19 outubro 2006

Diário Político 30

Noticias da frente de batalha: r.a.s.*

Quando o azar nos bate à porta, não há nada a fazer. Estava este texto (aliás outro com o mesmo nome) quase pronto e eis que o Pacheco Pereira se atravessa á frente e ganha por um largo passo. E ainda por cima tem um título excelente, qualquer coisa a falar de “rivolição”. E o caso não era para menos. A criatura que manda no Porto, não gosta de cultura. A cultura que se faz no Porto gosta pouco da rapaziada e menos do cavalheiro que tem a chave do cofre municipal. Vai daí resolveu dar a triste, pobre, quase desnecessária, machadada no Rivoli. Note-se que isto era como a fama do brandy Constantino: vinha de longe. Via-se a olho nu que o Rivoli estava por pouco, por um fio, sem dinheiro, sem público, sem horizonte visível. São muitas as razões, poucas as explicações, mas que havia deserção de público, dificuldades em criar um cartaz de espectáculos atraente, disso não há dúvidas.
Pacheco entende que a cultura deve ser paga pelos seus usuários, sobretudo se disser respeito a teatro, música e cinema, ou seja ás disciplinas que são mais caras, que exigem investimentos mais volumosos. E não deixa de ter alguma razão sobretudo quando refere os anos anteriores a Abril 74. De facto havia teatro comercial, desconhecia-se aliás o princípio da subvenção pública, excepção feita ao D Maria, a S. Carlos e às orquestras dependentes da Emissora Nacional e a um patusco grupo de bailado folclórico nacional chamado se a memória não me falha, “Verde Gaio”. Também é verdade que havia cineclubes que conseguiam viver das quotizações, revistas culturais que viviam das assinaturas, apesar das dificuldades impostas pela censura, e as sociedades de concertos não deixavam de ter uma impressionante actividade. Tudo isso ruiu fragorosamente, depois de 74. Os grupos de teatro começaram a ser subsidiados, as orquestras são integralmente pagas pelos dinheiros públicos, os cineclubes quase desapareceram, as sociedades de concertos estão numa situação agónica. Contra isso já aqui se escreveu (diário político 17).
Com isto começou a infantilização do público que se habituou a pagar uma soma simbólica pelos espectáculos e, mais grave, a infantilização dos agentes culturais que deixaram de considerar a vertente financeira da sua actividade. Pior mesmo: o maná distribuído com uma impressionante falta de critério aumentou a oferta “cultural” dando origem a dezenas, centenas de pequenos grupos, que funcionam em circuito fechado, mendigando pequenos apoios, montando pequenos espectáculos, criando públicos muito pequenos e voláteis, desprezando critérios de qualidade e finalmente desprezando o público pagante, culto ou não.
O discurso subjacente a isto, macaqueava o discurso de esquerda, o “direito à cultura”, à “liberdade criativa”, os “trabalhadores culturais” mas, de facto, pelo elitismo exacerbado (não estou a falar de qualidade, claro...) e pelo desprezo pela opinião pública recobria um claro discurso de direita, a aristocracia cultural como substituta da outra antiga e rançosa.
A ocupação do Teatro Rivoli decorre um pouco disto tudo e da ideia peregrina de que um problema de gestão das salas daquele complexo, se resolve pela voluntarismo de meia dúzia de criaturas que não conseguem perceber que ocupando o Teatro Rivoli, o que é sempre uma violência, uma ilegalidade, só dão armas ao senhor Rio, que se pode finalmente apresentar como vítima de um pequeno grupo de “okupas” sem apoio de massas, perante o desinteresse da cidade, dos seus habitantes, dos consumidores culturais.
Este pequeno rancho de “inocentes úteis” que não conseguem olhar mais longe do que o seu pequeno e feio umbigo, deu de mão beijada ao presidente da câmara, o teatro e a sua gestão, destruiu qualquer hipótese de protesto mais consistente e menos espectacular, eventualmente mais produtivo.
Este pequeno bando esqueceu-se das regras imortais e clássicas de toda a guerrilha: mover-se no seio das massas como o peixe na água. O mesmo é dizer que uma ocupação deste teor só se deve usar com um forte apoio exterior, com um claro discurso justificador, sem balivérnias como as que se leram nos jornais, com uma perfeita noção do “tempo”, enfim com inteligência.
E quando o dr. Francisco Assis, líder da oposição camarária, disse o óbvio, logo o dirigente bloquista Teixeira Lopes veio acusar o primeiro de institucionalista e de conservador. Tudo isto em simultâneo com apelos à população, aos intelectuais da cidade e ao público. Que ficaram em casa. E a história acaba desta maneira tristonha com meia dúzia de polícias a entrar no teatro e a prender os poucos ocupantes.
Convém dizer que, a meus olhos, a polícia até lhes fez um favor. Também é verdade que a polícia do Porto ou outra cidade não é obrigada a ser inteligente, se calhar até nem convém. Mais um dia e o movimento ocupante sem água nem luz morria. Por cansaço, pela indiferença generalizada e sobretudo porque os ocupantes não tinham uma ideia quer quando entraram na sala para a ocupar, quer quando resolveram continuar quer nos pobres manifestos que atiraram para a rua. Em suma fizeram o maior dos favores possíveis ao presidente da câmara e terão por isso escrito a página negra que faltava a este luto cultural que persiste em usar o pseudónimo de “cultura portuense”.

*r.a.s.: rien a signaler. título de um belo filme de Yves Boisset (1973) sobre a guerra da Argélia.

Referendo aprovado na Assembleia da República

Foi hoje aprovada, com o voto favorável dos deputados do PS, do PSD e do BE, a proposta de referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez nas primeiras dez semanas (ler aqui). Muito bem. Apesar de haver uma maioria de esquerda que poderia aprovar uma lei sobre o assunto favorável à despenalização – como sempre defendeu o PCP – o Partido Socialista não recuou no propósito de voltar a referendar esta importante questão, oito anos passados sobre a consulta de 1998.

Abre-se agora uma oportunidade para o debate, que se deseja esclarecedor, livre e sem fundamentalismos de qualquer espécie.

Au Bonheur des Dames 37

Carta a um leitor

Eu, Caríssimo Leitor, não sou um escritor. Lá gostar de ser, gostava, mas de facto, e aqui entre nós, não o sou. Escrevo muito, pois venho de uma família que durante longuíssimos e bons anos, se espalhou por esses imenso mundo fora, por todas as razões possíveis, exílio político incluído. Unidos como eram, e somos, escreviam longas cartas uns aos outros/outras. A campeã era obviamente a minha avó Aldina que devia ter um qualquer acordo privilegiado com os correios porque diariamente dava ao dedo e pimba!, três cartas, pelo menos ela enviava. Mesmo naquele tempo, aquilo representava dinheiro. Todavia, a Velha Senhora (era assim que eu e a prima Maria Manuel lhe chamávamos...) não desistia de escrever. Aos filhos, aos netos, às primas e sobrinhas a um numeroso lote de amigas e sei lá a quem mais. A tia Néné, idem, escrevia que se desunhava. Entre ela e a minha mãe aquilo parecia um teletipo de jornal em hora de movimento: as cartas cruzavam-se sobre o mar carregadas de pequenas novidades, notícias sobre a moda, sobre livros e filmes, sobre os familiares tudo isto atado por uma vaga filosofia de comportamentos que elas iam trocando em miúdos. Outros tios, eu mesmo, idem, aspas, mas já em menor grau (nós de certeza não tínhamos desconto dos CTT!). E se insisto nisto dos descontos é apenas porque a minha mãe (agora tratada juntamente com a tia Néné por “Old Ladies” – sempre a perigosíssima Maria Manuel a pôr nomes) que conta com uns garbosos oitenta e quatro anos, tem alguns extraordinários hábitos gastronómicos. Gosta de comer fora. E gosta porque aí não é obrigada a seguir a férrea dieta que se impôs a si própria por via do que ela chama uns probleminhas de saúde. Portanto, comer fora, é um álibi para o mais que venial pecado da gulodice numa senhora desta idade. Perto de casa dela, havia um restaurante chinês de grande qualidade. Mais caro que os congéneres, mas muito melhor, mais variado e com uma cozinha muito mais rigorosa. O venerando Manuel Simas Santos, grande conhecedor de cozinha chinesa, pode atestar o que digo. A senhora minha mãe tantas vezes lá ia, levava lá tantas, e tão diferentes, pessoas que o dono do restaurante, lhe ofereceu um cartão vermelho que a creditava como cliente especial com direito a 10% de desconto em qualquer despesa. Quando vi aquilo, comecei por pensar que o cartãozinho era uma primeira versão do famoso livro vermelho do falecido presidente Mao. O mariola do chinês seria um agente secreto encarregado de recrutar membros da 3ª idade para a boa causa. Mas o meu irmão, desiludiu-me: que não, que a China já não precisa de agentes idosos em Portugal ou em qualquer outra parte do mundo. A segunda hipótese que me veio à ideia era de que o caviloso gerente do restaurante quisesse de uma forma indirecta, cativar a minha “Old Lady” e, quiçá, propor-lhe casamento para poder estabelecer-se definitivamente em Portugal. (Coitado, pensei, nem sabes no que te metes...). Todavia, apesar de romântica, esta hipótese esboroou-se quando, numa vez que lá fui, ele nos mostrou dois filhos pequeninos, gordinhos, bonitos e absolutamente chineses.
A terceira ideia que me surgiu foi a de que talvez ele precisasse de uma sócia e preveni a minha mãe que, mais dia menos dia, a via na caixa do restaurante, a conferir as despesas dos clientes. A minha mãe disse-me então que, nesse caso, teria de pedir um desconto maior, um ordenado condigno, cabaias chinesas a condizer (Não vou andar lá vestida à ocidental!), caixa de previdência, 13º, 14º e 15º mês (é o mês lunar, disse-me a excelente senhora, na China é assim. Claro que não é mas eu não podia desiludir uma leitora de Somerseth Maugham e de Pearl Buck.). Enfim, acabei por acreditar que era mesmo um pequeno gesto de amizade e o reconhecimento devido a uma freguesa constante. Sempre que vou a Lisboa, lá agarro na autora dos meus dias e zás, Miraflores com os dois para o Palácio da China (pois o das vizinhanças, e do mesmo dono, fechou com enorme desgosto da minha mãe, das suas habituais parceiras de canasta que ela viciara em arroz chau-chau, em shop suey, chau min ou guo bao de San Xian, do meu tio Quim, e dos meus sobrinhos...).
Meu Caro leitor DMF, como V. pode ver eu já me perdi: estava a dizer que não era escritor e já lá vão duas laudas de comida com desconto!
Esta é a primeira razão porque não sou, nem nunca poderei ser escritor: perco-me. Pareço um desses viajantes que só o são porque, indo à mercearia por um quilo de batatas, só aparecem, quando aparecem, dali a una anos, muito queimados pelo sol, trazendo uma arara ao ombro e uma tremenda pronúncia brasileira. Vai-se a ver, esqueceram-se da compra urgente para o jantar e andaram, andaram até que tomaram o primeiro barco, fizeram-se aos trópicos, foram atacados por piratas, naufragaram nas Caraíbas, encontraram o Corto Maltese ou um bando de maoris neurasténicos e, pronto!, foram ficando, sabe-se por onde, sabe-se lá a fazer o quê, filhos claro, que isto de portuga vagabundo acaba sempre na cama de mulher doutras geografias...
Vê? Se não me acautelava lá apanhava com uma de luso tropicalismo pelas ventas, assim, como quem não quer a coisa.
Ponhamos que eu não sou escritor porque de facto sou um leitor. Como Você. Exactamente! Um tipo que, em apanhando uma folga, rapa da primeira coisa impressa que esteja à mão, senta-se, encavalita os óculos na ponta do nariz, pede uma bica e um copo de água, saca um cigarro (não, um cigarro não que eu já não fumo, que é impoliticamente incorrecto fumar mesmo num blog, ouviu Carteiro? - nem num blog!!!, que vem aí o dr. Correia de Campos e prega-lhe com uma taxa moderadora, e se não for ele, é outro como ele, mas mais magro, por exemplo o Dr. Vital Moreira, que agora vende banha da cobra pró-governamental que se farta, nada é mais triste do que um ex-comunista envergonhado, e lá estou eu outra vez a descarrilar, senhoras e senhores leitores façam o favor de não ler o que acima se escreveu, de o esquecer, de o negar, risquem as palavras, apaguem o computador, apertem os cintos que o comandante mcr e a sua tripulação vos desejam muito boa viagem) e lê, um livro, o jornal, a ementa, um anúncio, um edital ou, na falta disto tudo, a literatura inclusa que vem numa embalagem de aspirina.
Um gajo desta cepa nunca poderá ser um escritor, mesmo que o queira, que lho digam, que ele sonhe, pense, ou sequer suspeite. Um gajo deste género suja papel, mete letras num ecrã, tropeça no teclado e repara que, em três quartos de hora, conseguiu transformar uma carta séria e agradecida ao leitor David Monteiro Ferreira nesta babel que entretanto assina, mete no sobrescrito, cola um selo e expede ao cuidado dos CTT que agora se chamam, valha-lhes Deus!, comezinhamente Correios de Portugal.
Vai para David, com um abraço e um forte agradecimento: os leitores, Caro Amigo de Cortegaça, ainda por cima, terra marítima deste litoral maninho que se chama Portugal, são o sal da terra. E o prazer da escrita só é verdadeiro se for acompanhado desse outro que se chama o prazer da leitura. Melhor: a escrita só o é se, do outro lado, houver um leitor amável e atento. Até lá, é tão só uma garrafa com um papel dentro, deitada ao mar forte e franco que, de Caminha até Vila Real de Santo António, nos afeiçoou o ser, nos calejou o corpo com sal e sol e nos fez assim, diferentes mas iguais, mais de horizonte que de presente, mais portugueses do que qualquer outra coisa. É a nossa sina. Encomendemo-nos, pois, a S. Pedro, a S. Bartolomeu, à Senhora da boa Viagem ou tão só ao azar das ondas e do vento.

No Porto, no Molhe do Ferreira, em dia de mar forte e chuva, entre as cinco e as seis da tarde. Para David Monteiro Ferreira, leitor e amigo dos incursionistas, acompanhando a separata “gaudeamus igitur”.


«A votação foi secreta, mas face a rumores de que o resultado teria sido condicionado por influências do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP), o PÚBLICO apurou que apenas três dos 18 conselheiros presentes foram eleitos em listas apoiadas pela estrutura sindical liderada por António Cluny.» (excerto de noticia do Público)
*
Funções do CSMMP - ver aqui
Composição do CSMMP
Presidente
Procurador-Geral da República, Conselheiro Fernando José Matos Pinto Monteiro
Vogais
Membros eleitos pela Assembleia da República
Dr. Rui Carlos Pereira , Dr. Filipe Madeira Marques Fraústo da Silva, Dr. Eduardo Manuel Hintze da Paz Ferreira, Dr. João José Garcia Correia, Dr. António José Barradas Leitão - vogal a tempo inteiro
Membros designados pelo Ministro da Justiça
Dr. Júlio Castro Caldas, Dr. António Henrique Rodrigues Maximiano
*
Procuradores-Gerais Distritais
Dr. João Dias Borges, Dr. Alberto José Pinto Nogueira, Dr. Alberto Mário Coelho Braga Temido, Dr. Luís Armando Bilro Verão
Procurador-Geral Adjunto (eleito pelos pares)
Dr. João Manuel Cabral Tavares
Procuradores da República (eleitos pelos pares)
Dr.ª Helena Cecília Vera Cruz Pinto - vogal a tempo inteiro, Dr. João António Gonçalves Fernandes Rato
Procuradores-adjuntos (eleitos pelos pares)
Dr. José Mário Nogueira da Costa, Dr. Paulo Eduardo Afonso Gonçalves, Dr.ª Edite Paula de Almeida Pinho, Dr.ª Aurora Rosa Salvador Rodrigues


Silvia Chueire - sessão de poesia na Capela de Fradelos, 13-10-06

18 outubro 2006

Pintura de Maria Rosas em exposição no Porto

A artista portuense Maria Rosas, a quem já aqui me referi anteriormente, apresenta as suas obras mais recentes numa exposição colectiva que será inaugurada amanhã, quinta-feira, dia 19, pelas 21h30, na galeria do Ipanema Park Hotel, na cidade do Porto.

Essa exposição acolherá também os últimos trabalhos de Pi Osório, Inês Costa e Joana Gonçalves, podendo ser visitada pelos interessados até ao próximo dia 29 de Outubro.

17 outubro 2006



Au Boheur des Dames 36

A jornada portuense relatada a Madame Kamikaze
por mcr chauffeur de Madame Sílvia Chueire

Perdoarão as gentis leitoras que esta vá em forma de carta para Madame Kamikaze, aliás Lili Marlene, aliás hospedeira do ano. Razões, poucas mas substanciosas, como verão. Na verdade, a referida destinatária (gosto deste tom seco, indefinido, muito de auto de notícia ou de cursillo de formação, ou similar) estava em grande cuidado por não ter podido aproximar-se da capital do trabalho (ah, ah, boa esta, capital do trabalho...) tutelando os passos da nossa (do incursões) Cônsul Geral na praia de Ipanema e seu termo. Ou seja da Sílvia.
Fui testemunha, ainda que só de vista de telefonemas da Frau K. para a pupila. Pelas respostas adivinhavam-se as perguntas: estão a tratá-la bem?, o Carteiro ainda não fez propostas de alto teor lírico?, o mcr tem sido o chauffeur impecável que prometia?, têm-lhe dado de comer a horas decentes? E de beber? já lhe deram alguma coisa melhor do que o Mouchão (cfr Au Bonheur 35)?
Em suma, a coisa parecia um interrogatório de uma juíza de instrução a uma inocente testemunha em vias de se perder no meio de um grupo desordeiro, nortenho, de portistas fanáticos com a notável excepção de um navalista (de Naval 1º de Maio, essa mesma que ontem meteu uma seca ao Boavista em casa deste, desculpe lá senhor major mas a malta figueirense não ia vir por aí acima para ver as vistas...). Convém dizer que a Sílvia se portou bem, sem ceder aos cantos de sereia que lhe vinham de lá de baixo. Respondeu a tudo dizendo “bacana! Bacaníssimo” num brasileiro impecável estranhamente parecido com o português que usamos. Vejam lá o que a empatia é capaz de fazer.
Mas para que se faça luz definitiva sobre este derby Porto-Lisboa, deve ser aqui deixado relatório sintético da passagem do cometa Chueire pela cidade invicta.
Quem estas traça, encarregara-se com muito gosto de ir buscar a visitante vinda do outro lado do mar a Campanhã. Com a pressa esqueci-me de pôr boné e de lavar o carro. Desculpe lá Sílvia, foi o nervoso. De Campanhã para o hotel teve a nossa convidada possibilidade de conhecer uma cidade engarrafada e de verificar que o seu chauffeur não desdenha manobras perigosas, proibidas e de alto valor artístico. O passeio programado reduziu-se a ir do hotel da Bolsa até uma explanada do molhe para um “chopinho” e conversa porque o engarrafamento não mostrava sinais de cansaço. Nessa noite a Sílvia deu um recital na capela de Fradelos e alguns dos incursionistas tiveram o prazer de conhecer o leitor “Ferreira”. (Saravah, leitor amigo e atento! Mande a sua direcção para cá para na volta do correio lhe poder mandar uma separatinha que há tempos publiquei.). Cumpridas as funções poéticas fomos beber um copo a um dos múltiplos poisos do noctívago Carteiro. Pelo número de meninas que ele beijocou, ficamos a saber (já suspeitávamos...) que o cavalheiro é mais conhecido que a broa de Avintes e estimado na mesma ou em maior medida. Que inveja!
E já que se fala de broa, convém dizer que no sábado pela fresca matina foi a nossa convidada levada a conhecer uma verdadeira casa de pasto de Matosinhos para se bater com sardinha assada, broa e uns choquinhos grelhados. Como os convidantes eram dois (o próprio e o venerável Simas Santos, Manuelzinho para amigos, Sílvia incluída) não ficámos totalmente arruinados pelo animoso apetite que ela demonstrou.
Do jantar que reuniu a esmagadora maioria dos incursionistas nortenhos, verifico agora que ela própria já falou (acabo de ver no blog um texto da Sílvia que assim, à má fila me passa a palheta) que só peca numa coisa: esqueceu-se de referir o amável Carneiro, dono do restaurante que nos aturou até uma hora relativamente tardia.
Claro que a Sílvia ainda não percebeu porque é que a recebemos assim. Estas brasileiras são umas inocentes. A malta está já a consultar preços de avião, a estudar o calendário, a pedir informações meteorológicas sobre o Rio de Janeiro para em alegre excursão lá desembarcar e alojar-se, como está bem de ver, chez Sílvia, que os hotéis devem estar cheios e os restaurantes esgotados...

ps: Sílvia V ainda não partiu e já estamos com saudades!

O encontro no Porto

O encontro, a constatação de que as pessoas são mais do que eu podia esperar. Mais em gentileza, no olhar carinhoso para esta estrangeira que por razões do acaso foi parar num blog tão especial a torcar impressões com pessoas inesperadas.

A extrema confiança, a delicadeza, a inteligência, no trato comigo. As portas abertas. A amabilidade e a compreensão de todos. Os posts cheios de carinho.
Tem sido mais que um prazer estar com vocês. Muito mais. Tem sido a descoberta da capacidade das pessoas de serem próximas, humanas, francas e acolhedoras.
Hei de saber escrever sobre isto. Hei de estar à altura de vocês. Hei de poder apresentar o meu país com a mesma generosidade que vocês têm me reapresentado Portugal.
Como não amar um país que nos foi mostrado assim? Primeiro com os olhos do amor e agora com os olhos da amizade ?
Tenho ainda uma semana a desfrutar da hospitalidade da Kamikaze. A Kamilaze, esta pessoa que tem sido impecável comigo, que mais do que isso é um ser humano como há poucos. Não perderei um só minuto, sorvo-os com a clareza de que dias assim são um privilégio raro. E que sairei deles com outro privilégio ainda mais raro, o da amizade . Ainda volto aqui para escrever a respeito.

MCR, você foi perfeito! Mocho, você foi uma revelação. "O meu olhar" você confirmou o que eu suspeitava, a mulher inteligente, observadora aguda, seríamos já amigas se nos conhecessemos antes, tenho certeza. LC, eu sabia que vc seria esta pessoa elegante e discreta, de uma discrição que disfarça mas não oculta as qualidades que existem. Carteiro, havemos de ser amigos. JCP, obrigada pela sua mão na organização das coisas e pela presença, precisamos conversar mais. José, foi bom conhecer o seu olhar franco, muito bom. Estendam o meu agradecimento às esposas, ao marido, não se esqueçam. Apresentaram-me ao Porto que eu não conhecia. A cidade é encantadora e intrigante. Hei de voltar aí, para conhecê-la melhor.

Amigos, o jantar foi uma delícia, um jantar como sói ser, o prazer de uma fantástica refeição aliado à conversa ineligente e bem humorada, ao riso, ao vinho fazendo o complemento sem uma aresta sequer, ao afeto.

Escrevo este post com a noção clara de que é pouco o que digo. Com a noção perfeitamente clara que há momentos em que as palavras são insuficientes, pequenas. Mas o que posso fazer? Sou pequena e pouca frente a tudo que me tem sido oferecido. E não é falsa modéstia. É, isto sim, lucidez. Faço o possível.
Ainda voltarei para dizer algo sobre Lisboa e as pessoas daqui. Porque sou teimosa e estou tão encantada e grata.

Muito obrigada por tudo ! Muito!

Silvia Chueire

15 outubro 2006

tacones lejanos (*)


Foto: Kamikaze


Os táxis não têm taxímetro e acordar o preço da corrida não é empresa fácil, não só pela barreira da língua e endémica antipatia dos residentes para com os estrangeiros (há quem lhe chame xenofobia), mas também pelo sistema organizado de "caça aos patos"; no Metro anda-se quase tanto por corredores de ligação e escadas rolantes, sem fim à vista, como entre estações; mas a cidade é plana e tudo em redor parece merecer o olhar, disposto ao agrado, do passeante em férias. Percorre-la a pé parece a melhor solução.


Foto: Kamikaze Turistas modernos, munidos de sapatos cómodos (ainda que não necessariamente ténis), cruzam-se com os autóctones. Eles, charlando animadamente, em bandos machos ou acompanhando molemente raparigas elegantes como poucas, mantém fidelidade ao modelo calças escuras com pinças/camisa clara de colarinho entreaberto; de cabelos à Iuri dos filmes do tempo do MacCarthy, exibem sapatos de biqueira longa, fina e levantada, ao velho estilo "matar baratas", que as deve haver e muitas, naquelas casas que já foram imensos e ricos palácios e que, transformadas em habitação colectiva, se degradaram até ao limite e agora, fachadas deslumbrantes restauradas ao pormenor para glória da pátria russa, se adivinham ainda decrépitas no interior;

Foto: kamikaze

elas, queixos empinados em pescoços de garça, semi-nuas (**), olham em frente indiferentes aos olhares que não despertam (a não ser dos tais "patos" e mesmo "patas") e, empoleiradas nas suas andas, pisam o chão com firmeza. Com ruído e por vezes mesmo com estilo, lá vão taconando, taconando. Na caríssima São Petersburgo não há escassez que impeça as jovens mulheres de exibirem os últimos trapos da moda, numa curiosa interpretação do "estilo MTV", nem pézinhos que não saibam calcorrear quilómetros, com segurança, ainda que envoltos em finas tiras douradas cobertas de falsos brilhantes, encarrapitados nuns saltos agulha de fazer inveja a qualquer habitué da calçada portuguesa.Foto: Kamikaze
Por vezes um pré-adolescente passa rasando no seu skate mas, mesmo sendo já avançada a noite - as gentes desta cidade são animadamente noctívagas - nem o ruído das rodas chispando na inesperada utrapassagem as faz desviar o olhar do seu rumo, um ponto fixo algures no além inatingível dos intermináveis prospeckts, exibindo os seus dourados refulgentes de novos, que parecem querer levar o ofuscado visitante ao clímax, no brilho do sem fim das cúpulas em cebolinha que encimam outras tantas basílicas resgatadas da longa noite estalinista.

(**) por inveja (claro!) só coloco aqui fotos das semi-vestidas.


(*) postal dedicado à Silvia Chueire, brasileira descendente de libaneses, loira inteligente, elegante e classuda, que até nas calçadas mais antigas de Lisboa mantém a compustura e o estilo do alto dos seus... tacones lejanos :)
E à Gigi Mizrahi, mexicana também descendente de libaneses, ruiva, igualmente inteligente elegante e classuda, há muito consagrada desenhadora de jóias e que, vão la os homens entender (as mulheres percebem...) voltou no ano passado aos bancos da escola, agora em Itália, ombreando galhardamente com jovencitas de Milan aprendizes de... desenhadoras de sapatos. Passou com maestria, claro! Saudades, Gigi! :)
*
Fotos Kamikaze - S. Petersburgo, Agosto 06

13 outubro 2006

Suícidio

O texto que se segue veio do Brasil e chegou via email.

Parece um ponto de direito penal do CEJ, mas não é...

Em 23 de março de 1994, o médico legista examinou o corpo de Ronald Opuse concluiu que a causa da morte fora um tiro de espingarda na cabeça.
O sr. Opus pulara do alto de um prédio de 10 andares, pretendendo se suicidar. Ele deixou uma nota de suicídio confirmando sua intenção.
Mas quando estava caindo, passando pelo nono andar, Opus foi atingido por um tiro de espingarda na cabeça, que o matou instantaneamente.
O que Opus não sabia era que uma rede de segurança havia sido instalada um poucoabaixo, na altura do oitavo andar, a fim de proteger algunstrabalhadores, portanto Ronald Opus não teria sido capaz de consumar seusuicídio como pretendia.
"Normalmente," continuou o Dr. Mills, "quando uma pessoa inicia um ato de suicídio e consegue se matar, sua morte é considerada suicídio, mesmoque o mecanismo final da morte não tenha sido o desejado."
Mas o fato de Opus ter sido morto em plena queda, no meio de um suicídio que não teria dado certo por causa da rede de segurança, transformou ocaso em homicídio.
O quarto do nono andar, de onde partiu o tiro assassino, era ocupado por um casal de velhos. Eles estavam discutindo em altos gritos, e o marido ameaçava a esposa com uma espingarda. O homem estava tão furioso que, ao apertar o gatilho, o tiro errou completamente sua esposa, atravessando a janela e atingindo o corpo que caía.
Quando alguém tenta matar a vítima A mas acidentalmente mata a vítima B, esse alguém é culpado pelo homicídio de B.
Quando acusado de assassinato, tanto o marido quanto a esposa foram enfáticos, ao afirmar que a espingarda deveria estar descarregada. O velho disse que ele tinha o hábito de costumeiramente ameaçar sua esposa com a espingarda descarregada durante suas discussões. Ele jamais tivera sido um acidente; quer dizer, ambos achavam que a arma estava descarregada, portanto a culpa seria de quem carregara a arma.
A investigação descobriu uma testemunha que vira o filho do casal carregara espingarda um mês antes. Foi descoberto que a senhora havia cortado a mesada do filho e ele, sabendo das brigas constantes de seus pais, carregara a espingarda na esperança que seu pai matasse sua mãe.
O caso passa a ser portanto do assassinato da sr.ª Opus pelo filho do casal.
Agora vem a reviravolta surpreendente. As investigações descobriram que o filho do casal era, na verdade, Ronald Opus. Ele encontrava-se frustrado por não ter até então conseguido matar sua mãe.
Por isso, em 23 de março, ele se atirou do décimo andar do prédio onde morava, vindo a ser morto por um tiro de espingarda quando passava pela janela do nono andar.
Ronald Opus havia efetivamente assassinado a si mesmo, por isso apolícia encerrou o caso como suicídio

Portugal vale a pena

No meio de tanto negativismo sobre Portugal sabe bem ler uma abordagem positiva. Partilho convosco um texto que recebi por e-mail:

Portugal vale a pena

Eu conheço um país que tem uma das mais baixas taxas de mortalidade de recém-nascidos do mundo, melhor que a média da União Europeia.

Eu conheço um país que tem a sede de uma empresa que é líder mundial de tecnologia de transformadores. Mas onde outra é líder mundial na produção de feltros para chapéus.
Eu conheço um país que tem uma empresa que inventa jogos para telemóveis e que os vende para mais de meia centena de mercados. E que tem também outra empresa que concebeu um sistema através do qual você pode escolher, pelo seu telemóvel, a sala de cinema onde quer ir, o filme que quer ver e a cadeira onde se quer sentar.

Eu conheço um país que inventou um sistema biométrico de pagamentos nas bombas de gasolina e uma bilha de gás muito leve que já ganhou vários prémios internacionais. E que tem um dos melhores sistemas de Multibanco a nível mundial, onde se fazem operações que não é possível fazer na Alemanha, Inglaterra ou Estados Unidos. Que fez mesmo uma revolução no sistema financeiro e tem as melhores agências bancárias da Europa (três bancos nos cinco primeiros). Eu conheço um país que está avançadíssimo na investigação da produção de energia através das ondas do mar. E que tem uma empresa que analisa o ADN de plantas e animais e envia os resultados para os clientes de toda a Europa por via informática. Eu conheço um país que tem um conjunto de empresas que desenvolveram sistemas de gestão inovadores de clientes e de stocks, dirigidos a pequenas e médias empresas.

Eu conheço um país que conta com várias empresas a trabalhar para a NASA ou para outros clientes internacionais com o mesmo grau de exigência. Ou que desenvolveu um sistema muito cómodo de passar nas portagens das auto-estradas. Ou que vai lançar um medicamento anti-epiléptico no mercado mundial. Ou que é líder mundial na produção de rolhas de cortiça. Ou que produz um vinho que "bateu" em duas provas, vários dos melhores vinhos espanhóis. E que conta já com um núcleo de várias empresas a trabalhar para a Agência Espacial Europeia. Ou que inventou e desenvolveu o melhor sistema mundial de pagamentos de cartões pré-pagos para telemóveis. E que está a construir ou já construiu um conjunto de projectos hoteleiros de excelente qualidade um pouco por todo o mundo.

O leitor, possivelmente, não reconhece neste País aquele em que vive - Portugal. Mas é verdade. Tudo o que leu acima foi feito por empresas fundadas por portugueses, desenvolvidas por portugueses, dirigidas por portugueses, com sede em Portugal, que funcionam com técnicos e trabalhadores portugueses. Chamam-se, por ordem, Efacec, Fepsa, Ydreams, Mobycomp, GALP, SIBS, BPI, BCP, Totta, BES, CGD, Stab Vida, Altitude Software, Primavera Software, Critical Software, Out Systems, WeDo, Brisa, Bial, Grupo Amorim, Quinta do Monte d'Oiro, Activespace Technologies, Deimos Engenharia, Lusospace, Skysoft, Space Services. E, obviamente, Portugal Telecom Inovação. Mas também dos grupos Pestana, Vila Galé, Porto Bay, BES Turismo e Amorim Turismo.

E depois há ainda grandes empresas multinacionais instaladas no País, mas dirigidas por portugueses, trabalhando com técnicos portugueses, que há anos e anos obtêm grande sucesso junto das casas-mãe, como a Siemens Portugal, Bosch, Vulcano, Alcatel, BP Portugal, McDonalds (que desenvolveu em Portugal um sistema em tempo real que permite saber quantas refeições e de que tipo são vendidas em cada estabelecimento da cadeia norte-americana).

É este o País em que também vivemos.
É este o País de sucesso que convive com o País estatisticamente sempre na cauda da Europa, sempre com péssimos índices na educação, e com problemas na saúde, no ambiente, etc.
Mas nós só falamos do País que está mal. Daquele que não acompanhou o progresso. Do que se atrasou em relação à média europeia.
Está na altura de olharmos para o que de muito bom temos feito. De nos orgulharmos disso. De mostrarmos ao mundo os nossos sucessos - e não invariavelmente o que não corre bem, acompanhado por uma fotografia de uma velhinha vestida de preto, puxando pela arreata um burro que, por sua vez, puxa uma carroça cheia de palha. E ao mostrarmos ao mundo os nossos sucessos, não só futebolísticos, colocamo-nos também na situação de levar muitos outros portugueses a tentarem replicar o que de bom se tem feito.

Porque, na verdade, se os maus exemplos são imitados, porque não hão-de os bons serem também seguidos?

Nicolau Santos, Director - adjunto do Jornal Expresso
in Revista Exportar

Diário Político 29

A liberdade não passou aqui

Temo-me que este vá ser um texto melancólico. E isso apesar do prémio Nobel da literatura ter sido atribuído a Ohram Pamuk um turco de Istambul, um escritor talentoso, um homem de coragem e de princípios. Claro que o prémio é político, quase sempre o foi quer pelas escolhas quer pelas recusas. Mas, uma vez isto sabido, vale a pena verificar se o prémio cai num escritor digno de o receber. E Pamuk é-o com certeza. Também o eram Amos Oz, um israelita critico, ou Adonis, um grandíssimo poeta libanês. Porventura seria este, em termos literário-políticos o que mais deveria recebê-lo. Mas a Academia sueca a tanto não chega, não chegará nunca. Têm medo, e o medo guarda a vinha. Poderão não dar o prémio a um judeu mas não se atrevem a enfrentar o poderoso lobby judaico atribuindo-o a um libanês, mesmo que este seja um poeta admirável e não tenha quaisquer relações com o Hezbollah ou outras bizarrias. Portanto a aposta no autor turco ganhava em várias mesas, sem sequer ofender a Turquia apesar de Pamuk já ter escrito sobre o morticínio arménio e sobre a questão curda. Aliás e desde há muito que alguma atenção se dava aos autores turcos. O problema é que na sua maioria eram muito à esquerda do que a Academia sueca está disposta a tolerar. Lembro Yasar Kemal, de quem se conhece entre nós, “Memed, o meu falcão” para já não referir o enormíssimo Nazim Hikmet.
Mas não era exactamente de literatura que eu vinha falar. Não que não valha a pena mas porque num diário que se intitula político não deve ter lugar central. Todavia a notícia do Nobel caiu no mesmo dia em que a Assembleia Nacional Francesa entendeu votar uma lei estúpida, aberrante e claramente perigosa na sua exemplaridade. Doravante quem afirmar que não houve genocídio arménio responde en tribunal e presumivelmente será condenado visto que a negação do genocídio é qualificada como crime. E vejamos como é que se votou esta lei. Mais de metade dos parlamentares saíram do hemiciclo para não a votar. Os restantes mesmo assim entenderam votar a referida lei. Só por isto já a coisa cheira a esturro. Mas há mais. Um dia destes, um qualquer outro lobby que não o arménio resolve propor uma lei que considere crime a negação da figura histórica de Jesus, Maomé ou Buda. Ou entende propor ao areópago uma lei que considere o “Terror” francês um crime conta a humanidade. Ou a Restauração. Ou a Comuna de Paris. Ou o mistério da Santíssima Trindade. E por aí fora. A propósito da Shoa e da perseguição ás teses negacionistas já aqui se terá dito que é lei burra e celerada. Porque nem permite a discussão entre os que falam de Holocausto e os que o negam. Em resumo não se permite que pela força dos argumentos históricos ou outros se convença o adversário da sua falta de razão.
Legiferar sobre a História é um exercício ridículo, arriscado e finalmente sórdido. Enfim, é lá com eles. Ou se calhar não. Imaginemos que um cidadão português se atreve a dizer que a comunidade arménia foi sempre a quinta coluna dos russos (brancos, vermelhos ou czaristas pouco importa) e que por isso criou no seio da Turquia, atacada por todos os lados (até pela Grécia...) um foco perigoso de instabilidade política que poderia levar (como aliás houve um projecto) à desaparição da Turquia dividida em protectorados. E que sabendo disso, os turcos de Mustafá Kemal seguiram os passos dos seus antepassados que viviam sob as ordens da Sublime Porta. E que os arménios foram perseguidos pelo sobressalto nacionalista dos turcos cercados e a ponto de se verem perdidos. E que as operações de afastamento dos arménios enfim.... E publica tudo isto num jornal, num blog, num livro. E um cidadão francês lê e indigna-se. E aproveitando o facto do autor temerário se passear por Paris para ir até ao Moulin Rouge ver o can-can o denuncia. E as autoridades interpelam-no e um jovem juiz de instrução aplica-lhe a lei com todo o vigor. E etc...
Ou estoutra hipótese: nos finais da 1ª guerra mundial, a Grécia sob a direcção de Venizelos entendeu atacar a Turquia, invadindo-a, ocupando Esmirna e alcançando zonas interiores da Anatólia. Posteriormente os turcos sob o comando de Ataturk contra-atacaram derrotaram os gregos numa série de batalhas, expulsando-os de todos os territórios ocupados e só parando na fronteira devido às ameaças dos anglo-franceses. A esta humilhante e estúpida derrota seguiu-se uma onda de refugiados gregos dos territórios onde desde os princípios da história tinham vivido (se alguém quiser ler um bom romance sobre o tema tem: “Cristo recrucificado” de Nikos Kazantzakis), fugiam obviamente dos turcos, viajaram em condições atrozes e deixaram milhares de mortos pelo caminho. Suponhamos agora que se considera que isto esta deslocação forçada de populações configura uma tentativa de genocídio sobre os gregos da Turquia... Ou que as multidões turcas que abandonaram a Grécia pela mesma altura sofreram das mãos gregas e ortodoxas os mesmos tratos de polé e que isso é também uma tentativa genocídio. Ou mais perto geográfica e temporalmente: o milhão e meio de alemães sudetas expulsos no fim da guerra pelas autoridades checas, entre vexames (acaso merecidos, mas inúteis e cruéis na altura da derrota) assassínios, roubos e violação de mulheres, que os houve e muitos, foram ou não alvo de uma tentativa de genocídio? E a ordem de Churchill á aviação aliada para bombardear sistematicamente alvos civis da Alemanha nazi, Hamburgo, Dresden e as restantes cidades num total que ultrapassa o milhão e meio de civis mortos, foi acaso um genocídio? E a ocupação do hinterland dos Estados Unidos com a consequente desaparição dos nativos?
Eu, pobre de mim, não quero ocultar a história horrível e infame dos desgraçados arménios, dos infelizes judeus, dos ciganos (de que ninguém fala, claro et pour cause...) ou de outro grupo humano que por motivos de raça, cor ou religião foi barbaramente atacado. Quero mesmo falar disso, vezes sem conta como falo da guerra de Espanha e das vítimas republicanas de Franco. Quero poder continuar a escrever sobre a bondade dos budistas ou a maldade dos muçulmanos whahabitas, atrever-me a pensar e discutir sem condenar o meu adversário a uma multa, á uma prisão ou a uma fogueira. A propósito houve ou não da parte dos portugueses uma tentativa de genocídio contra os crentes judeus? Estão a ver para onde nos querem levar?
Apetece dizer como Maurice Clavel (20 de Dezembro de 1971) na televisão: Messieurs les censeurs bon soir!
O que estas escreve, não tem a elegância do escritor e resistente citado, pelo que lhe prefere o bon mot de Cambronne: Messieurs les deputés, Merde!

A Lei e o Parecer

Estava a lei acabada de fazer a despedir-se do legislador, chegou-se-lhe ao pé o parecer logo armado em conquistador.
«Então esses parágrafos como vão?» Perguntou ele com jeito sedutor.
«Ai vão para aqui numa confusão!» Disse a letra com virginal pudor.”
«Deixe isso comigo». E num instante sacou os Ray-Ban...
Quando sorriu, fê-lo com um olhar tão interpretante que o fecho éclair da letra se lhe abriu.
Com a ratio legis toda à mostra o parecer não podia resistir, e toda a hermenêutica foi suposta no que o espírito podia consentir.
Explorou-lhe o sentido mais extenso que o elemento literal lhe permitia;
ensaiou o «a contario sensu» e chegou a arriscar na analogia.
Aplicou-lhe a maioria de razão dilatando-lhe o implícito contingente, de tal forma que, toda a enunciação, se abriu co-normativa de repente.
Todos os sentidos que a lei assim mostrou recortaram um quadro tão sugestivo que, mal os considerandos antegozou logo se lhe arqueou o remate conclusivo.
O parecer ficou exausto depois disto... mas parecia um relatório tão contente que se diria à secretária dum ministro fundamentando tudo, garboso e fluente.
Da primitiva lei, ficaram só sinais duma singela referência histórica;
mas dos três parágrafos originais temos agora cem páginas de retórica.
É assim que a doutrina consolida as fontes aligeirando-as da virtude presumida mas dando alcance aos curtos horizontes com que o apressado autor as manda à vida.

Recebido por email de Macau


nem um milagre em forma de palavra,
o poema que ando a procurar
só a angústia ao meio da noite
e o vazio da minha voz escrita

eu devia escrever um poema moderno
assim: m o d e r n o.
explicado e clean.
sem confissões,
sem verdades pessoais
que o transformem em parte de mim.

devia escrever um poema
em close up.
como os olhos castanhos
do cão, que me interrogam.
tudo o que faço é divagar
por entre a fumaça do cigarro.
e amarrar a ansiedade
com cordas de aço.

Um blues, senhores.
Por favor, um blues.



6ª feira, 13 de Outubro, 21:30
Capela de Fradelos, Porto



------organizar

----------------------aproximar

---------------------------------------------cidadão

------------------------JUSTIÇA


13 e 14 de Outubro

-------Fundação Eugénio de Almeida

--------------------------------------------------------------Porto

12 outubro 2006

O leitor (im)penitente 8

A vida custa a todos!

Já estou a ver alguma leitora amável e mais atrevida a dizer com os seus botões: até que enfim que aquele lírico do vale (eu escrevi lírico de propósito, leitorinha!) chamado mcr percebeu que estava no mundo dos vivos. E o façanhudo Simas Santos, apoia-a meneando a cabeça branquíssima. Se calhar também diz até que enfim...
A verdade, a verdade verdadeira, nua e crua, leitoras e leitores é que eu sempre andei por este mundo feio e vil. E sempre soube como ele era. E de tal modo o sabia que sempre que me era possível, ala que se faz tarde, exílio com ele, fugir disto a sete pés, fingir que isto não existia.
Algum leitor mais arguto lembrar-se-á a propósito desta última frase de um livrinho da imortal colecção Argonauta: “Os marcianos divertem-se” de Frederic Brown, se a memória me não falha. A história é simples: a terra é invadida pelos marcianos que pregam as piores partidas aos nativos. A todos excepto aos bêbados que tem mais em que ocupar o tempo e a um cavalheiro que, pura e simplesmente assevera contra toda a evidencia que os marcianos não existem. Quem quiser saber o resto que vá pelo livro que vale a pena e é barato.
E se viver para as bandas da capital que não perca tempo: aos Sábados (já aqui se disse) na rua Anchieta ali ao Chiado há uma feira de livros organizada pelos alfarrabistas. Volta que não volta há lá pequenos achados. Por exemplo: boa parte dos livros editados pela extinta “Hiena Editora”, uma empresa amável que publicou muitas e boas coisas, incluindo um Assis Pacheco de boa memória.
Ou, como foi o caso no passado sábado, e numa outra mesa (aquilo são mesas grandes cheias de livros), ofereceram-me (e eu comprei) uma série de “cadernos coloniais” da velha e respeitabilíssima Cosmos, a um euro cada. Levei tudo o que vi e o vendedor simpático ofereceu-me um outro exemplar perdido. Estes cadernos, leitores mais conservadores (que os tenho e respeito e estimo, então não?) são bem interessantes para um maníaco de África como eu porque recolhem biografias dos militares que fizeram as campanhas todas da ocupação, pacificação daqueles imensos cafundós, tal e qual o meu avô Manuel Patrício Curado, militar corajoso e honrado que pobre foi e pobre veio, ou menos pobre porque trazia uma catrefada de medalhas, das melhores, com que o país honrava os seus soldados. Dele apenas conservo a espada que das medalhas nem rasto. A prima Maria Manuel tem esse nome em memória do avô que não conheceu. Bem como o meu irmão, um tio e um sobrinho. Até eu em épocas perdidas o usei como pseudónimo... Aliás, e a propósito, a dita cuja prima, acompanhou-me e a mais um tio, leitor omnívoro, também a essa feira. E num gesto generoso e moscovita pagou-me já nem sei que livros que eu mercava. Bendita prima!
Mas tudo isto vem porque, interessado em mais caderninhos, enviei um mail a uma conceituadíssima livraria alfarrabista perguntando se, acaso, talvez, porventura, etc., tinham mais exemplares. A resposta tombou hoje: que sim, mas a quatro euros o exemplar! Ora toma! Nem lhes vou responder que aquilo parece o pinhal da Azambuja de outros tempos: quatro euros! Oitocentos paus dos antigos. Mas esta gente pensa que está a vender ouro ou quê?
Nesta mesma expedição lisboeta, tornada gloriosa por via de um jantarinho que nem vos digo nem vos conto chez Madame Kamikaze (cfr. Au Bonheur ... 35), fui ver a colecção Rau ao Museu das Janelas Verdes. Ora aqui convem dizer que esta foi a vez primeira que por ser cliente (pobre) do Banco Millenium (raio de nome!) não paguei a entrada. Vá lá. Mas não há bem que não acabe. O catálogo português estava esgotado há que tempos pelo que me tive de contentar com um em inglês. Ora aqui está mais um exemplo da não eficácia lusitana. Fizeram um número ridículo de catálogos, como é triste costume e pronto que se lixe a taça! Senhores millenarios com dois eles e u: abram um pouco mais os cordõezinhos à bolsa ( E voi altri signoroni,/ che avete tanto orgoglio/ aprite il portafoglio.... como se cantava – e canta – numa certa Itália do meu contentamento ) para que na sopa não caia mosca, que diabo! Se sobrarem alguns exemplares mandem-nos a escolas e museus e bibliotecas que algum leitor (tão penitente como este) lhes dará atenção.
E para acabar: a D. Quixote anunciou em princípios da primavera uma fotobiografia de Alexandre O’Neil: seis meses depois, pergunta-se (homenageando a cônsul honorária do Incursões no Rio de Janeiro, de seu nome Sílvia Chueire, psiquiatra, poetisa, porreirinha): “Cadê o livro ó quixotesca gente? Sai ou não sai?

Ps: Para quem viva no Porto ou seu termo: amanhã, sexta-feira, pelas 21:30 na Capela de Fradelos (Junto ao Silo-auto) há recital de poesia. Da Sílvia, claro! Os incursionistas lá estarão: babados!

11 outubro 2006

Tudo a bombordo 2

O lento e imprevisível percurso da semente

Porque é que uma pessoa é como é? Que alquimia misteriosa lhe deu origem? Não falo da origem física, isso já todos sabemos, ou presumimos saber, vai-se a ver e um dia destes com tanto gene, tanta DNA, tanta mitocôndria, ainda enlouquecemos mansamente antes de sabermos como foi que aqui nos puseram.
Falo de outra coisa a que um cavalheiro chamava a “circunstância”, isto é aquilo que nos distingue tão poderosamente como os palavrões de há pouco, o DNA para não ir mais longe. A maneira como pensamos, como reagimos, como sentimos. Ou mais concretamente, e neste caso meramente pessoal, e com a exígua importância que terá: Porque é que este cavalheiro de meia idade é, ou presume ser, de esquerda, se é que a palavra não ofende ouvidos sensíveis ou sequer levanta logo a tempestade dos que hoje em coro afirmam a sua inexistência ou, pelo menos, a sua não importância, esquerda ou direita são modas, e pronto já está, não se fala mais disso. A criatura que estas vai dedilhando no computador, um tanto ou quanto ao acaso (sei lá como é que isto acaba, olha no que me meti, mcr, juízo, pá, muito juízo, já não tens idade para estas coisas, cala-te e deixa andar, estás a meter-te em cavalarias altas de mais para as tuas fracas competências), sabe bem quais os seus limites mas persiste em afirmar-se de esquerda e jura que há uma direita ali mais para o lado e que entre ambas há diferenças e de peso, que são visíveis a olho nu.
Mas a verdade é que de há quarenta e muitos anos a esta parte venho-me sentindo de esquerda. Mais precisamente desde o ano de 1958, ano do Humberto Delgado e dos primeiros e formidáveis movimentos de massas a que pude assistir.
E tudo começou, em Braga, por um incontrolável burrice policial: de facto, com mais uns colegas de liceu, eu tinha ido ao cinema ver “A ilha ao sol” (do Robert Rosen com Harry Belafonte e Dorothy Dandridge, dois actores negros que deram que falar). Ora à saída um pelotão da polícia carregou sobre os inocentes espectadores e praticamente atirou-nos para uma avenida onde milhares de pessoas esperavam a pé firme pelo candidato Humberto Delgado, manifestando-se ruidosamente contra a polícia.
Até essa data, o meu pensamento político carecia das octanas mínimas para sequer dar à embraiagem. Mas as cacetadas policiais, acrescidas à história de amor e racismo do filme, deram-me num ámen todas as justificações necessárias para me sentir do “reviralho”. Isso e o facto de estar numa instituição chamada “internato anexo ao liceu” que era como o nome indica uma prisão para alunos liceais. A única de resto e que eu saiba, em todo o pais. Tinha que ser em Braga, claro. Valha a verdade que também fui expulso de lá por, em pleno refeitório, ter ferrado dois bofetões com muita alma e mais energia num energúmeno que me estava a dar cabo do juízo. Infelizmente a família meteu-se e fui readmitido até ao fim do ano escolar.
O restante tempo liceal, passado sempre em locais altamente vigiados, forneceram-me não uma teoria política mas, pelo menos uma praxis anti-sistema: eles eram padres, eu ateu, eles não nos deixavam pôr o pé em ramo verde, e nós fugíamos acrobaticamente por janelas e muros altos. Eles eram a autoridade e nós as vítimas. Nos intervalos, descobri que para sair de vez em quando do colégio com autorização, bastava ser sócio da Juventude Musical. Alistei-me logo. E para espanto meu comecei a gostar da música que por lá se fazia. E pelo teatro que entretanto também me permitiam ir ver desde que mostrasse o bilhete. E assim entre música clássica, Teatro Experimental do Porto e livraria Divulgação (posteriormente Leitura) comecei a frequentar um meio onde imperava a esquerda intelectual. As minhas desordenadas ideias sobre o mundo, foram-se organizando, com base em leituras em algo de mais sistemático. O mundo começava a ser percebido de outra forma. Os pobres continuavam pobres mas havia um fio lógico nessa pobreza.
Claro que, antes disto, algo teria acontecido (e aconteceu): eu venho de uma terra piscatória onde o meu pai era médico. Os clientes pagavam pouco e mal e a desoras. Ou nem pagavam porque não tinham dinheiro. Acho que o principal meio de pagamento era em espécie: pescador paga em peixe que pescou e que o mestre da lancha ou da traineira lhe atribui a título de caldeirada. Filho de pescador anda descalço ou de tamancos (Eu estou a falar dos anos quarenta). Filho de pescador vai à escola, faz a terceira classe e já está. Filho de médico faz a quarta e vai para o liceu. Isto poderia (nos romances pode sempre, claro) ter despertado uma consciência social numa criança sobredotada que faz tirocínio para Kim Il jong ou outra criatura do mesmo jaez. Todavia eu era apenas um mcr trivial e pequeno, que lia Júlio Verne e Emílio Salgari, pelo que não me caiu em cima nenhuma iluminação.
Mesmo em Moçambique, para onde parti aos treze anos e onde fiz o 2º ciclo dos liceus, não era fácil adquirir uma “consciência social” nesses verdes anos. A minha preocupação era a puberdade e os seus efeitos, o universo feminino e os seus mistérios, a autoridade paterna e os seus malefícios. E todavia, durante esses anos verifiquei que só havia dois rapazes negros no liceu Salazar, e um deles era o Joaquim Chissano meu colega de turma do 3º ao 5º ano; e que os negros eram criados, operários, camponeses mas nunca doutores ou engenheiros. E que viviam nos bairros do caniço e não na cidade de cimento. Mas o mundo era assim, ninguém protestava, criticava, sequer comentava. No Norte, no último ano da minha estadia em Moçambique, íamos muito para o “mato” visitar amigos do meu pai ou parceiros de bridge, o que vinha quase a dar no mesmo. Então aí o “branco” era um senhor. E os “pretos” nem português falavam. As pessoas mais avisadas aprendiam um pouco de makua e lá se aviavam. Os outros nem isso. E foi numa dessas terras perdidas no Norte, em Morrupula, para ser mais preciso, que vi, pela primeira vez um castigo colectivo: as culturas do algodão estavam atrasadas e o chefe do posto (e só lhe omito o nome porque sou amigo do filho, excelente pessoa e homem honrado) disparou para os cipaios do posto: kuekuero nesses grunhos filhos da puta. O kuekuero era uma espécie de raquete feita de borracha entrançada que doía que se fartava no lombo e rotundidades dos flagelado. O crime do malandro era o seguinte: deveria cultivar uma determinada parcela de terra com algodão que depois era comprado pela “companhia algodoeira”. A companhia assegurava-se da boa vontade do chefe de posto mediante um pequeno suborno e pagava a habitual miséria ao cultivador. Para quem não saiba o algodão é uma cultura que empobrece a terra (já de si pouco fértil) e obviamente enquanto se cultiva algodão resta pouco tempo para fazer a machamba de mandioca, milho e outras coisas comestíveis. O que encarece esses produtos básicos. Mais: em regimes de plena agricultura de subsistência, as culturas industriais são uma violência e servem, quando servem, para arranjar o dinheiro suficiente para pagar o imposto (talvez alguém recorde o “imposto de palhota”; para o efeito serve.). Ou seja a civilização ocidental e a economia de troca por intermediação da moeda entravam nestes cafundós ao mesmo tempo que o abuso e o castigo físico. A segunda coisa, vista com estes que a terra há-de comer, foi a inspecção sumária dos futuros trabalhadores “contratados”. Recordo apenas como se fazia o despiste da lepra, endémica em todo o norte de Moçambique. Queimava-se o peito do candidato com um cigarro. Se não reagisse teria lepra. Mas não é contra isto que falo. Ao fim e ao cabo toda a gente se queima uma vez ou outra. E mais vale despistar a lepra que deixá-la correr. Aqui o problema era o “contrato”. De facto os contratados iam normalmente trabalhar para as grandes companhias agrícolas, as mais das vezes longe, muito longe, da terra deles. Iam por todas as razões, boas ou más: para arranjar dinheiro para o lobolo a pagar ao pai da futura mulher, porque tinham dívidas, porque o chefe do posto mandava (ganhando a percentagem paga pelo engajador etc...). O regresso à terra costumava ser tardio não só porque o sistema funcionava a favor do empregador mas também porque o empregado devia continuamente dinheiro àquele por adiantamentos para vestuário ou alimentação, sistema de resto não exclusivo das sociedades coloniais. E regresso tardio significa, além da juventude perdida, filhos tardios. E significa também, mas disso ninguém gosta de falar, destribalização forçada sem substituto sociológico á altura, doenças venéreas contraídas durante o contrato, ou seja a entrada na modernidade pela porta das traseiras e com direito a tiro no intruso.
Mas tudo isto era algo que eventualmente eu já consideraria injusto mas que não tinha ainda consciencializado. A adolescência, a primeira adolescência não é terreno fértil para preocupações de ordem política ou social sobretudo se pertencemos a uma classe privilegiada, como era o caso. Todavia, a memória disso, existia e a seu tempo influiria nas escolhas de vida e de acção. O terreno estaria semeado mas ainda não chegara o tempo da colheita. Deixemo-la para os próximos capítulos.

Em nota: suscitei –e alegro-me – um debate que me parece sério e civilizado. Creio que irá continuar tendo sobretudo em conta dois dos argumentadores que mais achegas trouxeram ao anterior “bombordo”: José e “O Hóspede”. Bem-vindos e obrigado. E outra nota só: eu acho o dr. Salazar e o seu autoritarismo caseiro e aldeão profundamente detestáveis. Só não lhe chamo fascismo por questões de pura definição. Mas que era parecido, muito parecido (ou até uma imitação tosca e lusitana) ai lá isso era.

Sinal desastroso

Excerto de editorial de Eduardo Dâmaso, no DN

"Para quem vai trabalhar com os meios que existem e provavelmente um orçamento sem crescimento ou mesmo inferior, os amanhãs não parecem muito sorridentes.

Depois, também não ajuda que no dia em que o novo PGR pede aos portugueses uma especial censurabilidade em relação à corrupção se fique a saber que esta, na versão de quem corrompe, e o tráfico de influências fiquem fora da prisão preventiva. É um sinal desastroso que se dá à comunidade. Não têm sido nestes domínios os abusos da prisão preventiva e é muito no terreno dos crimes económicos que se joga uma outra coisa que Cavaco Silva também pediu ontem e é decisiva para a imagem pública da justiça: igualdade na aplicação da lei. Pinto Monteiro conta, portanto, com a sua determinação para mudar alguma coisa, mas os tempos não jogam a seu favor. "

Apanhados

foto DN



10 outubro 2006

Na agenda política

O tema da corrupção reentrou em força na agenda política. Tinha-se insinuado como tema premente numa intervenção de Jorge Sampaio e agora foi retomado, com muito mais realce e intensidade, por Cavaco Silva. Pelo seu lado, o novo PGR, Fernando Pinto Monteiro, na sua tomada de posse, pegou igualmente no tema. E se Cavaco Silva já tinha acertado em alguns alvos, o novo PGR apontou baterias para aspectos que considero fundamentais:

1º - Há que deixar de banalizar a corrupção. Mudar a imagem actual de “um mal menor”;
2º - Não esperar por novas leis e/ou meios para fazer o que é possível fazer-se.

Relativamente à primeira questão, a da banalização, é de facto um problema gravíssimo pelo seu enraizamento forte na cultura dos portugueses. É frequente ouvir-se: “Ok, todos sabemos que ele (político x) é corrupto, mas pelo menos tem obra feita!”; ou então “ É melhor pagares a (funcionário público y) caso contrário nunca mais vês o processo despachado”.
Todos conhecemos estas e outras frases parecidas. A corrupção dos detentores de cargos públicos, quer ao nível dos políticos quer de funcionários, é vista como uma realidade incontornável e com a qual nos habituamos a viver.

Há dias, numa entrevista na televisão, um conhecido actor brasileiro à pergunta se tinha gostado que Lula tivesse que ir a uma segunda volta, respondeu que tinha voltado nele nas anteriores eleições, mas agora não. Referiu que estava desgostoso, que o PT já não parecia um partido mas sim uma quadrilha de malfeitores. Quando lhe perguntaram se no Brasil havia muita corrupção entre os políticos respondeu” Não gosto de generalizações. Os políticos não são todos corruptos, mas que está difícil saber quem não o é, lá isso está!”
É uma grande verdade e é uma imagem perigosa.

Para salvaguardar os que não são corruptos e para construir uma democracia com o mínimo de justiça é fundamental, de facto, retirar à corrupção o seu estatuto de normalidade e destacá-la com algo de anormal, com punições marcadamente visíveis e proporcionais. E todos podemos também fazer alguma coisa a esse nível, basta, por exemplo, não embarcarmos no pagamento das chamadas “pequenas” corrupções, e se possível desmascará-las.

Quanto ao segundo aspecto que destaquei do discurso do novo PGR, acho notável que num pais onde a grande maioria perde o seu tempo a explicar/justificar porque não faz determinada coisa, assumindo um papel permanente de vítima e de desresponsabilização, apareça alguém, detentor de um cargo de tão elevada responsabilidade, a dizer que é possível actuar com os meios e as leis disponíveis!

Apesar dos prognósticos, como é sabido, só se deverem fazer no final do jogo, não posso deixar de augurar um desempenho muito positivo, assim os actos acompanhem as intenções.

Lisboa

És só minha quando te mostras a mim
na noite pregada à lua
pregada ao Tejo
que respira dentro dos meus olhos

És só minha quando te despes
silenciosamente iluminada
nas minhas mãos cheias de um copo
cheio de vinho

És absolutamente minha
quando te descobres nos corpos
e nas bocas
que sorriem do alto dos beijos
no alto do Bairro Alto

Silvia Chueire

09 outubro 2006

A blogosfera aproxima-nos

Já aqui lemos alguns exemplos de como a blogosfera permite aproximar pessoas espalhadas pelo mundo inteiro, mas não resisto a contar um episódio passado comigo nos últimos dias. Recebi um e-mail de uma estudante brasileira de arquitectura e urbanismo na Universidade de Caxias do Sul que, depois de ler um post meu de Maio (!), pedia a minha ajuda sobre o tema central da sua monografia – a poluição visual causada pelos veículos de comunicação nas cidades.

Infelizmente não pude ajudar essa jovem brasileira, mas ficou-me a grata sensação de, lá longe, poder encontrar-se alguém com interesse por aquilo que escrevemos e atento às nossas ideias e convicções, expressas aqui no Incursões.

08 outubro 2006

Au Bonheur des Dames 35

Diner at Kami’s home

Eu sei, sei mesmo de ciência certa, que este texto deveria ter outro nome, como a Sílvia, amadora de jazz, decerto concordaria: “Diner at Lilly’s” para poder pôr em fundo o amável e genial “Lullu’s back in town”, para dar o tom íntimo, caloroso, gentil e “raffiné” do jantarinho que reuniu um grupo de viventes que se sentem bem juntos, num salão ali à Estrela, em vésperas de cinco de Outubro .
Dizer jantarinho é, no mínimo um solecismo, mas que querem, a mim dá-me para estes diminuitivos e obviamente detesto a palavra banquete (tanto também não, graças e louvores se dêem a quem de direito) e jantar assim, tout court não dá sequer uma pálida ideia deste encontro.
Claro que não vou descrever tim-tim por tim-tim a reunião mas, não resisto a provocar a inveja de alguns confrades bloguistas ou leitores (que só de me aturarem já têm meio caminho andado para o paraíso que quiserem) ao citar por atacado um salão acolhedor, com um snooker a um canto (e aqui as erínias justiceiras, caem em voo picado sobre a carne já mitigada pela dieta deste vosso criado, castigando-o pela inveja corrosiva que lhe escorre do dedinho escrevinhador) um gato persa, afidalgado e surpreendente carinhoso (repararam que eu disse persa e não iraniano mas que é verdade que os persas tem mau génio, maus fígados e unha malévola, ai disso não duvidem) umas garrafas de um “Mouchão” insolente que não se bebia antes deslizava misteriosamente para o palato dos apreciadores e uma dona de casa que merecia superlativamente que lhe dedicassem outra e melhor (se possível!!!) versão da já citada Lullu’s back in town.
Atrevo-me a desvendar mais um que outro aspecto desta ceia (ah estas palavras antigas e augustas que nos levam a um universo de sabores quase perdidos...) celebrada, soubemo-lo depois, pelo famoso Frei Delfim das Cinco Chagas, em dia de S Francisco, o de Assis, o verdadeiro, o “poverello” cujos discípulos mais atrevidos foram chamuscados (é um modo de dizer... benigno) pelas fogueiras da fé ortodoxa, à conta dos excessos espirituais e carnais a que se entregavam. Ficámos, os restantes e agnósticos convivas, sem saber se o citado DLM pertencia a uma dessas antiquíssimas e, com o tempo, veneráveis heresias, dado que anunciou logo à entrada que fora de jornada a Sintra, local pecaminoso por excelência, a um convento de clarissas. E Deus sabe o que as religiosas da antiquíssima ordem foram capazes de fazer na denúncia implacável dos erros da Cristandade. Ora se conjugarmos esta ida e o dia que despontou ainda estávamos todos na conversa tão pesado de recordações pouco agradáveis para um monárquico de bandeira e tudo, logo veremos que anda aqui mão perigosa e irónica.
A dona da casa, quando há pouco lhe renovei os meus agradecimentos e me desculpei da hora tardia em que abandonei a casa dela, perguntou-me suspeitosa: V vai falar no Mouchão? ( e ia nesta pergunta uma dorida aflição pois é bem sabido pelas leitoras que nos acompanham que não há pior publicidade a casa e adega particular que esta de lhe citar os tesouros escondidos). Falasse eu numa adega honrada mas de pouco brasão e ninguém se importaria, mas em começando por esse alentejano de boa cepa, Jesus, começa o borborinho e os telefonemas, - olha lá acho que vou a Lisboa, importas-te de dizer onde é que mora a Kami? Só para lhe dar uma palavrinha... E a gente a ver o impetrante já de boca aberta, possuído dessa sede imensa e ancestral que ocorre à menção de um vinho deste género: - Pois olha, pá, não queres ver que me esqueci... Mas falaste na Estrela... Na serra da Estrela, dizemos de cá com o conveniente ar de espanto, - olha se lá fores trazes-me um queijo? E por aí fora.
Portanto, jantar em sítio indeterminado, com gato persa, um snooker que desperta invejas dramáticas e um bacalhau espiritual que só tinha um defeito: era óptimo, demasiadamente óptimo para um cavalheiro do norte que anda em dieta forçada. Isto não se faz a um cristão! Também é verdade que o não sou. Se calhar é mesmo por isso, diria alguém que não nomeio, escarninhamente. Ai estes franciscanos.
O bacalhau, querida hospedeira tinha, como lhe disse, um segundo defeito. Eu, como V. saberá, sou um figueirense adoptivo mas convicto. Terra bacalhoeira por excelência, lá se ensinam alguns mandamentos gastronómicos entre os quais este. Reserve-se a bela posta alta e branca do bacalhau para pratos onde ela possa ser vista e admirada pelos jantarantes, que também se come com a vista. E as partes menos nobres do gadídeo poderão então ser preparadas com esses disfarces que vão desde os pasteis até ao bacalhau escondido em creme, sob creme ou com creme, para já não falar no bacalhau à Brás. Viu?
De todo o modo e sabendo de ciencia certa, que afazeres familiares me trazem a Lisboa várias vezes por ano, parece-me que ficaria bem a uma pessoa de sólido apetite e sempre disponível para ser convidado, terminar esta croniqueta que é, além de discreto agradecimento, mais um indiscreto cravanço para uma repetição, dizendo como os antigos
Lúculo jantou em casa de Lúculo.

ps: eventuais penetras: é favor absterem-se.

nota: eu bem que tentei substituir a Lullu por alguma lily jazzistica e boa de ouvir mas não me lembro de nenhuma música com uma Lily. Fica pois a Lullu que é excelente, tanto ou tão pouco que até Monk a tocou!

07 outubro 2006

POESIA À CAPPELLA (*)

Leitura de poemas da "nossa" transatlântica Sílvia, com a presença e participação da própria (herself!), na proxima 6ª feira, dia 13, às 21h30, na Capela de Fradelos, Porto [para ver o mapa de localização clicar aqui].

(*) iniciativa da Cosmorama

***

No sábado 14, também no Porto (em local e hora a informar oportunamente), incursionistas e ex-incursionistas (se é que isso existe), sob a batuta do JCP e adjuntos Carteiro, L. C. e MCR, a poetisa e também incursionista Silvia será submetida a uma mostra da gastronomia portuense (*) e sabe-se lá a que outros desmandos que aquela troupe está a organizar. Oxalá, na ânsia de dar o melhor da sua cidade, não a obriguem a terminar a noite exercendo na sua qualidade de... médica! ( just joking...)

(*) confirmem rapidamente para o email do JCP (ver aqui)a vossa presença e de quem mais vos acompanhar, digo, a apoiar.

06 outubro 2006

As finanças locais

Os autarcas têm andado de “pêlo eriçado” por causa da Proposta de Lei de Finanças Locais que o Governo pretende submeter em breve à Assembleia da República. Ora, essa Proposta de Lei, que tem sido alvo de discussão aprofundada com a Associação Nacional de Municípios Portugueses, encerra em si mesma propósitos muito positivos no que diz respeito ao reforço da autonomia local, à solidariedade entre a administração central e as autarquias no esforço de combate ao défice público, à coesão territorial e à promoção da sustentabilidade local.

Com efeito, a Proposta de Lei reforça os poderes tributários dos municípios, designadamente com a participação directa na gestão de 5% do IRS gerado no concelho, reforça a autonomia dos municípios na concessão de isenções fiscais e cria um novo Fundo Social Municipal destinado a financiar competências transferidas para os municípios nas áreas da educação, da saúde e da acção social. Enquanto os ministérios, serviços e fundos autónomos da administração central verão as suas receitas decrescer no próximo ano na ordem dos 5%, o montante global das transferências do Orçamento do Estado para as autarquias mantém-se inalterado em comparação com o montante global transferido em 2006.

Por outro lado, o reforço das transferências através do Fundo de Coesão Municipal e os novos critérios de distribuição deste Fundo fomentam a solidariedade entre municípios, em favor dos que apresentam uma menor capitação dos impostos locais.

Já a fixação de um novo limite ao endividamento municipal é, infelizmente, uma medida necessária e que há muito se justificava, atendendo aos muitos exemplos do passado. A situação extraordinária que se vive por exemplo no Marco de Canaveses, o concelho que ultrapassou em maior grau o seu limite de endividamentos, motivando a declaração de ruptura financeira e o recurso a um contrato de reequilíbrio financeiro, não seria por certo tão grave se existissem na altura os limites ao endividamento municipal que o Governo agora pretende criar.

Por último, a Proposta de Lei tem cambiantes muito positivas no que diz respeito à promoção da sustentabilidade local, nomeadamente quando concede um incentivo ao investimento municipal em reabilitação urbana, uma vez que os empréstimos para financiar programas de reabilitação não são contabilizados para efeitos do cálculo do limite de endividamento, e quando inclui como critério de distribuição do Fundo Geral Municipal a fatia do território que cada concelho tem afecta à Rede Natura 2000 e a área protegida.

Haverá certamente alguns aspectos concretos desta Proposta de Lei que podem vir a ser melhorados em sede de discussão no parlamento, mas a minha vivência como cidadão e a experiência autárquica dos últimos anos, enquanto membro da Assembleia Municipal de Marco de Canaveses, diz-me que esta Proposta de Lei é um passo correcto no sentido da afirmação do poder local como espaço de rigor, seriedade e competência, privilegiando os bons projectos e as boas políticas. É tempo de construirmos uma outra imagem da administração local em Portugal.




um ponto de partida pode ser encontrado aqui.

03 outubro 2006

Praxes

"A ex-caloira acusou colegas dos segundo e terceiro anos do curso de Fisioterapia de, durante a recepção ao caloiro em Outubro de 2002, a terem obrigado a praticar "actos humilhantes" como a "simulação de actos sexuais e nudez em público". O caso motivou a intervenção da Inspecção-Geral de Educação, que enviou um relatório à Procuradoria-Geral da República, e um processo interno de averiguações no Piaget, que culminou em repreensões escritas aos alunos identificados." in Público on-line.

A simples existência da praxe é um insulto à dignidade da pessoa humana. Devia há muito ter sido proibida e expulsos os seus responsáveis. A indignidade de se humilhar alguém é insuportável. Só se preocupam com a violência doméstica. Preocupem-se com todo o tipo de violências, a começar pela dos universitários que se acham no direito de obrigar terceiros a actos que não querem ou de que não gostam. Estes individuos da praxe são anti-sociais. Nada os diferencia das claques ou dos gangs urbanos. Os princípios são os mesmos; e os resultados também.

Estudantes são todos e por direito próprio. Não têm necessidade de se submeter à praxe.

Se neste pais se obrigassem os estudantes a estudar e a aprender, se houvesse prescrições e pagassem propinas de real valor, se as instituições não fizessem de conta que nada é com elas, se calhar havia menos violência, menos corrupção, menos compadrio! Mas enfim, sempre há quem goste de sofrer, na leve esperança de que, para o ano, pode fazer sofrer os outros.

São os valores que vamos transmitindo aos nossos jovens, os lideres já daqui a pouco.
Cultivar os direitos humanos, respeitar a liberdade dos outros, respeitar a dignidade do outro não é politicamente correcto quando o tema é Futebol ou Universidade.

A má educação é moda. Ler o regulamento da praxe é elucidativo.

Enquanto houver semestres de dois meses e meio! E mil e umas épocas de exame!

Ser de esquerda...

A propósito da discussão iniciada no Ao princípio era o verbo.... do nosso caríssimo MCR, junto parte de um texto de um amigo meu. Trata-se de uma reflexão que gostaria de partilhar convosco.

… Ás vezes fico, assim, a olhar para dentro
exactamente agora que vejo a esquerda negar-se como esquerda
só porque um pol pot aparece em cada revolução
ou porque o muro caiu e a esquerda confunde-se,
deixa-se abafar pelo ruído
como se todos os estalines fossem produção sua.

A esquerda é cultura, é solidariedade,
a esquerda é tudo o que cheira a futuro, a novo.
É a cidadania em movimento evolutivo
é, enfim, o gosto pela vida, pelo ser, pelo Homem.

Ser de esquerda é ter uma ideologia
que suporta e questiona a prática dos dias
que olha as mudanças pelos resultados.

Ah! Se ao menos fosse capaz de passar esta ideia
mostrar que uma filosofia não se desmorona como um muro
antes evolui, ultrapassa-se a si própria sem perder a essência.

Marx é Marx
e não é por ter existido Mão, Estaline e tantos outros a impor Marx
que a filosofia de Marx deixa de ser o que é
uma linha condutora do pensamento social
uma concepção filosófica do mundo e do homem

02 outubro 2006

O carteiro Anónimo


O Carteiro agora anda a distribuir disto???
Cliquem aqui que vale a pena ver/ler.

Tudo a bombordo 1

Ao principio era o verbo....

Uma inicial prevenção para evitar más interpretações: este texto e os que porventura se seguirem, são apenas uma resposta apressada ao desafio do leitor José, secundado, aliás, pelo intermitente “carteiro”. Em poucas palavras: eu brinquei como uma fotografia minha, de fato macaco, autêntico (convém dizê-lo), farda da equipa de montagem do citac, meu grupo de teatro dos tempos de Coimbra. A propósito disso fui desafiado para explicar porque é que sou de esquerda, ou como é que um filho família da média alta burguesia se mete nestes ínvios caminhos.
E são uma resposta apressada ainda por outra e mais próxima razão: agora, para fortalecer o canastro e deitar fora adiposidades adquiridas, recomecei a fazer longas caminhadas a pé. Um peão é alguém que corre o risco de encontrar gente conhecida e foi isso mesmo o que, à minutos, me sucedeu: alguém de pequena estatura e pouco cabelo atirou-me "oiça lá V é advogado?” Ai Jesus é o meu passado a perseguir-me, pensei. Todavia respondi afirmativamente tentando perceber se aquele homem com ar de cinquenta, sessenta anos tinha sido meu cliente no civil ou se seria de algum dos sindicatos onde me estreei como profissional do direito.
Na passada resolvi perguntar-lhe de onde nos conhecíamos e ele, tranquilamente, respondeu-me que do MES (Movimento deEsquerda Socialista, grupo já falecido há décadas com conveniente e apropriada declaração ao Tribunal Constitucional, caso único no panorama português onde ainda espreitam vinte cadáveres de partidos que apesar de mais mortos do que um tiranossaurio rex volta e meia aparecem a fingir que são o fantasma que percorre a Europa (cfr. Marx, Manifesto...). Contas feitas, aquela voz, que me vinha de um passado de 31 anos, pertencia a um mecânico que também fora militante, que depois se passara para o PRP e daí para as FP 25, onde desempenhara de pistoleiro. À conta da “traição” de uns cavalheiros, das notas manuscritas impudentes e imprudentes de outros tantos, tivera de passar à clandestinidade (onde uma vez o terei encontrado, lá para Moledo) e para o estrangeiro depois. Regressara depois do processo ter dado com os burrinhos na água, voltara a ser mecânico e, finalmente, reformara-se.
Conversámos um pouco e lá nos separámos. Já pouco nos une, mas esse pouco é muito: é o fim da nossa juventude, alguns sonhos e a realidade a cair-nos em cima nos idos de setenta. Em nome dele, falo, ou escrevo, não para defender as opções que tomou mas a sinceridade com que o fez, os riscos que enfrentou, as misérias que passou. E isto, assim dito, encerra já um dado: uma vez esquerdista, sempre esquerdista. Não renego, não me arrependo, não perdoo nem me esqueço. Estou de certeza muito mais moderado, mas continuo a votar, a opinar e a valer-me de um par de teorias do comportamento ancoradas à esquerda. Não sei se a história me dará razão, mas é minha convicção que, se nascemos desiguais em quase tudo, é possível tornarmo-nos iguais em deveres e direitos. E para isso há que agir com as armas que cada um tem: e essas são a pública expressão das opiniões, a defesa intransigente dessa liberdade em todos os azimutes, mesmo que daí ressalte a defesa dos que pensam exactamente o contrário do que nós pensamos, a convicção que esta luta se trava com a força da razão e não com a razão da força, em suma na democracia, no uso do direito de propaganda e no segredo das urnas de voto.
Isto vai já em três páginas no ibook G4 e parece-me que chega como introdução. Continuarei se me deixarem....

01 outubro 2006

Uma verdade inconveniente


Fui ver o filme Uma Verdade Inconveniente com Al Gore a transportar-nos numa viagem feita de realidade e consequências, mas também de optimismo e responsabilização.

Trata-se de um filme obrigatório e inadiável. Rigorosamente a não perder por todos os elementos da família!

Vivemos num planeta que maltratamos, centrados nas nossas rotinas quotidianas, distantes da realidade que pulsa no planeta. E ele aí está, com os seus recursos esgotáveis, com as suas dinâmicas próprias, com o seu equilíbrio cada vez mais em risco. Não podemos ficar indiferentes a essa realidade. Este filme vem-nos alertar para a grandeza do problema, suas causas e consequências. Atinge como um raio a nossa consciência, o nosso dever enquanto pais e cidadãos.

Transmite, todavia, uma mensagem de esperança e de responsabilização. É comum que os grandes problemas sejam apresentados com cenários catastróficos e que, de seguida, sem se apresentarem soluções, se culpe o governo, ou governos de pouco ou nada fazerem.

Ora isso não se passa neste filme. Nele, apesar da dura realidade se impor pela urgência, fala-nos também do que todos devemos fazer. Aponta o dedo à responsabilidade dos Governos de todo o mundo, com os Estados Unidos e a China à cabeça, mas fala-nos também da nossa responsabilidade, do contributo que todos podemos e devemos dar para inverter o ritmo acelerado da destruição do único sítio que temos para viver.

O que eu pensei quando acabei de ver o filme foi: Al Gore fez a sua parte, que é enorme. Eu tenho que fazer a minha. O somatório de muitas pequenas/grandes acções podem fazer a diferença.

Não fiquemos indiferentes e o primeiro passo é informarmo-nos e não nos deixarmos levar por opiniões não fundamentadas de “cientistas de bancada” que gostam de pôr um manto sobre o assunto dizendo que “é um exagero”. O problema é que esses comentários nada resolvem e têm uma acção de adormecimento da opinião pública. No filme essa faceta é salientada. É referido que numa amostra significativa de artigos científicos sobre o aquecimento global, o número de cientistas que considera que este e as suas causas são uma questão com equívocos é zero. Mas se fizermos a mesma análise relativamente a artigos de comentaristas, os chamados “ fazedores de opinião”, então passa para 50 % a percentagem dos que considera que se trata duma questão inconclusiva e de natureza política.

E, a ser de facto verdade o que a grande maioria dos cientistas mundiais afirma, não nos resta muito tempo para despertarmos.