09 abril 2008

Estes dias que passam 104


Visto e ouvido

Com estes ouvidinhos que a terra há-de comer ouvi ontem um cavalheiro do COI, comité olímpico internacional, identificado como Jacques Rogge comentar as manifestações desencadeadas por aquela patetice a que chamam chama olímpica.
Em parcas palavras a criatura entendeu criticar os manifestantes dizendo (mais palavra menos palavra) que “quem quiser protestar que o faça pacificamente”.
A criatura, triste criatura, parece ainda não ter metido na cabecinha brilhante, olímpica e internacional, que esta faena começou com uns polícias chineses a matar uns tibetanos. Provavelmente o senhor Rogge acha que isso é um modo pacífico de resolver um pequeno problema numa possessão afastada do império chinês.
Aliás, o mesmo Rogge, não deve ter reparado nuns cavalheiros, cerca de vinte, de porte atlético, olímpico e chinês, vestidos de fato treino mas traídos pelos óculos escuros que estão sempre à volta da tal tocha. Sabe-se agora, cfr noticiário das 20 horas da Televisão francesa, que estes atletas “pacíficos” são membros de uma força especial chinesa que costuma pacificar chineses que se portam mal recorrendo a meios eminentemente olímpicos e internacionais quais sejam o tiro ao alvo.
O comissário Rogge do alto da sua piedosa indignação contra os díscolos franceses que lhe estragaram a triunfal marcha por Paris, além de os admoestar por não recorrerem a meios pacíficos, como se uns gritos, uns insultos e uns empurrões fossem mais graves do que os tiros e as prisões de Lhassa, acha que estão a atentar contra o espírito dos jogos, com se tal espírito sequer alguma vez tivesse aflorado na cabecinha tonta do mais catatónico e inocente espectador.
Em anterior post oferecia-me para ir chatear a marcha da tocha se esta passasse por cá. Tive o apoio do João Tunes (blog agualisa) que se prontificava a vir coxear o seu bocado a meu lado enquanto algum meigo polícia amigo de Rogge nos pacificava os lombos.
Deus é grande e poupou-nos a essa patética situação de dois cavalheiros, já entrados em anos, serem escorraçados pela guarda da chama. E poupou-nos o costado que seguramente já não é o mesmo dos anos loucos. A tocha não passa por cá, parece que não somos suficientemente importantes para merecer essa duvidosa honra.

* A gravura mostra bem os "atletas" chineses de óculos escuros e fato de treino parecido ou igual a um aprovado pelo COI para os atletas tout-court. Coincidências!!!...

08 abril 2008

Missanga a pataco 50

Pato à moda de Buarcos

Num texto aí em baixo, apresentava-me eu, pimpão e tolo, como um macaco velho de rabo pelado. Em má hora o fiz que pouco depois, reenviava um mail acabadinho de receber sobre uma bebé horrivelmente queimada. Tratava-se de, criando uma cadeia, fazer com que os pais da criança ou o hospital recebessem uns cêntimos por cada mail enviado.
A minha querida amiga MLA, a quem devo um almoço e muito mais, fina como um coral, logo fariscou que algo não estava nos conformes no mail que lhe reenviei. E, enquanto o maligno esfrego um olho, apanhou na internet a história daquela aldrabice que, parece, não dava lucro a ninguém.
Que dizer em minha defesa, além da pronta confissão da minha burrice e ingenuidade? Pois nada, ou muito pouco. Eu normalmente não reenvio mails deste tipo. Todavia, recebi-o de um velho, bom e leal amigo, que já confessou ser tão ingénuo quanto eu (a ele foi a filha que o preveniu mesmo antes de eu lhe mandar o que a MLA me enviara). Este meu amigo será como eu, ingénuo, mas de parvo não tem, nunca teve nada. Vindo dele até uma confissão de que o papa é ateu merece, pelo menos, ser tida em consideração.
Não quero desculpar-me com o argumento da autoridade alheia. Caí que nem um pato na esparrela e o meu prezado A. não tem qualquer culpa. O mensageiro pode ser sincero, a mensagem essa é, agora à vista desarmada, duma falsidade grosseira. O mail foi reenviado a cinco ou seis pessoas que provavelmente o terão creditado como sério visto vir de alguém que se ufanava de ser macaco velho. Desculpem lá amigos. Neste incerto mundo até os macacos mesmo velhos se podem metamorfosear em patos. Igualmente velhos e patentemente tontos. Em pano ruim qualquer nódoa cai seja pela lei da gravidade seja por fatal atracção.


* gravura pilhada por aí e que se intitulava "pato em R
oma". Calha bem porque tenciono ir até lá de penitência lá para fins de Maio. A CG quer muito conhecer o Papa ou pelo menos um cardeal vestido a rigor, E verificar com os próprios olhos se os gatos dos foros romanos são tão bem tratados quanto se diz.

07 abril 2008

Missanga a pataco 49




Uma tocha percorre a Europa...


De certeza que alguém, por aí, encontrará neste título um eco duma célebre frase sobre um fantasma que aterroriza(va) a Europa.
Esse fantasma, era no dizer dos seus jovens autores, o do comunismo. Os tempos eram outros, claro. O século XIX ainda nem chegara a meio (se não me engano o “manifesto...” é de 1847) e o manifesto trazia uma carga de esperança que nada tem a ver com o que burocratas e “revolucionários profissionais” fizeram dele.
Agora que somos bem mais velhos, que o mundo deu as voltas que deu, conviria saber o que se deve fazer com um archote de sangue e fogo que corre as ruas das nossas cidades.
A viagem tem sido acidentada e o caso não é de menos. Um grupo de personagens delirantes que se arrogam de representantes do “desporto” escolheu há uns anos Pequim para sede dos jogos olímpicos. A escolha foi desde logo tão inocente quanto a que deu a Berlin os jogos de 36. Esta gente, cujo duvidoso amor pelo desporto parece ser grande, ignora que o tal ideal dos tais jogos reinventados há mais ou menos cem anos, não teria alojamento apropriado no celeste império e na sua alucinante mistura de capitalismo selvático e dogmatismo totalitário.
As imagens de Tien An Men estão dolorosamente presentes para poderem ser esquecidas atrás de cinco aros coloridos e de recordes obtidos sabe-se lá graças a quê.
Em Paris, quarenta anos depois de 68, a tocha não passou. Apagou-se várias vezes, andou escondida num autocarro, falhou vários pontos do percurso, o mais importante dos quais era a Câmara Municipal onde a sua paragem foi anulada pelo maire de Paris.
Eu não sei, nem me interessa, se a chama vem até cá dar um ar da sua sinistra graça. Se vier, e se eu puder estar por perto, também espero colaborar no apagão. Já não tenho idade para estas faenas mas uma pessoa não se pode pôr nas encolhas só porque se arrisca a “dois safanões dados a tempo” ou a brutalidades maiores. E desporto por desporto é preferível correr à frente da polícia do que atrás de um record que dura o tempo de um suspiro e é obtido diante de uma multidão de cidadãos amedrontados. E à sombra de mortos longínquos no longínquo Tibet.

Au Bonheur des Dames, 119




Em que ficamos?

Em que não ficamos?


O novel Ministro da Cultura, dr. Pinto Ribeiro, anunciou, aquando da sua entrada em funções que “iria fazer mais com menos dinheiro”. Não garanto a exactidão das palavras mas foi este o sentido claro da sua declaração.
Não me compete nem, de resto, me interessa dar lições de cortesia ao Senhor Ministro. Ele já é demasiadamente crescido para as receber. Todavia, convenhamos que a declaração é suficientemente imprudente (para não dizer impudente) e tonitruante para a esquecermos. E depois, quando se vai substituir alguém, convém ser modesto, não vá a gente dar com os burrinhos na água.
Eu não tenho saudades da anterior Ministra, Deus me livre, mas, mandada que foi para casa, o melhor seria deixá-la ir em paz. Bem lhe basta a demissão, mesmo que travestida em pedido de demissão, para estarmos ainda a azucrinar a pobre senhora. O erro não foi tanto dela como de quem a escolheu.
Ora o flamante dr. Pinto Ribeiro parece ter entendido que, a ter de entrar neste perigoso terreno da política da cultura, mais valia “entrar a matar”, dizendo coisas. Pisando forte, como dizem os nossos vizinhos espanhóis. E, portanto, disse: fazer mais com menos dinheiro.
A assistência, e nisto de “cultura” a assistência presume de ter pago bilhete e de poder a todo o momento começar uma pateada, ficou à espera. Até agora!
De facto, do Ministério da Cultura nem novas nem mandados! Parece que existe, que tem titular, que este se chamará Pinto Ribeiro e que despachará...
Fora isto, que já não é pouco, nada mais. Bem sei que a “rua”, a “populaça”, as “forças do bloqueio”, os “reaças” (para referir algo que se intui das declarações sempre copiosas e extraordinárias do dr Santos Silva) anda entusiasmada com a Srª Ministra da Educação, com o Sr. Ministro das Obras Públicas, com o Sr. Presidente da Assembleia da República (e com a sua boca sobre o Bokassa) e com mais um par de ministros avulsos (por exemplo o Sr. Manuel Pinho ou Sr. Amado que nos maravilham continuamente com a subtileza de conceitos que usam para definir a economia ou o caso do Kossovo, para já não falar do Tibete, desagradável região que ainda nos pode custar um par de medalhas de oiro nessas olimpíadas de Pequim: o desporto é desporto e a política é a política. Misturar essas duas coisas tão etéreas resplandecentes é coisa que o Sr Ministro dos Negócios Estrangeiros condena vivamente...) .
Portanto o dr. Pinto Ribeiro ia passando despercebido. De resto a Cultura (com letra grande ou pequena, oficial ou não) preocupa pouco a lusa e fera gente. Aqui para nós que ninguém nos ouve, a coisa fazia-se com uma simples Secretaria de Estado. Era mais barato e a artistagem & similares não merecem mais.
Ora, parece que da primeira vez que se ouve novamente o Sr. Ministro da Cultura ele vem requerer um forte aumento das verbas para o seu ministério. O dobro, dizem-me algumas pessoas, nada menos do que o dobro. É obra!
Será que com o dobro Sª Exª fará mais do que anterior titular? Ou pedirá o dobro para, de acordo com a sua inicial fórmula (fazer mais com menos, recorde-se), fazer menos? Pessoalmente, não tenho nada contra essa atrevida tese: fazer menos mas melhor, já me daria um alegrão dos diabos! Mandar a parra para os cafundós e exibir apenas o belo cacho de uvas viçosas, promessa de bom vinho, de melhor vinho.
Porém, macaco velho e com o rabo pelado de tanto pontapé, desconfio, desculpem-me as leitoras mais generosas, que este pedir mais há-de ser apenas uma constatação (feio galicismo!) de palavras a mais (e a desoras) e de actos a menos. Res non verba, sintetizava a máxima latina (mas duvidosamente romana). Ou por outras palavras menos tonitruantes, menos sensacionais, menos imprudentes: as verbas para a Cultura eram de facto risíveis, tanto mais que, muitas das vezes, mal aplicadas. De facto, gasta-se muito e mal, com ninharias e ouropel que consolam as massas e um recorrente mau gosto oficial e ministerial mas que nada tem a ver com essa ninharia a que chamam cultura e que, em períodos pré-eleitorais, é imediatamente apontada à cabeça dos cidadãos.
É como se um dos cavalheiros do actual partido no poder, nos mirasse do alto do seu imenso pedestal e pensasse (eles também pensam...): Quando oiço a palavra eleições puxo logo pela cultura!
Algum(a) leitor(a) dirá que cito Milan de Astray. Não, não é verdade, apenas uso uma frase que lhe atribuem mudando-lhe um pouco o sentido.
Um pouco como o menos por mais, ou como o elogio ao bananeiro mor. “Nos quoque gens sumus et bene cavalgare sabemus" (esta é do “Palito Métrico” e vai dedicada ao meu colega e amigo Carteiro que até já me atribui textos alheios. Obrigado mas o seu a seu dono! Ao d’Oliveira a azeitona e ao mcr o vinagre.)

O galheteiro da gravura serve a matar para este texto: À uma, para a frase ministerial tão avinagrada para não dizer "azeitada". Depois, porque dois dos autores desta galera são unidos no mesmo galheteiro, queiram-no ou não. Finalmente porque na sua infinita sabedoria, uma disposição governamental proibiu os restaurantes e similares de usarem galheteiros tradicionais. Agora é tudo mais fino:usa-se um galheteiro selado. No mínimo isso custa mais 25%. E aida se vai ver se o galheteiro uma vez usado pode servir (selado e tudo) para um freguês seguinte. É que se não puder, os custos então dispararão mais do que os do petróleo. E bom senso por onde andará?

Esta balivérnia vai dedicada à Maria josé Carvalho e ao josé Mattoso, lembrando-os que me devem um almocinho de enguias já que a lampreia é apenas uma saudade.

04 abril 2008

QUE FAZER COM A FUNÇÃO PÚBLICA?


Vieram uns governos e pensaram que uma das vias para combater o desemprego e modernizar a função pública passava por mandar embora o pessoal com muitos anos de serviço. E foi assim que incentivaram a antecipação das reformas, com bonificações e tudo.

A consequência desta medida foi a saída de milhares de funcionários, o consequente rejuvenescimento da administração e a ilusão de alguma poupança orçamental. Os que entravam recebiam remunerações bem inferiores relativamente aos que saíam. Contudo, estes passavam a receber a respectiva pensão de aposentação. Tudo somado, o Estado passou a pagar duas remunerações…

Depois vieram governos que continuaram a incentivar as aposentações numa lógica de modernização e redução do número de funcionários públicos, agora já sem bonificações mas com a cenoura de que o Estatuto da Aposentação iria ser alterado, que o valor da pensão seria ajustado para baixo e outras desgraças… E muitos mais saíram para a aposentação.

Depois vieram governos que anunciaram que quem pretendesse sair para trabalhar no sector privado até poderia continuar a receber uma parte do vencimento. E não sei se houve muitas adesões.

Depois vieram governos que estancaram as aposentações e até retardaram a data da aposentação, prolongando a idade para trabalhar. A consequência é administração pública mais envelhecida e menos oportunidades de emprego para quem está apto a entrar no mercado de trabalho. Ou seja, o contrário do que já fora feito.

Nesta evolução ziguezagueante aparece agora o anúncio de que a função pública vai passar a trabalhar mais horas, podendo nos novos contratos ser fixado um horário semanal até 50 horas, segundo noticia o Diário Económico. Note-se que ainda há poucos anos havia horários de 42 horas na função pública, entretanto reduzidos para 35 horas semanais.

A questão que prevalece é a de que os sucessivos Governos não sabem o que fazer com a administração pública. Por isso, o melhor era extingui-la. Criavam-se Institutos, Fundações ou entidades afins, reguladas pelo direito privado, para onde se passava o pessoal e se contratava segundo o regime de contratação privado. Deste modo o actual e futuros governos poderiam dedicar-se à arte da governação. O sucesso da sua acção deixava de ser avaliado em função do número de funcionários que entram e que saem.

Divórcio

Parece que vai aparecer por aí uma lei que acaba com o divórcio litigioso. Como princípio parece-me muito bem. Ninguém deve permanecer ligado a alguém se não o quiser verdadeiramente. Para estar juntos é fundamental que os dois o queiram, para se separarem deve bastar que um deles o queira. Até aqui tudo bem, em teoria. Onde eu começo a ter algum receio é na prática, ou seja, no modo como as pessoas podem traduzir na sua vida esta lei. Sabemos o quanto a vida está contra o casal: são as rotinas, a profissão, as mudanças profissionais, os problemas com os filhos, as despesas, as viagens quotidianas, o trabalho doméstico, enfim, um amontoado de coisas que põem à prova o romantismo mais resistente quanto mais a tranquilidade dos dias. Assim sendo, parece-me fácil que um dos elementos do casal confunda tudo e tenda a culpar o outro por eventuais desequilíbrios na sonhada e esperada felicidade. E parece-me igualmente fácil que o outro faça exactamente o mesmo e se crie um jogo de culpas. E parece-me igualmente fácil de prever que com todas as facilidades que a lei possa permitir se vá pelo caminho julgado mais fácil e não se procure resolver problemas que, muitas das vezes, não são mais que isso mesmo, problemas para resolver, e deixar intacta a essência das coisas, ou seja, o sentimento que une o casal. Pelo que fui aprendendo na vida, muitas vezes estragam-se relações que valiam a pena só porque as pessoas confundiram tudo e não deram nem tempo nem oportunidade ao sentimento. Às vezes basta um olhar ou um sorriso e os problemas resolvem-se. Só que parece que não há tempo para o olhar e os sorrisos parece que estão cansados.

03 abril 2008

Diário Político 80


Troca de Galhardetes

O senhor Jaime Gama, deputado e nessas exactas funções, entendeu in illo tempore chamar Bokassa ao senhor Alberto João Jardim, presidente, já nesse tempo, do governo regional da Madeira.
Zangas de ilhéus, pensei, que já nessa altura não ia à missa do senhor Gama, peixe (no dizer do senhor Mário Soares) de águas profundas (demasiado profundas e glaucas para mim). Arrufos entre os Açores e a Madeira, nada mais, espuma dos dias mornos do parlamento, dias em que mesmo uma ideia pequenina demora a sair.
Todavia, a bem-pensância nacional comoveu-se. Choveram indignações e comoções. Só o visado é que pareceu não se importar demasiado com a comparação. Ao fim e ao cabo, Bokassa tinha-se coroado imperador, o que não é mau para um indígena de uma ilha bananeira e turística.
Agora o senhor Gama, sempre deputado, convém dizê-lo, entendeu exaltar as virtudes desconhecidas e conhecidas do senhor Alberto João sempre presidente da região da Madeira. Comoção geral, desta feita nas hostes (minguadas) do socialismo madeirense. Mais comoção e algum ranger de dentes no partido dito socialista.
Calma, malta, no pasa nada! Continuamos no reino da fantasia e dos enredos peninsulares. O profundo Gama (onde é que eu já ouvi esta?) está tão delirante agora quanto estava no dia da “bocaça”. Ou não. Ou nunca esteve delirante, e sempre foi assim. Que esta criatura tenha desde há trinta e tal anos ocupado uma cadeira em S Bento e que dele, ao fim de tanto tempo, só lembremos estas bocas, diz muito do personagem, não acham?
Tanto mais que ele agora já é presidente da Assembleia da República, figura cimeira do Estado e do estado a que isto chegou.
O senhor Alberto João continua, aliás, a não se comover. Dá ideia de que não se sentiu insultado da primeira vez e, tão-pouco, louvado desta. Ele lá sabe porquê. Provavelmente porque conhece o senhor deputado Gama e, como bom ilhéu, sabe o que vale a opinião de tão robusto talento.
Alberto João, tonitruante presidente de região autónoma, ficará na história mais pelas obras que fez, mais pelo desafio que representou, mais pelo sistema que implantou na Madeira, do que Gama, o profundo. Não se pense que o estou a elogiar ou que gosto minimamente da criatura. Não gosto. Nunca gostei, aliás. O que aliás não tem a mínima importância para o buldozer político que Alberto João é.
Á Madeira acabam por ir todos. E por beijar a mão do apodado Bokassa, o mesmo é dizer que ele mereceu o título imperial. Agora estará por lá o senhor Presidente da República. Vamos lá a ver os mimos que trocará com Alberto João. Provavelmente não será tão encomiástico quanto Gama mas também Cavaco passará mais à história do que o cavalheiro açoreano.
Será esta previsão de falta de futuro na pequena história pátria que terá convencido o deputado Gama a entrar para a crónica pelo menos como autor de uma piada?
Pena não ter graça, mas já alguém viu um peixe de águas profundas ter espírito?

D'Oliveira

Os tempos

Hoje não haverá poema. Hoje falarei sobre esta loucura que parece se intalar mais e mais no mundo. Este mundo que sempre foi de guerras, violência, mortes. Mas que agora muito maior, muito mais interativo, portanto mais próximo do que há séculos, e não se afasta delas, ao contrário.

A África abandonada a seu destino, sendo sangrada nas suas riquezas e no seu povo, Oriente Médio ensandecido, Bush, a política de direita (à antiga) de certos países europeus ( da Comunidade?), Chavez, as FARC, Cuba passando por transformações e o Brasil, claro. O Brasil crescendo, "potência mundial", e cada vez mais corrompido.

Tudo nesta noite tem me parecido ainda mais sem sentido, ainda mais louco. Porque nesta noite se as coisas vêm acontecendo desde que me entendo por gente? Nada de especial, penso nisto todas as noites. Mas o que me provocou a escrever este post foi um mail que recebi, destes enviados a muitas pessoas, que dizia o seguinte (supostamente a autoria, como podem ver abaixo, é do Elio Gaspari, jornalista da Folha):

"Bons tempos da ÉTICA!....

Castelo Branco e Lula :

Ao ver Lula defendendo seu filho, que recebeu R$ 5 milhões de reais da
TELEMAR para tocar sua empresa, Elio Gaspari publicou essa história buscada no fundo do baú:

" Em 1966, o presidente Castelo Branco leu nos jornais, que seu irmão,
funcionário com cargo na Receita Federal, ganhara um carro Aero-Willys,
como agradecimento dos colegas funcionários, pela ajuda que dera na lei,que
organizava a carreira.
O presidente então telefonou, mandando que ele devolvesse o carro.
O irmão argumentou, que se devolvesse o carro, ficava desmoralizado em seu cargo.....
O presidente Castelo Branco, interrompeu- o dizendo:
"Meu irmão, afastado do cargo você já está! Estou somente decidindo agora, se você vai preso ou não".

E o Lula, ainda "sonha", que não existe ninguém nesse país com mais moral e ética do que ele..."


Este e-mail foi, nesta noite que passou, a gota d'água que nenhuma lista de abaixo assinados da internet pode acalmar ou iludir fazendo com que ao assiná-la eu pense estar fazendo alguma diferença nas coisas ( misturei temas? talvez, talvez) . Explico porquê:

O presidente Castelo Branco, Marechal Castelo Branco, a mais alta patente militar à época, foi o primeiro presidente imposto ao país pela ditadura militar que durante tantos anos nos governou!
Não sei bem que desvio de pensamento ou personalidade esquece este fato (ou sei, o que é pior) para citar como exemplo de ética, vejam vocês: Ética, com letra maiúscula! Uma atitude menor de um homem de participou da interrupção da democracia de um país e ajudou a instalar uma ditadura que durou anos, torturou e matou tanta gente, expulsou tantos do Brasil, fechou o Congresso, etc, etc.
Não sei se o pequeno fato ocorreu e nem me interessa, está errado o Lula e o Marechal então, nem pensar. A inversão ou perversão ou loucura que parece estar tomando conta das intelligentsias, a radicalidade, a cegueira, são impressionantes! E em todas as direções, esquerda direita, centro, etc.

Decidi escrever o post ao modo dos posts primordiais dos blogs, um desabafo que eu sei alivia apenas por uns segundos. A busca de soluções e protesto,tem que ser de outra ordem, a minha é no cotidiano, sempre que possível.

Assim, para que vocês entendam a razão da minha perplexidade e sensação de injúria (perdoem-me o tamanho do post), dou sobre o Brasil três notícias que sei devem ter lido, mas vejam:

O Tribunal de Justiça do Pará arquivou hoje (02/04) o pedido de abertura do procedimento administrativo disciplinar contra a juíza Clarice Maria de Andrade, suspeita de não tomar medidas para retirar da cadeia a menina de 15 anos que ficou detida com homens por 26 dias em Abaetetuba (PA), entre outubro e novembro do ano passado.
Quinze desembargadores decidiram que não houve motivos para a magistrada ser responsabilizada no caso já que a custódia do preso é do Estado.
Presa sob acusação de furto no dia 21 de outubro, a adolescente foi mantida em uma cela com 20 homens até o dia 14 de novembro e obrigada a manter relações sexuais com detentos em troca de comida. A menina e sua família estão fora do Pará sob a guarda do programa de proteção do governo federal.


Sete desembargadores votaram a favor da abertura do procedimento contra a juíza. Houve uma abstenção. A desembargadora presidente, Albanira Bemerguy, foi favorável ao PAD (procedimento administrativo disciplinar), sem afastamento de Clarice Maria de Andrade.

A juíza é suspeita de não encaminhar o pedido de transferência da menina à corregedoria das comarcas do TJ antes de o caso ser divulgado. Andrade nega. "A magistrada recebeu a comunicação da prisão em flagrante e a manteve, ficando ciente naquela ocasião que uma mulher estava presa na Delegacia de Abaetetuba", afirmou Albanira Bemerguy, presidente do TJ. A juíza admitiu à uma CPI sobre o caso, saber da prisão da moça, mas disse que " não sabia que ela era adolescente".

Não é impressionante que a tal juíza não se envergonhe do que disse, não perceba?

Outra:

Lula no Folha de São Paulo ontem vetando a fiscalização, pelo Tribunal de Contas da União, dos sindicatos ( que vivem do imposto sindical é cobrado em contra cheque dos trabalhadores por lei federal) que há poucos dias tiveram divulgado um vídeo na mídia mostrando sindicalistas cobrando percentuais em dinheiro de empresas e ameaçando-as com greves caso não os pagassem por baixo da mesa ( 30% se não me engano):

"Um aviso: ontem eu vetei um artigo no projeto de lei que em um primeiro momento foi aprovado na Câmara, e colocava a fiscalização apenas para o sindicato dos trabalhadores. Aí, foi para o Senado e colocaram uma fiscalização do Tribunal de Contas em cima das federações, confederações e o sindicato", disse Lula hoje durante reunião do CDES (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social), no Palácio do Planalto.
Para justificar o veto, Lula relembrou seu passado sindicalista. "Aí, na hora em que vieram me trazer para assinar, eu me lembrei que passei 30 anos da minha vida lutando por liberdade e autonomia sindical, e eu não podia compactuar com o fato de tirar do Ministério do Trabalho e colocar no Tribunal de Contas da União, para ficar fiscalizando o sindicato."
Segundo o presidente, essa fiscalização deve ser feita pela própria entidade. "Deus queira que tanto a categoria de empresários, quando a categoria dos trabalhadores fiscalizem os seus sindicatos."


"Deus queira" !? É demais!
Mas afinal os sindicatos não serão fiscalizados, porque não são obrigados a expor suas contas ao público, para denúncias, ou a órgãos de fiscalização.

Mais uma:

Suspeitas de fraudes em 55 dos 60 municípios sorteados para serem fiscalizados ( ainda da Folha de São Paulo) :

"A CGU (Controladoria-Geral da União) encontrou suspeita de fraudes em licitações em 55 dos 60 municípios analisados na 24ª edição do programa de fiscalização por sorteio. Segundo a CGU, o município que mais teve irregularidades foi Oeiras do Pará (PA), onde os fiscais constataram indícios de irregularidades em todas as 31 licitações analisadas.

Entre os 55 municípios que apresentaram indícios de irregularidades, como conluio e direcionamento nas licitações, está Campim Grosso (BA), onde os fiscais detectaram indícios de fraudes em três licitações realizadas em 2005 para a execução de obras com recursos do Ministério do Desenvolvimento Social, no valor de R$ 300 mil.
"

Vocês podem imaginar o que deve estar acontecendo nos restantes 5500 municípios do país?

Last but not least (sim sei que os vou cansar, mas tenham paciência comigo) e ainda da Folha de São Paulo em 02/04:

A CPI dos Cartões Corporativos pode antecipar o fim das investigações sobre irregularidades nos gastos do governo federal caso a base aliada (do governo) rejeite nesta quinta-feira os 34 requerimentos de convocação ainda não aprovados pela comissão. A presidente da CPI, senadora Marisa Serrano (PSDB-MS-oposição ao governo), disse hoje ao relator da comissão, deputado Luiz Sérgio (PT-RJ), que os seus trabalhos não poderão continuar sem a aprovação dos requerimentos.
"Se todos os requerimentos forem rejeitados, não temos mais quem ouvir. Aí suspendemos as atividades do plenário da comissão e damos um prazo para que o relator elabore o seu texto final. Se não tivermos quem ouvir, o que vamos ficar fazendo sentados na CPI?", questionou Serrano.
O relator, por sua vez, deixou claro que a disposição do governo é evitar a convocação de autoridades suspeitas de irregularidades no uso dos cartões. Oficialmente, Sérgio nega que a orientação do Palácio do Planalto seja derrubar os requerimentos.
A Folha Online apurou, no entanto, que o governo não está disposto a autorizar as convocações nem mesmo quebrar o sigilo de gastos do Executivo com os cartões corporativos.
Na prática, se os requerimentos forem rejeitados, a CPI pode ser "enterrada" amanhã --caso nenhum parlamentar apresente novos pedidos à comissão. A expectativa é que governo e oposição protagonizem um intenso debate a respeito dos trabalhos da CPI.
Entre os requerimentos que estão na pauta da comissão, está o que convoca a secretaria-executiva da Casa Civil, Erenice Guerra, acusada de dar a ordem para elaborar um dossiê com gastos sigilosos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB)."



Os cartões corporativos foram criados para dar maior clareza aos gastos extraordinários que os membros do governo, ministérios, etc. precisariam fazer sem precisar fazer licitações. Claro, sabe-se que sempre há coisas necessárias que não podem esperar é preciso uma pequena verba para estas exceções. Quem já trabalhou o serviço público sabe bem disto. Mas o que está acontecendo é uma desfaçatez.
O Governo formou uma base que rejeita todas as propostas de investigação das despesas feitas com os tais cartões. O escândalo vem da descoberta de despesas absurdas feitas por uma Ministra que já se demitiu (havia até despesas em boutiques, em lojas dos duty free shops de aeroportos !).

Não é mais possível suportar isso tudo sem dizer nada !
Não sei onde dizer algo depois que o Rio está em plena epidemia e os sindicatos na situação que estão, trabalhando como "pelegos" ( "pelego" é um termo antigo na política que hoje ouvi depois de muitos e muitos anos e vem dos pelegos, pele de ovelhas com lã, que os estados do Sul usam entre a sela o a cavalo para tornar mais confortável para cavaleiro e animal) não atuam mais de fato.

E há, como sabem, uma epidemia de dengue, na cidade. Dengue. Mais surreal, mais brasileiro, não podia ser. Pensei ainda agora em oferecer-me como voluntária no Centro de Saúde aonde trabalho, para trabalhar nos fins de semana. E possivelmente farei isto.
Mas francamente, é de doer não ter como protestar sobre estas coisas todas. Estes espaços desapareceram e os que existem não têm credibilidade. E eu precisava dizer isto aos meus amigos portugueses e quem mais ler este blog.

Estão atingidos portanto, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário.
E tenham claro que nunca fui PT, mas nunca fui anti-Lula, reconheci-lhe sempre os méritos e sei que ele não é o demônio causador de tudo, nem o deus-pai doador de tudo.

Está mesmo difícil. E para ofuscar os olhos de todos , o país progride porque a política econômica vem dando resultados. Enfim...Os números estão funcionando. Os números.

Tenham todos um bom dia.


Obs: os negritos e cores são meus . E desculpem-me as gralhas.

02 abril 2008

Estes dias que passam 103


Nem remorsos nem desculpas

Foi assim com estas palavras que alguns dos iluminados membros da Arche de Zoe saíram da cadeia. Relembremos: a Arche de Zoe pretende ser uma ONG criada depois do tsunami da Indonésia e vocacionada para salvar crianças.
Com essa desculpa enviou uma missão para os confins do Darfur, prometendo a umas dezenas de famílias francesas um orfãozinho preto e fugido das atrocidades em voga na região.
Quando já tinham recolhido cerca de duzentas crianças descobriu-se que nem estas eram do Darfur nem eram órfãs.
A caridosa seita tinha convencido os pais das crianças, camponeses chadianos, que elas iriam para uma escola ali perto.
O escândalo foi tal que o governo chadiano se viu obrigado a prender este grupo de benévolos e presumíveis traficantes de crianças (as famílias de acolhimento em França pagariam umas “despesas”, quando já as não tinham pago, como parece deduzir-se do facto de penderem acções em França contra os membros da Arche movidas por famílias que se propunham acolher crianças).
Foram julgado por um tribunal chadiano contra o qual na altura os observadores internacionais não disseram nada. Foram condenados a penas relativamente pesadas que todavia não cumpriram.
O governo francês conseguiu que os chadianos aceitassem a transferência dos presos para solo francês. Depois conseguiu mais: um indulto do governo chadiano o que permitiu libertar estes “heróis do nosso tempo” que foram apoteoticamente recebidos por familiares a amigos que desse modo tentavam lavar a afronta cometida por um tribunal e um governo de pretos contra cidadãos brancos da bondosa ex-metrópole.
Pelos vistos, os guardiães da arca encoirada não aprenderam nada durante estes breves meses de prisão. Corre-se o risco de os ver reincidir noutro país igualmente pobre e igualmente cheio de crianças pequenas em idade de serem adoptadas. É tão giro ter um pretinho em casa. Se não servir para filho pode sempre ser um moleque...
Há alturas em que uma pessoa tem vontade de vomitar e de começar aos tiros.

na gravura as crianças salvas da arca.

Incursões no Portugal Diário

O renovado Portugal Diário incluiu o Incursões na sua página de blogs de referência. O que resulta em mais responsabilidade e visibilidade para os escribas cá da casa.

Eu portista me confesso

A minha costela de adepto e sócio do FC Porto tem andado meio envergonhada face às suspeitas, primeiro, e às acusações, depois, que recaem sobre o meu clube e o seu presidente, Jorge Nuno Pinto da Costa.
Quem alguma vez acompanhou o futebol por dentro, ou conhece alguém que por lá circule, seja nas competições profissionais ou nas divisões mais modestas, conhece bem o ambiente de promiscuidade existente entre dirigentes e árbitros, onde estes últimos estão longe de ser apenas vítimas, quando muitas vezes são eles próprios os fautores da “miscambilha”. Encostar-se aos dirigentes certos era meio caminho andado para subir na carreira, ganhar prestígio e poder, aparecer nos grandes momentos, ganhar mais dinheiro.
Posto isto, dir-se-á que quem perde acha sempre que quem ganha, ganha apenas porque se manobra melhor nesse mundo promíscuo, no malfadado “sistema”. O meu FC Porto, que teve invariavelmente as melhores equipas e os melhores treinadores ao longo dos últimos vinte anos, viveu sempre com esse ónus de ser o manobrador por excelência. Não sei se é ou se foi, mas sei que Pinto da Costa e seus pares se dão bem com esses ares, onde o maior brilho cintila pela calada da noite. Foi competente? Sem dúvida. Rompeu com os equilíbrios que vinham do estado novo? Pois claro que sim. Isso foi uma afronta aos poderes (clubes, federações, jornais, televisões, etc.) de Lisboa? Certamente. Custa muito que um clube do Porto ganhe mais do que todos os outros juntos e vença troféus que os outros nunca alcançaram? Imagina-se…
Pinto da Costa é atingido e arrasta o clube por causa dos amores, que parece ser o seu elo mais fraco. A falta de escrutínio, no clube e no seu círculo de amigos, permitiu que entronizasse como primeira-dama alguém sem um pingo de classe, de carácter. Pinto da Costa paga por isso e faz-nos pagar a todos nós, portistas.
Nos tribunais comuns, Pinto da Costa vai ser julgado pelo crime de corrupção desportiva. Nos órgãos disciplinares da Liga de Clubes, impende sobre si e sobre o clube a acusação da prática de duas tentativas de corrupção. Tudo isto no ano em que o FC Porto foi a melhor equipa da Europa e do Mundo, ao vencer a Liga dos Campeões e a Taça Intercontinental.
Não discuto as considerações de natureza jurídica, nem as motivações das equipas de investigação. Não comento os cruzamentos de provas e as diferentes velocidades da justiça comum e da justiça desportiva. Não quero antecipar a possibilidade de virmos a ter decisões diferentes em ambos os casos e o que tal representaria para o descrédito da justiça.
Pinto da Costa saberá o que fazer em termos individuais. Quanto ao meu clube, quero que os seus dirigentes tenham o discernimento de defender o nome e a honra do FC Porto e dos seus associados e adeptos, recorrendo até às últimas instâncias das acusações que enfrenta. É nisso que quero acreditar, sem recurso a tacticismos oportunistas que poderiam recomendar que mais vale aceitar o castigo dos seis pontos agora, que não fazem falta, do que ser penalizado nas próximas épocas. A honra não se troca por campeonatos.

01 abril 2008

Farmácia de Serviço 42


Mau sinal?

Já por aí se falou da súbita concentração do sector editorial. Editoras conhecidas, estabelecidas no mercado há longo tempo, começaram, subitamente, a ser alvo da cobiça de grupos empresariais que nunca tinham mostrado qualquer sinal de se interessarem por uma actividade tão marginal.
Repentinamente dois grupos do exterior e um interno (Bertelsmann, círculo de Leitores) começaram a oferecer somas relativamente altas por pequenas casas editoras (em Portugal todas as editoras literárias são pequenas...). Prometiam dinheiro, manteriam os editores anteriores, despediriam um mínimo de pessoas, enfim, metiam o Rossio na Betesga.
Pessoalmente, o boticário desconfiou. Vender livros não é vender comida ou remédios. Os livros são objectos não essenciais para 99% dos portugas e só quem anda nisto há muito é que sabe das dificuldades de editar e vender.
A recente saída de Manuel Alberto Valente da Asa (grupo Leya) vem dar razão às desconfianças. Conheço o MAV desde os seus anos de estudante ainda em Coimbra. Segui-lhe o percurso logo que começou a dedicar-se á edição. Vi-o na D. Quixote e depois na Asa. Apreciei-lhe o trabalho, o faro, a dedicação, a cultura e sei, ou saberia, dizer-vos quantos sapos ele engoliu para poder publicar os autores que realmente valem. Traduzi alguns poucos livros para ele, temo-nos encontrado por aí e a conversa cai sempre no mesmo. A livralhada que se edita por amor, a que se edita para ganhar cacau para com isso editar os que se venderão mal e por aí fora. O Manel sai da ASA (grupo Leya) alegadamente de motu próprio. Há uns meses, no enterro do Eduardo Prado Coelho eu dissera-lhe que não acreditava que ele se aguentasse. O Manel como de costume discordou. E como de costume, enganou-se. Só queria ter as mesmas certezas quando jogo no euro-milhões.

Deixemos as tropelias das editoras nouvelle formule de lado e pesquisemos: Vamos dar uma voltinha pelos brindes dos jornais.
Anda por aí em venda um “Atlas de Portugal” de saídas semanais. Vai no 9º volume em 20 projectados. Para mim está bem, é fácil de ler, interessante e bastante completo.
Uma outra edição ligada a jornais é “Os anos de Salazar”. Vai no 5º volume e pelo andar da carruagem também deve vir a ter cerca de vinte. Iconografia excelente, artigos eficazes, fiável, colaboradores que se têm distinguido no campo da história contemporânea.
Finalmente, no capítulo do cinema, uma colecção que não sendo a minha é também a minha quanto mais não seja porque a estou a comprar: “grandes realizadores/cahiers du cinema”. Também semanal, o filme traz um livro. Não estão lá todos os grandes mas isso seria quase impossível. Escolheria um que outro filme diferente mas, quem sou eu?, a colecção é boa e vale a pena.
Sem ter nada a ver com jornais, anda por aí à venda uma colecção de “westerns”. Para maluquinhos como este vosso criado, é um petisco. Ainda agora saiu mais um Ford dos velhinhos, dos pouco conhecidos, mas uma fita das arábias. “Western” puro e duro, com a malta a morrer competentemente calçada. Ao pé do que por aí se vê, aquilo é cinema. E isso me basta.
Não há bela sem senão. A cavalo dado também se deve olhar o dente. Anda por aí uma colecção de biografias gratuitas de “personalidades” do século XX português. Percebe-se mal o critério da escolha mas isso é de somenos. Os textos são fracos, a iconografia paupérrima e nem o facto de serem de borla justifica tudo. Nota final: medíocre.
Os amadores da música clássica já devem saber que a Brilliant Classics (sempre ela!) juntou mais uma integral às de Beeethoven, Bach, Mozart, Chopin et alia: Brahms. Como de costume excelente e a bom preço. 60 discos, €58,57, na Amazon. Deve estar a chegar com o luso e habitual atraso à FNAC.
Esta edição da Farmácia leva o número 50, número redondo, e devia intitular-se Pharmacia. Por várias razões. Primeiro porque o remendado “acordo ortográfico” é, pior do que um erro, uma estupidez. Pensar que com uma ortografia diferente e facilitada vamos entrar no “mercado das grandes línguas mundiais” é uma imbecilidade catatónica e diz tudo sobre uma certa maneira de ser português: muita parra e pouca uva. Segundo porque, à semelhança de todos os anteriores acordos celebrados, vamos cedendo na ortografia mas o outro acordante vai mudando (como mudará outra vez, não tenham dúvidas) as regras do jogo até mais outro desacordo e mais outro (e pior) acordo. Terceiro porque com o novo acordo nem um só livro a mais irá ser exportado para o Brasil. Não é a grafia que os incomoda é o resto, semântica incluída. Em vez de nos gabarmos dos duzentos e tal milhões de luso falantes dos quais apenas dez são nossos deveríamos olhar para o lado e perguntar-nos porque raio de razão holandeses, suecos húngaros ou noruegueses são mais cultos, mais instruídos, mais leitores, mais escreventes e, já agora..., mais ricos do que nós.
Pessoalmente, declaro-me em estado de rebelião civil contra o acordo que obviamente não seguirei. É um gesto inútil, claro, mas menos inútil do que escrever fato por facto, ou algo do mesmo teor.

PS que não tem nada a ver com isto: quatro mortes, 4: o r(inh)o Santos, figueirense, homem de coração e de espírito, humor que se queria ácido mas acabava terno, o Zé Rita, companheiro de futebol na praia, caloiro no mesmo ano que eu e um imoderado gosto pela vida, João Taveira da Gama, do velho CITAC um social-democrata que era mesmo social democrata, viveu como quis mas a da gadanha não perdoa, Jules Dassin, um realizador de cinema talentoso e corajoso. Mc Carthy não o venceu e os “rapazes do Pireu” na voz de Melina Mercuri ainda soam aos nossos ouvidos.

Na gravura: imagem de "Never On Sunday", "os rapazes do Pireu" por cá, um filme de com DassinMelina Mercuri, grande, grandíssima actriz e mulher de coragem e de princípios.

Missanga a pataco 48


filhos e netos de um Maio distante



As imagens da TV 5 são claras: estudantes liceais desfilam em Paris reivindicando.
Menos aulas? Mais telemóveis? Uma escola “dialogante”?
Nada disso. Mais professores para, dizem, se poder trabalhar melhor, mais e com mais eficácia.

Ou: Não atirem pedras a este Maio mas apenas à sua tradução canhestra e imoral em Portugal.
Se calhar os do eduquês e do Ministério não dominam o francês. Quanto ao português estamos conversados...

Mais um Estudo Sobre a Pobreza

Dados revelados recentemente colocam a cidade do Porto como a mais pobre da Península Ibérica e uma das mais pobres da União Europeia.

O distrito do Porto já ultrapassou os valores de âmbito nacional e concentra 45% dos beneficiários do Rendimento Social de Inserção.

Segundo o estudo mais de 100 instituições combatem a pobreza no distrito.

Será que a pobreza é proporcional ao número de instituições que se ocupam dos pobres e ao volume do RSI ou será o RSI e as instituições que potenciam e alavancam a pobreza?

31 março 2008

Estes dias que passam 102

Eles estão de volta

Eles tremem mas não caem. Às vezes o escândalo público fá-los vacilar mas eles sabem que isto de jornais é sol de pouca dura, uma notícia abafa a outra e isso conforta-os. Escondem a cabeça por um momento mas apenas para a voltar a erguer logo que a trovoada passa.
Refiro-me, obviamente aos do “eduquês”, aos do Rousseau mal entendido e pior praticado, aos desculpabilizadores, aos “todo o poder ao povo bom e inocente”. Enfim a uma seita que tem desgraçado este pobre país que já não sabe a que santo se votar.
A história, claro, é a da “escola” Carolina Michaelis (pobre senhora, se ela soubesse...). Depois de, por um momento, se terem calado, entupidos, pela bestialidade do filme risível que se viu, eis que voltam com passos de lã.
Um cavalheiro do Público, Pacheco de seu nome, vem opinar que as queixas na Procuradoria da professora agredida fazem o processo entrar numa espiral de violência que poderá ter terríveis consequências. Pacheco, deveria ser obrigado a dar umas aulas, receber os competentes tabefes, as correspondentes humilhações, a acusação gratuita e canalha de poderes públicos, de pais extremosos e de criancinhas apenas um pouco traquinas para saber o que é bom. Mas Pacheco, com uma conselheiral prosa vem dizer que assim também não, que é demais, que as criancinhas... enfim o habitual chorrilho de uma pseudo esquerda de baratas tontas que não percebeu nada, não aprendeu nada e quer perpetuar esse feliz estado de cretinismo agudo no país que a atura.
A senhora directora da DREN esforçou as meninges. Agiu, que remédio, mandando a aluna telefonista para outra escola que vai ter de a aturar. Prometeu rigor, pudera!, e para coroar esse ingente esforço intelectual, mandou que na “escola” (raio de nome!) professores e alunos meditassem no ocorrido entre cinco minutos ou uma inteira hora. Já estou a ver os coleguinhas da criatura agressiva, à semelhança de Pacheco, a entenderem que o mundo está a ser demasiado duro com eles. E os professores a terem de “dialogar” sobre um Estatuto do Aluno que é não apenas aberrante mas imbecil. E criminoso.
Corre, entre os palermas como eu, que ninguém está verdadeiramente interessado em apurar responsabilidades, verificar a razão que nos fez chegar a estes extremos que vêem sendo denunciados há anos.
Há anos!
Alguém daí viu os pais da turbamulta filmadora e gozadora, dizer uma palavra? Por exemplo: “desculpem lá qualquer coisinha?” Viram? Viram os pais da menina agressora a dizer que estão aborrecidos pelo que a filha fez? Que lhe vão tirar o telelé ou deixar de lhe pagar as chamadas e as mensagens e as músicas que descarrega? Alguém viu a inexistente Ministra da Inducação dizer duas a abater à professora? Alguém viu aquela subsecretariante criatura, Valter não sei quê, dizer coisa que se ouvisse e, uma vez sem exemplo, defender a verdadeira parte fraca nesta história de faca e alguidar, perdão de telemóvel e encontrão?
Alguém acredita, visto isto que se vê, e visto sobretudo o que se não vê, porque os professores calam, as escolas escondem, as Direcções de Educação ignoram e o Ministério olímpico não avalia, que as crianças, os adolescentes saem das “escolas” a saber qualquer coisa que valha a pena, que os ajude a ser cidadãos, pais e educadores?
Todos os anos em chegando as tais provas de aferição ou lá como se chamam o discurso é aterrador. Cada vez sabem menos, cada vez as coisas estão piores, cada vez se gasta mais dinheiro e cada vez os resultados são mais tristes.
Quando os jornais publicam as listas de escolas é um ai Jesus! Que as privadas isto, as privadas aquilo. Só se esquecem que as privadas são caras. Sendo caras não estão para brincadeiras. Menino mal comportado sai logo. O pai extremoso que pagou um balúrdio, sente-se onde lhe dói: na carteira! E nesse caso age, é mesmo capaz de enfiar um par de estalos no abencerragem esparvoado. Que obviamente não repete a graça. Esse é o primeiro segredo das escolas privadas. Não estão pelo eduquês, ignoram educadamente o Rousseau traduzido em calão nacional e ministerial, e dão ao demo as digressões alcoólicas por Lloret de Mar.
O caso Carolina Michaelis poderia dar azo a uma discussão fecunda. Poderia... Para isso era preciso pôr em questão um par de tretas inauguradas pelo ministro Veiga Simão, ainda no tempo da outra senhora, valha a verdade. Foi com esse pai da pátria, um homem para todos os regimes, desde Salazar e Caetano a Cavaco e Guterres, que tudo isto de facto começou. Não com este aspecto e muito menos com esta gravidade, está bem de ver. Nem o autoritarismo conservador do Estado Novo lho consentiria. Mas de facto foi com ele que a Educação Nacional foi realmente mudada. A pedra de toque foi o ciclo, o famoso ciclo básico e que daí se seguiu. A destruição das Escolas Comerciais e Industriais que não seriam exemplares mas que garantiam um ensino profissional que hoje não existe. E a dos Liceus que eram “elitistas”- Provavelmente é verdade. Hoje, pelo contrario, elites não se enxergam a menos que se tente ir procurar pelas Escolas privadas.
O que estes pobres espíritos tão radicais e tão igualitários não percebem, coitados, é que a rasoira por baixo condena os filhos dos mais desfavorecidos. Os filhos das classes altas vão aprender em escolas exclusivas, rigorosas, caras. E saem daí para as melhores escolas superiores, seja em Portugal seja no estrangeiro. Esta “escola” condena os filhos dos escassos proletários que subsistem, os da pequena burguesia à vulgaridade permissiva e geradora de ignorância que a actual escola pública fomenta.
O Público há dias traçava o retrato de seis professores no topo da carreira, carregados de louvores e apreciados pelos colegas. Vão embora! Estão pelos cabelos! Não aguentam mais! Sabem que vão perder dinheiro, quer porque, mesmo com os 36 anos de serviço, ainda não têm a idade necessária, quer porque já com mais de 60 anos ainda lhes faltam um, dois ou três anos. Perderão 4,5% por ano em falta. A média daqueles seis professores/as, era, se bem recordo, entre 9 e 13,5% de ordenado a menos. Antes isso que endoidecer, dizia um. Antes isso que apanhar porrada, replicava outro. Antes isso do que viver esta vida merdosa, triste, medrosa ser ainda por cima apontado a dedo, dizia um terceiro. Estes seis professores não estão sós. Há muitos mais na calha, dispostos a arriscar, a perder para ganhar. O movimento é aliás geral em boa parte da administração pública. E são os melhores, os mais capazes que se vão que os outros, os tais que a opinião acusa (e com que razão!...) estão na maior. Não chegarão a titulares, o que lhes evita bastante trabalho. Ninguém os vai despedir porque são “uns gajos porreiros”. Não ensinam mas também não agridem os alunos. Muito menos os paisinhos que só querem da escola um lugar onde ter os filhos a salvo das drogas (boa piada, esta...) e dos restantes vícios e perigos da rua(!!!...)
Um último ponto: parece que há pessoas (e entre elas algumas cuja opinião muito prezo mas que, neste caso lamento dizer que não têm razão) que acham que um telemóvel é um bem de tal modo pessoal que o seu confisco temporário pelo professor é além de uma violência uma atentado aos direitos humanos mais elementares. Mesmo que o tal telefone perturbe a aula que é paga pelos impostos de todos, mesmo que isso perturbe o desejo de aprendizagem de um só aluno entre trinta...
Faço parte de uma associação tonta que fornece material escolar para os cafundós africanos. Uma lousa, algum papel, umas bics, dinheiro para um pobre almoço, mais mandioca que outra coisa, enfim tudo muito rudimentar. Os meninos e as meninas andam quilómetros por picadas infames, sob um sol abrasador, ou uma rara chuva diluviana. Não têm sapatos e as carteiras de dois acolhem três e não chegam para todos. Os resultados são notáveis ao que me informam. As aulas são disciplinadas não só porque ninguém tem dinheiro para telefones mas porque eles sabem que a saída da miséria e do subdesenvolvimento passa por aprender a ler, a escrever, a contar, a pensar, a ser cidadão, a ser responsável, a ser adulto. E sabem que a sua permanência ali e não no campo a cuidar das lavras pobre ou do rebanho magro é um privilégio. E que talvez eles, ou os filhos deles, possam viver um pouco melhor, um pouco mais do que os pais.


O cronista insiste que não é professor nem está ligado a qualquer pessoa com tão extravagante profissão

29 março 2008

Au Bonheur des dames 118












Mais uma de carreirinha...

As escassas leitoras gentis que fazem o favor de me aturar (isto de escassas que, no meu caso, é uma ociosa verdade está a espalhar-se. Para que se saiba uso esta deprimente verdade há uma boa dúzia e meia de anos. Há mesmo um livrinho que cometi em anos mais verdes onde a expressão virá consignada se é que ainda me lembro do que escrevi. Agora leio por aí esta mesma lenga-lenga. Assim não vale. Já tenho tanto que me espremer para aviar meia dúzia de linhas e vem aí um curioso e zás!, mete o mesmo paleio...) sabem, ou desconfiam que eu sou um profundo admirador de Paul Lafargue, o imortal autor do “Direito à Preguiça” (melhor diria ao ócio que é do ócio inexistente naquele tempo que o genro de Marx falava).
De vez em quando ponho-me diante do computador, agora até o levo para a esplanada, e vou debitando nem eu sei bem o quê. De vez em quando aparece alguém, interrompo o que estou a escrever, ponho-lhe um título qualquer, esqueço-me e encontro-o dias mais tarde, gloriosamente inútil porque perdeu oportunidade, porque não consigo repegar no que escrevi, eu nunca consigo, escrevo de carreirinha, detesto corrigir, aliás não corrijo, quando muito umas vírgulas ou alguma palavra repetida. Se algum estilo tenho é este: não o ter. O que saiu, saiu e quem vier atrás que feche a porta.
Nessa torrente de palavras vou deixando constância de algumas angústias, muitas perplexidades e mesmo um par de espantos. O mundo, este mundo, que é o nosso, o meu, pelo menos, não deixa de me surpreender. Uma pessoa pensa que depois dos sessenta já não há novidade que a abale e, pimba!, toma lá que já bebes...
Convenhamos: não me sinto especialmente confortável neste lugar e neste agora. De resto nunca me senti. Se calhar é porque nasci canhoto, canhoto que nem um calhau, só a escola e as diárias palmatoadas, ou a ameaça delas, me levaram a usar a mão direita para escrever. O resultado, durante anos, foi uma letra que variava entre o gatafunho irreconhecível até mesmo por mim e o linear b dos saudosos cretenses. Foi preciso chegar ao fim do liceu para começar a desenhar as letras. Com a prática, aliás adquirida ao copiar integralmente os dois volumes de poesia de Rilke (tradução Paulo Quintela, se fazem o favor, directinha do alemão, rugosa, áspera, genial...) comecei a ganhar este cursivo que agora tenho e que é gabado por conhecidas e amigas. Ou melhor é gabado pelas amigas que me conhecem e que entendem, misericordiosamente, afagar-me o maltratado ego.
Lá me perdi! Estão a ver? Comecei a discorrer sobre a minha ineficiente escrita, atribuí-a à minha desconformidade com o mundo, que atribuí, por sua vez ao facto de ser canhoto e por aí fora.
Claro que, a talho de foice, também poderia acusar a rapariga que está à minha frente, ligeiramente à direita diante de um marmanjolas novo mas careca, bem feito!, feio como uma sexta-feira da paixão, mal embiocado numa vestimenta de mau gosto. E ela a jovem que bem que está! Que bem que é! Se eu fosse um grosseirão como o finado Camilo José Cela, diria que a rapariga era “boa de ver e melhor de apalpar”. Mas não sou, pelo que farão o favor de ignorar o que o Cela diz aí por cima.
A rapariga que está aí à minha frente, apareceu há umas semanas. Como só a vejo em dias úteis presumo que trabalhe em algum dos escritórios aqui do bairro. Será estagiária em algum dos advogados da zona? É que se veste com um cuidado muito clássico e tem a pose de uma menina bem comportada. Dava para estagiária... É bonitinha: um rosto muito sereno, bonitos olhos, cabelo liso e apanhado com fingida despreocupação, enfim não está mal, nada mal.
É claro que daí alguém perguntará porque é que um gajo já tão entrado em anos se mete nestas contemplações. Porque não, reponta o dito cujo. Aliás “a boi velho erva tenra” como dizia o meu inolvidável pai que acrescentava “olhar não tira bocado”. Sempre desconfiei que isto era dito com uma certa tristeza, mas os mortos não têm defeitos. E já agora os vivos, este vivo, mansamente voyeur, também não. Pior seria se me pusesse a admirar os marmanjolas... Meu Deus, o que fui dizer! Esta pode parecer homofóbica... se é que o não é mesmo. Se é, paciência, nasci assim, fui assim educado, já não mudo, nem sequer me apetece mudar.
Deixemos, porém, a jovem ali da frente, sossegada a ouvir o rapaz careca (bem feito! ) mas jovem como ela (grande sacana!) e se calhar simpático e bem disposto. Se calhar, há muitos, muitos anos, um gajo com a idade que agora tenho, olhou para mim a fazer-me ao piso de uma rapariga igualmente boa de ver etc..., e achou que eu tinha ar de parvo. Se calhar tinha, mas quem estava em jogo era eu e não ele, o grande invejoso!...
Já me perdi outra vez, onde é que eu ia, mãe de Jesus, que cabeça a minha, ah já sei, a solidão do escrevente num mundo que lhe parece incompreensível.
Convenhamos: o mundo é sempre incompreensível. Excepto para os cinzentões sem imaginação. Esses fazem ginástica sueca, respeitam os poderes constituídos e a igreja oficial e dão ao demo as inquietações. Provavelmente não são canhotos.


na gravura: Mondrian, uma admiração que já dura há mais de cinquenta anos

27 março 2008

- 1%

O Governo vai reduzir em 1% a taxa de IVA, que passará a ser de 20%, a partir de Julho próximo. Quanto vale esta medida governamental?

A resposta vai depender do posicionamento partidário de cada um. Para Meneses, que já defendeu a baixa de impostos, trata-se de uma medida incoerente, eleitoralista, que vai ser reforçada com nova descida de impostos no próximo ano, a mostrar que o governo apenas segue um calendário eleitoral em vez de governar, o que irá implicar maiores dificuldades no controlo do défice público (mas não têm sido todos assim?).

Paulo Portas já vai dizendo que descer 1% não chega. É preciso descer mais e não só o IVA. Também tem de descer o IRS, o IRC. (mas onde estava Paulo Portas quando o IVA passou dos 19 para os 21%? E qual foi a descida de impostos que ocorreu ao tempo em que foi membro do Governo? Quem é que pode acreditar num Paulo Portas que agora quer dar tudo a todos?

Francisco Louça não diz que é bom nem que é mau, antes pelo contrário. É uma medida que não acrescenta nada nem dá confiança a ninguém. O Governo procura tirar dividendos de uma medida que não tem grande significado para a economia…

O curioso é que apenas o PCP aparece a elogiar a medida como favorável por dar mais poder de compra, ainda que insuficiente, mas a politica tem de seguir nesse sentido, dizem.

Nos próximos dias (meses) vamos assistir a grandes debates, artigos de opinião, entrevistas, tudo a girar em redor da descida de 1% na taxa de IVA, cujo efeito, como bem lembra a DECO, não mexe no preço dos bens essenciais.

A partir de agora, pelo período de dois-três meses (Abril para dissecar a medida aprovada e Junho para preparar a sua entrada em vigor), nada de mais interessante haverá para debater na política nacional. Tudo se vai curvar perante o peso e a importância deste 1%.

26 março 2008

Missanga a pataco 47


Quando me casei pela primeira vez, a minha mulher e eu recusámos qualquer espécie de festa grandiosa um pouco por convicção ideológica e muito porque achávamos uma tolice gastar um balúrdio numa coisa que só a nós dizia respeito.
Mais tarde quando repeti a dose fui ainda mais “forreta”. Um casamento é algo que só interessa a quem se casa e bonda.
Entretanto tenho assistido, surpreendido ou nem isso, a esta febre de casórios onde os desgraçados pais dos noivos se empenham até ás orelhas. Tenho visto, mais enojado que espantado, essas mostras de absoluto mau gosto que consistem no leilão de peças íntimas da noiva. Ainda havemos de chegar à venda de bilhetes para a noite de núpcias ao vivo...
Mesmo assim, parece-me extraordinário que o Estado transfira para o pagode a investigação sobre as contas do casamento para efeitos fiscais. Acaso o Estado subsidia os casamentos? Não? Então que trate de mandar a sua bufaria fiscal à boda e deixe os endividados noivos e mais familiares descansados. Ou também aqui está prestes a haver um convite à valsa das facturas falsas? Relembremos apenas a questão da sisa nas compras de casa e os preços de fantasia que são sistematicamente declarados. Será que esta malta não aprende?
Estou de acordo que se taxem as empresas casamenteiras que ganham balúrdios. Parece-me, todavia, que para isso há outros meios do que esta devassa à contabilidade dos nubentes.
Porém pedir imaginação ao Fisco é o mesmo que pedir a um elefante velho que ponha ovos de Páscoa. Ou de Fabergé como parece ser o caso...

Na gravura: um ovo de Fabergé: custa mais do que um casamento chique!

Missanga a pataco 46


Experiência?

As leitoras gentis não negarão que até agora tenho sido tão silencioso quanto possível no que toca à corrida dos candidatos democratas nos Estados Unidos. Isto não quer dizer que não tenha a minha preferência mas tão só que entendi desinteressante a discussão dos méritos comparados de Hillary Clinton ou Barak Obama.
Melhor dizendo, tenho de há muito uma certa desconfiança do casal Clinton. Detestei, é o termo mais suave, a insistência de Clinton nos bombardeamentos ao Iraque. Acontece que boa parte deles foram perfeitamente injustificados e apenas ocorriam quando o escândalo Lewinsky voltava à cena. Nessas alturas era certo e sabido que lá vinha a ordem fatídica para largar mais umas bombas. E quando as bombas caíam havia sempre um par de vítimas “colaterais”, traduzindo: umas dezenas de mortos civis. Convenhamos que o para esconder os desvarios da braguilha presidencial há outros meios menos imorais.
Também não recordava nenhuma excepcional actividade da senhora Clinton nesse conturbado tempo, ou até depois, quando ela, já senadora, achou por bem apoiar a guerra de Bush (e, ao que parece, do senhor Pacheco Pereira, mas isso é com ele, coitado...).
De Obama recordava apenas um extraordinário discurso na convenção democrata que nomeou Al Gore. Já nessa altura se falava num possível candidato negro (enfim, mulato) às presidenciais próximas. Convenhamos que também não chegava, pese embora um percurso politico surpreendente, brilhante e remetendo para a velha tradição dos Stevenson, Eugene Mc Carthy, H Humphrey, isto é para os grandes mitos da esquerda democrata americana. Vivi os dois últimos, claro, e senti a derrota quase como um americano. Justamente por isso, por esse hábito perdedor, achei melhor cuidar-me e assobiar para o lado. Tinha a ideia de que ao apoiar Obama apoiaria uma vez mais um looser e isso, aos sessentas e tais, já não é ingenuidade, é vício.
Todavia comecei a interessar-me, a tentar perceber, a ir aos discursos, a surpreender-me com a intensa mobilização para as primárias.
Convenhamos que comecei a irritar-me contra alguns golpes baixos do ex presidente Clinton que obviamente pensava que lhe bastaria assobiar para juntar as tropas. Juntou notáveis, é um facto, e as grandes fortunas, mas ficou-se por aí e sobretudo, despertou no campo adversário uma actividade e um entusiasmo que já se não via desde os anos sessenta. Uma vez mais a elite intelectual americana e a as massas jovens mostraram o que se pode fazer com imaginação e entusiasmo. A começar pela recolha de fundos. Pequenas somas mas muitas pequenas somas! Só isso já dá uma ideia de como as primárias foram uma vez mais “democratizadas” pelos pequenos votantes, pelos anónimos, pela gente que está fora do aparelho. E o resultado está à vista. Obama tem o dobro dos Estados, vai à frente em delegados e só perde nos grandes Estados (Califórnia, N Iorque etc...). Com uma segunda mostra de elegância: não fez campanha nos Estados que, como a Florida, entenderam modificar (com que motivos e com que finalidades?) as datas das primárias. Pelo contrario, Hillary, mesmo sabendo disso, entendeu, contra as decisões da direcção do partido democrata, fazer campanha aí o que é, pelo menos, surpreendente, para não usar uma expressão mais forte.
Durante grande parte do debate foi posto em evidência a “experiência” de Hillary contra a inexperiência de Obama. Singular discurso! Sobretudo quando, repentinamente, os adeptos da primeira declaram que Obama seria um excelente vice-presidente! Obama precisaria de mais uns anos para amadurecer!...
O drama de Hillary resume-se num só: tem sessenta anos ou seja é a sua última oportunidade, dizia-me o Onésimo da Silveira. Talvez, mas John McCain tem setenta e cinco e ali está firme como candidato republicano. Será que os republicanos ligam menos à idade do que os democratas?
E agora regressemos à experiência, essa arma incessantemente brandida contra o “jovem” Obama. A senhora Clinton teria tido enormes e importantes conversas com tudo o que era líder mundial durante anos. Teria afrontado as balas malignas dos snipers sérvios numa visita às tropas americanas na ex-Jugoslávia.
Eu mesmo a vi, na televisão descrever, comovida mas determinada, essa gesta do desembarque, a corrida sob as balas, enfim, o desembarque possível na Normandia moderna.
Agora, cai fatal nas redacções um desmentido, ou melhor, uma correcção que aliás também vi: afinal tudo não passou de um lapso da memória. As balas terão sido noutra ocasião não especificada ou nem isso. De facto a senhora Clinton saiu calmamente do avião, acompanhada pela filha, passeou pela pista, recebeu flores de uma menina nativa que estava acompanhada por mais uns tantos civis e quanto a tiros estamos conversados.
Neste momento, à minha frente, um comentador pergunta-se se estas balas inexistentes não serão idênticas ás conversas importantes, aos contactos diplomáticos e a outras provas da experiência multifacetada da senadora por N Iorque.
Nestas discussões eleitorais as regras são poucas mas são draconianas. Os maus passos são punidos e a mentira é para os eleitores algo de insuportável. Nem tudo serve para vencer.
Ou: os fins não justificam os meios.

Na gravura: a Senhora Clinton desembarca na bósnia sob uma chuva de balas e recebe flores envenenadas de uma sniper juvenil...

Na Hora da Despedida

O Prof. Oliveira Marques na sua despedida de Presidente da Comissão Executiva do Metro do Porto fez um rasgado elogio ao trabalho desenvolvido, concluindo que “o balanço positivo superou as minhas expectativas”. Depois culpou o Estado (aquela coisa geral e abstracta) por o resultado final da sua gestão não ser "perfeito". No essencial, a crítica consistiu no facto do Estado não ter disponibilizado os recursos necessários para o investimento realizado, o que obrigou a empresa a recorrer ao crédito bancário. Não disse quem avalizou a dívida e quem vai assumir os correspondentes encargos. É bem provável que seja o mesmo Estado, mas tudo bem.

Pelo menos numa coisa tem o Professor razão. É notável a obra realizada, o cumprimento dos prazos, a qualidade do enquadramento urbano da linha do Metro. Para um projecto que não evoluía ou que evoluía muito devagarinho, acredito que a grande capacidade de liderança, o entusiasmo e rigor com que abraçou o projecto constituam elementos essenciais para o sucesso do empreendimento.

Esperemos que as críticas contundentes que formulou sirvam para o Governo (este e os próximos) passarem a estar mais atentos e interventivos, quer no financiamento equilibrado e atempado, quer no acompanhamento da gestão (creio que era isto que Oliveira Marques criticava).