Marilyn, Marylin
Mcr, 28-6-26
Faria 100 anos e mesmo assim continua um mito absoluto, um ícone como agora (e imprudentemente...) se diz.
Eu arrisquei-me a nascer dentro de uma sala de cinema mas o meu pai que era um jovem médico prudente entendeu que devia levar a minha mãe para Coimbra e para a maternidade que, na época estava situada mnum belo edifício frente ao jardim botânico.
Falhei, pois, o nascimento na terra que considero minha e numa sala onde posteriormente vi centenas de fitas pendurado com o meu irmão e mais outros meninos num camarote lateral à esquerda do primior balcão.
Nunca esquecerei “E tudo o vento levou”, um par de filmes do Tarzan personificado pelo Johnny weissmuller, um atlético americano naador, campeão olímpico, ou o Danny Kaye danando à chuva. Todavia o principal filme, aquele que mais recordo, porque terá assustado ou profundamente impressionado o menino que eu era, foi “Não há paz entre as oliveiras” (nom c’e pace tra gli olivi) uma película de Giuseppe de Santis, com Raf Valone e Luci Bose—
Porém, foi muito mais tarde já no fim do liceu ou .mesmo em Coimbra que encontrei a Marylin
E digo-o assm com sta desenvoltura porque travei épicas discussões defendendo-a dos que a acusavam de ser uma espécie de produto cinematográfico de exportaçãoo americano. Era já a rapaziada dos cahiers du cinema (que eles não liam, era o que faltava) do “Positif” a bíblia do cimema progressista, dos defensores a outrance do neo-realismo cinematográfico, sem perceberem qual o papel dersta escola e qual a sua real importância. De resto, muita dessa maralha ignorante torciam o nariz aos melhores (De Sica a Visconti) e nunca por nunca souberam quem eram Cesare zavatini ou Ennio Flaiano dois argumentistas formidáveis, dois escritores d corpo inteiro.
Para eles havia apenas o politicamente correcto e la se iam, pela borda fora, John Ford e o western, quase todo ocinema musical e muto dos policiais franceses, das comédias italianas ou do subversivo cinema húngaro .
Hoje, sabe-se que essa loira tímida e inteligente, lia Faulkner e Joyce, escrevia poemas e conseguia criar personagens fabulosas.
De pouco lhe serviram a inteligência, o talento, a simpatia e a bondade. Morreu, vítima de um cocktail fatal de barbitúricos, traída por muitos e não entendida por outros tantos ou mais.
Nem Kennedy, nem Miller perceberam quem tinham à suafrente. Ou recusaram-se a ver para além do corpo esplendoroso que a atirou para a fama e para a incompreensão quase generalizada.
Fui um cinéfilo quase militante desde o ano de caloiro. De facto, um das primeiras mobilizações de que fiu alvo consistiu na obrigaçãoo de ir varrer a dala do Centro de Estudos Cinematográficos, uma secção da Associação Académica naaltura chefiada pelo Alfredo Tropa que havis, mais tarde, se converter rm realizador de cinema.
Já não sei como mas a partir desse dia torneu sócio do CEC e não perdi nem uma sessão quese organizava. Do CEC para o cineclube foi um passo rápido e recordo com saudade os magníficos textos de apresentaçãoo de filmes escritos por Orlando de Carvalho que ainda náõ era o temível catedrático em que se tornou.
Agora, a doença mligna (macula) que desvasta os meus pobres olhos impede-me de respirar o ar das salas onde o mistério do cinema ocorre.Há todo um universo de actrizes e actores, de realizadores e músicos de salas majestosas de cinema ou da recordaçãoo do cinema ar livre, sobretudo dosquartel de bombeiros de Coimbra onde os filmes apareciam infamemente ratados depois de inúmeras sessões em que perdiam fotogramasobre fograma. Ainda recordo uma fita onde sem se saber vomo apareceia um cortejo impoente com uma bela rapariga num palanque. Alguem perguntava”quem é? E aresposta vinha rápida”É a filha do Grã Mogul , Depois o filme continuava sem a rapariga sm o tal gão Migul . O público delirava, reclamava e quae sempre havia um habitué que berrava;”Ó mareco, corta a fita, nós não queremos amor, queremos é mocaria!” )mocaria significava, avisaram-me, porrada a valer e em boa verdade, volta e meia estalava uma zaragata que envolvia os espectadores até algum bombeiro começar a dar mangueiradas que deixavam tudo calmo e ensopado. E o filme láseguia aos trancos e solavancos noite fora, um “Verão violento” `moda portuguesa e coimbrã (desculpem a pequena homenagem a Zurlini e a belíssima E leanora Rossi Drago
Sessenta anos, depois , eis que à notícia do centenário da Monroe me ci em cima um marmoto de filmes, de paixões que tornam dolorosa esta “estate” que só é violenta porque a velhice que mecerca é irremediável e cruel.
Na imagem a gata Kiki de Montparnasse com Marylin ao fundo
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