22 julho 2004

Ainda sobre as palavras

O que mais me entristece nas palavras é não poder dizê-las, é ter de ancorá-las à força entre o coração e a boca, num grito calado, porque tem de ser calado para não ser absolutamente ridículo, num sítio onde tantos podem ler as palavras que nem sempre podem ser ditas, porque há muito que aprendi que a malícia nem sempre está na mão de quem escreve as palavras mas no olhos de quem as lê. É por isso que tantas vezes fujo do mundo, para poder voltar ao mundo, porque tenho de voltar ao mundo e fazer-me à vida, a uma vida que raramente admite gritos que são ridículos. É por isso que tantas vezes me amarro ao silêncio e envelheço nesse silêncio e deixo que as noites, silenciosas, também envelheçam inutilmente. Prefiro assim. E já não tenho idade para mudar, embora saiba que o melhor seria mudar, e que teria tudo a ganhar se me transformasse num traficante de palavras.
Mas eu quero pensar que sou daqueles que não inventam um sentido para as coisas quando as coisas fazem sentido e muitas vezes quando nem sequer fazem sentido. Terei um coração frágil para o que me torna frágil, mas não ousarei simular, nunca! E sei que esta é a minha maior fraqueza. Não viverei o bastante para provar que esta é, também, a minha maior força. Talvez fique a semente, talvez não me estraguem a semente e talvez um dia alguém diga as palavras que ancorei entre o coração e a boca e elas não sejam ridículas.

14 comentários:

Kamikaze (L.P.) disse...

É verdade, todos temos demasiadas vezes que ancorar as palavras.
Mas elas às vezes libertam-se. E são a expressão da resistência pessoal e colectiva. Libertadoras palavras.

Não virá muito a propósito do seu post, ou talvez sim, dependendo de como se interpreta.
A mim, e tendo lido também o post Música, maestro! no ABNOXIO - "Há países que cansam. Portugal cansa-me."(...)- fez-me tomar consciência de que tenho andado a pensar, de mim para mim, nestes últimos dias, em que é que eu, nós, todos os que estão a ver, siderados, o curso que as coisas vão (estão a)tomar podemos fazer para que outros também se apercebam e que algo possa ser feito para impedir este desastre anunciado.

Intervenção cívica precisa-se, mas como? O Portugal Profundo tem muita fé nos blogs, mas do que observo só blogam aqueles que já estão "alertados" (seja em que sentido for)e gostam de participar, de ter uma palavra a dizer (às vezes até só para desabafar cumplicemente, como bem sabemos...)
São poucos, portanto. E na criação de correntes de opinião valem seguramente muito menos que os jornais.

Não. Há-de haver outra forma! Desabafar apenas começa a saber(me) a pouco...!

marinquieto disse...

As palavras têm sido um tema repetido neste blog. Cada vez mais, cada vez mais, cada vez mais...
Mas, como diz bem João Rui de Sousa:

"Nem em mim (que em palavras renasço)
a palavra é tudo:
é precisa a evidência da terra
a matéria dos mastros
o suporte dos sonhos"

de Objecto e Palavra
in CORPO TERRESTRE (1972)
João Rui de Sousa

Primo de Amarante disse...

"A linguagem é a casa do ser"
Heidegger

Primo de Amarante disse...

Transformar o mundo pelo blog, parece-me difícil.Já é bom resistir e não entrar em biodegradação.

Zu disse...

Um beijo para ti, meu querido amigo.

Primo de Amarante disse...

Sem querer ser enfadonho para a Marinquieta, voltava ao tema da desconstrução das palavras só para lembrar o seguinte: Há palavras que, pela sua conotação, fizeram atrasar séculos a ciência. P.ex. a palavra vazio foi conotada com a negação do ser e isso teve como consequência o facto dos gregos não serem capazes de criar o zero. Foi preciso esperar pela influência do budismo, sobretudo da ideia de Nirvana (onde vazio era a matriz de todas as coisas, uma espécie de Deus, onde tudo se movia) para se compreender a importância do zero. As palavras carregam uma carga valorativa (ou desvalorativa) e ideológica. Por isso, há palavras proibidas, palavras simpáticas, violentas, ofensivas e amigas. E é também, por isso, que há silêncios que falam mais que todas as palavras. É que as palavras não são etiquetas: referem pensamentos, valores, ideias que por vezes não expressam claramente.
A história da conceitualização no uso das palavras falta fazer. No entanto, aprender palavras é aprender uma forma de estar e de ver o mundo. Com a palavra pragmatismo, sem se dar conta, vai-se introjectando uma forma de ver o mundo, a vida e os outros. Pode parecer que isto é exagero, mas talvez não seja.

Joaquim Manuel COUTINHO RIBEIRO disse...

O compadre esteves é um sábio!

Joaquim Manuel COUTINHO RIBEIRO disse...

Um beijo, umpoucomais, minha querida amiga.

Primo de Amarante disse...

O carteiro, além de bonito e bem sucedido, é um gozão. Mas, quando chegar à minha idade vai perceber que não há bem que sempre dure.

Joaquim Manuel COUTINHO RIBEIRO disse...

Sobre isso, já meti um comentário noutro sítio, camarada. E eu naõ estou a gozar: o compadre é mesmo um sábio!

Joaquim Manuel COUTINHO RIBEIRO disse...

(repetição) A verdade, meu caro compadre, é que nesses tempos eu tive as namoradas mais bonitas de Coimbra. Se calhar é por isso que hoje fico amargurado porque as meninas de vinte e alguns anos não olham para mim como olhvam naquele tempo e como eu, ainda hoje, olha para elas...

marinquieto disse...

Compadre, quanto a pragmatismo acho que estamos conversados.
Quanto às palavras, pior do que esquecer a sua importância, só tropeçar nelas.

Primo de Amarante disse...

Se se é gago!?... Ou quando elas correm mais depressa que o pensamento!

Braun disse...

Olá, meu nome é Abraão, tenho um jornal universitário artistico (no Brasil)chamado Jóça, posso pulicar esse texto nele? Eu lhe mando uma versão prévia em brevem caso queira. Meu email é abrapira@gmail.com Até mais!