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01 setembro 2008

Emílio Peres - Homenagem



Ver Programa aqui

Segurança “Problemática”


As questões em redor da Segurança vão continuar a animar o debate político. As rusgas aos “bairros problemáticos” irão prosseguir, para maior tranquilidade de todos. Irão ser instaladas câmaras por tudo que é sítio “problemático”, que vigiarão os cidadãos “problemáticos” e os outros. Contudo, de fora ficarão, ainda, os sítios de que fala M.A. Pina, a ler aqui.

04 agosto 2008

Soljenitsyne

Soljenitsyne, escritor e Prémio Nobel, morreu. A sua biografia está na net. MCR, se não estivesse de férias, daria, certamente, nota do desaparecimento do escritor.

Durante o dia ouvi muita gente a falar sobre Soljenitsyne. Todos enalteceram a valia da sua obra. Também se referiam à inegável intervenção política na denúncia dos trabalhos forçados e das perseguições políticas, que caracterizaram o período estalinista.

Das declarações que ouvi aquela que mais me impressionou foi a de Zita Seabra. Para falar como fala, só pode ter tido uma amnésia.

Das diversas pessoas que foram opinando, todas se referiram à sua luta pelas liberdades no país dos sovietes e à sua qualidade enquanto escritor. Contudo, nenhuma referiu os rasgados elogios que o cidadão Soljenitsyne fez a Pinochet e o público apreço que nutria pelo regime franquista.

Pode não ser muito afectuoso lembrar coisas menos simpáticas nestas alturas. Mas figuras com a notoriedade pública de Soljenitsyne devem ser lembradas no seu todo, para não desvirtuar a coerência por que nortearam as suas vidas.

23 julho 2008

ENXOTAR CIGANOS

“PSP ... enxota ciganos…” É assim que o JN titula a saga dos ciganos de Loures. Esta simples e inocente frase fez-me lembrar que em pequeno, 7 ou 8 anos, a minha Avó ordenava: “vai enxotar as ovelhas que estão a comer as vides, corre!”. E eu lá ia enxotar o gado para outro lado.

Se os ciganos tivessem um príncipe real poderiam deitar mão do instituto da Aposentadoria Real e enxotar os escribas dos seus aposentos, para neles se instalarem, até virem melhores dias.

Como não têm um príncipe real nem santo que os proteja, têm que se valer de outros expedientes para encarar a vida, que os enxota de um lado para o outro, sem fim que se veja, apesar de todos os programas de reinserção, que nem matam a fome nem estimulam a trabalhar.

Por isso, de modo deliberado ou não, a palavra choque da notícia é a que deveria ser. Na verdade, a política de integração tem passado por enxotar a gente portuguesa cigana de um lado para o outro, sem glória, diga-se, para nenhuma das partes.

06 maio 2008

Crise de Abastecimento de Produtos Alimentares?

Segundo a comissão europeia os produtos alimentares, na Europa, irão sofrer um aumento, este ano, de cerca de 40%. A especulação, afirmam os especialistas comunitários, será responsável em mais de 30% por este aumento.

A repentina crise no mercado dos produtos alimentares só poderia estar associada à crise financeira provocada pelo “subprime” americano e que se repercutiu globalmente. Ou seja, a crise é provocada pelos grandes especuladores que procuram compensar as perdas no mercado das acções e na queda do dólar, deslocando os seus negócios para a bolsa das matérias-primas, onde se transaccionam os produtos alimentares.

A questão que se pode colocar é a da saber qual o papel dos Governos nesta história toda. Até pode parecer que se revelam incapazes de actuar perante a força do mercado. Contudo, o que se passa é que estão a criar as condições para que se obtenha m novo equilíbrio, que o sistema se auto-regule. Os governos procurarão minimizar os estragos, conter os famintos (distribuindo pratos de arroz, alguns subsídios e porrada se for preciso) de modo a que a espiral civilizacional se eleve e passe a um novo estádio, mantendo os genes vitais.

Anote-se que nestas coisas da especulação Portugal revela grande competência. Só dois exemplos:

Primeiro, o preço do pão. Segundo os jornais o preço do trigo subiu 10% nos últimos três meses. Contudo, em Portugal o preço do pão terá subido 50% no mesmo período, pelo efeito conjugado do aumento de preço/unidade e da diminuição do peso/unidade.

Segundo exemplo, o preço dos combustíveis. Ainda segundo a comunicação social, apesar do aumento do preço do petróleo no mercado internacional, o aumento de peço praticado pelas empresas petrolíferas que actuam em Portugal é bem superior ao aumento registado pelas empresas congéneres que abastecem outros países europeus.

E o Governo que faz perante estes aumentos especulativos? Pelo menos uma coisa sei que faz, arrecada os impostos, cujo montante cresce proporcionalmente ao aumento dos preços, mesmo que provocados por agentes especuladores.

Conclusão (um tanto ou quanto enviesada): Do ponto de vista fiscal, os Governos são os segundos grandes ganhadores com os movimentos especulativos. Portanto, como é aos Governos que compete cuidar do interesse colectivo, até se poderá concluir pela bondade da especulação…

12 março 2008

Por onde Começar a Mudança?

Pelos Pais!

Em comentário a
este post MCR diz que “O problema da educação está nisto: as famílias demitiram-se de educar, os pais não querem que lhes molestem as criancinhas, as autoridades querem apresentar bons resultados para as estatísticas europeias como se o passar à borla resolve o crescente analfabetismo das novas camadas etárias.”

As consequências do problema enunciado são do conhecimento geral. As causas é que não têm sido assumidas.

O Jornal Público do último dia do ano findo sintetizava, em frases curtas, um conjunto de ideias sobre Portugal. Algumas boas. Muitas a mostrarem “o nosso lado pior”. De entre estas houve uma que me chocou de verdade: “Os jovens Portugueses são os mais alcoolizados da Europa”. Recordo-me que logo a seguir a esta divisa aparecia uma outra a declarar que “Somos os mais pobres da Europa ocidental”.

Então, lembrei-me de ter lido, em tempos, que os jovens portugueses são dos que têm uma mesada mais alta na Europa Comunitária. Contradições? Talvez não. Os pais, mesmo pobres, querem dar do melhor aos filhos.

Acho que tudo isto bate certo e valida o Estudo que a OCDE divulgou no mesmo mês de Dezembro, concluindo que os alunos portugueses de 15 anos estão abaixo da média, entre 57 países, a Ciências, Matemática e Leitura.

O que é que teria de acontecer para que este estado de coisas se alterasse?

Tenho para mim que a causa está, em larga medida, no grande espaço de liberdade que hoje (nos últimos 15-20 anos) os pais dão aos filhos. Liberdade, no pior sentido, que se confunde com falta de regras e mesmo com cobertura à libertinagem.

A mudança deveria começar por alterar estes comportamentos, por fazer com que os filhos adquirissem o sentido do valor do trabalho. Apenas os premiarem em função dos resultados. Por controlarem os seus gastos e os seus percursos. Pô-los a exercer trabalhos domésticos, a apoiarem a família nas suas actividades profissionais, mesmo em tempo de férias escolares. Cortarem as saídas nocturnas, por sistema. Exigirem o cumprimento de regras e disciplina em casa. Transmitir a noção do trabalho e do valor das ideias.

O laxismo, a disponibilidade de dinheiro sem esforço para o obter, o elevado poder de mobilidade que os jovens desfrutam constituem factores que retiram qualquer importância ao trabalho e ao estudo. Tudo lhes vai ter às mãos a custo zero.

Quando os pais forem capazes de agir mais responsavelmente, então, passarão a ter autoridade moral para exigir que a Escola, as autoridades cumpram com a parte restante. Enfim, contribuirão, decisivamente, para por termo aos indicadores miseráveis que, ano após ano, colocam os nossos jovens na cauda da aprendizagem e no topo da degradação social.

O resultado da mudança de atitude dos pais será uma juventude mais responsável, mais sadia e um país com melhores perspectivas de futuro.

Portanto, a pergunta “Por onde começar?”. Só tem uma resposta: “Pelos pais.”

08 março 2008

Estes dias que passam 98

Insuportável!
Foi a enterrar há momentos, Isaías Carrasco, basco, ex-vereador do PSOE na Câmara Municipal de Mondragón.
Também era sindicalista e jogador amador de futebol. E pai de filhos, marido, irmão, como tantos de nós, por aí.
Carrasco, afastado da vida partidária activa, foi assassinado com quatro tiros pelas costas.
Quatro tiros ! Pelas costas! Como convém à cobardia do assassino, dos seus mandadores, dos seus cúmplices, dos seus simpatizantes em Portugal que os há.
Espera-se com urgência que alguns partidos portugueses se pronunciem sobre isto. Se formos indiferentes ao crime aqui tão perto, seremos indiferentes, ao crime político dentro de portas. E perderemos o respeito que nos devemos enquanto cidadãos e pessoas que se interessam pela "coisa pública".

06 fevereiro 2008

STA "obriga" Governo a entregar documentos

O Supremo Tribunal Administrativo (STA) deu razão ao SOL na acção interposta contra o Governo por ter recusado o acesso aos documentos e informações relativos à contratação de advogados pelo Estado. O comportamento do Executivo é classificado pelo STA como «inaceitável».

02 fevereiro 2008

EDP...EDP...

A EDP tem estado no top, o que é notável no meio da crise que o mercado vai digerindo, com muita lentidão. No dia 30/1, o Diário Económico anunciava, na primeira página, “EDP volta ao crescimento agressivo”. Em duas páginas explicava como as acções “disparam 6%”. E como “a capitalização bolsista cresce 700 milhões num só dia”.

No dia imediato, o JN também revelava um número que envolve a EDP. São apenas 183 €, mas nem por isso menos significativo.


«A NOSSA CAUSA»


22 janeiro 2008

A ASAE


Como é sabido, porque amplamente divulgado, o inspector-geral da ASAE vai ser ouvido hoje na comissão parlamentar de Assuntos Económicos, a pedido do CDS- PP. Aliás, para compor o ramalhete, este mesmo partido criou um endereço electrónico para receber as queixas dos portugueses relativamente à ASAE. Acho notável este tipo de preocupação. Num país onde a contrafacção impera, onde a falta de higiene e de condições é regra nos nossos restaurantes e pastelarias, onde as leis não são para serem cumpridas mas sim contornadas, ataca-se a ASAE. Parece-me bem. Estavam a dar muito nas vistas, trabalhavam excessivamente. Parece até que os quatro mil processos-crime relativos a material falsificado que instauraram nenhum deles foi ainda julgado. Não pode ser. Além de trabalharem dão que fazer aos outros. Assim sendo, vamos lá a ver por onde podemos pegar com esta malta da ASAE. Usam meios aparatosos, não pode ser. Inviabilizam a Bola de Berlim nas praias, ora nem pensar! Fecham restaurantes por questões de higiene, lamentável porque todos gostamos de comer um bife bem passado… no tempo.

Dificilmente se ouve ou se lê uma palavra que seja de apoio ao trabalho que a ASAE desenvolve. Porque será? Que se refiram os excessos e se questione alguma ausência de bom senso é uma coisa, agora que se denigra por inteiro uma entidade que funciona neste país é algo que tenho dificuldade em encaixar. Quem sabe minimamente o que se passa nas cozinhas dos restaurantes e pastelarias deste país só tem que agradecer a actuação da ASAE. Que sejam aparatosos, que sejam amplamente noticiados, que sejam controversos, que actuem. É o que se pede.

15 janeiro 2008

As sementes do fascismo


«Pode parecer que não, mas as sementes do fascismo estão aí: populismo e demagogia na política, insegurança e medo nas consciências, saudades do passado, rendição a quem vier e que mande nisto, o capital sem moral, o trabalho sem valor.»

J.A. Barreiros - texto integral aqui.

14 janeiro 2008

As Crianças… Senhor

A mendicidade infantil já não incomoda grandemente. É uma simples notícia de Jornal, banal, com justificações que nem o chegam a ser. Os jornais deram a notícia e pronto, tudo como dantes. Vamos aguardar pelos números do próximo ano. Talvez não sejam piores. As estatísticas estão a ser revistas e melhoradas.

Não deve ser por falta de legislação de protecção a crianças e jovens. Tão pouco deve ser a falta de instituições (públicas e privadas) que se ocupam a enquadrar crianças e jovens. Também não deve ser a falta de recursos financeiros, porque sempre se ouve dizer que as crianças são o futuro, logo a principal prioridade, o que significa afectação de meios.

Então, como justificar que seres indefesos sejam proscritos, abandonados ou mesmo explorados, em todos os sentidos? A resposta deve ser a do costume: É esta sociedade maldita; é a crise; é a dissolução da família. Assim se lava e justifica tudo.

Só que a notícia diz que a Escola expulsa porque se deu um dado número de faltas; a Junta de freguesia nada diz, a Santa Casa, por sua vez, diz não ter competências para intervir, o que é negado pelo Ministério da Solidariedade Social, que diz que é à Santa Casa que compete intervir.

Afinal o problema adicional é que há entidades a mais, sendo que não sabem exactamente quais as suas competências.

Para compor o ramalhete existe, ainda, alguém responsável pela gestão de uma coisa a que chamam Linha de Emergência Social do Instituto de Segurança Social, a esclarecer que podemos estar todos tranquilos porque não têm qualquer registo de crianças a mendigar.

Contudo, face à evidência que mostra que há crianças a mendigar, eu tenho uma explicação para a falta de registo que eles anotam. É que os funcionários e responsáveis da tal Linha estão todos escondidos atrás da dita Linha, se andassem cá por fora, com olhos de ver, veriam as crianças a mendigar, só ou acompanhadas.

A juntar às entidades já referidas há, ainda, as Comissões de Protecção de Menores e Jovens em Risco, que segundo um dos seus responsáveis explica o fenómeno das crianças a pedinchar porque “quanto mais tempo estão na rua a pedir, mais dinheiro conseguem obter” (deve ter estudado muito para chegar a esta conclusão) e “este fenómeno revela um padrão de marginalização social.

O trabalho que devem ter tido para tirar tão sábias e doutas conclusões, entretanto, a pedinchice (e exploração) continua, com as diversas entidades (polícia incluída) a reflectirem (ainda acabam por encomendar um estudo) para ver se descobrem quem deve fazer o quê, neste domínio.

11 janeiro 2008



lê-se aqui: http://www.simplex.gov.pt/

"processo de consulta pública do programa Simplex’ 08.
Apresentam-se as propostas de medidas a desenvolver.
Queremos sobre elas ouvir a sua opinião.
Queremos também receber e apreciar os seus contributos para novas medidas.

Participe até 15 de Janeiro"

07 dezembro 2007

CONSUMO SUSTENTÁVEL

O discurso politicamente correcto, no domínio ambiental, passa por defender o consumo sustentável. É por isso que todos os políticos, de uma ponta à outra, defendem ( e bem) que o desenvolvimento económico deve compaginar-se com o equilíbrio do meio ambiente, sendo que este se materializa na alteração dos padrões de consumo; na redução e tratamento dos resíduos sólidos (lixo); no consumo racional da água; no tratamento e eventual reutilização das águas residuais (saneamento); na protecção das florestas.

Portanto, a ideia do consumo sustentável implica e determina que as pessoas, em geral, assumam uma outra atitude face ao consumo e modifiquem os seus hábitos no que respeita ao destino final do lixo ou resíduos que produzem, Digamos que o consumo sustentável implica que as pessoas se preocupem com o que acontece a montante dos bens que consomem e com o que acontece a jusante.

Ou seja, a promoção do consumo sustentável passaria por, logo na Escola, se ensinar que não se deve comprar o supérfluo e que antes de adquirir determinados bens, designadamente de consumo corrente, se deveria ter em conta os recursos naturais que foi necessário destruir para produzir esses mesmos bens, de modo a ponderar alternativas de consumo.

Ainda com a questão da ecotaxa sobre os sacos de plástico a mobilizar dirigentes políticos, que deste modo reduzem a discussão a uma questão financeira, paga taxa, não paga taxa, dei-me conta ao comprar o Público de hoje da quantidade de papel que trouxe comigo e que, porque não vou ter tempo para ler a maior parte daquilo, lá terei de mandar para a reciclagem papel e tinta que não teve qualquer utilidade.

Só para ficarem com a contabilidade, aqui vai o número de páginas que levou para casa quem comprou o Público de hoje:

Caderno principal 56
P2 24
Sup. Economia 24
Ípsilon 64
Inimigo público 12
Sexta 30
Caderno CCB 8
Caderno Worten 40
Caderno Guia Adm. Estado 116
Total de páginas 374
Claro que muitos outros jornais tiveram edições equivalentes. Amanhã, Sábado, os semanários ainda se excederão na produção de papel.

Quem é que falou em consumo sustentável? Quem é que falou em alterar hábitos de consumo? Porque não uma ecotaxa sobre os jornais? Por exemplo, por cada página acima de 30, pagava-se 10 cêntimos por página. Porquê 10 cêntimos? Porque é um número redondo, o que facilita as contas…

05 dezembro 2007

A QUERCUS E A ECOTAXA SOBRE OS SACOS DE PLÁSTICO

Bem pela manhã ouvi na rádio que o Governo se preparava para lançar uma designada ecotaxa de 5 cêntimos sobre cada saco de compras distribuídos nos super e hipermercados.

Um representante das grandes superfícies disse que achava muito mal aquela medida uma vez que já pagam uma taxa, para a Sociedade Ponto Verde, que tem por fim atender aos objectivos anunciados para a nova ecotaxa.

Na mesma sequência noticiosa, um representante da Quercus não só se congratulou com a medida como elogiou a coragem do Governo em lançar a nova ecotaxa, que no seu entender deveria financiar campanhas de sensibilização ambiental.

Mesmo ao fim da tarde, também na rádio, alguém ligado ao governo disse que não estavam a pensar lançar qualquer nova ecotaxa sobre os sacos plásticos, embora estivessem a estudar soluções alternativas ao uso do plástico. De seguida falou um representante da Quercus, muito zangado, porque o governo desistiu da tal ecotaxa de 5 cêntimos por saco.

De facto, o que há a lamentar é a perda da perda da fonte de financiamento das tais campanhas de sensibilização que a Quercus tinha em mente.

31 outubro 2007

Estes dias que passam 82


Os “indígenas”

Mais dia menos dia tinha que acontecer. As boas almas ocidentais choram baba e ranho sobre as desgraças do terceiro mundo e, particularmente, África. Choram que se desunham mas esquecem, com a mesma candura, a meiguice com que olham os tiranos e tiranetes (estava a lembrar-me desse cavalheiro Mugabe que fará o favor de nos visitar proximamente e que será recebido com as honras que não foram prestadas ao Dalai Lama, enfim uma mão não tem de saber o que faz a outra mas, que diabo, a desvergonha tem limites...) a quem acarinham, a quem vendem armas, a quem escondem os tesouros nos bancos de cá et j’en passe.
As ONG multiplicaram-se como coelhos. Há ONG para tudo numa profusão tal que, às vezes, um cristão confunde-se com tanta generosidade à solta. Depois vais-se a ver e há umas ONG mais ong que as outras. Ele é os seus dirigentes bem pagos (coitados, abandonaram tudo para se dedicar ao amor pelo próximo...), os métodos nem sempre escorreitos, a intervenção por vezes desastrada, e nem vale a pena prosseguir.
Desta feita foi uma Arca de Zoe que lançou o olho cúpido sobre o desgraçado Darfur (para quem não me tenha lido com atenção, o Darfur, repito agora, dura desde os anos sessenta. Digamos que já vai na terceira geração de combates, de misérias, de latrocínios e violações, de mortes. Lá a excepção é a vida, mesmo curta.) e entendeu dever salvar um milhar de órfãos dos desastres da guerra. Por acaso nem o Chade nem o Sudão aceitam que cidadãos seus de menor idade possam ser alvo de adopção. Por acaso a ARCA em causa disse, por interpostos responsáveis, que se estava nas tintas para estas leis provavelmente “celeradas”. Disse igualmente que os fins justificavam os meios. E não me venham com fosquinhas que eu vi e ouvi com estes e estas que me hão-de acompanhar até á cova.
Vai-se a ver e os órfãos não vinham da zona de guerra. E também não eram órfãos. Mas eram pretinhos e pequenos, o que já é um princípio. E já tinham à espera deles uns centos de putativos adoptantes, brancos, ricos e sem filhos. A Europa agora está cheia de casais estéreis ou será que preferem um produto mais colorido e já nascido e desmamado?
E esses casais ou alguns deles já tinham até adiantado uns milhares de euros para as despesas da ONG... A generosidade e o altruísmo estão pela hora da morte!
E agora o Chade num ataque de mau humor e ingratidão quer julgar estes abnegados missionários laicos! Mas o mundo está de pernas para o ar! Então agora os antropófagos, os selvagens, os “indígenas” ousam levantar a pata imunda contra quem os ensinou a comer (quando comem) com garfo, contra quem lhes revelou a história gloriosa dos “nossos antepassados os gauleses”?
A França, num primeiro tempo, reconheceu que a ONG em causa era um pouco expedita, um pouco extravagante, um pouco “estranha”. Parece até que o Quai d’Orsay preveniu o governo chadiano e a própria embaixada de que achava a Arca um pouco “heterodoxa”. Mas, ao mesmo tempo, e isso disse-se hoje no parlamento francês, foi em aviões fretados pelo governo francês que os funcionários da ong apareceram no Chade.
Entretanto, depois do sentimento de vergonha vem um outro mais escondido, et pour cause, mais clandestino, menos confessável. Não seria melhor repatriar os da ong e julgá-los em França?, perguntam agora. É que, provavelmente no Chade não há juízes, procuradores, prisões, tribunais, sei lá, dignos de receber cidadãos europeus, caucasianos, arianos, o que se queira, enfim não pretos.
O mundo está cheio de histórias sórdidas como esta. Não foi a primeira e não será a última. Mas podiam pelo menos poupar-nos ao insuportável espectáculo da bondade que se exporta para os confins de um deserto onde só há fome, pretos e calor.

04 outubro 2007

pela Birmânia



Free Burma


hoje serão milhares de blogs a solidarizarem-se com o povo birmanês. Mais informações no blog Agua lisa do João Tunes. Não esperem pelos vossos amighos:inscrevam-se!

De Paris para as suas leitoras, mcr, enviado especial