15 agosto 2026

0 eclipse da razão mcr,14 de Agosto 2026 Uma artista negra, com honras de duas páginas num suplemento literário, vem dizer que enquanto os negros sabem muito sobre os brancos estes são de uma desoladora ignorância quanto aos primeiros. Nada a opor a isto que mais não é do que uma verdade a la Palisse. Todavia, conviria esmiuçar um pouco mais e, porventura, preferir algo como “alguns negros (não muitos, aliás) sabem algo sobre os brancos enquanto, por seu turnos “alguns” brancos conhecem (e desde o século XIX) o mundo negro e especialmente a África. Dentre este grupo de “africanistas” (o termo foi cunhado em gins do sec XIX para referir um punhado de oficiais do exército colonial que mesmo sendo colonialistas tentaram perceber e conhecer os povos negros a quem eles “traziam as luzes” da civilização ocidental, uma nova língua imperial, impostos, trabalho forçado, outra religião, panos coloridos e, em casos contados, o acesso a uma sociedade miscigenada, mulata, muito útil para a governação do que `época era um continente misterioso e muito propício a doenças medonhas que dizimavam o branco recém desembarcado. Não vou fazer a história do colonialismo seja de que raça for porquanto, em maior ou menor grau, a coisa foi idêntica em todas as latitudes. Actualmente, acabados que foram os impérios europeus, libertadas que foram as nações, nascidas à sombra doas fronteiras traçadas a regra e esquadro, temos que nas várias europas que se incluem no ocidente e as américas para onde foram desembarcados milhões de vítimas do tráfico de escravos (uma boa parte obtida graças a comunidades negras costeiras que poupavam aos comerciantes esclavagistas a maçada de ir sertão adentro caçar a futura mão de obra para as agriculturas industrias daa américas, subsiste uma importante comunidade negra educada em padrões europeus que parece não ter um lugar confortável em parte alguma. E, todavia, trata.se de uma elite negra que se distingue ni desporto, ma música, na Academia e na cultura em geral. Não me estou a referir às elites africanas de África, mas apenas ou quase só às comunidades negras existentes na Europa Ocidental e nas Américas. E nestes casos também apenas me refiro a elites e não à totalidade da população mera e mestiça em vários graus mas maioritariamente economicamente débil e politicamente pouco influente para já não falar no estatuto a que u racismo persistente condena a maioria das populações não brancas. Músicos, romancistas, poetas, atletas (haverá ainda quem recorde ao magníficos e corajosos atletas africanos de punho fechado no pódio olímpico?) tem constantemente denunciado as dificuldades, o preconceito que acor da pele lhes acarreta mesmo se nem isso conseguiu arrebatar-lhes a fama, o reconhecimento público, a fortuna e o direito de opinarem sobre “o fardo do homem negro” (se me permitem citar arrevesadamente Kiplimg...) Tudo isto para dizer que se alguns negros sabem bastante sobre os brancos tal se dever ao facto de terem sido educados num mundo branco, numa língua branca dentro dos mais apertados parâmetros de uma civilização branca Citei acima a realidade africana no que toca às fronteiras herdadas da colonização. Nem uma foi beliscada mesmo se integram povos muito diferentes sob a mesma bandeira ou se, como aliás é regra geral dividem artificialmente povos. Para além desta primeira e absurda condição, há imediatamente uma outra tão grave quanto a primeira. As nações africanas com a eventual excepção da Etiópia tem todas uma língua oficial herdada do colonizador que é um dos poucos cimentos mesmo que artificiais da unidade nacional A terceira e trágica consequência é que as línguas vernáculas africanas estão em risco quase extremo de desaparecimento. É mesmo provável que algumas já tenham deixado de ser usadas, o mesmo é dizer que desapareceram não só do dia a dia, do ensino, da cultura africana subsistindo em poupados casos as que dicionários sempre (ou quase) elaborados pelos missionários cristãos que queriam “cristianizar” os povos. Em abono desses catequizadores é bom lembrar que muitos dos pais das independências tiveram aí a sua primeira formação política. De todo o modo, as aspirações independentistas partiram sempre das pequenas elites educadas e, em boa parte das vezes, mestiças e oriundas das cidades mais populosas. Resumindo: as actuais elites negras espalhadas pela Europa e América foram educadas nos regimes brancos e só nesses. Não admira que possam dizer e acreditar que conhecem o branco. Porém, aqui surge um outro problema: conhecerão estas pessoas a África de onde (eles ou os seus pais ou avós) vieram. Falam alguma língua africana que não seja a do colonizador, a tal "lingua nacional" que lenta mas seguramente vai estrangulando as línguas antiquíssimas dos seus antepassados? Das várias vezes que pude ter um contacto mais efectivo com politicos e intelecuuais africanos descobri que apenas falavam o português, recusavam as mais das vezes a etnia dos antepassados (coisa mais que evidente nos mestiços, et pour cause, mas também verificável em negros. Isto, de resto, é testemunhado por uma das mais conhecidas autoras sobre a África Ex portuguesa que nota admirada que, em Moçambique, entre vinte entrevistados apenas um se reclamava da sua etnia e provavelmente da sua língua materna. Recordo que um amigo meu africano e independentista ao ser interrogado pela sua etnia, respondia que era angolano! Todavia, não era isso que lhe perguntavam nem tinha especiais razões, inclusive políticas, para negar as suas origens a coberto de luta anti-tribalismo. Isto em 1968 quando tirando Luanda e mais um par de cidades onde uma elite pequena e mestiça tentava assumir-se como angolana sem perceber quê mesmo nos territórios onde a guerrilha se acoitava eram elementos tribais que sustentavam a luta e protegiam as escassas forças de libertação. Anos mais tarde, esse jovem "angolano perecia no tremendo morticínio de Luanda. UM outro conhecido meu, diplomata afirmava a sua "angolanidade" criticando o facto de em extensas zonas do vizinho Zaire de Mobutu, as populações do mato comerem macacos o que, a seus olhos de ex-estudante na antiga metrópole, era um indicio de selvageria. Não sei se ele saberia que na China se comia cão e em certos países inclusive africanos se comia jacarés. As notícias que vou tendo sobre os "estudos africanos" nos novos países africanos mostram uma aflitiva falta de qualidade face aos que desde há muito se levam a cabo em várias prestigiadas universidades europeias Aliás, basta compulsar listagens de obras sobre África para verificar uma estrnha falta de autores africanos no estudo e ensino do que era suposto ser a sua matriz cultural, Há um par de anos ao conversar com uma romancista. africano perguntei-lhe se ele fava alguma língua do seu país, português excluído. Envergonhado respondeu-me que iria estudar a dos seus antepassados emigrados para Luanda nos anos 20 do século passado. Finalmente, lamento ter de dizer que um movimento de jovens intelectuais angolanos "assimilados" e cidadãos portugueses de Angola, se propôs "descobrir angola" (Vamos descobrir angola). Tantos anos depois a conclusão é penosa: "foi chão que não deu uvas!" Sem tentar desmentir a senhora negra que afirmava conhecer os brancos enquanto estes não conheciam os negros, gostaria de propor aos primeiros que ao invés de se lamentarem pela sua invisibilidade (e aqui cito Ralph Elison autor de O homem invisível livro de que há tradução portuguesa e estará ainda em venda pelo menos pela Wook) tentassem de uma vez por todas tornar visível a riquíssima herança que em boa parte desconhecem.

Sem comentários: