29 setembro 2026

estes dias que passam 1078

 Noémia de Sousa: cem anos

mcr, 22 de Setembro 2026


Duas páginas(!) dedica o Público ao centenário de Noémia de Sousa, a "mãe dos poetas moçambicanos" no dizer de Zeca Afonso

Já nestas páginas (enfim nas paginas da anterior plataforma, SAPO) escrevi sobre esta poeta que  permanece desconhecida não só em Portugal onde nunca foi publicada mas também nos palor, Moçambique incluído apesar de ter sido lá que o seu único livro foi editado  ("Sangue Negro, Associação dos Escritores Moçambicanos, 2001, patrocínio dos Caminhos de Ferro de Moçambique).

É curiosa a história desta poetisa, que a partir de finais dos anos 50 se tornou uma ausência mítica para mais exilada primeiro em Portugal, depois em França de onde regressaria muito mais tarde para Lisboa onde morreu pouco depois da publicação do seu livro. Suponho que não terá nunca voltado a Moçambique de onde foi forçada a fugir depois de saber que a PIDE já andaria a vigia-la.

Também se sabe que a sua escassa produção acabou antes dos 25 anos que ela mesma teria entendido mais tarde que a sua poesia era muito juvenil, pouco trabalhada e provavelmente demasiado protestatáraria. Excesso de autocrítica, modéstia, incapacidade de produzir longe do torrão natal abruptamente abandonado...

Pessoalmente, estou em completo desacordo com ela, entendo que os seus versos tem força, autenticidade, ritmo suficiente originalidade  para merecer o elogio de Zeca Afonso.

Aliás, a notícia extensa do "Público" revela que terá sido editado uma biografia da poeta da autoria de Nelson Saúte que tem sido uma das vozes mais fortes e interessantes da crítica moçambicana.

Sabe-se, também, que no Brasil, terá sido reeditado o livro já referido a cargo da editora Kapulana.

Não há, porém, notícia de edições portuguesa, sequer de projecto de edição.

Tenho uma memória, eventualmente falsa, de ter lido num jornal de Lourenço Marques algum poema seu. Contudo, poderei estar a associar tal eventual leitura ao facto de, na mesma época (anos 54 a 57) ter lido Craveirinha  e algum outro poeta desde Reinaldo Ferreira a Rui Knopfi

Foi porém, nos meus anos de universidade que comecei a conhecer os poetas moçambicanos, a lê-lose mesmo, em certa altura, a ajudar a venda de algumas edições da Casa dos Estudantes do Império.

Também pela mesma altura, tive a honra e o prazer de conhecer Noémia de Sousa. Em boa verdade foi durante um dos agitados "Dia do Estudante" que terei entrado na cantina do Técnico com alguém que ma apresentou. Todavia, tal encontro foi fortuito, curto porque na altura havia urgência em ir para a rua, desafiar a polícia, protestar, enfim o dia a fia dos activistas associativos universitários. Aliás, eu vinha de Coimbra e dependia muito de quem me pilotava na contestação lisboeta.

ao longo dos anos, dos muitos anos, fui criando uma grande biblioteca sobre Áftica onde apenas vivi entre o 3º e o 5º ano do liceu. Mais tarde ainda fui a Moçambique por três vezes nas férias grandes (1962, 1963 e1965). No entanto, apesar de ter muitos amigos africanos e independentistas nunca mais lá voltei e não creio que alguma vez volte.

De todo o modo, como escrevi numa introdução a um catálogo da minha coleccão de arte africana " nós saímos de África mas a África não saiu de nós."

Vou assistindo entristecido e indignado à pobre sorte de várias ex-colónias  que pouco mais são do que países falhados graças a elites corruptas,  ineficazes, enquistadas em ideologias  emprestadas e incapazes de resolver oa problemas dos seus povos. Sistemas viciosos de partido único, de violência política e policial, de incapacidade para sequer garantir a segurança nacional  (como se vê nos imensos territórios do norte de Moçambique onde um guerrilha infame de radicais islâmicos leva de vencida as tropas do Governo mais capacitadas para matar civis do que para combater inimigos vindos de fora mas apoiados lá dentro ainda que por minorias. Um desastre que só não é maior porque tropas africanas estrangeiras tem vindo ajudar a tropa nacional.

Por vezes pergunto-me se o não regresso de Noémia à terra natal não resultaria de uma profunda desconfiança no regime moçambicano  da época. Que, de resto, não foi meigo para com os seus intelectuais, muitos dos quais perseguidos ou suspeitos. Mas isso é uma outra história que pouco tem a ver com o centenário do nascimento de Noémia que, não por acaso, escreveu um belo poema intitulado "  deixem passar o meu povo"...

Está por cumprir este pedido mesmo se, como dizia uma camponesa moçambicana  vítima de uma cheia ruinosa "Nós gostamos de viver".  E, de facto gostam, resistem, sobrevivem como aquela jovem mulher, vitima de uma outra cheia que deu â luz sobre o ramo de uma árvore para onde conseguiu fugir. Provavelmente é da mesma forte raça de Noémia que faria agora cem anos e que deixa um livro pequeno , eventualmente obra de principiante mas principiante que trazia em si bem acesa a chama da poesia, da poesia que sobrevive a tudo  e ilumina tudo. tarde ou cedo... 





17 setembro 2026

estes dias que passam 1077

 Não é risonha e menios ainda franca

mcr, 17 Setembro 2025

 

Isto de os meninos não terem lugar na escola não lembra nem ao mais pintado.

Ou melhor, lembra a quem se recordar que durante uma larga temporada o país escancarou as portas à vinda de emigrantes sem cuidar de saber-se tinha condições, já não digo dignas, mas apenas medíocres para os acolher.

Em boa verdade também não havia alojamento, médicos de família, hospitais para quem chegava ansioso por um trabalho mesmo mal pago mas numa terra tranquila. 

Durante algum tempo algum tempo umas alminhas gentis mas burras, uma imprensa pouco dada ao raciocínio e um par de espertalhões politiqueiros   passearam-se ufanos pelas redes sociais cantando as excelências do torrãozinho de açúcar.

Entretanto, este ano, a coisa descambou: nos primeiros dias descobriu-se que mais de mil alunos não tinham lugar em parte alguma, Nem escola mais próxima nem em nenhuma outra.

Que eu saiba foi só agora que   se descobriu   a lotação esgotada escolar!

Esmiuçando, talvez se perceba que alguém quer “acertar o passo” ao Ministro da educação. Aliás não faltam candidatos visíveis e invisíveis, mas com o rabo de fora.

As profundas mudanças no Ministério e, em especial na sua orgânica, não só não suscitaram um coro de louvores, mas mostraram que havia muitos calos pisados.

Por outro lado as escolas não se lembraram que em tempo de guerra não se limpam armas e entenderam ser preferível ter turmas pequenas a acolher os meninos que lhes batiam à porta

Ora entre dois males (excesso de alunos por turma ou condenação à não escolaridade dos pretendentes com toda a carga que isso significa), as escolas optaram pela última infame hipótese.

Também é verdade que escasseiam professores e quando não escasseiam logo aparecem umas oportunas baixas como ocorreu num estabelecimento que começou sem problemas até ao terceiro dias se deparar com quatro baixas  e poder assim engrossar o coro dos vampiros

Seria bom que a exemplo dos espertalhões que graças a uma médica bem paga tentaram e quase conseguiram ser reformados por invalidez.

Depois de tomar conhecimento dos dados do famigerado PTSA começo a pensar que a falta de conhecimentos e de preparação dos estudantes não tem apenas estes como culpados. Há professores que não levam a sério a sua função, houve políticos que acharam que facilitar   as provas finais, diminuí-las ou quase anulá-las era o caminho.

Não era e não será como, à nossa custa, se verá muito em breve.

Quando oiço um par de criaturas uivar que alguém quer destruir a “escola pública” basta apontar para o que se vai passando para perceber porque é que quem tem algum poder de compra foge para o ensino privado onde consta que os professores são mais bem pagos, não há greves e ocupam a quase totalidade dos melhores lugares nos rankings

(mesmo se se perceba que a diversidade social nas escolas públicas, ou em algumas delas, impeça que se atinjam resultados  melhores; aliás, este ano, uma escola pública de Viseu fez entrar nos cúneo universitários s mais exigentes um par de alunos ou, eventualmente, dois pares já não posso precisar)