Jonas Marques Pinto
mar, 21de Julho 2026
Era um homem de cultura, amável, simples e cordial. Foi o primeiro presidente da Fundação de Serralves e, também por isso, coincidimos como intervenientes na vida da cidade. Eu era, à altura, Delegado Regional de Cultura e, por isso mas não só um interlocutor dele. Todavia, mesmo tendo em conta o papel absolutamente relevante da DRN na "descoberta" de Serralves, nos primeiros contactos com os seus então proprietários e em todas as posteriores acções que levaram à compra daquela belíssima propriedade, não vem daí as nodosa relações pessoais.
De facto, éramos vizinhos, vivíamos no esmo prédio onde de resto ele sempre viveu, como eu, aliás.
Vizinhos cordiais o que, hoje em dia não é sempre comum. E vizinhos desde 1974, ou seja, há uma eternidade. Com a sua morte o núcleo inicial de moradores deste prédio fica ainda mais pequeno, tanto que agora devo fazer parte dos cinco condóminos mais velhos. Se é que somos sequer cinco!...
Da sua acção como fundador e presidente da Fundação falarão outros com mais autoridade. No entanto, enquanto cidadão do Porto, cumpre-me uma palavra de reconhecimento e de admiração pelo modo como dirigiu e, de cera maneira, "formatou" a acção de Serralves.
Curiosamente, conservo dele, uma certa ideia de pessoa discreta, mesmo ou apesar de na garagem se alinharem carros seus sempre das melhores marcas e, como dizia, um seu motorista, sempre topo de gama.alguma vez durante uma viagem de elevador lhe terei dito que só lhe faltava um Bugatti, Ou então apenas pensei dizer-lhe isso.
O que seguramente, alguma vez, lhe confessei, era a benigna inveja que tinha por ele poder ter um motorista. Foi algo de que gozei durante uma dúzia de anos devido a funções que desempenhei. Como nunca tive especial prazer em guiar, sempre jurei a mim mesmo que se me caía a sorte grande digamos o Euromilhões um dos poucos luxos que teria seria esse mesmo. Alguém que tivesse o trabalho e a maçada de me levar pela cidade. Mesmo num veículo mais modesto do aqueles que ele possuía. Para carro de lixo só um desses veneráveis RolsRoyce de outra épocas. O resto é tudo igual. Fora o RR qualquer carro confortável e discreto me basta.
Nestes últimos anos quase o não via apesar de me cruzar constantemente com o su pessoal doméstico e com as enfermeiras que ultimamente eram o sinal mais evidente do seu estado de saúde.
Não vou dizer que ele, que morre aos 87 anos, vai fazer falta. O que fez chega e sobra para ser lembrado e se algo poderá fazer falta é o seu exemplo de homem de cultura e a acção que levou a cabo nesse difícil domínio
Boa viagem, caro vizinho!
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