor no melhor dos mundos. Não ia, como já Voltaire provara dois séculos antes.

E agora, a excepção: Excepção porque no caso checo não se trata de uma revolta juvenil com maior ou menor ressonância na população. Não está em causa a oposição aberta ao regime mas algo mais profundo mesmo que isso nos pareça ridículo. É de independência nacional que se fala. De facto a queda de Novotny e a relativamente longa experiência de gestão de Dubcec como dirigente comunista, não faziam prever á partida nada mais do que uma mudança de equipa forçada pelas circunstâncias.
Nunca saberemos como é que um comunista eslovaco, educado na URSS, ex-resistente e homem do aparelho chegou á conclusão que era preciso temperar o vinho velho do comunismo em uso no leste. Levar a destalinização um pouco mais longe. Bastante mais longe, se entendermos por isso pedir a intervenção das massas na condução dos negócios públicos. E permitir o escrutínio de toda a actividade do Partido pelo povo, a todo o momento. E acabar com a censura. Ou seja permitir uma informação livre, heresia absoluta num sistema que fazia do controle da informação a pedra chave da luta pelo socialismo. A segunda pedra dessa “revolução” seria, deveria ser, teria de ser, a partilha do poder entre o Partido Comunista e outras organizações.
E era disso que se tratava. A primavera desagua no verão como se sabe, e as medidas tomadas por Dubcek, a pressão da rua, a mobilização da sociedade civil, a calma severa com que tudo se passava, faziam as autoridades dos países irmãos temer pelo pior. E provavelmente seria o pior que viria. Na óptica deles, claro.
Dubceb e Svoboda por seu turno acreditavam numa evolução pacífica do regime, numa adaptação dele que não pusesse em causa a direcção do PC. E essa é uma das ironias desta história trágica. Eles eram os únicos que acreditavam numa saída pacífica para a crise. Soviéticos, polacos, húngaros, alemães e búlgaros, estão convictos do contrario. E desta vez não deixarão os camaradas soviéticos sozinhos como em 56 na Hungria. O pacto de Varsóvia que nunca serviu para atacar o inimigo ocidental teve esta única e irrepetível aplicação prática: atacou o país que pretendia ensaiar um novo modelo de socialismo e de passo perpetuar um sistema em que os seus dirigentes, ingenuamente, acreditavam. Depois disso, ser comunista no ocidente foi, digamos, muito mais difícil. Para muitos militantes de esquerda foi mesmo impossível. Por uma questão de honra, de ética e de fé no socialismo.

07 junho 2008

Estes dias que passam 112



Os ratos que rugem


Estava para deixar passar sem comentário a (agora famosa) ida de Manuel Alegre à festarola do Teatro Trindade.
Explico-me: aquilo, aquele ajuntamento sem pés e com pouca cabeça não merecia o tempo que uma pessoa leva a escrever um texto sobre o “eminente” significado político da reunião.
Bem fez o PCP que nem lhes ligou. Pudera! Com duzentas mil pessoas na rua, referir as escassas quinhentas ou seiscentas que enchiam a sala do Bairro Alto, era dar à coisa uma importância que não estava nos planos do partido e que, de facto, bem vistas as coisas, não tem.
Porém, o PS, sempre desatento e sobretudo sempre ansioso, viu na reunião um fantasma (ponhamos que, a exemplo do que escreviam Marx e Engels, há mais de cem anos, que viu o aterrador espectro do comunismo) e assustou-se, como há cem anos a boa burguesia em ascensão se assustou com a Internacional.
Teria o PS razões para se afobar ao ponto de lançar alguns dos seus “chiens de garde” (muito ladrar mas pouca ameaça) contra a presença de Alegre? Parece-me que não. A festinha era confidencial e sem o alarido inconsequente e queixoso do pobre Vitalino Canas, sem as eructações de Lello e sem a prestação ridícula de mais um par de figurinhas sensíveis, a reunião a pedir mais esquerda teria ficado no limbo das alminhas perdidas. Nisto de política só existe o que é falado.
Mas as pobres criaturas que se puseram em bicos de pés a ladrar à canela de Alegre (que chega bem para eles todos mesmo a fazer estas piruetas inconsequentes e sem sentido) não têm feeling. Pior: não têm a noção da galinhola e de política “política” e de ideário socialista estão parcamente fornecidos. Faltaram-lhes uns aninhos duros, de oposição a sério, no tempo em que isso doía e trazia consequências desagradáveis.
Ao trazer a participação de Alegre para o pretório da opinião pública portaram-se como meia dúzia de galinhas pedrês a falar das águias que voam um pouco (bastante) mais acima delas. De facto, e bem vistas as coisas, a discursata (frágil) de Alegre até ajudou. Afinal o PS é um partido múltiplo, com correntes de opinião, capaz de criticar os seus dirigentes, como se apressaram a dizer alguns socialistas mais sensatos e mais prudentes que sabem ou pensam que Alegre é um património socialista seguro e que já mostrou valer um largo par de votos.
Os patéticos acusadores de Alegre deram dimensão insuspeitada à iniciativa do Bloco, tornaram-na mesmo politicamente interessante, coisa em que, à partida, nem Louça decerto acreditava.
Criaram mais uma guerrilha tonta dentro do grupo parlamentar e dentro das estruturas centrais do PS.
Puseram o país a perguntar-se se, de facto, Alegre não teria razão em se juntar ao grupúsculo bloquista.
Tornaram mais visível a atrapalhação que reina na equipa dirigente do PS quanto à escolha de um candidato à Presidência da República, sobretudo sabendo-se, como se sabe, que há mesmo entre os mais altos hierarcas do PS, uma forte tendência para apresentar Alegre como candidato.
Finalmente, com a sua impudente precipitação, puseram em cima da mesa, aos olhos do público pagante, que somos todos nós, a questão da deriva preocupante da crise, do aumento de preços, da falta de perspectivas para se sair deste beco.
O PCP neste momento deve estar a mandar cestinhos de cerejas e outros mimos de época a estes auto-proclamados críticos de Alegre.
Disse no início, e repito, que considero esta “lança em África” de Alegre uma espadeirada na água turva. Uma asneira, dê lá por onde der. O PS, mesmo este PS, é de facto, incontornável. É uma tristeza mas é mesmo assim. Duvido que me apanhe o voto (e eu sempre votei nele) mas não é substituível pelo bloco ou pelo PC. Está cada vez mais à direita, sem dúvida, mas isso é mais resultado da vontade de acreditar em lideres carismáticos (Jesus! Logo o Sócrates!...) do que uma tendência profunda e “genética” como ora se diz a torto e a direito. O PS andou sempre a derivar entre o oportunismo contrabandeado pelo continuo assumir de um passado histórico de cento e tal anos (que além de ser medíocre do ponto de vista ideológico não teve sequer qualquer relevância do ponto de vista político) e a necessidade de se afirmar membro de pleno direito da social democracia europeia. O PS português viveu mal o conflito Soares – Zenha como vive mal com a sua bastardia maçónica. Viveu mal o conflito gerado por Manuel Serra, viveu mal a expulsão dos trotskistas do POUS, conviveu mal com os militantes trazidos por Sampaio e está demasiado agarrado a um aparelho medíocre criado à pressa nos fins de setenta e princípios de oitenta. A sua frente sindical é uma manta de retalhos, a sua jota é tão fraquinha quanto as congéneres de direita e actualmente não passa de uma agencia de empregos políticos e a sua frente autárquica pode rever-se no conflito latente que pode fazer perder a câmara de Matosinhos.
Pese a tudo isto, que é muito e é grave, só um autista é que não quer ver, o P.S. consegue ter uma vitalidade que vem justamente da mesma matriz dos seus defeitos: é feito por gente livre, com opiniões que porventura mereceria dirigentes mais interessantes e mais interessados na coisa pública, na causa da social-democracia e na auscultação da opinião pública isto é dos portugueses.
O que não merece é estas criaturas que volta e meia se tomam pelo que não são: políticos a sério.

o texto acima estava escrito e em lista de espera. Só quando o "postei" é que li o texto do meu camarada JCP. Discordo dele, como se vê mas não é, nunca seria, uma resposta ao texto dele que reflecte uma apreciação de um compagnon de route (ou militante) do PS e que milita e militou em situações bastante adversas, se é que o nome de Marco de Canaveses diz alguma coisa aos leitores. Não quereria de nenhum modo que alguém, depois de uma leitura enviesada, pensasse que JCP faz parte dos meus alvos. Bem pelo contrário, faz parte daquela massa generosa e limpa e profissional que torna o PS perdoável aos olhos dos cidadãos que, como eu, se afligem, com estes malabarismos a que assistimos.
Mas como cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a quem quer que fosse aqui se deixa este aviso á navegação.
mcr

06 junho 2008

missanga a pataco 54


De cabeça perdida

Cabeça é um modo de falar, a menos que apenas que me queira referir a uma das três antigas partes do corpo.
Mas comecemos por explicar: há no PS uma curiosa criatura, de seu nome José Lello e que é desde sempre um dos mais inúteis ornamentos daquele partido. Este cavalheiro tornou-se vagamente conhecido por, in illo tempore, ser um dos fervorosos adeptos do dr Jaime Gama, era mesmo uma espécie de cabo eleitoral do actual Presidente do Parlamento, ainda me recordo de o ver cerimonioso e serviçal a comboiar Gama numa reunião almoçante de uma coisa que se chamou “esquerda liberal” e onde estive. Fora isso, o homenzinho tornou-se conhecido porque durante um par de Natais oferecia um livro a uns políticos e o título do livrinho pretendia ser uma brincadeira com o alvo da generosidade lelliana. A coisa era mais ou menos inócua, se bem que oferecer livros assim me pareça no mínimo boçal mas gostos são gostos, e os livros são sempre úteis para equilibrar o pé cambo de uma mesa...
Fora isso, o deputado Lello terá sido vagamente secretario de Estado, coisa de que só por pecado de memória forte me lembro porquanto da sua patriótica actividade não resta qualquer fulgor.
Ora bem, foi esta criatura quem, num jornal, entendeu acusar Manuel Alegre de “parasitar o grupo parlamentar” numa reunião ocorrida nos Açores, aproveitando o poeta para lançar um livro ou seja teria viajado às custas do partido para fins eminentemente particulares.
A história é obviamente outra: Alegre lançou nos Açores um livro, encomendado pelo Governo Regional que lhe pagou as deslocações. Ao saber que ele lá estava, o presidente do grupo parlamentar, Alberto Martins convidou a Alegre para a mesa de honra das jornadas e Alegre aceitou. Este uma hora, hora e meia e depois foi ao que vinha.
Isto mesmo foi explicado por Alegre à lelliana criatura. Apanhada em falta total de veracidade, esta retorquiu que, se Alegre fora pago pelos Açores, então parasitara a reunião dos deputados. Isto mesmo depois de saber perfeitamente que Alegre fora convidado a vir até à reunião. E convidado a sentar-se na mesa principal pelo presidente do grupo parlamentar. E que quando finalmente abandonara a reunião e o jantar levara consigo vários membros da direcção parlamentar que quiseram associar-se ao lançamento do livro.
É gente deste teor que inça desde há tempos imemoriais os corredores do poder. Nada os predestinava a isso, excepto a alta ideia que têm de si próprios e a marginal utilidade que o Partido lhes reconhece para tarefas como esta que se relata aqui e que se pode ler mais desenvolvidamente na edição de sexta- feira do Público a pp 10.
Mas perguntar-se-á: a que vem este súbito acicate do ofertador de livros? Pois à falta de argumentos políticos. Incapaz de atacar Alegre politicamente, por segura falta de ideologia e competência, eis que arranja esta historieta de viagens pagas que o não são, de aproveitamento que não existiu, de “atitude muito diferente da postura ética com que (Alegre) gosta de se apresentar”.
E mesmo quando os desmentidos chovem em catadupa, desde os elementos dos Açores, até aos deputados e ao próprio Alegre, eis que Lello suicidariamente persiste virando o bico ao prego, como também se pode ler quer no Público quer junto da Lusa.
Voltemos, porém, um pouco atrás: este benfeitor do comercio livreiro por grosso tornou-se como disse, conhecido, enfim brevíssimamente conhecido, pela tal listinha de livros que oferecia ao um ramalhudo leque de personalidades. E como é que o público babado de admiração sabia disto? Pois, pelos jornais. E quem é que mandava a lista dos livrecos e dos beneficiados para os jornais?
Ele há gente que precisa de ser famoso de qualquer maneira. De todo o modo antes assim do que à maneira de Eróstato...
As consequências do incêndio é que são sempre as mesmas...

* O templo de Artémis em Éfeso.

O Senhor Vice-Presidente

Manuel Alegre é vice-presidente (da Assembleia da República) mas vive e expressa-se como se fosse o vice-presidente da República. Se o cargo existisse, Alegre faria jus a ele. Depois da sua experiência nas últimas presidenciais, em que ficou em segundo lugar, mas derrotado na primeira volta, Alegre, o quase-presidente, encontrou o seu estatuto político.
De mal com os seus companheiros de partido, no qual insiste em permanecer, Alegre decidiu agora fazer o jogo da oposição. Não discuto as suas ideias, pois é absolutamente livre de as defender. Discordo, sim, que participe e promova acções político-partidárias contrárias ao partido em que milita. Fazendo o jogo de um partido que, não há muitos dias, apresentou uma moção de censura ao partido que é suposto Alegre apoiar.
Alegre é deputado do PS desde a Constituinte e, tirando uma fugaz passagem pelo governo, aí tem desempenhado funções. Foi eleito pelos seus pares vice-presidente do parlamento, com direito e usufruto das sinecuras devidas ao cargo (terá Alegre ido para o comício organizado pelo Bloco no carro oficial? E o motorista ficou à espera?), que assim lhe deram o devido reconhecimento político. Contudo, Alegre, que discorda da política seguida pelo partido e pelo governo, falta a todas as reuniões partidárias e do grupo parlamentar, espaços privilegiados para criticar e interpelar.
Quem não tem estômago para integrar colectivos (algo) disciplinados, não deve insistir na militância. Eu assim faço. Quem está num partido, deve agir com observância de regras mínimas de solidariedade. O que não pode é aparecer no parlamento, no dia seguir a participar num comício com um partido da oposição, como se nada se tivesse passado, de óculos escuros, de perna estendida, com aquele registo próprio de alguém que faz o frete de passar por ali para assinar o ponto.

Uma Semana difícil para Sócrates

Os últimos dias não têm sido fáceis para o primeiro-ministro.

Depois de Mário Soares ter vindo a público colocar na agenda política a “crise social” veio, agora, Manuel Alegre unir a esquerda não PCP, pré-anunciando a fuga de uma fatia do eleitorado PS para a futura“União das Esquerdas”.

Na mesma semana, armadores e pescadores paralisaram as pescas; maquinistas da CP instalaram o caos na circulação ferroviária; motoristas dos transportes de mercadorias ameaçam paralisar cidades (a começar pelo Porto); a CNA anuncia uma eventual ida em massa até Lisboa; a CGTP junta mais de 200 mil manifestantes em Lisboa, a protestar contra a governação.

Como se isto não bastasse o Banco Central Europeu acaba de anunciar a subida da Euribor; o INE anuncia a forte
subida do desemprego nos últimos anos e as sondagens, referentes ao mês de Maio, colocam o Primeiro-Ministro em queda vertiginosa.

Com as movimentações em curso, com o progressivo agravamento dos preços (habitação, combustíveis, alimentação, saúde), Sócrates tem razões de sobra para começar a pensar: “como vou dar a volta a isto?”. É que as sondagens de Junho não se anunciam promissoras…

Sabia que...

Sabia que “a máquina judicial portuguesa tem um milhão e meio (1.500.000) de processos parados” e que o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Noronha do Nascimento, apesar de se mostrar preocupado com a morosidade da justiça, não acredita para já em melhorias. Ver notícia no D.E.

Sabia que a “Sonae tem 106 mil processos em tribunal” e que ganha 97% dos processos contra o fisco, sendo o tempo médio das decisões judiciais de 5 anos. Ver notícia D.E.

E SE…

E se todos os arguidos deste país desatassem a pedir indemnizações pelos danos causados pela assunção da categoria de “arguido” ou pela aplicação de outras medidas de coacção.

Sim, porque essa coisa de ser arguido sempre deve causar algum incómodo, no mínimo. Portanto, pode parecer razoável que se seja compensado por isso, para já não falar nos inquantificáveis “danos morais”.

Para fazer face a tal encargo o Estado bem pode começar a estudar o lançamento dum novo imposto.

04 junho 2008

Au Bonheur des Dames 126


It's a beautiful day

Eu tenho um sonho: que algum dia, esta nação se erguerá e viverá o verdadeiro significado das suas crenças...

...ouvirei o sino da liberdade no cume da montanha de New Hampshire...
...nas poderosas montanhas de New York...
...nas nevadas montanhas do Colorado...
...em todas as colinas do Mississipi....

Estas palavras proféticas de Martin Luther King um dos mais luminosos heróis dos anos 60, cuja memória venero, diga-se de passagem, começam a parecer evidentes. De Agosto de 1963 até hoje, dia, da vitória de Barak Obama nas primárias democráticas americanas, vão quarenta e cinco anos. Quarenta e cinco vagarosos anos. Quarenta e cinco rápidos anos se nos lembrarmos de onde partiam os negros americanos. As cruzes de fogo ardiam nos campos do Sul, os linchamentos eram moeda corrente, ainda hoje um réu negro tem garantias muitos precárias quanto á justiça do seu julgamento. Nos últimos anos, graças ao ADN foram já dezenas os presos negros condenados a longas penas que conseguiram ver provada a sua inocência. O que é que os condenara?
A cor da pele, evidentemente. Mas não só. A pobreza, a iliteracia, a ignorância, a miséria, o costume, a dramática tradição que associa tudo isto e converte os pobres nos danados da terra. E o racismo, a ignorância, a iliteracia, o costume de muito branco do sul ou do norte, educado em preconceitos rígidos e temeroso de ser comparado com o preto do lado. Pobres mas diferentes!
E agora, subitamente, neste verão que desponta, um mestiço com um nome impronunciável, Barak Hussein Obama, obtém os votos de milhões de democratas, brancos ou negros que o querem na Casa Branca.
Convenhamos, o dia é histórico. Absolutamente histórico, diga-se o que se disser do enorme progresso verificado nos últimos anos nos Estados Unidos. Ao patamar, só ao patamar, para já, da Casa Branca chega um “negro” de 46 anos (um ano mais do que o discurso de King), graduado em Harvard, o nec plus ultra das universidades da Ivy League, que conseguiu inclusive ser o director da prestigiosa Law Revue. What a long way to freedom!
Neste momento único, seria bom lembrar a grande Bessie Smith, the Emperess of Blues, tragicamente morta em consequência de um acidente de automóvel porque o hospital para onde foi conduzida não atendia pretos!!! Em 1937, há apenas 71 anos, uma mulher morria dessangrada à porta do hospital que a recusava por ser preta... What a long way...
E lembremos o punho fechado desses dois admiráveis atletas Tommie Smith e John Carlos que, sempre em 1968, protestavam contra o racismo nos EUA e que por isso foram expulsos da selecção americana e da vila olímpica. É bom tempo, é imperiosamente tempo, de reparar essa decisão infame e infamante.
Lembremos, finalmente, os milhões de cidadãos americanos, brancos ou negros, que saíram para a rua, nesses anos trágicos e exaltantes, sem temer a violência policial, a prisão, as ameaças, a morte mesmo, porque também eles tinham um sonho.
Há muitos anos, quarenta, provavelmente uma mulher que partilhou a minha vida, falou-me num autor e num livro (James Baldwin, “go tell it on the mountain”) que eu viria a ler. Agradeço-lhe daqui e suponho que partilho com ela, hoje, este momento histórico. De certo modo, foi por ela que comecei a ter uma ideia mais clara do que era ser negro nos Estados Unidos. Mais amigas e amigos, mais autores, mais músicos, mais cineastas, mais americanos comuns, contribuíram para a opinião que hoje tenho.
It’s a beautiful day, friends!
Let’s go tell it on the mountain.

*
It's a beautiful day
é o nome de uma banda de S. Francisco nascida em 1967 (ano de Barak) e formada por talentosos músicos: David La Flamme, Pattie Santos, Hal Wagenet, Mitchel Holmann e Val Fuentes. Durou cerca de dez anos e o seu primeiro LP tinha justamente estev título.

03 junho 2008

800 MILHÕES DE €UROS GASTOS IRREGULARMENTE

Segundo o relatório de Tribunal de Contas, em 2007, foram gastos 800 milhões de euros de forma irregular. O Relatório identifica as áreas em que detectaram as irregularidades na aplicação dos dinheiros públicos. A Comunicação social faz eco do relatório, mas nada diz quanto aos agentes que tomaram as decisões que estão na origem da despesa ilegal.

Para a comunicação social a despesa ilegal auto-reproduziu-se. Aliás, deve ser assim todos os anos. A despesa ilegal de um ano gera a despesa ilegal do ano seguinte. É por isso que ninguém é responsável pela prática dos actos ilícitos associados à despesa ilegal. É que esses actos (informações ou despachos) não existem ou, na remota hipótese de existirem, foram praticados de boa fé, sem dolo, como é caracterísco dos portugueses.

Acresce que apesar do número parecer grande, o mesmo não tem expressão no computo da despesa pública. De facto, como comentou o Ministro das Finanças, temos que ter uma visão relativa do que representam os 800 milhões, apenas 1,1% da despesa total da administração pública.

Dito isto, a conclusão que poderemos tirar é que o Tribunal de Contas se excedeu ao anunciar o número (800 milhões) sem ter a preocupação de o relativizar. E que, se em 2008 a despesa ilegal duplicar (1,6 milhões de €) , ainda assim não terá grande significado relativo, representará uns 2% da despesa pública, o que é coisa de pouca monta . Esperemos que, nessa altura, o Tribunal de Contas leve em conta o comentário do Ministro das Finanças, para nosso sossego.

missanga a pataco 53


Chover no molhado

Às vezes uma pessoa sente-se cansada. Ao fim de anos e anos a tentar perceber o mundo em que se move, ou em que a fazem mover-se, verifica que tudo continua na mesma e que os avisos de há quarenta, trinta ou vinte anos foram ouvidos por um lado e esquecidos com mais pressa pelo outro.
Anda tudo zangado com o aumento dos combustíveis, como se tal aumento fosse de hoje, ou não tivesse sido constante de há anos a esta parte. Lembram-se do preço da gasolina antes do Iraque?
Agora os pescadores resolveram fazer greve. Curiosa greve em que fazem de tropa de choque dos armadores. Que levam a sua gentileza ao ponto de despedirem as suas tripulações para que os homens do mar (e de mão) possam acolher-se ao subsídio de desemprego...
É a primeira vez que vejo patrões e assalariados unidos e em greve. Mas que raio de greve é esta que não tem destinatário conhecido e reconhecido? Será contra o engenheiro Sócrates e a pobre criatura que faz de ministro?
Será contra nós consumidores que dia a dia pagamos mais caro o pescado, a gasolina, o leite, o pão, as hipotecas das casas etc., etc.?
Ao que vejo fica mal falar de capitalismo desregrado (como se geralmente este tivesse especiais regras...) do crime das sub-primes, da corrida aos etanóis, da fome no terceiro mundo. Disse fome e repito. Não é de agora mas agora pode piorar porque a corrida aos cereais para produção energética torna as coisas ainda piores.
Umas almas caridosas acharam que três dias sem ir à Galp abastecer a fariam retroceder. De certo modo alguma razão tiveram e aí está o tal cartão Fast com descontos de cinco cêntimos por litro. A Galp é generosa.
Outras almas, “his master’s voice” governamentais, intimam o governo a não ceder, a não recuar por Deus e pela Pátria. Não cedam perante este pequeno problema, vociferam, que isto está no bom caminho. Aliás esteve sempre. Fosse à sombra do “sol da terra” nos anos do PREC ou agora sem prec mas com preços altos.
Se calhar estão na razão: vai começar o futebol e enquanto aquilo durar e os portugas não perderem, a crise passa. Passa? Não passa mas a malta habitua-se. Sempre se habituou. E depois vem o Verão, a praia e a silly season.
E no meio, o governo vai fingir dar qualquer coisinha. Como dizia o príncipe de Lampedusa, é preciso que algo mude para tudo continuar na mesma.
Ah, esquecia-me: vem aí a alta velocidade! Vamos fazer percurso Porto-Lisboa em menos vinte minutos. E mais mil milhões. Ou dez mil. Ou cem mil!
Divirtam-se, comprem uma televisão nova muito digital, um cachecol verde e vermelho e pipocas para ver os jogos.

Diário Político 85



A história faz-se de tudo até de gestos

A quem entender que as eleições presidenciais nos EUA nada têm a ver connosco sugiro que passe em frente porque não precisa deste texto. Ou precisa mas de outra maneira, como numa segunda perspectiva poderá aperceber-se. É que aqui vai falar-se mais de ética política do que de um resultado de umas primárias.
Vamos então aos factos.
Há cerca de meio ano, um pouco mais, havia no Partido Democrata dois candidatos em liça: Hillary Clinton e Barak Obama. Tudo os diferenciava. O sexo, a idade, os meios sociais onde tinham evoluído para já não falar do currículo político. A senhora Clinton fora “primeira dama” e já é senadora (por Nova Iorque) há cerca de oito anos. Obama, distinguira-se na Convenção Democrática de há quatro anos quando com um discurso poderoso e fascinante recebera a mais prolongada ovação dessa reunião.
Alguém, na assistência, terá dito que via naquele homem o rosto do presidente futuro dos EUA. A coisa passou mais como citação da frase que consagrara há muitos anos o então jovem Bruce Springsteen, autor até à altura de um único (grande) êxito (Born to run). De facto, o eminente John Landau assegurou a quem o quis ouvir que vira “the future of rock’n’roll”. E não se enganou, convém acrescentar.
Obama, (senador por Illinois) entrou de seguida, no Senado Nacional em 2004. Nas primárias democratas para a candidatura teve sozinho mais votos que os restantes seis adversários Antes era reconhecido por uma brilhantíssima carreira universitária, numa das mais conceituadas universidades, Harvard, onde fora eleito redactor chefe da prestigiada revista de direito universitária.
A senadora Clinton, vinda de outra famosíssima universidade, Yale, aluna brilhantíssima e reconhecida como excelente advogada, viu o seu percurso ser perturbado dado ter casado com o governador do Arkansas e posterior presidente Clinton. De facto, ser primeira dama não é exactamente o ideal para quem, ao fim e ao cabo, tem aspirações de futuro político autónomo. Porém, a senadora Clinton também beneficiou desse estatuto como aliás se fartou de dizer quando alegava a sua maior “experiência política” e os seus “contactos internacionais” obtidos durante os oito anos de presidência Clinton. No meio, ficou esquecido, o desaire das suas propostas quanto à política de saúde mas isso é outro falar.
Quando esta corrida começou, a maioria das sondagens davam a senadora como vencedora. Obama era brilhante e simpático mas era preto, coisa um pouco pior do que ser mulher, apesar de tudo. E era “pouco experiente”...
Foi isso que, dizem todos os observadores, influenciou o autismo da senadora que não percebeu a tempo que estava perante uma nova maneira de fazer política e de passar uma mensagem. Obama introduzia a novidade e mais ainda lembrava as grandes campanhas democráticas de esquerda desde Stevenson até H Humphrey ou Eugene Mc Carthy. Apoiava-se numa rede de jovens universitários que estabeleceu contacto com a inteligentsia liberal sem perder de vista largas camadas de desfavorecidos. O resultado começou imediatamente a ver-se nas recolha de fundos. Para Obama vinham as pequenas mas muitas (muitíssimas!!!) contribuições de 1, 5 10 ou 20 dólares que justamente por serem tantas ultrapassavam os cheques generosos dos habituais dadores. Vinham também obviamente grandes contribuições que, desde o início, Obama também teve adeptos bem instalados (Oprah, por exemplo...).
A candidatura Clinton foi durante demasiado tempo sobranceira e conservadora. Não reparou nisto como não reparou que Obama conseguia fazer passar a mensagem em territórios e grupos que normalmente não se movem. De repente a afluência aos comícios e votações cresceu exponencialmente e Obama converteu-se num candidato credível.
Entretanto, dois Estados (Florida e Michigan) desobedecendo às instruções e aos regulamentos da Campanha Democrática adiantaram as suas primárias sendo por isso sancionados. O comité Democrata com o apoio expresso, claro e irrecusável das duas campanhas declarou nulos os resultados das primárias. E foi de tal modo assim que a candidatura Obama nem sequer apareceu nos boletins de voto entregues aos eleitores (poucos, aliás) que apareceram para votar. A senadora Clinton, candidata única viu-se vencedora de um combate inexistente. Mas como ainda esperava uma maioria confortável, sobretudo graças aos super-delegados, ela própria aceitou o castigo do comité Nacional Democrata e a invalidação dos votos ilegalmente aparecidos.
Só que... a campanha Obama ganhara força e pouco a pouco este candidato se destacou claramente (mais Estados a seu favor e o dobro das vitórias em primárias). Ganhou em todos os tabuleiros excepto nos grupos hispânico e feminino (neste todavia a derrota não foi sequer expressiva). Perdeu igualmente, há que dizê-lo em Estados onde a situação económica dos trabalhadores brancos baixara que votaram pela senadora.
Neste momento, é impossível à senadora (a menos que haja um milagre) ter mais votos e delegados que Obama. Também parece irreversível a deslocação dos grandes eleitores para este. Desde o poderoso clã Kennedy até ao senador John Edwards, o terceiro concorrente, as vozes a favor de Obama tem crescido.
A senadora entretanto jura que se manterá na corrida. Para quê? Não parece previsível que depois dos contínuos e desajeitados ataques ao adversário este a queira no ticket presidencial. É duvidoso que a sua persistência e tom de crescente acrimónia de alguns dos seus apoiantes favoreça o Partido Democrata. Aliás, Obama, tendo percebido isso, há muito que deixou sequer de responder aos ataques do campo Clinton.
Fica no ar, contudo, uma questão: não se nega a Hillary Clinton, inteligência e coragem. Tão pouco se põe em causa alguma (só alguma) da tão fantasiada e propalada experiência que ela brande. Apenas se pergunta: E a ética? Então os acordos (no caso a questão dos votos da Florida e do Michigan) já não se respeitam? Será que a senadora não vê que aquelas primárias foram mais falsas do Judas, dado nem sequer inserirem nos boletins o nome do adversário? Não vê ou não quer ver? Não perceberá que se fosse possível repetir essas primárias muito provavelmente o efeito arrasador da campanha de Obama poderia eventualmente fazer transferir muitos votos de Clinton para ele? E que por isso mesmo, o resultado final continuaria a ser exactamente o que agora se prevê?
Alguém, de um grande jornal europeu, sugeriu que a senadora está desesperada. E que o desespero é mau conselheiro. E isso leva-a a jogar no quanto por melhor, mesmo que para tal tenha, como tem, de recorrer à sua fortuna pessoal para pagar gastos de campanha porque os contribuintes já não apostam nela.
Como é que uma mulher com fama de ganhadora se arrisca a passar por “looser”?
E neste caso, a derrota não é apenas a dos votos mas também, e é isso que é dramático e triste, a da ética.

por d'Oliveira fã de Ford, Faulkner e de Ellington

* as gravuras não pretendem senão mostrar um pouco do clima que em todas as televisões se vai percebendo. eu não sou americano portanto não voto. Se votasse, votaria Obama nas primárias e, na votação nacional, o candidato democrata que saísse da convenção nacional se eventualmente fosse outro. Não tenho mau perder nem confundo as questões...

As eleições no PSD

Manuela Ferreira Leite foi eleita no passado sábado líder do PSD. É a primeira mulher a liderar um dos maiores partidos políticos em Portugal e isso já é um sinal dos tempos. A sua eleição foi também uma derrota das teorias de marketing político, da imagem, das agências de comunicação.
Confesso que estava à espera da sua vitória, muito embora fosse para mim uma incógnita a capacidade de Santana Lopes penetrar directamente junto dos militantes e de captar o seu voto, bem como o resultado da agregação de vontades e interesses em torno de Passos Coelho, mais por oposição aos “outros” do que propriamente pelas virtudes intrínsecas do candidato.
Venceu a ala mais institucional e conservadora do partido, uma mistura de ex-cavaquistas, ex-barrosistas e ex-mendistas, mas com uma margem suficientemente curta para manter o clima de tensão até às legislativas do próximo ano. Será curioso ver como fica a composição dos órgãos nacionais no congresso.
Passos Coelho cativou um sector mais jovem e irreverente, mas ficou refém dos apoios de Menezes e acólitos. A força dos votos que estes lhe deram pode ser também uma fragilidade para construir o seu próprio caminho, à partida excessivamente liberal para o eleitorado tradicional do PSD, seja nos costumes ou nas políticas.
PSL mostrou que ainda mexe, qual gato com sete vidas, e, apesar de limitado aos seus fiéis, acabou por ficar a apenas 700 votos de Passos Coelho. Não foi a catástrofe que muitos anunciavam e deu um rombo no porta-aviões de Menezes ao ganhar as eleições em Gaia.
Patinha Antão não era deste campeonato e o seu resultado demonstrou-o.
Agora vem aí a luta do “renovado” PSD contra Sócrates e o PS, mas Manuela Ferreira Leite parte com um handicap desvendado nesta recente campanha: a defesa do fim dos actuais regimes do SNS e da segurança social, com a apologia dos sistemas privados de protecção, não me parece que seja o melhor caminho para afirmar a vertente social-democrata (!) do PSD e conquistar os portugueses.

02 junho 2008

sobre a amizade

aos amigos do Incursões


por instantes o mundo se aquieta,
ouve-nos as conversas,
e percebe nosso prazer de partilhar a refeição
iluminados pelas idéias,
pelo afeto,
pelo vinho compartido.

novamente sabemos ser possível o entendimento
e a amizade voa nos nossos sorrisos.

silvia chueire


Amigos,

Volto amanhã à minha casa. Levo comigo a alegria de terconvivido com vocês, ainda que por pouco tempo, de modo francoe sentindo funda em mim a clareza desta amizade que vamos construindo. Espero poder retribuir qualquer dia destes o afeto,o calor, a amabilidade que me foram oferecidos.
Meu grande, grande abraço,
Silvia

30 maio 2008

A propósito do preço dos combustíveis: uma primeira questão

Tem-se falado muito no aumento desenfreado dos preços da gasolina e do gasóleo e do papel preponderante da especulação neste processo. Isto levanta, do meu ponto de vista, uma questão essencial nas sociedades actuais: o papel dos mercados financeiros.

Na palestra a que assisti hoje sobre sobre Economia Subterrânea e a Fraude referiram-se coisas importantes a esse propósito. Focou-se, por exemplo, o facto do mercado financeiro ser, há já bastante tempo, muito superior ao mercado real. Isto gera um desequilíbrio evidente que leva a “escoamentos financeiros” para zonas da economia subterrânea.

Mas, essa dimensão dos mercados financeiros comporta sobretudo um outro perigo que se revelou violentamente no caso dos cereais e que se revela agora também nos combustíveis. Estes mercados tendem a fixar-se naturalmente nas fontes da economia real mais rentáveis. E, como se costuma dizer que o mercado financeiro não tem rosto, não tem qualquer problema em avançar com movimentos especulativos sobre bens que, ou põem em causa a sobrevivência imediata, como é o caso dos cereais, ou colocam em sério desequilíbrio a economia real, como é o caso dos combustíveis.

Todavia, não nos deve causar admiração nem tão pouco indignação o facto destes mercados sem rosto funcionarem assim. Foi com esta lógica que eles foram criados e desenvolvidos. E é tudo legal apesar não ser lícito. O que nos deve fazer indignar é o facto dos Governos se terem fragilizado a tal ponto que ficaram sem meios eficazes de intervenção. Como referiu o economista Carlos Pimenta naquela conferência, passou-se sucessivamente duma situação em que os Governos tinham um planeamento e ditavam as regras do jogo, para uma situação de regulação, culminando numa incapacidade total de intervenção, Um exemplo gritante disso mesmo foi a situação caricata do Ministro da Economia que pediu um estudo para ver “ se se passava alguma coisa que desvirtuasse as regras da concorrência”. Pedir um estudo é o máximo que se consegue como capacidade de intervenção. Claro que agora se coloca também o problema para análise no Parlamento Europeu, mas as vozes que se ouvem focam apenas o lado da redução pela via dos impostos. E as outras vertentes? Nada. O mercado, esse conceito omnipresente, é soberano.

Muitos economistas defendem que há uma predominância acentuada do poder dos especuladores financeiros sobre o poder político. Se dúvida houvesse, esbatia-se no actual contexto.

A questão que fica é apenas esta: O papel dos especuladores nós sabemos claramente qual é. E a dos Estados? Qual é ou qual deveria ser?

Por outras palavras: quem nos defende?

29 maio 2008

TRIBUTAÇÃO LOCAL E REGIONALIZAÇÃO

Como se sabe, os impostos municipais Sisa e Contribuição Autárquica foram substituídos pelo Imposto Municipal sobre a Transmissão Onerosa de Imóveis (IMT) (ex-sisa) e pelo Imposto Municipal sobre Imóveis (IMI) (ex-Contribuição Autárquica).

Sucede que não se tratou de uma simples alteração na designação daqueles impostos. A reforma fiscal operou uma profunda alteração nos critérios de avaliação, o que teve como consequência, designadamente no IMI, o crescimento exponencial de valor do imposto pago pelos proprietários dos imóveis, sendo que a actualização progressiva da matéria colectável levará a que, nos próximos dois anos, o valor a pagar, pelo mesmo bem, continue a crescer a taxas verdadeiramente escandalosas.

(Quem pagava Contribuição Autárquica compare o que está a pagar de IMI e informe-se nas Finanças quanto pagará nos próximos dois anos).

Tudo isto se passou calmamente, sem convulsões nem qualquer reacção pública. Pelo contrário, na democrática Inglaterra, quando Margaret Thatcher procurou alterar o regime de tributação sobre a propriedade gerou-se um movimento que a obrigou a recuar e que esteve na génese do fim do seu governo.

Vem tudo isto a propósito de uma entrevista que Fernando Ruas, Presidente da AMNP, deu ao Jornal Vida Económica, em que declara que “os critérios de fixação do valor dos imóveis seguidos pelo IMI não estão correctos”. “Os coeficientes de localização foram estabelecidos pela administração central, sem ter em conta o parecer dos representantes do poder local”. Fernando Ruas defende, ainda, que as autarquias devem assumir a liquidação e cobrança dos impostos municipais.

Qual foi o reflexo público desta intervenção pública do Presidente da Associação Nacional de Municípios?

Que me conste ninguém agarrou o tema, secundando-o. Não se fez nenhum fórum, radiofónico, matinal nem as televisões organizaram debates com especialistas sobre estas matérias. Não é estranho que um assunto que preocupa milhões de pessoas e que preocupa o próprio Presidente da ANMP não ganhe espaço no debate público?

A transparência fiscal e a responsabilização pelas decisões ao nível da tributação local, designadamente, no que respeita à fixação dos critérios de avaliação dos imóveis e estabelecimento da taxa a aplicar, não podem continuar a ser decididas ao nível central. Devem ser os governos locais a poderem decidir sobre esses critérios e a arcar com a responsabilidade política pela liquidação e cobrança desses impostos. Deste modo, os próprios cidadãos podem estabelecer a relação directa entre o que pagam para a sua autarquia e os serviços que a autarquia lhes presta, podendo, ainda, estabelecer comparações com o que se passa em outras autarquias.

Numa altura em que a bandeira da Regionalização volta a desfraldar parece que o tema dos impostos locais bem poderia constituir um objectivo imediato nesse processo, tanto mais que nem é necessária nenhuma alteração legislativa de vulto para que os Municípios passem a liquidar e a cobrar os seus impostos.

UM PAÍS, DOIS SISTEMAS DE TRANSPORTES

A notícia do dia é que os transportes sobem em todo o país excepto em Lisboa e Porto.

Ora, aí está mais uma excelente medida a favor do desenvolvimento harmonioso do país, pese embora a duvidosa noção de justiça redistributiva que tal medida enuncia.

Au Bonheur des Dames 125


Da cidade para o mundo


Hoje quero carne!”, avisou a CG em tom cavernoso. E o caso não era para menos. Isto de tentar ir ao Vaticano numa quarta-feira não lembra ao diabo. Mas lembrou-me a mim, desconhecedor dos mistérios do rito. Resultado: praça cheia de gente vinda das mais desvairadas partes, com direito a missa e Papa.
E a basílica? perguntei a um carabineiro. Só depois da uma, respondeu-me.
Eram dez e pouco da manhã. Não me apetecia ouvir missa mesmo papal. O sol ia alto e quente. Entreguei-me ao “bon vouloir” da CG. Que começou por pedir um sumo fresquinho de laranja para pensar. Depois de meio sumo e três cigarros, numa esplanada, reconheceu que esperar tanto era “uma seca”. E regressamos ao mundo pecador, a tempo de almoçar num restaurante na zona do Panteão.
Ao nosso lado instalaram-se seis americanas, quatro muito novas e duas com ar maternal. Entre todas comeram duas pizzas sempre com ar enjoado. Uma delas rolava os olhos com medo de uma pomba que debicava restos. “The bird”, guinchava, I’m scared with the bird!. Olhando para a assustadiça que com os seus dezoito anos e setenta quilos confessava o seu horror pelo pássaro enquanto dizia mal de Roma, dos romanos, do tempo, da água S. Pellegrino e de não sei mais quê, percebi a razão de algum anti-americanismo europeu.
Pela tarde, e para se ressarcir do desgosto da não visita, a CG pediu para regressar à Via dei Condotti. A pretexto de umas compritas para a filha... Pimba! Se aquilo são compritas eu sou um americano com medo de pássaras...
A tarde quente, claro!, foi-nos guiando preguiçosamente por pequenas ruas e praças. Ainda tentei beber um cervejinha em S Lorenzo in Lucina (magnífica igreja!) mas as esplanadas estavam cheias como um ovo. Mais abaixo, em pleno Montecitorio as televisões entrevistavam uma “excelência” gorda e pesada que devia ter coisas importantíssimas para dizer. Subitamente numa esquina, dou de caras com uma cartoleria onde comprei uns papeis lindíssimos para encadernar a livralhada mais precisada. Eu perco a cabeça com estes papeis feitos à mão. O pior é o preço: 17 eurinhos por uma folha!
Jantámos magnificamente num restaurante na piazza de S. Eustachio (foi aqui que Leão X foi corado Papa.)
. Umas verduras grelhadas e gratinadas para abrir e o tal bife exigido pela CG. Eu refugiei-me num spaghetti alle vongole verace.
Ao nosso lado, outros seis americanos: dois homens, duas senhoras e duas raparigas. Civilizadíssimos. God bless America, murmurei in petto.

* na gravura: S Eustachio

28 maio 2008

RELATÓRIO DE ESTABILIDADE – BANCO DE PORTUGAL

O Bano de Portugal divulgou um documento que designa de Relatório de Estabilidade. No entanto, pelo seu conteúdo, bem poderia chamar-se: Relatório de Instabilidade.

Com base nesse documento a comunicação social faz manchetes em que dá relevo ao endividamento dos portugueses.
  • Segundo país mais endividado da zona euro;
  • As famílias, em média, estão endividadas 1/3 acima do rendimento que auferem;
  • O Banco de Portugal mostra-se preocupado com as famílias e com as empresas de menor dimensão;
  • A turbulência nos mercados financeiros indicia que as dificuldades serão ainda maiores nos próximos tempos;
  • As famílias vivem em “stress financeiro”.

Face a este quadro tão pessimista, bem podem as Câmaras Municipais e Juntas de Freguesia começar a organizar gabinetes para ajudar as pessoas contra o “stress financeiro”, uma vez que o Gabinete de Apoio aos Sobreendividados, da DECO, dificilmente terá capacidade de resposta.

27 maio 2008

Economia Subterrânea e a Fraude

No próximo dia 29 de Maio, pelas 21h, na Livraria Almedina do Arrábida Shoping, o Prof. Carlos Pimenta, da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, vai falar sobre Economia Subterrânea e a Fraude. Esta é uma iniciativa conjunta da Faculdade de Economia e da Almedina. A não perder.

Au Bonheur des Dames 124


Vacanze romane


Às vezes pergunto-me se vale a pena viajar. Eu gosto de Roma, foi amor à primeira vista vai para trinta e muitos anos. Voltei aqui mais três ou quatro vezes, a última há já catorze anos. Algo mudou. Eu mudei e de que maneira. A cidade também. Há mais turistas, mais obras nas ruas, que continuam, há que dizê-lo, tão esburacadas como sempre. Metade da Roma romana está fechada para novas escavações, para obras de reabilitação, para sei lá o quê... Pessoalmente não me afecta mas a pobre da CG ainda pouco conseguiu ver: a Domus Áurea só com pré-marcação e já não há para esta semana. O Coliseu tinha uma bicha quilométrica e os grupos com guia passavam á frente. Aso fim de um quarto de hora a bicha parecia ainda maior pelo que desistimos.
Quando pensei nesta viagem achei que não convinha vir na Quaresma nem na Páscoa por motivos óbvios mas que este fim de Maio era boa altura. Pelas minhas contas, o calor não apertaria e os turistas seriam em dose decente. Erro fatal! Está um calor de assar um cristão mesmo ateu como eu e os turistas (e eu também o sou) avançam em batalhões, regimentos, divisões, exércitos cerrados...
Já estou em programas alternativos e penso mesmo em deixar o Vaticano para o um futuro pino do Inverno. Duvido que valha a pena o esforço. Em contrapartida há exposições magníficas e essas não parecem ser alvo de demasiada procura. E dentro dos museus onde ocorrem está fresquinho...
Como estava fresquinho dentro de uma bela loja a que não resisti: lá merquei umas camisas de linho, deste linho que pede meças ao irlandês.Ai o consumismo... Tu quoque, Marcellus? Mas as camisas são lindíssimas. E depois já passei por umas gravatinhas... E a CG que morre por estas coisas, insidiosa: compre, olhe que depois arrepende-se por não ter comprado. A qualidade é boa, os preços uma tentação...
Ah, o diabo em forma de mulher é tão convincente. E nós homens somos tão fracos...
E agora o nosso minuto político: o novo síndaco de Roma um cavalheiro com o evocativo nome de Allemano, resolveu andar pelas zonas onde houve ataques xenófobos a consolar as vítimas. E a dizer que a culpa do racismo “rampante” é da esquerda que governou Roma: foram eles que encheram a Itália de estrangeiros e por isso despertaram as iras do bom povo romano!
Como se, desde, os Césares, Roma não tivesse estrangeiros em barda a fazer o que o romano não faz, nem quer fazer!

* na gravura: mcr e cg em Roma? Não. Apenas Gregory Peck e Audrey Hepburn no filme que dá nome à crónica

26 maio 2008

Por que não nacionalizar?

Eis a questão que MÁRIO CRESPO nos deixa no seu artigo de opinião, publicado no JN. MÁRIO CRESPO é um grande jornalista, do melhor que temos, por isso as suas inquietações e reflexões merecem ser tomadas em conta.

Pelos vistos o Congresso americano, também, anda preocupado com a falência do mercado, no que respeita aos preços dos combustíveis. E, a exemplo do que fez o nosso Governo, também mandou fazer um inquérito. As conclusões foram tão estapafúrdias que levaram o congressista Maxime Waters a colocar a "revolucionária questão" que Mário Crespo nos devolve.

O artigo de Mário Crespo merece ser lido por todos e, em particular, pelos decisores políticos. Atrevo-me a dizer que em vez de andarem por aí apelos a não abastecimento nesta ou naquela marca, a questão (exigência) que deveria circular deveria ser: Por que não nacionalizar?

Como diz Mário Crespo, “aqui nacionalizar não seria uma atitude ideológica. Seria, antes, um recurso de sobrevivência”.

E, já agora, de bom senso!

Manif's

Unidos pelos protestos contra a introdução de portagens nas auto-estradas SCUT (sem custos para o utilizador), centenas de automóveis rumaram ao centro do Porto no passado sábado, manifestando-se contra as intenções do Governo (ver aqui todo o dossier do JN). Ao que parece vieram de treze pontos diferentes do Norte e Centro do país, sob a liderança de um autarca comunista da Póvoa de Varzim.
Não vou discutir hoje a justeza das suas reclamações e os princípios que guiam as decisões do Governo nesta matéria, mas incomodou-me que tenham vindo manifestar-se para o Porto. Porquê o Porto? Acaso somos alguma caixa de ressonância do Terreiro do Paço?
As cidades e as populações de fora do Porto passam a vida a insurgir-se contra os defeitos centralistas do Porto, dizendo mesmo que, se houvesse regionalização, o Porto repetiria os mesmos vícios de Lisboa. Dizem que o Porto quer “dominar” o Norte e que para capital já basta Lisboa. Não discuto essas “boutades”. Mas virem invadir o centro da cidade do Porto com manifestações que interessam sobretudo a essas periferias, não deixa de ser irónico.
Querem manifestar-se? Pois muito bem. Então comecem por provocar efeitos nas próprias zonas de residência dos manifestantes, junto dos respectivos poderes locais, e deixem os outros descansados. Querem protestar alto e bom som? Tomem o caminho de Lisboa e entupam o Terreiro do Paço e ruas adjacentes. É lá que está quem manda!

Aniversário



Pois é, o Incursões já tem 4 anos. Quatro aninhos bem celebrados por um grupo cada vez mais unido. Não se pode dizer que escreva muito, mas é unido. Desta vez o repasto foi no Donna Pasta, restaurante situado em pleno Marco de Canavezes. Para fomentar o apetite de quem lê junto uma imagem elucidativa deste petisco. Digamos que é, seguramente, património gastronómico e até tem uma Confraria. Merece. Quem ainda não provou pode considerar uma lacuna grave.

Agradeço, e sei que comigo estão todos os outros, ao JCP e ao Carteiro o convite para este delicioso jantar. Obrigada pela ideia e, sobretudo, por tão bem a terem colocado em prática.

A todos os Incursionistas um abraço e, como se costuma dizer nestas alturas, que sejam por muitos e bons anos!

Nota: infelizmente não tivemos a presença do MCR que nos trocou por Roma (imagine-se!), do José António Barreiros, do Mocho Atento, do Lemos Costa e do Compadre Esteves que estiveram ausentes por razões pessoais. A estes aproveito para mandar um abraço e dizer que tivemos muita pena que não pudessem estar connosco.

Au Bonheur des Dames 123


Romeiro em Roma

Isto da internet sem fios está que ferve! À cautela trouxe o computador mas sem grande esperança de o conseguir conectar ao escasso grupo de leitorinhas gentis que me aturam. O hotel, hotel modesto, entenda-se mas absolutamente no centro de tudo, não tinha ar de ter internet. Pelo sim pelo não liguei o honrado modem fornecido (pagantibus!) pela Vodafone e lancei-me ao desconnecido. Milagre de São Marcello, Papa e mártir que se venera numa bela igreja em plena via del Corso, na praça, obviamente, de S. Marcello: após um bom número de piscadelas eis que me aparece a ligação. Alguém aqui nas redondezas está a pagar esta piratagem. Como por cá se diz “ho fatto il portughese”. Ou seja entrei á borla na internet de alguém. Ou como também se diz: em Roma sê romano.
E que faz um romano de fresca data (mesmo se apoiado pelo poderoso nome de Marcelo que já Virgílio cantou na Eneida (“tu eris Marcellus”) em Roma num domingo. Pois à cautela lembra-se de ir mostrar à CG (a noviça nesta cidade) a zona da Piazza di Spagna e adjacências luxuosas e sumptuosas. Não há perigo que é domingo pensei. Lojas fechadas, quanto muito apanho umas horas a ver montras.
Engano fatal, manas! Engano horrível, irmãos meus com mulher amantíssima a tiracolo: tutto aperto! Das 10 da matina até às dez da noite!
Então e o Papa? E a Igreja? E o dies domini? Nada! Niente! A via dei Condotti parecia a via dolorosa. A CG uivava como uma matilha de lobas antigas e romanas. Saltava de um lado para o outro da rua, de Gucci para Valentino de não sei quantos para não sei quem!
Chegámos esfalfados à piazza de S. Marcello já era meio dia. Um sol abrasador. A Igreja fechada! O Panteão cheio de povo, uma milagrosa e enorme Feltrinelli aberta: meu Deus dos livreiros, que coisa linda. Comprei só para vos fazer inveja os nove volumes do Inferno de Dante ditos e filmados pelo Benigni (cem brasas!, toma que já bebeste!): eu vira-os na RAI I e ficara esmagado. O raio do Benigni é cá um actor. E explica cada passo, cada referência diante de um público entusiasta e atento. Saia um Benigni para Camões. Saia um leitor comentador para esses “Lusíadas” imenso. Juro que Camões ressuscitava!
E comprei duas edições pequeninas da Divina Comedia e do Canzoniere de Petrarca. Só para ir lendo pela rua se me apetecer.
Também vinha por discos da Anna Identici, uma cantora fabulosa dos sessenta. Má sorte teve que, depois de prémios vários, S Remo incluído, se pôs a cantar coisas populares e feministas depois do sessenta e oito.
Dimenticata, disse-me o vendedor da Feltrinelli. Dimenticassima!, corrigi. Assolutamente, respondeu. Mas encontri um único exemplar dos “I Sucessi”. Mas não desisto. Hoje também é dia. E amanhã. E depois.
O que não há é o filme “Estate violenta” de Zurlini. Saiu em França mas cá, nada! Ah, estes italianos...
Em Roma sê romano. Dormimos uma sesta gorda que na rua como se dizia, à hora da calma só os cães e os franceses.
Hoje vou pilotar a CG pelas ruínas romanas. E almoçar no Trastevere. Depois conto.

*Igrreja de S Marcello

23 maio 2008

o gato que pesca 3


um interregno no Maduro Maio

ou de como as gatas Ingrid Bergman de Andrade e Kiki de Montparnasse Correia Ribeiro resolveram provar aos seus "donos" que também elas sabem fazer um seat-in contra a projectada viagem destes últimos a Roma. A Roma? A essa cidade paraíso de gatos e gatas de linhagem patrícia? E sem nós? Era o que mais faltava...
E vai daí ocuparam a mala da "dona" desafiando-a a tentar meter lá uma simples peça de roupa.
Muito me temo que a repressiva CG não se deixe convencer por esta ocupação pacífica e à força as desaloje. como ocorreu no Panthéon, justamente...
Enquanto uma turba multa de "incursionistas" se preparam para uma jantarada em terras do perigoso JCP o último fumador de autênticos "Cohibas" e de um serão nas propriedades de "o meu olhar" e JSC, este escriba terá de se consolar com um jantarinho no Campo de Fiore...
Às leitoras que bem precisam deste descanso de escrita e aos camaradas do blog um até para a semana.
As gatas contestatárias e ocupantes ficam entregues aos cuidados da enteada Ana e da bem humorada D. Eugénia. Elas sobreviverão ao desgosto de não nos verem um par de dias.

22 maio 2008

Estes dias que passam, 111


Torcato Sepúlveda

Não é fácil definirmos alguém com quem raramente estamos como um amigo. Na verdade, o próprio facto de se somarem mais ausências do que presenças, inviabiliza, ou, pelo menos, atenua, essa amizade que tantos proclamam e que consegue até nutrir-se de distância e silêncio.
Abro porém meia excepção para o Torcato. Não éramos amigos mas apenas conhecidos desde Coimbra. Mais precisamente desde 1969. Nessa altura o Torcato era m miúdo reguila com um vozeirão. Os meus amigos achavam-no insuportável e classificavam-no sumariamente : um “contesta”. Eles, muito mais velhos, mais experientes, condenavam sem grande esforço qualquer um que pusesse em causa a sua autoridade. Ou que os pusesse em causa, simplesmente. A história deu-lhes razão. Uma luta estudantil não era pêra doce. E naquele tempo ainda menos. Havia que saber parar. Havia que conciliar. O Torcato, que devia ser caloiro, não estava pelos ajustes. Falava entusiasmado, aos arranques, com o corpo todo e, por ele, não era possível outra solução que não passasse pelo esmagamento absoluto do adversário.
Depois disso encontrámo-nos duas vezes. No lançamento de um romance do Assis Pacheco e por ocasião de um “brain storming” patusco que um Secretario de Estado da Cultura patusco e ignorante realizou com todos os seus directores e sub-directores gerais e na presença da imprensa. Duas vezes em quase quarenta anos. Em ambas, porém, estivemos à conversa uma tarde inteira. Horas e horas a falar de algo que nos interessava, livros sobretudo. E em ambas as ocasiões despedimo-nos jurando que depressa nos voltaríamos a ver para discutir mais uns pontos daquela nossa agenda inesgotável.
Devo corrigir o que acima disse. O Torcato, muito certamente, nada sabia de mim, mas eu lia-o com constância. E com respeito. E com carinho. Foi responsabilidade dele o melhor suplemento cultural que o “Público” jamais teve. E logo que ele saiu, aquilo foi caindo, caindo, até se chegar a este inóspito pedaço de papel onde tudo desde o espectáculo mais pimba até umas vagas notas de leitura se mistura, se acavala, se repele. A ânsia de ganhar dinheiro vai de par com o desprezo pela cultura e pelos leitores. Às vezes pergunto-me se os responsáveis do Público lêem o El Pais, o ABC ou o Le Monde. E se, lendo os seus suplementos literários ou culturais, se envergonham. E no caso de eventualmente se sentirem mal, por que é que não se perguntam: o que é que o Torcato diria “disto”?
E antecipo uma resposta. À maneira de Jarry, melhor dizendo, Ubu: Merdre!

* na gravura: Ubu por Max Ernst.


Bartolomeu Cid dos Santos
biblioteca
painel na Estação de Metro
de Entrecampos
Lisboa

21 maio 2008

Maio, maduro Maio 5





MUITOS VERÕES VIOLENTOS



Amore stanco amore d'officina,
amore che si spegne goccia a goccia

mentre corre veloce la catena
e tu perdi ogni giorno un po' di noi

Amore stanco amore che la sera
non sa più ritrovare il suo sorriso
Ci guardiamo dietro l'ultimo boccone,
ma troppo stanchi per vederci…
…..

Este é um trecho de uma canção de Ana Identici. Detenhamo-nos um minuto nesta cantora. Foi sensação em S Remo, era bonita, tinha boa voz, estava destinada a ser uma diva da canção. Todavia em pleno 68 achou que não queria ser apenas isso e começou a cantar um novo repertório. Combativo como se vê. A fama que rapidamente alcançou não era a fama que vale numa Itália que não quer sair do seu modelo. Hoje em dia, ninguém (quase ninguém) fala de Ana Identici. A mulher que cantou a condição operária, a condição feminina, a vida sem horizonte sofre o ostracismo a que foi votada pela boa consciência. Pelos que querem esquecer os anos de chumbo e, com eles, o resto, a revolta, a indignação e o medo a uma hipotética aliança DC/PCI que poderia ter mudado o destino do país.
Talvez assim se perceba o assassínio de Aldo Moro, por exemplo. Um governo claramente reformista que incluísse o PCI na área do poder afastaria duravelmente a impossível revolução com que os brigatisti sonhavam. E acabaria com os negócios frutuosos que, sob a capa complacente da direita da DC, engordavam os vários polvos, mafiosos ou não que alimentavam a crónica daquelas anos.
Entendamo-nos: as coisas não são tão simples como aqui, por economia, se apresentam, mas também não andam longe deste quadro geral. É que uma sociedade bloqueada não oferece grandes saídas e a Itália, mais do que qualquer outro país ocidental estava bloqueada. Extrema Direita e Extrema Esquerda encontram nesta situação o campo ideal de combate. E os poderes públicos alimentavam essa animosidade.
A deriva violenta da esquerda mais ou menos espontaneísta é todavia posterior à famosa e eficaz violência de direita alimentada pelos elementos mais radicais do partido de Giorgio Almirante. Foram mais de 4000 os atentados da direita, e dos cerca de cem assassinatos políticos registados entre 65 e 70 mais de oitenta trazem a marca da direita radical. Some-se a isso, que já é muito, a existência de vários complots dentro do próprio aparelho de Estado (alguns só muito tarde descobertos como o “Gládio”). A resposta não se fez esperar embora em ordem mais que dispersa. Elementos vindos do “Potere Operaio”, da “Lotta Continua” para já não falar em militantes directamente saídos da ACLI (Acção Católica Liceal Italiana) irão criar os primeiros grupos que praticam a luta armada (Esquerda Proletária, Voluntários Vermelhos, Grupos Armados Partidários – de Feltrinelli que morre aliás num atentado que preparava! ). Tudo começa por confrontos com elementos direitistas, deriva rapidamente para as zonas operárias “em defesa do proletariado oprimido”, continuará pela perseguição a elementos do PCI (aqui já são as Brigadas Vermelhas a operar) e finalmente enveredará pelas campanhas “sérias” de terror. Os anos setenta, os anos de chumbo, deixarão uma marca que ainda não desapareceu. Ainda há gente a monte, ainda há presos nas cadeias italianas, ainda há quem chore pelas vítimas que foram muitas e que, as mais das vezes nem sequer sabem porque morreram.
E há também o naufrágio dramático de um sonho de revolução e de transformação do mundo. A passagem de uma contestação saudável e necessária duma situação ingrata a uma luta em nome de um proletariado que se não reconhece nos seus pseudo salvadores, contra um “SIM” (Estado Imperialista das Multinacionais) que as Brigadas julgavam poder combater com uma revolução na Itália (com quem?), liquidando escolhidos representantes do Poder numa espécie de estratégia de acções exemplares que insurrecionaria as mais largas massas populares.
Isto que vem de ser sumariamente descrito foi elaborado em várias publicações por intelectuais universitários prestigiados e lido (mal lido) por jovens ultra-politizados com uma determinação só igual ao seu desconhecimento da vida de todos os dias. Por jovens que acreditavam, mesmo depois de Praga, numa organização ultra-leninista, num partido militarizado e na maldade intrínseca do revisionismo, do liberalismo e de mais uma série de crimes anti-socialistas constantes da vulgata em uso neste género de organizações desconectadas da realidade.
Os anos setenta verão um renascimento do terrorismo de direita (estação de Bolonha, 85 mortos mais de 200 feridos) que curiosamente apresenta motivações idênticas. Os radicais negros queixam-se do eleitoralismo do MSI, da falta de soluções salvíficas que liberte a Itália e o mundo do comunismo, reconhecem-se nas ditaduras latino-americanas do mesmo modo que Brigadas e Prima Línea se louvam nas guerrilhas, nos Tupamaros e nos Montoneros.
Em resumo: aquilo que hoje em dia muitos assacam à esquerda como se esta tivesse sido a única responsável dos “anos de chumbo” é, de facto, fruto de uma situação muito mais complexa, protagonizada por forças muito diferentes que chegam a incluir agentes do aparelho de Estado (serviços secretos, exército e polícia), crime organizado e agentes de potencias estrangeiras. Não, definitivamente a esquerda estudantil, ou parte dela, não é ré única no drama italiano. E se isso não lhe diminui as responsabilidades próprias também as não aumenta nem elimina as alheias. Que foram muitas. É altura de começar a falar delas.


* estação de Bolonha depois do atentado.

20 maio 2008

Quem haveria de dizer…

«Juiz-conselheiro explica 'saco azul' com sexo, mentiras e vingança»

«Almeida Lopes, juiz-conselheiro jubilado e primo de Fátima Felgueiras, afirmou ontem em tribunal que o processo "saco azul" de Felgueiras resultou de uma vingança passional, porque os arguidos Joaquim Freitas e Horácio Costa, denunciantes do caso, estavam apaixonados e queriam manter relações sexuais com a autarca.». In JN.

Portugueses mal amados

Há muitos portugueses mal amados. E como chegou esta cabeça pensante a essa brilhante conclusão? Pois, foi através da análise da forma como conduzem nas estradas esses ditos portugueses. Da forma e do respectivo meio de transporte. A quantidade de bombas que se vê por aí é impressionante. Quando se aproxima um BMW ou um Audi, todos nós, pobres ocupantes de carros “menores”, temos que deixar a passadeira livre para que possam deslizar à velocidade que lhes dá na real gana e que nada tem a ver com leis, limitações, ou essas coisas destinadas a gente menor. E a agressividade? E o encostar bem à traseira do carro da frente como quem diz “ então, não desamparas a loja?”.

Mal amados, é o que é. E vigam-se desta forma. A culpa é certamente das respectivas mãezinhas…

Há coisas boas…

Vi há pouco na RTP um programa interessante chamado, salvo erro, 30 minutos. Foram apresentados três casos.

O primeiro tinha por protagonista uma jovem de 25 anos que, devido a uma doença rara, vive num corpo de uma criança de 8 anos com limitações físicas muitíssimo complicadas que a obriga, por exemplo, a depender de uma cadeira de rodas e da ajuda de terceiros para se deslocar. Pois esta jovem, para além de tirar um curso superior, trabalha e, como se não bastasse, escreveu um livro, Como isto é façanha que persigo há anos, desfiz-me num enlevo de admiração por tal testemunho de coragem, trabalho e talento. Um exemplo para todos nós, que, basicamente, tendemos a gastar metade das nossas energias a apresentar as razões que explicam a nossa inércia.

O outro caso tinha a ver com uma outra jovem portuguesa que foi trabalhar para o McDonalds para pagar as lições de canto, já que o seu sonho era seguir uma carreira nessa área. Desistiu das aulas porque o dinheiro não era suficiente. Todavia, foi seleccionada para ser a representante portuguesa num concurso internacional para eleger a melhor voz entre os colaboradores dessa empresa. Na fase seguinte foi uma das três seleccionadas entre centenas de jovens. Foi à final e ganhou. Um conhecido produtor discográfico americano, que assistia ao espectáculo, convidou-a a ir a Los Angeles para gravar um disco. É caso para dizer: eu não acredito no destino mas que ele existe, existe.

O terceiro exemplo foi o do Rui Costa, ex-jogador do Benfica e agora Director Desportivo do mesmo clube. Tinha já visto há dias a ternura, o orgulho e a comoção do Rui Costa e dos seus dois filhos na despedida como jogador. Foi bonito de ver e ouvir.
Como portista que sou o que me ocorre face a este último caso é o seguinte comentário: o Porto Ganhou o Campeonato, o Sporting ganhou a Taça e o Benfica ganhou um Director Desportivo. Vidas…