continuar, (é difícil começar algo mas fácil acabar com tudo)
mar ,24 de Junho de 2026
Ao longo dos ano, e já são muitos, quiçá demasiados, participei em diversas iniciativas culturais de que, por várias razões, apenas destaco duas: a Editora Centelha e a livraria Erva Daninha.
A editora nasceu em Coimbra, um pouco como produto da Crise Académica de 1969 e teve como primeiro grande impulsionador o João Bilhau.
Naquela altura, como alguém ainda recordará, davam-se os primeiros passos na publicação de clássicos marxistas, campo onde a Centelha, ainda com o nome "nosso Tempo" rapidamente se distinguiu.
Na verdade, para além dos Marx, Engels, Lenin , cedo se começaram a editor heterodoxos vários para forte irritação dos que seguiam a cartilha soviética.
Além dessa pequena mas importante via editorial, cedo se iniciou a publicação de poesia que, calculo terá atingido mais de uma vintena de títulos.
Mais tarde a Centelha criou uma colecção dedicada à música pop e ao rock que também se tornou importante e que igualmente terá ultrapassado a mesma vintena de títulos
Houve, entretanto a ideia de publicar "O Capital" mas a tentativa ficou-se pelo primeiro volume na edição (e tradução?) de Vital Moreira. Mais tarde ainda se publicaram alguns volumes de poesia alemã graças à generosidade de Paulo Quintela..
A joão Bilhau sucedeu como principal responsável, Alfredo Soveral Martins que também morreria cedo demais.
A editora tinha uma multidão de sócios, muitos dos quais vinham da fileira de tradutores que recebiam acções como pagamento do seu trabalho.
Eu mesmo, organizei uma antologias sobre os "Black Panther" (com a inestimável colaboração de Maria João Delgado que, aliás começou aí a sua sólida carreira de tradutora).
(como nota curiosa, o livrinho por mim organizado foi proibido ainda antes de estar impresso porquanto a PIDE/DGS descobriu numa tipografia exemplares já prontos da capa. Tanto lhe bastou para perseguir um livro que ainda estava por imprimir)
Entretanto, instalei-me no Porto e a minha colaboração começou a traduzir-se na aquisição de acções. A Centelha tinha uma crónica falta de capital, fora lesada por distribuidoras várias que nunca pagaram e perdeu igualmente muito dinheiro relativo a remessas importantes de livros para angola.
Finalmente, o entusiasmo inicial de muitos dos fundadores foi desaparecendo, a concorrência cresceu desmesuradamente e a morte do Alfredo marcou o inicio do fim.
Desde há vários anos tenho sido abordado por um eventual comprador do espólio (que nem sei onde para...) mas o principal problema reside na dispersão dos accionistas.para não falar na morte de muitos e no desconhecimento de eventuais herdeiros.
Já no Porto e anos ainda viçosos do post 25 A, um amigo meu, regressado de frança lançou a ideia de criar uma livraria Quand, sabedor da minha compulsão livreira, me abordou aceitei participar prevenindo-o entretanto que considerava o meu investimento como completa e integralmente perdido.
A "Erva Daninha" lá nasceu e cedo comecei a verificar o resultado da minha sombria previsão. O produto livreiro em venda na livraria era óptimo mas reservado a uma minoria de leitores. Recordo que, entre outros autores, vendia-se o João Bernardo, um heterodoxo entre os heterodoxos, revistas francesas e italianas que quase não tinham leitores e toda uma série de edições que pecavam pela falta de popularidade entre leitores comuns. Tenho a vaga sensação de que terei sido um dos principais compradores ,mas um leitor impenitente e demasiado curioso não chega. A Erva teve algumas iniciativas pioneiras entre elas uma série de passeios organizados pela cidade com a colaboração de arquitectos que orientavam o quarteirão de internados nos meandros da arquitectura e urbanismo do Porto. Ainda. e à semelhança da Centelha, se tentou editar alguma poesia mas, se berm me lembro a tentativa focou-se por M"memórias do Contencioso" de Fernando Assis Pacheco que fora um grande impulsionador da colecção de poesia da Centelha. Na época a grande referência livreira era a "Leitura (que começara como Divulgação ainda nos anos 50) logo seguida da Lello e da "Latina". (é bom lembrar os seus grandes livreiros, Fernando Fernandes, Domingos Lima e a dinastia Perdigão, avô, filho e neto )A 1ª acabou definitivamente este ano, a Latina subisiste com outros moldes e a Lello é apenas um invólucr artístico que talvez ainda venda livros a turistas apressados que apenas pretendem encher os telemóveis de fotografias sem especial sentido .
Tenho um sinistro palmarés de livrarias desaparecidas em Coimbra ou em Paris, na figueira ou em Roma, em Madrid ou em Lisboa. O mesmo, se passa aliás com as livrarias alfarrabistas cá ou lá fora.
Por outras e últimas palavras: o deserto cresce, ai de quem acoita desertos (Nietzsche, outro admirável poeta que devo a Paulo Quintela)
É por tudo isto que teimo em continuar o blog incursões em incursoes.blogspot.com onde comecei e desejo reincidir
Agora é convosco, leitores
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