30 maio 2008

A propósito do preço dos combustíveis: uma primeira questão

Tem-se falado muito no aumento desenfreado dos preços da gasolina e do gasóleo e do papel preponderante da especulação neste processo. Isto levanta, do meu ponto de vista, uma questão essencial nas sociedades actuais: o papel dos mercados financeiros.

Na palestra a que assisti hoje sobre sobre Economia Subterrânea e a Fraude referiram-se coisas importantes a esse propósito. Focou-se, por exemplo, o facto do mercado financeiro ser, há já bastante tempo, muito superior ao mercado real. Isto gera um desequilíbrio evidente que leva a “escoamentos financeiros” para zonas da economia subterrânea.

Mas, essa dimensão dos mercados financeiros comporta sobretudo um outro perigo que se revelou violentamente no caso dos cereais e que se revela agora também nos combustíveis. Estes mercados tendem a fixar-se naturalmente nas fontes da economia real mais rentáveis. E, como se costuma dizer que o mercado financeiro não tem rosto, não tem qualquer problema em avançar com movimentos especulativos sobre bens que, ou põem em causa a sobrevivência imediata, como é o caso dos cereais, ou colocam em sério desequilíbrio a economia real, como é o caso dos combustíveis.

Todavia, não nos deve causar admiração nem tão pouco indignação o facto destes mercados sem rosto funcionarem assim. Foi com esta lógica que eles foram criados e desenvolvidos. E é tudo legal apesar não ser lícito. O que nos deve fazer indignar é o facto dos Governos se terem fragilizado a tal ponto que ficaram sem meios eficazes de intervenção. Como referiu o economista Carlos Pimenta naquela conferência, passou-se sucessivamente duma situação em que os Governos tinham um planeamento e ditavam as regras do jogo, para uma situação de regulação, culminando numa incapacidade total de intervenção, Um exemplo gritante disso mesmo foi a situação caricata do Ministro da Economia que pediu um estudo para ver “ se se passava alguma coisa que desvirtuasse as regras da concorrência”. Pedir um estudo é o máximo que se consegue como capacidade de intervenção. Claro que agora se coloca também o problema para análise no Parlamento Europeu, mas as vozes que se ouvem focam apenas o lado da redução pela via dos impostos. E as outras vertentes? Nada. O mercado, esse conceito omnipresente, é soberano.

Muitos economistas defendem que há uma predominância acentuada do poder dos especuladores financeiros sobre o poder político. Se dúvida houvesse, esbatia-se no actual contexto.

A questão que fica é apenas esta: O papel dos especuladores nós sabemos claramente qual é. E a dos Estados? Qual é ou qual deveria ser?

Por outras palavras: quem nos defende?

29 maio 2008

TRIBUTAÇÃO LOCAL E REGIONALIZAÇÃO

Como se sabe, os impostos municipais Sisa e Contribuição Autárquica foram substituídos pelo Imposto Municipal sobre a Transmissão Onerosa de Imóveis (IMT) (ex-sisa) e pelo Imposto Municipal sobre Imóveis (IMI) (ex-Contribuição Autárquica).

Sucede que não se tratou de uma simples alteração na designação daqueles impostos. A reforma fiscal operou uma profunda alteração nos critérios de avaliação, o que teve como consequência, designadamente no IMI, o crescimento exponencial de valor do imposto pago pelos proprietários dos imóveis, sendo que a actualização progressiva da matéria colectável levará a que, nos próximos dois anos, o valor a pagar, pelo mesmo bem, continue a crescer a taxas verdadeiramente escandalosas.

(Quem pagava Contribuição Autárquica compare o que está a pagar de IMI e informe-se nas Finanças quanto pagará nos próximos dois anos).

Tudo isto se passou calmamente, sem convulsões nem qualquer reacção pública. Pelo contrário, na democrática Inglaterra, quando Margaret Thatcher procurou alterar o regime de tributação sobre a propriedade gerou-se um movimento que a obrigou a recuar e que esteve na génese do fim do seu governo.

Vem tudo isto a propósito de uma entrevista que Fernando Ruas, Presidente da AMNP, deu ao Jornal Vida Económica, em que declara que “os critérios de fixação do valor dos imóveis seguidos pelo IMI não estão correctos”. “Os coeficientes de localização foram estabelecidos pela administração central, sem ter em conta o parecer dos representantes do poder local”. Fernando Ruas defende, ainda, que as autarquias devem assumir a liquidação e cobrança dos impostos municipais.

Qual foi o reflexo público desta intervenção pública do Presidente da Associação Nacional de Municípios?

Que me conste ninguém agarrou o tema, secundando-o. Não se fez nenhum fórum, radiofónico, matinal nem as televisões organizaram debates com especialistas sobre estas matérias. Não é estranho que um assunto que preocupa milhões de pessoas e que preocupa o próprio Presidente da ANMP não ganhe espaço no debate público?

A transparência fiscal e a responsabilização pelas decisões ao nível da tributação local, designadamente, no que respeita à fixação dos critérios de avaliação dos imóveis e estabelecimento da taxa a aplicar, não podem continuar a ser decididas ao nível central. Devem ser os governos locais a poderem decidir sobre esses critérios e a arcar com a responsabilidade política pela liquidação e cobrança desses impostos. Deste modo, os próprios cidadãos podem estabelecer a relação directa entre o que pagam para a sua autarquia e os serviços que a autarquia lhes presta, podendo, ainda, estabelecer comparações com o que se passa em outras autarquias.

Numa altura em que a bandeira da Regionalização volta a desfraldar parece que o tema dos impostos locais bem poderia constituir um objectivo imediato nesse processo, tanto mais que nem é necessária nenhuma alteração legislativa de vulto para que os Municípios passem a liquidar e a cobrar os seus impostos.

UM PAÍS, DOIS SISTEMAS DE TRANSPORTES

A notícia do dia é que os transportes sobem em todo o país excepto em Lisboa e Porto.

Ora, aí está mais uma excelente medida a favor do desenvolvimento harmonioso do país, pese embora a duvidosa noção de justiça redistributiva que tal medida enuncia.

Au Bonheur des Dames 125


Da cidade para o mundo


Hoje quero carne!”, avisou a CG em tom cavernoso. E o caso não era para menos. Isto de tentar ir ao Vaticano numa quarta-feira não lembra ao diabo. Mas lembrou-me a mim, desconhecedor dos mistérios do rito. Resultado: praça cheia de gente vinda das mais desvairadas partes, com direito a missa e Papa.
E a basílica? perguntei a um carabineiro. Só depois da uma, respondeu-me.
Eram dez e pouco da manhã. Não me apetecia ouvir missa mesmo papal. O sol ia alto e quente. Entreguei-me ao “bon vouloir” da CG. Que começou por pedir um sumo fresquinho de laranja para pensar. Depois de meio sumo e três cigarros, numa esplanada, reconheceu que esperar tanto era “uma seca”. E regressamos ao mundo pecador, a tempo de almoçar num restaurante na zona do Panteão.
Ao nosso lado instalaram-se seis americanas, quatro muito novas e duas com ar maternal. Entre todas comeram duas pizzas sempre com ar enjoado. Uma delas rolava os olhos com medo de uma pomba que debicava restos. “The bird”, guinchava, I’m scared with the bird!. Olhando para a assustadiça que com os seus dezoito anos e setenta quilos confessava o seu horror pelo pássaro enquanto dizia mal de Roma, dos romanos, do tempo, da água S. Pellegrino e de não sei mais quê, percebi a razão de algum anti-americanismo europeu.
Pela tarde, e para se ressarcir do desgosto da não visita, a CG pediu para regressar à Via dei Condotti. A pretexto de umas compritas para a filha... Pimba! Se aquilo são compritas eu sou um americano com medo de pássaras...
A tarde quente, claro!, foi-nos guiando preguiçosamente por pequenas ruas e praças. Ainda tentei beber um cervejinha em S Lorenzo in Lucina (magnífica igreja!) mas as esplanadas estavam cheias como um ovo. Mais abaixo, em pleno Montecitorio as televisões entrevistavam uma “excelência” gorda e pesada que devia ter coisas importantíssimas para dizer. Subitamente numa esquina, dou de caras com uma cartoleria onde comprei uns papeis lindíssimos para encadernar a livralhada mais precisada. Eu perco a cabeça com estes papeis feitos à mão. O pior é o preço: 17 eurinhos por uma folha!
Jantámos magnificamente num restaurante na piazza de S. Eustachio (foi aqui que Leão X foi corado Papa.)
. Umas verduras grelhadas e gratinadas para abrir e o tal bife exigido pela CG. Eu refugiei-me num spaghetti alle vongole verace.
Ao nosso lado, outros seis americanos: dois homens, duas senhoras e duas raparigas. Civilizadíssimos. God bless America, murmurei in petto.

* na gravura: S Eustachio

28 maio 2008

RELATÓRIO DE ESTABILIDADE – BANCO DE PORTUGAL

O Bano de Portugal divulgou um documento que designa de Relatório de Estabilidade. No entanto, pelo seu conteúdo, bem poderia chamar-se: Relatório de Instabilidade.

Com base nesse documento a comunicação social faz manchetes em que dá relevo ao endividamento dos portugueses.
  • Segundo país mais endividado da zona euro;
  • As famílias, em média, estão endividadas 1/3 acima do rendimento que auferem;
  • O Banco de Portugal mostra-se preocupado com as famílias e com as empresas de menor dimensão;
  • A turbulência nos mercados financeiros indicia que as dificuldades serão ainda maiores nos próximos tempos;
  • As famílias vivem em “stress financeiro”.

Face a este quadro tão pessimista, bem podem as Câmaras Municipais e Juntas de Freguesia começar a organizar gabinetes para ajudar as pessoas contra o “stress financeiro”, uma vez que o Gabinete de Apoio aos Sobreendividados, da DECO, dificilmente terá capacidade de resposta.

27 maio 2008

Economia Subterrânea e a Fraude

No próximo dia 29 de Maio, pelas 21h, na Livraria Almedina do Arrábida Shoping, o Prof. Carlos Pimenta, da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, vai falar sobre Economia Subterrânea e a Fraude. Esta é uma iniciativa conjunta da Faculdade de Economia e da Almedina. A não perder.

Au Bonheur des Dames 124


Vacanze romane


Às vezes pergunto-me se vale a pena viajar. Eu gosto de Roma, foi amor à primeira vista vai para trinta e muitos anos. Voltei aqui mais três ou quatro vezes, a última há já catorze anos. Algo mudou. Eu mudei e de que maneira. A cidade também. Há mais turistas, mais obras nas ruas, que continuam, há que dizê-lo, tão esburacadas como sempre. Metade da Roma romana está fechada para novas escavações, para obras de reabilitação, para sei lá o quê... Pessoalmente não me afecta mas a pobre da CG ainda pouco conseguiu ver: a Domus Áurea só com pré-marcação e já não há para esta semana. O Coliseu tinha uma bicha quilométrica e os grupos com guia passavam á frente. Aso fim de um quarto de hora a bicha parecia ainda maior pelo que desistimos.
Quando pensei nesta viagem achei que não convinha vir na Quaresma nem na Páscoa por motivos óbvios mas que este fim de Maio era boa altura. Pelas minhas contas, o calor não apertaria e os turistas seriam em dose decente. Erro fatal! Está um calor de assar um cristão mesmo ateu como eu e os turistas (e eu também o sou) avançam em batalhões, regimentos, divisões, exércitos cerrados...
Já estou em programas alternativos e penso mesmo em deixar o Vaticano para o um futuro pino do Inverno. Duvido que valha a pena o esforço. Em contrapartida há exposições magníficas e essas não parecem ser alvo de demasiada procura. E dentro dos museus onde ocorrem está fresquinho...
Como estava fresquinho dentro de uma bela loja a que não resisti: lá merquei umas camisas de linho, deste linho que pede meças ao irlandês.Ai o consumismo... Tu quoque, Marcellus? Mas as camisas são lindíssimas. E depois já passei por umas gravatinhas... E a CG que morre por estas coisas, insidiosa: compre, olhe que depois arrepende-se por não ter comprado. A qualidade é boa, os preços uma tentação...
Ah, o diabo em forma de mulher é tão convincente. E nós homens somos tão fracos...
E agora o nosso minuto político: o novo síndaco de Roma um cavalheiro com o evocativo nome de Allemano, resolveu andar pelas zonas onde houve ataques xenófobos a consolar as vítimas. E a dizer que a culpa do racismo “rampante” é da esquerda que governou Roma: foram eles que encheram a Itália de estrangeiros e por isso despertaram as iras do bom povo romano!
Como se, desde, os Césares, Roma não tivesse estrangeiros em barda a fazer o que o romano não faz, nem quer fazer!

* na gravura: mcr e cg em Roma? Não. Apenas Gregory Peck e Audrey Hepburn no filme que dá nome à crónica

26 maio 2008

Por que não nacionalizar?

Eis a questão que MÁRIO CRESPO nos deixa no seu artigo de opinião, publicado no JN. MÁRIO CRESPO é um grande jornalista, do melhor que temos, por isso as suas inquietações e reflexões merecem ser tomadas em conta.

Pelos vistos o Congresso americano, também, anda preocupado com a falência do mercado, no que respeita aos preços dos combustíveis. E, a exemplo do que fez o nosso Governo, também mandou fazer um inquérito. As conclusões foram tão estapafúrdias que levaram o congressista Maxime Waters a colocar a "revolucionária questão" que Mário Crespo nos devolve.

O artigo de Mário Crespo merece ser lido por todos e, em particular, pelos decisores políticos. Atrevo-me a dizer que em vez de andarem por aí apelos a não abastecimento nesta ou naquela marca, a questão (exigência) que deveria circular deveria ser: Por que não nacionalizar?

Como diz Mário Crespo, “aqui nacionalizar não seria uma atitude ideológica. Seria, antes, um recurso de sobrevivência”.

E, já agora, de bom senso!

Manif's

Unidos pelos protestos contra a introdução de portagens nas auto-estradas SCUT (sem custos para o utilizador), centenas de automóveis rumaram ao centro do Porto no passado sábado, manifestando-se contra as intenções do Governo (ver aqui todo o dossier do JN). Ao que parece vieram de treze pontos diferentes do Norte e Centro do país, sob a liderança de um autarca comunista da Póvoa de Varzim.
Não vou discutir hoje a justeza das suas reclamações e os princípios que guiam as decisões do Governo nesta matéria, mas incomodou-me que tenham vindo manifestar-se para o Porto. Porquê o Porto? Acaso somos alguma caixa de ressonância do Terreiro do Paço?
As cidades e as populações de fora do Porto passam a vida a insurgir-se contra os defeitos centralistas do Porto, dizendo mesmo que, se houvesse regionalização, o Porto repetiria os mesmos vícios de Lisboa. Dizem que o Porto quer “dominar” o Norte e que para capital já basta Lisboa. Não discuto essas “boutades”. Mas virem invadir o centro da cidade do Porto com manifestações que interessam sobretudo a essas periferias, não deixa de ser irónico.
Querem manifestar-se? Pois muito bem. Então comecem por provocar efeitos nas próprias zonas de residência dos manifestantes, junto dos respectivos poderes locais, e deixem os outros descansados. Querem protestar alto e bom som? Tomem o caminho de Lisboa e entupam o Terreiro do Paço e ruas adjacentes. É lá que está quem manda!

Aniversário



Pois é, o Incursões já tem 4 anos. Quatro aninhos bem celebrados por um grupo cada vez mais unido. Não se pode dizer que escreva muito, mas é unido. Desta vez o repasto foi no Donna Pasta, restaurante situado em pleno Marco de Canavezes. Para fomentar o apetite de quem lê junto uma imagem elucidativa deste petisco. Digamos que é, seguramente, património gastronómico e até tem uma Confraria. Merece. Quem ainda não provou pode considerar uma lacuna grave.

Agradeço, e sei que comigo estão todos os outros, ao JCP e ao Carteiro o convite para este delicioso jantar. Obrigada pela ideia e, sobretudo, por tão bem a terem colocado em prática.

A todos os Incursionistas um abraço e, como se costuma dizer nestas alturas, que sejam por muitos e bons anos!

Nota: infelizmente não tivemos a presença do MCR que nos trocou por Roma (imagine-se!), do José António Barreiros, do Mocho Atento, do Lemos Costa e do Compadre Esteves que estiveram ausentes por razões pessoais. A estes aproveito para mandar um abraço e dizer que tivemos muita pena que não pudessem estar connosco.

Au Bonheur des Dames 123


Romeiro em Roma

Isto da internet sem fios está que ferve! À cautela trouxe o computador mas sem grande esperança de o conseguir conectar ao escasso grupo de leitorinhas gentis que me aturam. O hotel, hotel modesto, entenda-se mas absolutamente no centro de tudo, não tinha ar de ter internet. Pelo sim pelo não liguei o honrado modem fornecido (pagantibus!) pela Vodafone e lancei-me ao desconnecido. Milagre de São Marcello, Papa e mártir que se venera numa bela igreja em plena via del Corso, na praça, obviamente, de S. Marcello: após um bom número de piscadelas eis que me aparece a ligação. Alguém aqui nas redondezas está a pagar esta piratagem. Como por cá se diz “ho fatto il portughese”. Ou seja entrei á borla na internet de alguém. Ou como também se diz: em Roma sê romano.
E que faz um romano de fresca data (mesmo se apoiado pelo poderoso nome de Marcelo que já Virgílio cantou na Eneida (“tu eris Marcellus”) em Roma num domingo. Pois à cautela lembra-se de ir mostrar à CG (a noviça nesta cidade) a zona da Piazza di Spagna e adjacências luxuosas e sumptuosas. Não há perigo que é domingo pensei. Lojas fechadas, quanto muito apanho umas horas a ver montras.
Engano fatal, manas! Engano horrível, irmãos meus com mulher amantíssima a tiracolo: tutto aperto! Das 10 da matina até às dez da noite!
Então e o Papa? E a Igreja? E o dies domini? Nada! Niente! A via dei Condotti parecia a via dolorosa. A CG uivava como uma matilha de lobas antigas e romanas. Saltava de um lado para o outro da rua, de Gucci para Valentino de não sei quantos para não sei quem!
Chegámos esfalfados à piazza de S. Marcello já era meio dia. Um sol abrasador. A Igreja fechada! O Panteão cheio de povo, uma milagrosa e enorme Feltrinelli aberta: meu Deus dos livreiros, que coisa linda. Comprei só para vos fazer inveja os nove volumes do Inferno de Dante ditos e filmados pelo Benigni (cem brasas!, toma que já bebeste!): eu vira-os na RAI I e ficara esmagado. O raio do Benigni é cá um actor. E explica cada passo, cada referência diante de um público entusiasta e atento. Saia um Benigni para Camões. Saia um leitor comentador para esses “Lusíadas” imenso. Juro que Camões ressuscitava!
E comprei duas edições pequeninas da Divina Comedia e do Canzoniere de Petrarca. Só para ir lendo pela rua se me apetecer.
Também vinha por discos da Anna Identici, uma cantora fabulosa dos sessenta. Má sorte teve que, depois de prémios vários, S Remo incluído, se pôs a cantar coisas populares e feministas depois do sessenta e oito.
Dimenticata, disse-me o vendedor da Feltrinelli. Dimenticassima!, corrigi. Assolutamente, respondeu. Mas encontri um único exemplar dos “I Sucessi”. Mas não desisto. Hoje também é dia. E amanhã. E depois.
O que não há é o filme “Estate violenta” de Zurlini. Saiu em França mas cá, nada! Ah, estes italianos...
Em Roma sê romano. Dormimos uma sesta gorda que na rua como se dizia, à hora da calma só os cães e os franceses.
Hoje vou pilotar a CG pelas ruínas romanas. E almoçar no Trastevere. Depois conto.

*Igrreja de S Marcello

23 maio 2008

o gato que pesca 3


um interregno no Maduro Maio

ou de como as gatas Ingrid Bergman de Andrade e Kiki de Montparnasse Correia Ribeiro resolveram provar aos seus "donos" que também elas sabem fazer um seat-in contra a projectada viagem destes últimos a Roma. A Roma? A essa cidade paraíso de gatos e gatas de linhagem patrícia? E sem nós? Era o que mais faltava...
E vai daí ocuparam a mala da "dona" desafiando-a a tentar meter lá uma simples peça de roupa.
Muito me temo que a repressiva CG não se deixe convencer por esta ocupação pacífica e à força as desaloje. como ocorreu no Panthéon, justamente...
Enquanto uma turba multa de "incursionistas" se preparam para uma jantarada em terras do perigoso JCP o último fumador de autênticos "Cohibas" e de um serão nas propriedades de "o meu olhar" e JSC, este escriba terá de se consolar com um jantarinho no Campo de Fiore...
Às leitoras que bem precisam deste descanso de escrita e aos camaradas do blog um até para a semana.
As gatas contestatárias e ocupantes ficam entregues aos cuidados da enteada Ana e da bem humorada D. Eugénia. Elas sobreviverão ao desgosto de não nos verem um par de dias.

22 maio 2008

Estes dias que passam, 111


Torcato Sepúlveda

Não é fácil definirmos alguém com quem raramente estamos como um amigo. Na verdade, o próprio facto de se somarem mais ausências do que presenças, inviabiliza, ou, pelo menos, atenua, essa amizade que tantos proclamam e que consegue até nutrir-se de distância e silêncio.
Abro porém meia excepção para o Torcato. Não éramos amigos mas apenas conhecidos desde Coimbra. Mais precisamente desde 1969. Nessa altura o Torcato era m miúdo reguila com um vozeirão. Os meus amigos achavam-no insuportável e classificavam-no sumariamente : um “contesta”. Eles, muito mais velhos, mais experientes, condenavam sem grande esforço qualquer um que pusesse em causa a sua autoridade. Ou que os pusesse em causa, simplesmente. A história deu-lhes razão. Uma luta estudantil não era pêra doce. E naquele tempo ainda menos. Havia que saber parar. Havia que conciliar. O Torcato, que devia ser caloiro, não estava pelos ajustes. Falava entusiasmado, aos arranques, com o corpo todo e, por ele, não era possível outra solução que não passasse pelo esmagamento absoluto do adversário.
Depois disso encontrámo-nos duas vezes. No lançamento de um romance do Assis Pacheco e por ocasião de um “brain storming” patusco que um Secretario de Estado da Cultura patusco e ignorante realizou com todos os seus directores e sub-directores gerais e na presença da imprensa. Duas vezes em quase quarenta anos. Em ambas, porém, estivemos à conversa uma tarde inteira. Horas e horas a falar de algo que nos interessava, livros sobretudo. E em ambas as ocasiões despedimo-nos jurando que depressa nos voltaríamos a ver para discutir mais uns pontos daquela nossa agenda inesgotável.
Devo corrigir o que acima disse. O Torcato, muito certamente, nada sabia de mim, mas eu lia-o com constância. E com respeito. E com carinho. Foi responsabilidade dele o melhor suplemento cultural que o “Público” jamais teve. E logo que ele saiu, aquilo foi caindo, caindo, até se chegar a este inóspito pedaço de papel onde tudo desde o espectáculo mais pimba até umas vagas notas de leitura se mistura, se acavala, se repele. A ânsia de ganhar dinheiro vai de par com o desprezo pela cultura e pelos leitores. Às vezes pergunto-me se os responsáveis do Público lêem o El Pais, o ABC ou o Le Monde. E se, lendo os seus suplementos literários ou culturais, se envergonham. E no caso de eventualmente se sentirem mal, por que é que não se perguntam: o que é que o Torcato diria “disto”?
E antecipo uma resposta. À maneira de Jarry, melhor dizendo, Ubu: Merdre!

* na gravura: Ubu por Max Ernst.


Bartolomeu Cid dos Santos
biblioteca
painel na Estação de Metro
de Entrecampos
Lisboa

21 maio 2008

Maio, maduro Maio 5





MUITOS VERÕES VIOLENTOS



Amore stanco amore d'officina,
amore che si spegne goccia a goccia

mentre corre veloce la catena
e tu perdi ogni giorno un po' di noi

Amore stanco amore che la sera
non sa più ritrovare il suo sorriso
Ci guardiamo dietro l'ultimo boccone,
ma troppo stanchi per vederci…
…..

Este é um trecho de uma canção de Ana Identici. Detenhamo-nos um minuto nesta cantora. Foi sensação em S Remo, era bonita, tinha boa voz, estava destinada a ser uma diva da canção. Todavia em pleno 68 achou que não queria ser apenas isso e começou a cantar um novo repertório. Combativo como se vê. A fama que rapidamente alcançou não era a fama que vale numa Itália que não quer sair do seu modelo. Hoje em dia, ninguém (quase ninguém) fala de Ana Identici. A mulher que cantou a condição operária, a condição feminina, a vida sem horizonte sofre o ostracismo a que foi votada pela boa consciência. Pelos que querem esquecer os anos de chumbo e, com eles, o resto, a revolta, a indignação e o medo a uma hipotética aliança DC/PCI que poderia ter mudado o destino do país.
Talvez assim se perceba o assassínio de Aldo Moro, por exemplo. Um governo claramente reformista que incluísse o PCI na área do poder afastaria duravelmente a impossível revolução com que os brigatisti sonhavam. E acabaria com os negócios frutuosos que, sob a capa complacente da direita da DC, engordavam os vários polvos, mafiosos ou não que alimentavam a crónica daquelas anos.
Entendamo-nos: as coisas não são tão simples como aqui, por economia, se apresentam, mas também não andam longe deste quadro geral. É que uma sociedade bloqueada não oferece grandes saídas e a Itália, mais do que qualquer outro país ocidental estava bloqueada. Extrema Direita e Extrema Esquerda encontram nesta situação o campo ideal de combate. E os poderes públicos alimentavam essa animosidade.
A deriva violenta da esquerda mais ou menos espontaneísta é todavia posterior à famosa e eficaz violência de direita alimentada pelos elementos mais radicais do partido de Giorgio Almirante. Foram mais de 4000 os atentados da direita, e dos cerca de cem assassinatos políticos registados entre 65 e 70 mais de oitenta trazem a marca da direita radical. Some-se a isso, que já é muito, a existência de vários complots dentro do próprio aparelho de Estado (alguns só muito tarde descobertos como o “Gládio”). A resposta não se fez esperar embora em ordem mais que dispersa. Elementos vindos do “Potere Operaio”, da “Lotta Continua” para já não falar em militantes directamente saídos da ACLI (Acção Católica Liceal Italiana) irão criar os primeiros grupos que praticam a luta armada (Esquerda Proletária, Voluntários Vermelhos, Grupos Armados Partidários – de Feltrinelli que morre aliás num atentado que preparava! ). Tudo começa por confrontos com elementos direitistas, deriva rapidamente para as zonas operárias “em defesa do proletariado oprimido”, continuará pela perseguição a elementos do PCI (aqui já são as Brigadas Vermelhas a operar) e finalmente enveredará pelas campanhas “sérias” de terror. Os anos setenta, os anos de chumbo, deixarão uma marca que ainda não desapareceu. Ainda há gente a monte, ainda há presos nas cadeias italianas, ainda há quem chore pelas vítimas que foram muitas e que, as mais das vezes nem sequer sabem porque morreram.
E há também o naufrágio dramático de um sonho de revolução e de transformação do mundo. A passagem de uma contestação saudável e necessária duma situação ingrata a uma luta em nome de um proletariado que se não reconhece nos seus pseudo salvadores, contra um “SIM” (Estado Imperialista das Multinacionais) que as Brigadas julgavam poder combater com uma revolução na Itália (com quem?), liquidando escolhidos representantes do Poder numa espécie de estratégia de acções exemplares que insurrecionaria as mais largas massas populares.
Isto que vem de ser sumariamente descrito foi elaborado em várias publicações por intelectuais universitários prestigiados e lido (mal lido) por jovens ultra-politizados com uma determinação só igual ao seu desconhecimento da vida de todos os dias. Por jovens que acreditavam, mesmo depois de Praga, numa organização ultra-leninista, num partido militarizado e na maldade intrínseca do revisionismo, do liberalismo e de mais uma série de crimes anti-socialistas constantes da vulgata em uso neste género de organizações desconectadas da realidade.
Os anos setenta verão um renascimento do terrorismo de direita (estação de Bolonha, 85 mortos mais de 200 feridos) que curiosamente apresenta motivações idênticas. Os radicais negros queixam-se do eleitoralismo do MSI, da falta de soluções salvíficas que liberte a Itália e o mundo do comunismo, reconhecem-se nas ditaduras latino-americanas do mesmo modo que Brigadas e Prima Línea se louvam nas guerrilhas, nos Tupamaros e nos Montoneros.
Em resumo: aquilo que hoje em dia muitos assacam à esquerda como se esta tivesse sido a única responsável dos “anos de chumbo” é, de facto, fruto de uma situação muito mais complexa, protagonizada por forças muito diferentes que chegam a incluir agentes do aparelho de Estado (serviços secretos, exército e polícia), crime organizado e agentes de potencias estrangeiras. Não, definitivamente a esquerda estudantil, ou parte dela, não é ré única no drama italiano. E se isso não lhe diminui as responsabilidades próprias também as não aumenta nem elimina as alheias. Que foram muitas. É altura de começar a falar delas.


* estação de Bolonha depois do atentado.

20 maio 2008

Quem haveria de dizer…

«Juiz-conselheiro explica 'saco azul' com sexo, mentiras e vingança»

«Almeida Lopes, juiz-conselheiro jubilado e primo de Fátima Felgueiras, afirmou ontem em tribunal que o processo "saco azul" de Felgueiras resultou de uma vingança passional, porque os arguidos Joaquim Freitas e Horácio Costa, denunciantes do caso, estavam apaixonados e queriam manter relações sexuais com a autarca.». In JN.

Portugueses mal amados

Há muitos portugueses mal amados. E como chegou esta cabeça pensante a essa brilhante conclusão? Pois, foi através da análise da forma como conduzem nas estradas esses ditos portugueses. Da forma e do respectivo meio de transporte. A quantidade de bombas que se vê por aí é impressionante. Quando se aproxima um BMW ou um Audi, todos nós, pobres ocupantes de carros “menores”, temos que deixar a passadeira livre para que possam deslizar à velocidade que lhes dá na real gana e que nada tem a ver com leis, limitações, ou essas coisas destinadas a gente menor. E a agressividade? E o encostar bem à traseira do carro da frente como quem diz “ então, não desamparas a loja?”.

Mal amados, é o que é. E vigam-se desta forma. A culpa é certamente das respectivas mãezinhas…

Há coisas boas…

Vi há pouco na RTP um programa interessante chamado, salvo erro, 30 minutos. Foram apresentados três casos.

O primeiro tinha por protagonista uma jovem de 25 anos que, devido a uma doença rara, vive num corpo de uma criança de 8 anos com limitações físicas muitíssimo complicadas que a obriga, por exemplo, a depender de uma cadeira de rodas e da ajuda de terceiros para se deslocar. Pois esta jovem, para além de tirar um curso superior, trabalha e, como se não bastasse, escreveu um livro, Como isto é façanha que persigo há anos, desfiz-me num enlevo de admiração por tal testemunho de coragem, trabalho e talento. Um exemplo para todos nós, que, basicamente, tendemos a gastar metade das nossas energias a apresentar as razões que explicam a nossa inércia.

O outro caso tinha a ver com uma outra jovem portuguesa que foi trabalhar para o McDonalds para pagar as lições de canto, já que o seu sonho era seguir uma carreira nessa área. Desistiu das aulas porque o dinheiro não era suficiente. Todavia, foi seleccionada para ser a representante portuguesa num concurso internacional para eleger a melhor voz entre os colaboradores dessa empresa. Na fase seguinte foi uma das três seleccionadas entre centenas de jovens. Foi à final e ganhou. Um conhecido produtor discográfico americano, que assistia ao espectáculo, convidou-a a ir a Los Angeles para gravar um disco. É caso para dizer: eu não acredito no destino mas que ele existe, existe.

O terceiro exemplo foi o do Rui Costa, ex-jogador do Benfica e agora Director Desportivo do mesmo clube. Tinha já visto há dias a ternura, o orgulho e a comoção do Rui Costa e dos seus dois filhos na despedida como jogador. Foi bonito de ver e ouvir.
Como portista que sou o que me ocorre face a este último caso é o seguinte comentário: o Porto Ganhou o Campeonato, o Sporting ganhou a Taça e o Benfica ganhou um Director Desportivo. Vidas…

MAIS RIQUEZA E CADA VEZ MAIS POBRES

Tendo como pano de fundo factores como a elevada taxa de pobreza infantil (23%, quando na população adulta é de 21%),” a conclusão a tirar é que o tema das próximas campanhas eleitorais vai ser ”O Social” - "Resolver os problemas sociais".
Depois de terem criado as condições para os números que o JN revela vai ser giro ver como é que os mesmos políticos nos vão anunciar a boa nova.

Entretanto, os candidatos à liderança do PSD recusam-se a dialogar uns com os outros. É uma família desavinda, a confirmar o que há uns anos dizia um conceituado político, de um outro leque partidário, que o principal adversário de um político não está num outro partido, mas sim dentro do próprio partido e concluía: “sabe, os aparelhos partidários são estruturas pérfidas, trituradoras”.

Verdade, verdade, é que são estes aparelhos pérfidos que conquistam o poder e que governam os povos. Talvez aí estejam algumas das razões para os grandes níveis de pobreza que se observam em todos os países, mesmo naqueles em que o volume de riqueza gerada cresce ano após ano.
Enfim, o que se pode esperar quando a política se exerce, de modo concertado e geral, com o nível que esta interessante e actual crónica, publicada no mesmo JN, denuncia.

Estes dias que passam, 110


Perder bem, ganhar mal

Pior do que o chamado mau perder é o mau ganhar. E é pior porque o vencido tem uma desculpa, uma má desculpa para a cólera que sente por ter perdido.
Eu sei que é politicamente correcto afirmar que se deve guardar modéstia no momento da vitória mas de quando em quando podemos arriscar um passo desses. A vitória bebe-se lenta, pausada, descansadamente. Assim dura mais.
Todavia há sempre um quiddam que desconhece estas pequenas, vulgares verdades. São coisas que se não aprendem na escola, na universidade mesmo se se consegue um doutoramento. Fazem parte daquilo que se poderia chamar educação informal. A chamada “gente bem” fala de “tomar chá em pequeno” a propósito deste misto de bons modos, contenção e simplicidade.
Vem tudo isto a propósito de um artiguinho, mais um, de um dos comentaristas de última página de um jornal de referência. A criatura resolveu fazer um penoso exercício de ironia sobre o resultado da votação na Assembleia da República sobre a questão do Acordo Ortográfico. Pergunta aos “derrotados” se já repararam que o mundo continua igual, como se da votação naquele areópago de escassa ciência filológica e ortográfica, pudesse sair outra coisa do que a que saiu. Há vezes em que me pergunto se o homenzinho pensa o que escreve ou se dispara mais depressa do que a própria sombra.
Toda a gente sabia que o “Acordo...” ia passar na AR. Os partidos tinham dado as necessárias ordens para que a ordem reinasse. E de todo o modo a votação não se destinava a aprovar o Acordo que infelizmente fora já aprovado por uma assembleia tão competente como a actual.
O que os contrários ao acordo diziam, e dizem, é que não só nada se ganha com ele mas que é provável que se perca muito. A ridícula argumentação de que o acordo fará da língua portuguesa (notem que digo portuguesa e não brasileira ou outra coisa qualquer) uma língua importante. Primeiro porque já é falada por cerca de duzentos milhões de pessoas (que ele iça à categoria de terceira língua mais falada do ocidente, provavelmente porque o russo não lhe parece ocidental) e depois porque assim já não deixamos os brasileiros passarem-nos a perna na competição ortográfica do português. Mal sabe o pobre que quando se trata de aprender português é geralmente recomendado aprendê-lo com brasileiros porque pronunciam todas as letras. E parece não perceber que mesmo com este mau acordo continua a haver discrepâncias ortográficas. Ou seja que os estrangeiros aprenderão a variante brasileira mais depressa do que a portuguesa como é natural.
O que o autor da prosa ligeira parece não perceber é que não é o número de falantes ue determina a importância de uma língua mas a força política e económica dos países e povos que a falam. E a cultura. E aí corremos sérios riscos de estar num lugar bem mais modesto do que o simples número de falantes poderia indicar.
Mas o esforçado articulista não contente com o esmagar a oposição com esta rotunda vitória no parlamento entendeu crismar todos os anti-acordo com o facinoroso apodo de “nacionalistas”. Deve estar contentíssimo com esse subtil esquema de nos chamar reaccionários como se sequer isso fosse verdade. Convenhamos, se ser progressista é ser como o senhor Tavares então vou ali e já volto. O pobre ainda não percebeu que a defesa a outrance do acordo nos termos espúrios em que está (mal) redigido é tão só a última tentativa “imperial” de fingir que há uma ortografia una do português. Mesmo que se tenham importado letras que foram sempre desnecessárias (w, k e y) por termos outras que as substituíam. Ou seja: aboliu-se o trema porque se encontrou um modo mais fácil de conseguir o mesmo efeito mas importa-se o K quando para o efeito já cá havia o C e o Q! Eu chamaria a isto um relento de colonialismo, uma tentativa grosseira de permanecer no lombo dos colonizados mais um bocadinho...
Todavia nada disto perpassou pela cabecinha fértil do articulista . só se lembrou da voluptuosa vitória na AR. Inesperada vitória! Amarga derrota dos protestantes. Estamos varados, tristes, inconsoláveis e o mundo lá fora ri-se de nós, faz-nos caretas o que seria de fato, um feio ato se nós, sempre, incorrigíveis não trouxéssemos no bolso uns cc a mais para enfiar no meio das palavras.

19 maio 2008

Santo Ivo, Padroeiro dos Advogados

19 de Maio
Santo Ivo, presbítero, +1303, padroeiro dos advogados,
Nasceu em 1253, nas proximidades de Treguier, na Baixa Bretanha. Aos 14 anos, foi a Paris, onde tirou o curso de filosofia e teologia, direito civil e direito canónico. Ordenado sacerdote, por quatro anos foi juiz eclesiástico na diocese de Rennes. Era chamado o Advogado dos Pobres. Residiu no solar de Kermatin que herdou dos pais. Nele se encontravam um hospital e um recolhimento para velhos e um orfanato para crianças abandonadas. Um dia livrou uma pobre mulher da prisão, quando lhe faltava apenas o veredicto final. Não houve, enquanto viveu, advogado de tanto renome e homem mais estimado na Bretanha. Vinham ter com ele os ignorantes, pobres e servos que os senhores oprimiam e que Ivo defendia. Santo Ivo granjeou a estima de todos pela integridade de vida e pela imparcialidade de seus juízos. É o padroeiro dos advogados.

in wwwevangelhoquotidiano.org

18 maio 2008

4º Aniversário

Cumprem-se hoje quatro anos desde a data de abertura desta loja de escrevedores. Um sítio que tem proporcionado reflexões, debates, opiniões e evocações. Com liberdade e responsabilidade. O que deve satisfazer todos os incursionistas, os actuais e os que foram rumando a outras paragens.
Um abraço para todos.

17 maio 2008

“Flexibilização protegida”

No debate que corre no PSD tenho procurado acompanhar as intervenções de Passos Coelho. É o candidato que tem um “passado sem história”, não é responsável por nenhuma das decisões políticas que não deixam o país evoluir. Neste particular, muitos outros milhões de portugueses, por essa mesmíssima razão, poderiam beneficiar, legitimamente, do benefício da dúvida e candidatarem-se...

Só que mais ninguém se candidatou e se o fizessem teriam a mesma sorte que os outros dois candidatos do PSD, que nunca aparecem nas notícias. Este simples facto, dos outros dois não aparecerem e Passos Coelho merecer a bondade da comunicação social, já indicia que afinal o seu passado não terá sido assim tão pouco intervencionista quanto parece. Mas, enfim.

Na recente intervenção de Passos Coelho, a apresentar o seu programa, que os jornais reproduzem, disse que a sua grande prioridade é a reforma do Estado.

Confesso que me entusiasma esta ideia. Desde os anos 90 que se fala e legisla sobre a “Reforma da administração pública” ou a “reforma do Sector Público” ou a “modernização da administração pública”, etc. A vontade reformadora tem sido expressa de muitos modos, feitios e com muitos decretos, portarias e resoluções.

Como é que Passos Coelho pretende “reformar o Estado” não vem dito, mas aparece o objectivo da reforma: “O Estado deve competir com os privados” no domínio da educação e da saúde. Interessante esta ideia de um Estado a agir no mercado em competição com as empresas. Também fixa o prazo de duas legislaturas para “retirar o Estado da economia”. Bom, não sei o que é que isto quererá dizer, mas admito que deve querer dizer alguma coisa. No que respeita às relações laborais defende a ideia mobilizadora de se avançar para uma “flexibilidade protegida”. Bom, aqui é que a coisa se torna mesmo obscura.

“Retirar o Estado da economia”; flexibilidade protegida” são as duas grandes ideias inovadoras que Passos Coelho propõe para as próximas duas legislaturas e que agradarão a alguma comunicação social. Depois aparecem as ideias do costume: “reduzir a carga fiscal sobre as empresas e as pessoas”, “reformar a despesa pública”, “por as pessoas no centro das políticas”.

Passos Coelho pode não ter assumido grandes responsabilidades executivas (públicas) no passado. Mas se são estas as suas propostas mais significativas, então, aquilo que o separa dos demais candidatos é mesmo essa coisa de nunca ter exercido funções públicas executivas.

Diário Político 84


Correu, no Público, uma forte discussão entre dois historiadores sobre massacres de judeus em Portugal. O do século XVI, a propósito do qual se inaugurou um recente monumento expiatório no Largo de S Domingos e o que eventualmente sucedeu durante a conquista de Lisboa aos mouros.
Não vou discutir se houve ou não este segundo (por data primeiro) massacre. É provável que, se havia judeus dentro de muros estes tenham sido massacrados, como de resto o foram muçulmanos e até cristãos que estavam no lugar errado no momento errado. A guerra nunca foi feita de forma civilizada, pelo menos no Ocidente. E no resto da rosa dos ventos também não me consta que fosse feita com luvas de renda.
O que me incomoda nesta discussão é o tom moralizador com que se analisa com os olhos do presente um passado de sangue e violência. Sobretudo se esse passado refere a escravatura (de negros de preferência) ou vítimas judias. A má consciência ocidental tem destas coisas. Adora o remorso mesmo que, como é o caso, não tenhamos qualquer culpa pelo que foi feito há quinhentos, mil, dois mil ou mais anos. Confesso que não me sinto minimamente responsável pela inquisição, pelo tráfico negreiro, ou pela pirataria portuguesa nas costas do Malabar. Se fosse egípcio também não me sentiria culpado pelos massacres ordenados por Ramsés II. E se fosse judeu não perderia o sono ao recordar como o povo de Israel conquistou a terra do leite e do mel.
No caso dos massacres de judeus, temos que, no que é seguro, houve uns milhares de vítimas que o zelo fanático de dois frades (dominicanos?) apontou à mão justiceira (?) da populaça cristã. O rei (D Manuel) estava longe, as autoridades municipais não tiveram mão na multidão enfurecida e as mortes dos judeus ocorreram certamente acompanhadas de roubos, violações e demais mimos próprios destas infâmias. Quando o rei regressou, houve devassas ordenadas por ele e castigos exemplares. Ou seja, o rei detentor do poder judicial não hesitou em defender a legalidade e fazer rolar cabeças. Com processos devidamente organizados como é timbre da justiça e da legalidade. Isto não ressuscitou as vítimas, nem reparou as infâmias mas poderá ter evitado, durante muitos e longos anos, outros pogroms. Se tivesse ocorrido o mesmo na Rússia, se os criminosos perseguidores tivessem sido perseguidos pelos juízes do czar talvez também se tivesse evitado a cultura do pogrom que nunca deixou de existir naquelas latitudes.
Teria gostado de ler no monumento uma palavrinha de apreço pela actuação civilizada de D Manuel. Não me repugna que a Igreja Católica reconheça que foi alguém dos seus quem atiçou o ódio vesgo e irracional da turbamulta. A Igreja tem uma especial maneira de lidar com o tempo e com as suas actuações. Como estou fora dela não discuto a virtude dessa postura.
O que me aborrece (no vero sentido da palavra) é alguém que me representa (por exemplo o Dr. Mário Soares há uns anos e na veste de Presidente da Republica) vir de metafórica corda ao pescoço (também metafórico) pedir perdão pelas ignomínias perpetradas por um grupo de aventesmas criminosas que eram portuguesas. Eu sei que fica bonito mas é ridículo. É que a nossa visão do mundo (a nossa Weltanschauungen – toma lá que já bebes) não é de modo algum a mesma dos antepassados. Aquilo que eles tinham por verdadeiro e essencial, p.ex. a fé, já não suscita cruzadas. Duvido que se o Senhor Arcebispo de Mitilene se pusesse aos urros a pedir gente para ir libertar Jerusalém dos judeus e dos muçulmanos tivesse dez criaturas aos saltos e de olhos ardentes a responder “Deus o quer!”. Provavelmente propunham-lhe uma viagem organizada pela agência Abreu com paragem em Petra e numa praia do mar Vermelho por complemento.
Dito isto convém esclarecer que o facto de me recusar a sentir-me responsável pelos latrocínios do tempo dos afonsinos não implica que ache que as matanças desse tempo eram boas e justas. A história não volta atrás nem deve ser uma espécie de julgamento moral feito no futuro. Aliás, a ser certo o que li, sobre a conquista de Lisboa, verifico que o historiador coevo não hesitou em condenar uma série de excessos dos cristãos sobre a população vencida. Li descrições idênticas sobre outras conquistas (Alcácer do Sal ou Silves) e comovi-me com o modo como o narrador contava a saída de homens, mulheres e crianças vencidas. Notei, e julgo que não me enganei, uma verdadeira piedade nessas descrições fortes. Isto significa que, apesar de nesse tempo, os valores religiosos se imporem de tal modo que a morte do infiel era uma bênção ou quase, havia em não poucas pessoas humanidade suficiente para se apiedarem do “outro”.
Finalmente, da mesma discussão, julguei ver algo que igualmente me incomoda. Portugal não foi um bom lugar para os judeus sobretudo a partir do século XVI mas houve países bem piores. E mesmo nos que eram mais acolhedores para os judeus, Veneza, por exemplo, não deixou de se inventar ghettos (a palavra é veneziana) trajes especiais, horas de recolher, impostos especiais enfim um arsenal de medidas que hoje consideraríamos discriminatórias. E que mesmo lá, e nessa altura, também o eram.
Curiosamente se houve zonas onde os judeus portugueses foram recebidos e mais ou menos bem tratados foi no Magrebe e no império otomano. Ou seja em regiões de predomínio muçulmano. Isso não significa que hoje em dia essas mesmas regiões sejam saudáveis para os filhos de Israel. Como Israel também não parece ser o melhor dos mundos para um árabe, sunita, chiita ou de qualquer grupo minoritário.
Resumindo: faça-se a história mas deixe-se no tinteiro os moralismos fáceis. Vale?

D’Oliveira (lembrado de um outro do mesmo nome queimado em efígie em Lisboa. E dizia que nunca tivera tanto frio como nesse dia. Estava com as costas quentes e longe.)

16 maio 2008

Au Bonheur des Dames 122


Uma “passa” no avião

O país comoveu-se com o(s) cigarrinho(s) fumado(s) pelo senhor Primeiro Ministro no voo para Caracas. Convenhamos que é demais. Sª Ex.ª nessa ida ad loca infecta tinha todo o direito de se drogar. Basta atentar no que o homenzinho do lenço vermelho lhe disse e lhe chamou: camarada, amigo, irmão... Meu Deus, só faltou beijá-lo na boca, à boa e velha maneira soviética. Mesmo que o beijo fosse de Judas, como atentando nos fundos petro-venezuelanos investidos na guerrilha colombiana, que volta e meia rapta um portuga, se poderia pensar. O governo com que o Senhor PM foi conversar tem destes vezos. Abraça o presidente da Colômbia de manhã e à noite manda uns dólares às abnegadas FARC. Que em troca limpam o sarampo a uns fieis do senhor Uribe. A política internacional é muito complicada...
Mas voltemos ao tabaquinho consumido pelo senhor PM e à gritaria que ele suscitou. Um homem não é de pau, malta! Um porradão de horas num avião superlotado dá um stress do catorze, que diabo.
Por mim, que fume. E notem que deixei esse agradabilíssimo vício há uma boa dúzia de anos. Por aposta, raios me levem! Bem pensado, ainda bem que o fiz, porque senão agora andava por aí, alucinado, à procura de um sítio em que pudesse dar umas passas enquanto, por exemplo, escrevo este post, aqui na esplanada do costume, abrigado por via do frio e da chuva que espreita. No vidro avisam-se os “estimados clientes” que é proibido fumar. Ao lado um anúncio canalha replica em letras garrafais “proibido fumar, permitido chupar”. Não, não é o que pensam, á tão só um anúncio a umas merdas que se chupam...
Claro que nesta minha generosidade vai um pouco de censura. Não foi o senhor PM e o (des)governo a que ele preside quem atirou à marabunta fumante uma proibição total de puxar pelo cigarro, pelo cachimbo, pelo charuto? Sem apelo nem agravo? E ai de quem transgredir. Multa nele, forte e feia. Terão multado o cidadão José Sócrates? Irão multá-lo? Ou basta o seu solene pedido de desculpas e aquela absurda promessa de deixar de fumar? Então aquele homenzinho de bigode farfalhudo da ASAE que é que anda a fazer? Olhe que multar um PM dá uma grande pinta. E mostra, urbi et orbi, que a lei é para todos. TAP incluída que veio pressurosa e mesureira dizer que nos voos fretados não há proibição de esfumaçar! Multem-me essa companhia, raios!
(a propósito: já viram a generosidade da TAP? Oferece um voo – só de ida - à Madeira por 60 €. Por esse preço vou a Roma para a semana que vem. E até posso ver o Papa que sempre é mais interessante do que o soba local)
O senhor PM entretanto terá dito hoje (enfim, ontem) que o alarido sobre o seu cigarro era um torpe ataque político. A habitual conspiração das forças de bloqueio. Os fundamentalistas que a ele, PM, metem dó. Onde é que eu já ouvi isto?
Eu, a S.ª Ex.ª não reprovo o cigarrinho, muito embora possa, eventualmente, discutir a marca do dito. Um PM não pode andar a fumar um mata-ratos qualquer. Outro galo cantaria se, verbi gratia, o senhor PM tivesse usado tabaco picado, mortalhas decentes e enrolado (à mão, se faz favor), e bem lambidinho, um cigarro. Isso, essa manufacturação do cigarro merece perdão por eu entender que entra nas excepções ditas de alimentos tradicionais que a ASAE e o governo desconhecem. Um cigarro feito à mão, com cuspo próprio, é como uma cacholeira alentejana, um queijo do Rabaçal, um frango pica o chão de cabidela. É telúrico, valha-me S Miguel Torga!
Voltando à vaca fria: o senhor PM não deveria chamar fundamentalista a ninguém quando, por um incidente menor, desata a prometer ir a Fátima a pé, perdão, deixar de fumar.
Mais: prefiro um PM que fume a um PM proibidor. Prefiro vê-lo a sacudir preguiçosamente a cinza em cima do senhor ministro das finanças, do que ouvir um dos seus soporíficos sermões sobre o maravilhoso estado da Nação e sobre a excelsa bondade da política levada a cabo pela senhora ministra da educação, por (mau) exemplo.
Finalmente, muito me temo que esta promessa, feita depois das louvaminhas de Chavez, não vá mais longe do que outras mais graves e mais próximas que já são apenas uma saudade apesar de terem sido feitas no calor da campanha eleitoral que alcandorou S.ª Ex.ª ao lugar que hoje ocupa.
Mas, mesmo nesse caso, sempre direi que, pelo menos este escriba, não lhe levará a mal a quebra da promessa. Cesteiro que faz um cesto...

15 maio 2008

Estes dias que passam, 109


Rui Feijó

Morreu esta noite. O corpo já não dava mais, os anos também já não eram poucos, os amigos quase todos desaparecidos, restavam, alguns com a idade das filhas mais velhas. Eu, por exemplo.
Raras vezes, enfim algumas, senti uma morte como se de um pai (ou um irmão) se tratasse. O tio Marcos, o Zé Valente, o Fernando Assis Pacheco, o Jorge Delgado, o António Abreu ou o Luís Neves. Se a comoção não me perturbasse, lembrar-me-ia de mais alguns, provavelmente. Mas a emoção, as lágrimas e uma súbita sensação de frio intenso, embotam-me a memória e a razão.
Esperava esta morte. Há seis meses, talvez mais. Nas últimas vezes que estive com o Rui, a morte espreitava já. Um cansaço, uma curiosidade já amortecida, algum desprendimento, sinais violentos que nem a mais optimista das amizades consegue não ver.
Rui Feijó é praticamente o último de uma geração. Da geração que viu nascer o “neo-realismo”, que fez de cabo a rabo a resistência ao Estado Novo, que nunca cedeu, nunca parou de lutar e que, já devastada conseguiu chegar a Abril de 74. Para trás ficavam as militâncias partidárias, as conspirações (o Rui esteve na rede Shell), as aventuras literárias (a “Vértice” de que ele foi um dos proprietários -!!!-; as “Antologias do conto moderno” de que ele obviamente foi um dos animadores; a colaboração constante – e constantemente peada – em jornais e revistas; a intervenção critica e literária – foi ainda ele que me honrou apresentando um pequeno livro que escrevi e um editor generoso publicou) e a defesa obstinada dos perseguidos políticos. Na sua casa estiveram escondidos e protegidos muitos refugiados (por todos o Manuel Alegre), foi um dos membros mais activos da “Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos” (e também por isso lhe sou devedor porquanto foi esta Comissão que imediatamente divulgou a minha penúltima prisão e alguns dos que me lêem sabem o que isso significa(va) para quem era preso quase subrepticiamente no meio do medo e da indiferença. Os presos além de presos não existiam na opinião pública, nos jornais sequer, muitas vezes, nos amigos).
Poucos dias antes do 25 de Abril, contactei-o para me ajudar numa missão relativamente arriscada. Tratava-se de constituir uma frota de viaturas para transportar os militares de Abril para a fronteira no caso de alguma coisa correr mal. O Rui já passara a barreira dos cinquenta mas nem sequer hesitou. “Às ordens meu capitão!”, disse com um sorriso de orelha a orelha. E durante esses dias de esperança e febre parecia o mais novo de nós. E no dia 25, logo pela madrugada, lá estava ele fresco como uma rosa, pronto para o que desse e viesse. Felizmente, os nossos préstimos não foram necessários de modo que a aventura revolucionária se esfumou numa longa peregrinação pela cidade do Porto, numa madrugada carregada de promessas.
Homem de uma cultura absolutamente invulgar, deixou uma marca forte em quantos o conheceram. Bastará ler as memorias de vários intelectuais da mesma geração para ver aparecer sempre com um elogio uma menção a Rui Feijó. Elogiosa, obviamente. Por sobre ser um homem de bem, foi um homem do seu tempo. Um homem sábio, humilde, generoso e um cidadão exemplar.
Possamos ter na hora última alguém que de nós diga o mesmo.

* Rui Feijó foi presidente da Câmara de Lousada (logo depois do 25 de Abril), deputado pelo Partido Socialista à Assembleia Constituinte, Delegado Regional do Norte da Secretaria de Estado da Cultura. Pertenceu ao MASP e esteve nos Estados Gerais como membro do Conselho Coordenador de Cultura.

** O título geral deste post "estes dias..." tem origem num livro de Pierre Van Paassen. O Rui era um grande admirador deste autor. Ora aqui está uma oportunidade de o homenagear.

O perigo para a saúde de ser adepto de futebol

A alguns dias do início, a 7 de Junho, do Euro 2008, as mulheres desesperadas pela perspectiva de longas noites de futebol poderão soprar ao adepto seu marido: " Querido, atenção à tua saúde”. " Que estar afundado no sofá à frente da televisão, bebendo cerveja e comendo batatas fritas ou pizzas não era bom, nem para o colesterol nem para as artérias, já se desconfiava. Mas acrescentar o stress de ver a sua equipa favorita perder ou a emoção suscitada pela vitória é o que qualquer sistema cardiovascular precisa para sofrer um golpe. Um recente estudo publicado no muito sério New England Journal of Medicine revelou que ver um jogo muito provavelmente aumenta o risco de acidentes cardíacos. Os serviços de urgência registam um pico de afluência nas duas horas seguintes a um encontro desportivo. Certos cardiologistas questionam-se, sem se rirem, se não seria necessário suprimir os penaltis. Antes de chegar a esta improvável medida extrema, os médicos aconselham a " não ver jogos importantes após um enfarte ou numa situação de elevado risco" , explica, à AFP, o doutor Hervé Douard, cardiologista do CHU de Bordéus. O argumento de que ver um bom jogo permite esquecer o stress do trabalho já não é válido. Decididamente, pode-se morrer!

Sandrine Blanchard, in Le Monde

Justiça e Defesa Nacional

Em França discute-se a restrição de acesso dos Juízes de Instrução Criminal a dados que importem segredo no interesse da Defesa Nacional. O acesso a documentos secretos passa a depender de autorização da autoridade administrativa específicamente competente para a desclassificação do documento em causa. E, quando autorizada, a onsulta do documento terá de ser feita presencialmente pelo Magistrado.

Segundo Le Monde, o projecto prevê que "Lorsqu'un magistrat envisage de procéder à une perquisition dans des lieux classifiés ou abritant des secrets de la défense nationale, il remet à l'autorité administrative compétente une décision écrite et motivée indiquant la nature de l'infraction, (…) les raisons justifiant la perquisition et l'objet de celle-ci."L'effet de surprise de la perquisition disparaîtrait de fait. D'autant que l'autorité administrative est alors censée transmettre cette "décision" du juge au président de la commission consultative du secret de la défense nationale (CCSDN), seul habilité à déclarer une "déclassification temporaire, totale ou partielle" du lieu visé par le magistrat. La perquisition, si elle est autorisée, se ferait alors en sa présence. Par ailleurs, "les saisies et les mises sous scellés" ne pourraient "porter que sur des documents non classifiés ou déclassifiés". Seul le président de la CCSDN pourra prendre connaissance des "informations classifiées" et décider, ou non, de les transmettre au magistrat instructeur."

14 maio 2008

Maio, maduro Maio 4


Os filhos de D Camilo
e os afilhados de Peppone


1. No caso de por aí haver ainda leitores de Giovanni Guareschi, autor dos famosos “D. Camilo” onde se retratava uma Itália do Norte no imediato doppo guerra, convém esclarecer que o título é mesmo o que está aí em cima. D. Camilo o façanhudo mas bondoso arcipreste é que aqui se apresenta como pai relegando o ex-resistente comunista Peppone para o lugar de padrinho.
Isto vem a propósito do “Maio” italiano, dos seus intervenientes, do seu cenário (mais uma vez o Norte, boa parte do Centro e focos isolados no Sul) e, já agora, das classes sociais envolvidas.
Numa obra (“L’anno degli studenti”, De Donato ed., Bari, 1968) publicada a quente, em pleno processo, Rossana Rossanda (que nessa época ainda estava no C.C. do PCI embora em trânsito para o grupo Il Manifesto) disso dá conta quando, refere a brutal explosão demográfica na universidade: em 1968 há dez vezes mais estudantes do que em 1923. Em grosso, as universidades italianas (e a de Roma mais que todas) rebentam pelas costuras com o meio milhão de estudantes universitários que as frequentam. O mercado do trabalho começa a parecer reduzido perante a iminência de saída de cerca de oitenta mil novos diplomados por ano. Números não confirmados davam uma taxa de emprego na ordem dos 35% para os recém-licenciados.
O sistema político, por sua vez parece bloqueado. Uma sempiterna Democracia Cristã (a de Moro, exactamente) governa com eventuais apoios dos partidos de centro esquerda (sociais democratas de Saragat, sobretudo, mas também o velho PSI de Nenni). É o que fica conhecido por “compromisso histórico” O PCI, o mais poderoso e o mais original partido comunista da Europa Ocidental é claramente o segundo partido de Itália mas nem a sua ampla base social, a sua gigantesca máquina municipal e regional, a sua enorme influencia sindical, ou o prestigio dos seus intelectuais, o auxiliam na entrada no círculo do poder.
Contemporaneamente, ainda existem, e com singular influência, quer uma direita mais ou menos respeitosa, quer os neo-fascistas que por vários anos se distinguirão pela agressividade e pelos atentados que cometerão. Dir-se-á que são um grupo pequeno, ou uma constelação de pequeníssimos grupos. Pode ser, mas tentarão, e conseguirão por várias vezes, levar a cabo acções violentas e eficazes na medida em que alguma esquerda extra-parlamentar lhes responderá numa escalada que acabará nos longos “anos de chumbo”.
O bloqueio do sistema advém ainda da situação do Mezzogiorno e particularmente da Sicília. As máfias variadas que de Nápoles ao extremo sul pululam e a sua grande irmã siciliana controlam a base DC das regiões (e vão adquirindo crescente influência nas clientelas dos restantes partidos, PC excluído, honra lhe seja.
É neste cenário que numerosos grupos de estudantes, particularmente os de Trento, começam a manifestar-se. Ocupações, seat-in, cursos livres “universidade critica”, enfim mais ou menos as mesmas movimentações que se observam ou observarão nos restantes países europeus. Com uma diferença (e de peso), todavia: aqui a discussão política é mais nacional e recorre menos às lutas internacionais (Vietnam, anti-imperialismo, América Latina etc...).
Segunda diferença, e não menos importante: o Partido Comunista Italiano não vira costas ao movimento studentesco. Luigi Longo, o seu secretario geral recebe mesmo diversos elementos estudantis e reconhece ao movimento capacidade e razões para se incorporar numa frente ampla naturalmente dirigida pelos comunistas. É pouco? É de certeza muito mais do que em qualquer outro pais europeu. Mas dura pouco, obviamente. A ala mais ortodoxa do PCI (Giorgio Amendola, entre outros) critica o movimento estudantil, aponta-lhe as origens burguesas, o esquerdismo (a famosa doença infantil...) e a incapacidade política.
Convenhamos. Amendola não deixa de ter também razão. O movimento reúne tendências extremamente variadas, desde estalinistas empedernidos (mal vistos desde a época de Togliatti) até maoístas e trotskistas que também não cabem nos quadros “euro-comunistas” avant la lettre do PCI.
Em termos simples os estudantes apenas podem contar com o apoio de Rossanda e seus amigos. É pouco como depressa se verá.
Por outro lado, apesar do movimento não ter o beneplácito do único partido que poderia fornecer-lhe uma base operária real, não deixou de se projectar no mundo do trabalho. Não só porque havia jovens operários que se sentiam seduzidos pela militância dos jovens intelectuais mas também porque o mundo fabril acolhia muitos emigrantes do mezzogiorno menos politizados que os seus camaradas do Norte (e mais sensíveis à contestação da autoridade e dos poderes istalados) mas também porque as condições de trabalho eram extremamente duras.
Convém não esquecer que a Itália saíra de uma experiência muito dura. O regime mussoliniano, o fascismo puro e duro, quebrara o velho sindicalismo, perseguira as elites sindicais e reforçara o poder do patronato. A guerra com o seu cortejo de derrotas, sacrifícios e bombardeamentos, a guerra civil (e no norte foi exactamente isso o que ocorreu), travada entre resistentes, republicanos de Saló e ocupantes alemães, deixaram uma Itália devastada que nos anos sessenta ainda se estava a recompor.
E se é verdade que os ajustes de contas foram violentos não é menos verdade é que o golpe palaciano contra o Duce (que é deposto pelo Grande Conselho do Fascio) salvou muito colaborador da ditadura e forneceu um atestado de bom comportamento democrático a inumeráveis e respeitosos seguidores do regime deposto. A guerra fria e o governo da Democracia Cristã resolveram boa parte das questões políticas com a proclamação da República e o exílio do Rei. Também parece pouco. E é.
Não admira que num quadro destes onde se mistura uma DC desvirtuada, que aposta na “estratégia da tensão”, um centro esquerda que a ampara, um Estado dentro do Estado (a Máfia) um Sul reduzido à função de fornecedor de mão de obra barata, uma Administração corrupta e pesada e um PC impotente, a solução comece a ser procurada fora do sistema.
E é isso que um grupo de teóricos brilhantes se vai dedicar. A partir da experiência do “movimento” o passo seguinte traduz-se na criação de grupos políticos que se dedicarão à luta no meio fabril. Não pela via sindical mas recorrendo primeiro ás “acções exemplares”, ao combate contra os neo-fascistas particularmente activos e implicados em vários atentados bombistas (que obviamente começaram por ser assacados a anarquistas) e a acções de doutrinação. A Itália jovem e de esquerda é um labirinto de publicações teóricas, de jornais militantes, de revistas onde se encontra de tudo. Neste ponto estão a milhas dos franceses que os italianos devem achar bastante primitivos.
E até 1969 é este em linhas gerais o quadro em ue se insere a movimentação estudantil. A universidade é esporadicamente ocupada, as lutas com a polícia são frequentes, a discussão com os partidos políticos permanece aberta mas vai perdendo força e o Governo e as forças policiais continuam a apostar no esvaziamento do movimento, a tolerar a escalada dos grupos neo-fascistas e a sua cultura de violência ao mesmo tempo que se desenham cada vez mais nítidas as opções pela “strategia della tensione” (dentro da DC elabora-se a teoria de que é preciso incentivar os conflitos exteriores para depois se chamar a DC como bombeiro) apoiada na denúncia dos extremismos opostos (gli opposti estremisti): o perigo vermelho e o perigo negro que hão-de servir à polícia como indicadores de investigação (pista rossa e pista nera).
Numa segunda e última parte veremos (assim o espero) como é que um movimento tão espontâneo e interessante desagua nos anni di piombo com a sua caravana de atentados, cisões, assassínios e outras infâmias.

Na elaboração deste texto servi-me sobretudo de algo muito falaz: a memória de longas conversas, em Lisboa (1969), com Enrico de Angelis que me forneceu os primeiros documentos sobre o movimento; com Maria Baptisti, militante do Potere Operaio em Berlin, Novembro-Dezembro de 1970 e com Giancarlo (licenciado em Química mas porteiro de um hotel em Pescara. A sua militância num grupo insignificante – Stella Rossa – fora suficiente para entrar numa lista negra do patronato da indústria química.).
Obviamente repassei brevemente a obra de R Rossanda, já citada e o nº 44 de “Partisans” (Oct-Nov 1968:"le complot international", nomeadamente o texto “Théorie et Praxis du mouvement etudiant italian” de Carlo Donolo). Há um par de meses encontrei e voltei a perder alguns textos da época emanados das universidades de Turim, Trento, Roma e Milão. Se voltarem a reaparecer no labirinto desta biblioteca, pô-los-ei digitalizados para apreciação dos curiosos, mormente o leitor José.

* gravura: manifestação estudantil nas Galeria V. Emannuelle em Milão

13 maio 2008

Farmácia de Serviço 43

Robert Rauschenberg (1925-2008)

82 anos era já uma bonita idade mas custa sempre perder um amigo, um mestre, um artista, alguém que admiramos. O jovem Dada, o idoso pop despediu-se hoje. Fica uma obra empolgante,
rica (as mais das vezes feita com recurso a materiais recuperados) e fica sobretudo uma lição de rigor.
Era o último de uma geração de grandes nomes da arte americana na segunda metade do século XX: Willem de Kooning, Jasper Johns ou Roy Lichtenstein.
Juntos revolucionaram profundamente a percepção que tínhamos dos Estados Unidos e dos seus artistas. Mais: influenciaram também muitos artistas europeus e asiáticos contribuindo para uma ideia menos eurocêntrica dos caminhos da criação artística.

Concerto

SONS E TIMBRES DO ÓRGÃO IBÉRICO
TERCEIRO CONCERTO "MÚSICAS EM DIALOGO"

Sábado, 17 de Maio de 2008 pelas 17 horas
Igreja de S. Lourenço (Grilos)
Largo do Colégio
Entrada gratuita

IL CONCERTO ARIOSO
CAROLINE DI ROSA , FLAUTA DE BISEL
GIAMPAOLO DI ROSA, ORGÃO

Programa

J. VAN EYCK (1590-1657)
Fantasia e Echo
Engels Nachtegaeltje (flauta)

lmprovisaçào (órgão)

H. U. STAEPS (1909-1988)
Virtuose Suite
AIlegro deciso
Allegretto
Andante moderato con grantd’espressione
Presto possibile (flauta)

P. DE ARAUJO (1610-1684)
Obra do II tom (órgão)

J. S. BACH (1685-1750)
Allemanda (da Partita BWV 1013) (flauta)

Prelúdio e fuga em Do maior BWV 846
Prelúdio e fuga em Do menor BWV 847 (órgão)

L. ANDRlESSEN (1939)
"ENDE" (duas flautas)

12 maio 2008

A estratégia do Porto

O FCPorto não vai recorrer da decisão da Comissão Disciplinar.
Já, por sua vez, o Presidente Pinto da Costa vai levar o caso até às últimas consequências.

Se obtiver ganho de causa (o que julgo irá acontecer), só há que pedir a revisão da decisão em relação ao clube e fica o assunto resolvido sem que se perca tempo e dinheiro.

Contagem de prazos

No Código de Processo Civil, considera-se que uma notificação, por carta registada, é recebida no terceiro dia posterior ou no dia útil imediatamente a seguir se aquele não for útil.

Assim, uma notificação remetida numa sexta-feira considera-se recebida na segunda-feira seguinte.

No Código de Processo Penal, prevê-se para o mesmo caso que a notificação se considera recebida no terceiro dia útil posterior.

Deste modo, a carta remetida numa sexta-feira, considera-se recebida na quarta-feira seguinte.

Pensava eu que era assim, até porque a formulação legal em ambos os Códigos é diversa.

Pois bem, hoje tive de pagar uma multa, porque a Senhora Juíza dum certo Tribunal entende que a contagem se faz sempre do mesmo modo (o previsto em processo civil).

Fui logo advertido de que não vale a pena reclamar, porque, sendo aquele o entendimento da Senhora Juíza, não há recurso!...

E andamos a perder tempo com estas questões. O legislador devia ser claro e não permitir dúvidas tão comezinhas ...

11 maio 2008

Missanga a pataco 52


Perplexidades de um da Naval (Associação Naval 1º de Maio, se faz favor)

Não percebo nada de futebol. Ou, pelo menos, deste futebol. Sou do tempo em que se dizia off side, back e outras inglesices do mesmo teor. Sou do tempo em que raramente um jogador mudava de clube, ou porque o dinheiro não era o mais importante, ou porque mesmo sendo havia o brio de defender o clube do coração.
E sou da Naval. E de Buarcos. E do futebol na praia, com banho de mar no fim. Enfim, sou um inocente.
Dizem-me que nas decisões agora anunciadas (Porto, Boavista e Leiria, mais um par de árbitros) a prova produzida decorre da intercepção de telefonemas que no processo principal (o famoso Apito Dourado) não terão cabimento por não terem sido obtidas segundo as regras da arte. É assim? Assim mesmo? Ou seja, por não se respeitarem determinados formalismos, a prova cai inexoravelmente até ao ventre da mãe terra ajudada pelo autoclismo legislativo. É assim?
Concorde-se ou não com este excesso formal, ele existe e faz lei. Essa lei, e só essa é a que deve ser aplicada pelos Tribunais. Dura lex sed lex, ou branda lei mas lei e basta!
Não acredito em tribunais de outro tipo, mormente os desportivos. Não acredito em tribunais ou em juízes eleitos, provavelmente porque não sou americano. Aceito mal esses tribunais especiais (a simples palavra arrepia-me, mesmo se não forem “plenários”...Explico-me?) e no caso em apreço só os tolero se a sua disciplina for idêntica aos Tribunais comuns, se a prova produzida correr pelo mesmo caudal que a que se produz nos Tribunais.
Em segundo lugar, repetindo que sou da Naval e de mais nenhum clube, muito menos de qualquer “grande” e jamais do Boavista, meu desagradabilíssimo vizinho, desagradou-me saber pelo noticiário das sete da manhã o que só foi oficial às cinco da tarde. Acho o processo deselegante para não dizer infame. Venha ele de um juiz togado ou dum assistente da faculdade de Direito de Coimbra (a minha faculdade e a minha universidade).
Mais me perturba verificar que afinal o “apito final” se resume a três clubes e não à boa vintena de que toda a gente fala. Então a corrupção é assim tão pouca?
Não vou cair na inocência de pensar que um clube que ganha (no mesmo ano da tentativa de corromper árbitros) o campeonato português, o da Europa e o do Mundo andasse a tentar ganhar a dois clubes pequenotes, frangões, mesmo, passe o termo que não pretende ser insultuoso.
Eu, navalista, sei bem que o meu clube é o melhor do mundo. Todavia rir-me-ia a bandeiras despregadas se o senhor Pinto da Costa achasse necessário comprar um árbitro para garantir uma vitória do FCP sobre a gloriosa (e mais antiga, como se sabe) Associação Naval 1º de Maio. Eu sei que somos temidos mas tanto também não, que diabo!
Outra coisa que me suscita alguma perplexidade, pese embora estar do outro lado um jovem assistente que até tem um diploma seguramente maravilhoso em Direito do Desporto (boa piada, em Portugal, esta do direito do desporto numa terra em que o desporto é de bancada e se chama futebol...) é a tal alegação de “coacção”. Eu já disse que não gosto do Boavista, muito menos dos seus dirigentes mas coacção? Coacção é uma palavra grave, carregada de significado que não se pode perder por veredas subtis e imaginativas. Eu ainda me recordo do dr. Santana Lopes (outro que tal) a sportingamente avisar de conspirações em Canal Caveira, ameaçando varrer tudo como numa feira em Fafe (com que ninguém fanfa) ou os eternos dirigentes de outros clubes mal habituados a perder que avisam que vão estar atentos, atentíssimos, que não se responsabilizam pelo que as massas associativas possam fazer quando justamente indignadas pelas barbaridades arbitrais se virem forçada a fazer justiça pelas próprias e inocentes mãozinhas. Nem assim se falou de coacção, pelo que presumo que desta vez a coisa foi mesmo à moda de Chicago dos velhos tempos: “ou marcas uns pennaltys para a malta ou comes...” Uma espécie de Jorge Coelho mais encorpado e menos parlapatão, estão a ver o estilo?
Fico-me por aqui porque não compete a um paisano de Buarcos, navalista, meter-se no curral dos grandes. Todavia mantenho: sinto-me perplexo. Provavelmente é porque não sei o suficiente de futebol e muito menos de Direito. Se for esse o caso, não leiam o que está escrito aí em cima. Se o leram já, esqueçam-no. Se não o esquecerem rezem por mim um Pater e cinco Ave Marias. Se não me servir por demasiado pecador talvez sirva aos da Liga no caso de se verificar que eles meteram o pézinho delicado na argola. Vale?

10 maio 2008

Portugal...



«... não tem meios para ser ...
Portugal»

Apito Final

Fico perplexo. e não quero acreditar!

Ontem fomos bombardeados com a decisão do "Apito Final". Ouvi discutir questões jurídicas, categorias, interpretações, argumentos, ... e a habitual festa do argumentário jurídico.

Não ouvi foi descrever os factos. Nem percebi como foram provados. E tenho dificuldade em perceber a gravidade do que se passou.

A avaliar pelos relatos do outro Apito ("dourado"), a ser verdade o que vem publicado na imprensa, só me posso rir. A menos que as relações sociais e os contactos entre as pessoas passem a ser proibidas e diabolizadas.

Aliás, todos os jogos são nulos, porque o público coage os arbitros. Basta assistir a um jogo de futebol.

Se calhar havia uma solução. O Benfica era legalmente declarado campeão nacional permanente e dispensado de competir (isso deixava-se para os outros clubezecos)!

BOM FIM DE SEMANA

Hoje (Sexta-Feira) é um dia sim. O Governo aprovou um novo plano estratégico para a habitação social, o que é notável e vai trazer benefícios a muitos e muitos portugueses; A Segurança Social penhorou mais de cem mil faltosos, arrecadando muitas dezenas de milhões de euros, o que é muito importante para o cumprimento da lei e para as finanças públicas; O Primeiro Ministro reconheceu que o Governo até merece ser censurado, atitude que revela grande sabedoria e maior sentido de humildade, desacreditando aqueles que não lhe reconhecem essas qualidades (até agora); Por sua vez, o Ministro das Finanças admitiu que o euro forte pode estar a atingir o ponto em que pode trazer problemas para Portugal, tal constatação apenas pode prenunciar a inversão na valorização do euro e a correspondente baixa dos produtos petrolíferos, como se sabe, a subida do euro tem sido acompanhada pela forte subida dos preços destes produtos; A Associação os Revendedores de combustíveis apresentou (hoje) um plano ao Governo para baixar em 22 cêntimos o preço dos combustíveis, o que significa que o Governo vai poder mostrar que ainda detém o poder de definir o preço do gasóleo; A GALP aprovou a distribuição de 265 milhões de euros pelos accionistas, o que está em consonância com a crise provocada pelo forte crescimento do preço dos combustíveis e mostra que apesar da crise algumas empresas obtiveram excelentes lucros, o que é muito bom para a economia e para o equilíbrio do país.

Para os que me acusam de apenas ver e transmitir o lado negativo das coisas, ficam aqui registadas algumas boas notícias, com impacto na vida de muitos.

CONVITE

Memórias do cidadão José Dias

O blog Margem Esquerda, anuncia (e convida) que José Dias vai estar no Porto, no próximo dia 13, pelas 18 horas, na FNAC, para apresentar o seu mais recente livro, Memórias do cidadão José Dias.

No dia 13, pelas 18 horas, se puder esteja na FNAC, em Santa Catarina e traga um amigo

09 maio 2008

Estes dias que passam, 108


Ora, ora...

Bob Geldof
chamou criminosos aos dirigentes de Luanda. E daí? Foi surpresa para alguém? Haverá por estas bandas uma pessoa que desconheça esta evidência triste e brutal?
Eu sei, com pesar o reconheço, que a verificação do que se passa em Angola é, para muitos (quase todos) dos que se solidarizaram com a luta anti-colonial, um terrível exercício.
Poderia pensar-se – e muitos porventura pensarão – que foram inúteis os sacrifícios, os medos, as angústias - a prisão por vezes – que a solidariedade com os povos coloniais acarretou.
Como de costume, o problema está mal equacionado. Ser contra o estado de coisas reinante nas colónias não implicava, nem implica, solidariedade com os governantes que depois da independência foram surgindo.
E no caso de Angola isso é patente. Muitos dos primeiros lutadores anti-coloniais já morreram, muitos outros, mais, mesmo, foram perseguidos, há um largo grupo deles espalhado por esse mundo, exilados, fugitivos dos cleptocratas de Luanda. Do primeiro núcleo de dirigentes angolanos poderiam referir-se logo à a cabeça os Pinto de Andrade (Mário e Joaquim) ou o Viriato da Cruz. Esmagados pela história e pelos zelosos burocratas do MPLA e pelas sucessivas e infamantes polícias políticas que eles criaram.
A história dos últimos trinta anos de Angola é sinistra: a lista dos mortos, dos presos e dos desaparecidos faria empalidecer de inveja o senhor general Pinochet ou os seus colegas argentinos. A guerra civil aberta ou larvar deu azo a tudo, a começar pelo roubo sem peias das riquezas nacionais, pelo escândalo das ligações às quadrilhas internacionais e pela violência cada vez mais insuportável das declarações dos dirigentes angolanos e pela miséria agressiva da sua imprensa.
Angola é uma pústula no coração de África e isso sabemo-lo todos desde há muito.
O que, eventualmente se desconhecia (???!!!) era a cumplicidade objectiva de grandes grupos financeiros nacionais e internacionais com a ditadura angolana. Ficou agora à vista com as reacções às declarações de Geldof. Ou melhor: reforçou-se.
De facto, esta nova ida em força para Angola tem, para as empresas portuguesas e estrangeiras um ónus fatal. Elas sabem com quem vão contratar. Elas sabem a quem vão untar a pata. Elas sabem que a arraia miúda de Luanda ou do interior não verá senão uns trocos das imensas somas que os negócios gerarem. O resto vai direito para os bolsos da ladroagem, para os bancos de certos paraísos fiscais, se é que não se acoitam escondidos por aí.


08 maio 2008

Trinta anos depois

Esta notícia do JN faz-me lembrar o drama que se abateu sobre a minha família faz hoje precisamente trinta anos. Nesse dia 8 de Maio de 1978 perdi duas tias que caminhavam em peregrinação a Fátima. Integravam um grupo de Soalhães, Marco de Canaveses, onde se incluía mais um tio e um primo meus, e foram colhidas mortalmente por um automóvel desgovernado na zona de Águeda. Ainda hoje as lembranças das horas passadas no hospital de Águeda nessa manhã estão bem presentes em mim. Actualmente, os cuidados são maiores e há mais divulgação, mas os resultados dos últimos anos continuam a ser desastrosos.
Com o tempo, tenho constatado também que muitas destas peregrinações se institucionalizaram. As manifestações primárias (e, por isso, autênticas) de fé coabitam com grupos de peregrinos que caminham como se fossem na direcção da romaria, ano após ano. Para não falar das peregrinações de “cinco estrelas”, organizadas para as elites católicas lisboetas.
Confesso a minha incompreensão com o silêncio da nomenclatura católica face a esta realidade e com o seu alheamento relativamente às condições em que ocorrem estas peregrinações. É pena que as suas atenções tenham estado sempre mais direccionadas para os resultados apurados no Santuário de Fátima.