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31 janeiro 2008

Um olhar sobre o regicídio


Convite para a apresentação (pelo Dr. António Pedro Vicente) do livro da minha boa amiga historiadora-investigadora Margarida Magalhães Ramalho.
Lisboa, Paços do Concelho dia 1 Fevereiro, às 18h00 (às 16h00 visita aos locais do regicídio – concentração junto à estátua do rei D. José, no Terreiro do Paço)

(clicar na imagem para aumentar)

13 janeiro 2008

Diário Político 74



No ano de 1975, se a memória não me falha, tive a honra de conhecer e ouvir durante um par de horas Don Pepín Bello. Em 1982 voltei a ter o prazer o de o ver e ouvir numa sessão da Residencia de Estudiantes.

no momento da sua morte, seja-me permitido, tirar lenta e metaforicamente o chapéu e dizer, também eu, "ola Pepín!

E muito, muito, obrigado

d'Oliveira

06 janeiro 2008

o leitor (im)penitente 30



O José António Barreiros manda-me um mail a chamar a atenção para a “revoltadaspalavras.blogspot.com”, um dos muitos blogs que anima e que, como os outros é imperdível, com a notícia da morte do Luiz Pacheco.
Ligava-nos, entre outras coisas, esta comum admiração pelo Pacheco, escriba que me acompanha desde os anos sessenta. Apesar de serem 26 os seus textos guardados na estante, ocupam escassos 30 centímetros (medi-os agora mesmo, por razões que a seguir se esclarecem). Ponhamos que me faltarão quatro ou cinco folhetos, entre perdidos, “desviados”, em parte incerta ou simplesmente nunca encontrados. Está nisto a trágica ironia duma escrita combativa, irremediavelmente solitária, duma escrita que é fácil acusar de marginal (e, de certa maneira, era-o) mas duma escrita que não poucas vezes foi sumptuosa, irradiante e quase sempre certeira.
Não sei o que é que o futuro destinará a Luiz Pacheco. O futuro, sobretudo o português tem destas coisas, é difícil predizê-lo, sobretudo no caso Pacheco que, por razões diversas e algumas culpas próprias, nunca se pode ocupar dele, tão atrapalhado estava para viver o seu presente, difícil presente, há que acrescentar.
Na hora da morte há quase sempre um tácito acordo: não se referem os pecados e só se exaltam as virtudes. No caso dos escritores a coisa complica-se. A literatura (e temos casos emblemáticos desde Pound ou Céline até Cela para vir mais para perto) vê-se muitas vezes confrontada com a vida dos seus autores.
Conheci o Luiz Pacheco há cerca de trinta anos. Já era seu leitor graças sobretudo a um editor inteligente e sabedor, António Carlos Manso Pinheiro (Estampa). Suponho que antes dele só a Ulisseia (“Critica de circunstancia”?, meados dos anos sessenta e fanada pela PIDE numa das suas incursões à minha biblioteca) é que se dera ao trabalho de o publicar. O resto aparecia sempre sobre a chancela da “contraponto” a editora inventada por Pacheco. Algum dia se falará desse seu trabalho, das revelações literárias que originou, do apurado gosto do editor, do seu amor pelos livros e por uma outra, e nova, literatura.
No final dos setenta e princípios de oitenta, encontrava-o muito pela “Opinião” e não me fiz rogado para entrar na lista dos “mecenas” já não com “vintinhos” mas com “cemzes” (de acordo com esses anos de inflação) com que LP ia angariando a vida sempre difícil. Uma que outra vez transigia em ir jantar à “Trave” do Jaime e do Santos antes deste partir para a aventura do “Primeiro de Maio”. Não recordo, porém, nenhuma conversa sensacional, nenhum segredo literário, nenhuma revelação definitiva sobre os anos surrealistas ou a vida literária de fins de cinquenta até ao 25 A.
E foi por essa época que, inocentemente, colaborei com ele nas suas piratarias editoriais. Em 78, Herberto Hélder publicou, numa edição & etc... “o corpo o luxo e a obra” (600 ex, 100 fra do comércio). À cautela eu encomendara o livro em vários lugares de modo que me couberam dois exemplares. Alguém, cujo nome já não recordo, informado desse bambúrrio, procurou-me para me comprar o exemplar a mais. Tais artes terá tido que eu, burro confesso mas generoso, lho ofereci. Tempos depois, à entrada de um espectáculo de teatro do FITEI fui surpreendido pelo destinatário da minha generosidade que vendia “o corpo o luxo e a obra” numa contrafacção assinada contraponto com a única diferença de incluir um texto de Maria Estela Guedes como prefácio. Vamos andando que me ofereceu um exemplar da “nova edição”. Os anos foram passando e as notícias de Pacheco, salvo os livros que iam saindo que, nem sempre alcançavam a qualidade dos textos anteriores e sobretudo do “libertino passeia por Braga...”, “comunidade” etc...
O passeio, a atribulada mas excitante viagem de Pacheco, acabou. Pelas minhas contas andou por cá oitenta e poucos anos. Ou seja gastou o melhor da sua vida num país tristonho, embiocado em relentos do século dezanove, se não do dezoito, pouco atreito à liberdade livre que Pacheco e os seus, mais que proporem, defenderam e viveram. Com todos os riscos que isso implicava. E com as dificuldades, muitas, algumas prisões pelo meio, processos de toda a ordem, toda uma aventura. Muito mais do que coube, cabe ou caberá, á maioria de nós todos.

05 dezembro 2007

Cafés e Tertúlias

Um interessante trabalho, dinamizado pelo A Defesa de Faro, um blog em que o futuro se pensa também pela evocação do passado.
Vejam, que vale a pena e é só clicar aqui!



(o que foi o) Café A Brasileira (antes "O Baleizão"), de cujos bolos de aniversário - ai, aquela "abelhinha", que surpresa marivilhosa foi! - ainda me lembro... )

Ao ler/ouvir o texto do vídeo, poderia imaginar exactamente a zona em que o meu pai "abancava" no café Aliança, não fora saber que, entre tantas outras coisa boas, ele se distinguia por não se encaixar nesse mundo socialmente estratificado que o vídeo refere... tinha entre os seus melhores amigos pessoas que se espalhariam por algumas das zonas do café descritas no vídeo, pelo que fico curiosa em saber se andaria de mesa em mesa ou se ia variando consoante os dias... Vou tentar averiguar :)

22 novembro 2007

missanga a pataco 34


Esta vai assim, directa, para o éter sem redacção prévia sem plano (como se eu fosse muito dessas coisas) como quem segue uma música ao longe. Morreu o Béjart. Quase diria morreu a dança mas isso ele nunca o permitiria.
eu não sei se o século XX teve muitos revolucionários. Duvido bastante, para falar com sinceridade. Mas se os teve, um deles, e não o menos importante foi este meteoro que agora se vai juntar à grande família das estrelas errantes. Morreu, diz o "le monde". morreu, vírgula! Enquanto se dançarem as suas coreografias não há morte que o leve, que o esconda, que o torne esqecido. E há os filmes, os vídeos e, sobre tudo isso, a nossa memória. E o nosso embevecido encantamento. Aquele homem punha um paralítico a dançar...
Deixo para os críticos, o relato frio e minucioso do que ele fez e não fez. Eu, e porventura muitos como eu, contentávamo-nos em assistir espantados aos espectáculos que ele montava.
Permitam-me que, dentre todos, recorde um, em Lisboa, onde no fim entre intermináveis aplausos, Maurice Béjart chegou-se à boca de cena e condenou o fascismo português. A plateia levantou-se ainda mais e se me lembro saiu-se do teatro numa arruaça tremenda. Béjart foi obviamente expulso nessa mesma noite. Mas o escandalo e a repercussão internacional do seu gesto fizeram o regime dançar freneticamente uma dança de S. Vito. Sem aplausos da plateia internacional e dos jornais de todo o mundo que relataram a acção do grande coreógrafo que de todo o modo ainda estava em início de carreira.
Nem que fosse só por isso, querido Béjart, muito obrigado.

10 outubro 2007

Mães da Praça de Maio


A propósito desta notícia, deixo aqui a lembrança daquela tarde chuvosa, do passado mês de Setembro, mais uma 5ª feira em que o Movimento "Mães da Praça de Maio" se manifestou mesmo em frente às traseiras da Casa Rosa, de onde todos os caudilhos, masculinos ou frmininos, falam às massas. Desfilaram primeiro silenciosamente, em volta da praça, elas com o lenço branco símbolo do movimento, , ao peito fotografias dos familiares há décadas desaparecidos, depois com apelos a que Justiça seja feita, com notícia das batalhas judiciais, cívicas e políticas em curso, tudo pela voz de uma senhora já idosa mas de convições e voz fortes e jovens. Parece que é assim todas as 3ªas e 5as feiras de tarde, há anos e anos.

Kamikaze
´kamikaze











kamikaze


Kamikaze
Assisti, ouvi, senti, aplaudi.
Ao fim ao cabo vale sempre a pena lutar. E se não podemos esperar que todos tenhm essa coragem, há que manter ao menos a crença de a maioria apoie as lutas justas e não pactue com os que, ontem como hoje, não resistem ao apelo do poder dos esbirros, tenham eles o labéu de direita ou de esquerda.
Ainda que, pelo caminho, alguns se aproveitem das justas revoltas para passar as suas mensagens mais político-partidárias...

Kamikaze

27 agosto 2007

voz alheia 1



Por uma vez, provavelmente única, dou a palavra à Maria Manuel Viana que quis corresponder à amabilidade dos companheiros desta barca e enviar-nos um texto seu sobre o Eduardo.
Aqui o recebi e, por junto, copiei-o.
Juntei para o ilustrar uma fotografia de uma máscara Urhobo (Nigéria). Achei que o EPC gostaria dela, curioso como era.


para as incursões


ele teria gostado de ler as palavras do marcelo. ter-se-ia comovido. aquelas eram também as palavras dele. vagueio pelos blogs, à procura dum pequeno sinal, duma memória partilhada, para assim calar esta dor insuportável.
ele já não está.

em 73, cruzámo-nos num festival de cinema na figueira. ele falava da persona do bergman. eu tinha 18 anos. fiquei fascinada.

amámo-nos por entre muitos rostos, muitas outras pessoas, muitos filmes e muitos livros.
ele já não está.

adormeceu devagarinho, no sábado de manhã.
como o menino que era.
ele já não está.

dói-me acordar.
dói-me viver.
ele já não está.

fomos felizes enquanto os deuses o permitiram.

25 agosto 2007

O Fio do Horizonte


As crónicas de Eduardo Prado Coelho no Público, com o título "O Fio do Horizonte", de 2ª a 6ª f , desde o 1º número daquele jornal * [entre 28.12.1998 e 24 de Agosto de 2007, ontem mesmo!] podem ser lidas aqui.

estes dias que passam 74


A morte, hóspede inesperada




Ainda ontem, sexta, pela tardinha, tínhamos recebido uma mensagem da Maria Manuel: o Público trazia uma reportagem sobre a Mayra, prima segunda de ambos e ela e o Eduardo achavam por bem prevenir todos os familiares.
Nada fazia prever este desenlace, depois de tantas e tantas vicissitudes, há fígado, não há fígado, há rejeição, a rejeição foi vencida, enfim o rosário do costume, as aflições habituais.
Conheci o Eduardo na Figueira há mais de trinta anos numa das primeiras edições do Festival de cinema. Fomo-nos encontrando ano, pós ano, criando laços, coisa mais que natural entre pessoas da mesma geração e com interesses semelhantes. Polemicámos as vezes necessárias que ambos somos senhores do seu nariz. Uma que outra vez, por interposta imprensa, trocámos um que outro afectuoso abraço a propósito de pequenas coisas que nos interessavam.
Há uns anos ele e a Maria Manuel acharam que tinham sido criados um para o outro e disso me deram conhecimento rápido. Ao fim e ao cabo sou o primo mais velho duma série de dezasseis, todos netos da Velha Senhora. A Maria Manuel foi durante muito tempo a única prima que eu conheci, aliás conhecia-a com dois anos de idade, aos gritos numa janela namorando descaradamente os polícias da esquadra em frente. Nos seus romances, a Maria Manuel lá me vai fazendo aparecer fugazmente e o Eduardo dizia que tinha ciúmes...
Agora já os não tem. Nem ciúmes, nem histórias para contar, como ainda há um ano na Galiza. Às oito e meia da manhã de hoje, a minha mãe telefonava-me mais rouca (e mais velha...) do que de costume a dar-me esta miserável novidade. Convenhamos que há maneiras mais agradáveis de acordar. Ao meio dia e meia, não perguntem como, já estava em Lisboa. Vamos daqui a pouco para lá velar o nosso mais recente parente.
Estamos mais pobres e mais desolados.
O Verão é uma má estação para morrer. Aliás, todas as estações são más que a morte é sempre uma hóspede inesperada.

Georges Rouault: Notre Dame des Champs nº4. Acho que o Eduardo gostaria desta gravura malgrado a sua consabida falta de fé. A mim também me falta mas rouault é indiscutível...

Uma perda

O país e o espaço público de debate e reflexão em Portugal ficaram mais pobres com a perda de Eduardo Prado Coelho. As suas crónicas diárias no “Público”, sobre os mais variados temas, da política ao cinema, da dança à literatura, eram um dos mais valiosos espaços de reflexão e análise da realidade contemporânea nacional.

Ninguém como tu Figueira


http://www.fotoscomhistoria.canalhistoria.com/?cmd=

dedicado ao nosso MCR, que tantas memórias da Figueira da Foz tem aqui partilhado

* fotografia: 1951, autor João Sardo (tirado do site fotos com história)

* Álbum Figueirense (preito ao passado para enfrentar o futuro)

* letra da canção "Ninguém como tu Figueira", de Rocha Oliveira e Mário Gonçalves Teixeira, a qual, interpretada por Clara Sacramento, mereceu uma menção honrosa no VIII Festival da Canção Portuguesa (Figueira da Foz) no ano de 1969 (*)

Não há outra terra igual
Assim junto à beira-mar
E o Mondego vem de longe
P'ra te ver e te falar
Ninguém como tu Figueira
Tem um ar assim risonho
Ficas em nossa lembrança
A perdurar como um sonho

Eu sei que não há ninguém
Que saudades não vá ter
Depois de passar aqui
Tem que voltar p'ra te ver
Também o sol teu amigo
Nunca falta com seu manto
Torna oiro a branca areia
Faz da Figueira um encanto

E da serra até Buarcos
Vive gente boa do seu labor
Quando há um barco
Que sai a barra
Há sempre um adeus
Para o seu amor

Figueira
Tua praia
Também não tem igual
Para nós és rainha das praias de Portugal


* informação colhida nestoutro blog também dedicado à rainha das praias.


PS - vejam só que coincidência: na minha última incursão à Figueira, vai para bem mais de um ano, estava eu no hotel em doce remanso, o mar lá ao longe (sempre ao longe, o mar na Figueira...), a ler um livro de um autor espanhol cujo nome não recordo, tal como o do livro, mas que, se não me falha de novo a memória, era um quase estreante, que arrenegara da formação jurídica e se iniciara nas letras com estrondo; o livro esse passava-se em Veneza, melhor dizendo, era sobre Veneza e arte e a arte em Veneza e muitas coisas mais (de que me lembro, mas não vêm agora ao caso); a escrita era poderosa e o vocabulário um tanto invulgar - pelo que dei comigo curiosa quanto à identidade do tradutor, que não pouco trabalho havera de ter tido para alcançar um tão harmonioso fraseado. Eis senão a surpresa: o nosso Marcelo! Ele mesmo, o MCR! Veio-me então à memória que ele já mencionara o livo aqui no Incursões (ainda que eu o tivesse comprado apenas porque sim). Como é que se chamavam mesmo, o livro e o autor? (não o tenho ao meu alcance, de momento, vai uma ajudinha?)

01 junho 2007

Jean-Claude Brialy


Era um excelente actor, filmou com a nata da nouvelle vague, este filme, de resto é considerado o primeiro filme n.v. mas o que mais me interessa aqui dizer é que este homem tinha uma paixão descomedida pelo teatro, chegando mesmo a comprar um (les bouffes-parisiens) e a organizar um excelente festival (Anjou, primeiro e Ramatuelle, depois).
É natural, portanto, que a generalidade dos comentadores bem como dos amadores de teatro considerem esta morte - prevista - uma perda. E é.
O leitor MSP, cinéfilo impenitente e este que se assina sentem-se um pouco mais sós.

19 maio 2007

E vão três!


--
As Amoras

O meu país sabe a amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

Eugénio de Andrade
("O Outro Nome da Terra")


Completaram-se ontem, dia 18 de Maio, 3 (três!) anos sobre a data de publicação do 1º post neste lugar da blogoesfera, que dá pelo nome de Incursões (o post vem transcrito acima, a imagem é um aditamento meu, feito agora, aqui).
Vinha assinado por L.C., que entretanto foi incursionar para ali e acoli, tal como outros que tinham coadjuvado o nascimento deste blog foram incursionar para e acolá (e também para além e aquém, inicialmente em acumulção de serviço, agora não sabemos).
Novos colaboradores vieram entretanto para esta "casa" e são eles que fazem hoje o Incursões. Não sei se o blog tem agora muito ou pouco a ver com o projecto que animou os idos de Maio de 2004, mas isso também não vem ao caso, que já por aqui abusei em demasia da exposição das minhas "dúvidas existenciais" a tal respeito e o que importa é parabenizar quem lhe vem dando regular e empenhadamente vida.

Parabéns pois, MCR, JCP, O Meu Olhar, Sílvia C., d'Oliveira e reaparecido Mocho Atento! (*)
e Votos de que o almoço "comemorativo" aprazado para 25 deste mês, numa oportuna iniciativa do JCP, seja um caloroso e estimulante encontro entre o passado, o presente e o futuro.


(*) Eu também estou de parabéns, não pelo contributo que de há muito é menos que escasso, mas por aqui ter feito AMIGOS que o são e serão aquém e além Incursões.


26 abril 2007

outros muros



Entre a vista que, a 25 de Abril de 1974, tinha da janela do meu quarto, em Caxias, e a que se tinha daqui, em Berlim, onde estou hoje, um mundo de diferencas e algumas semelhancas.
Por isso, nem o corpo esgotado, nem a mente cansada, nem o teclado sem acentos nem cedilhas me demovem de vir aqui gritar VIVA A LIBERDADE!

25 abril 2007

missanga a pataco 10


Falemos então, pouquinho mas com alegria, no 25 A. Já aqui contei as histórias que um grupo de amigos viveu desde os dias imediatamente anteriores. Como na nossa escassa, mas total, possibilidade nos entregámos de alma e coração à empresa. Também já referi, há-de ter sido no ano passado, a emoção e a determinação (uma coisa não retira a outra e nas mulheres até parece que ajuda) da Teresa Feijó e da Maria João Delgado naquela madrugada duvidosa em que tentávamos perceber se o dia ia ser de festa ou se dali a pouco estaríamos guiando carros cheios de derrotados rumo à fronteira.
Falo hoje de dois homens já maduros, que tinham visto outras, sempre desagradáveis, mas que nem hesitaram quando fui pedir-lhes ajuda e colaboração, contando o mínimo indispensável e pedindo o máximo (im)possível. Falo de Rui Feijó e de Jorge Delgado.
Que um rapazola, enfim, um tipo de 33 anos (essa era a minha idade) se metesse nestas conspiratas era coisa fácil. Mas eles já tinham passado os cinquenta, já tinham conhecido a prisão e o rosário de coisas de desagradáveis que acompanhava qualquer democrata que desafiasse o poder. Tinham posição, família, negócios, e os anos não ajudavam. Ora bem. Acreditem ou não, nem pestanejaram. É para já, responderam. Com uma diferença: o Rui ficou em pulgas enquanto o Jorge, mais experimentado, disse que o chamassem só quando fosse necessário pois entretanto dormiria o sono dos justos (e ele era-o) dos habituados (idem, aspas, aspas) e dos decididos. E assim foi. Por isso não se meteu às ruas da noite e da madrugada connosco, enquanto o Rui fervilhante dizia que não podia estar em casa.
O Jorge morreu já, deixando entre amigos e conhecidos uma rasto luminoso de um militante critico e ponderado da liberdade. Faz falta, muita falta.
O Rui vai nos oitenta e cinco se não estou em erro, tem os achaques da idade, e dos rins a desfuncionar, da vista já cansada, das pernas que pouco lhe obedecem, mas a cabecinha continua fresca como no primeiro dia. Costumamos falar-nos neste dia, mas hoje ele teve de ir para a sua diálise e sai de lá desfeito. Amanhã também é dia, é sempre o primeiro dia de uma outra coisa que por muito desgostante que esteja, é melhor do que o 24 de Abril de 1974.
E o meu recado é simples: a democracia é coisa que está sempre em obras, o que é uma chatice. Mas mais vale viver entre andaimes do que entre grades sejam de ferro ou tão só tecidas de medo. E é isso que não é fácil de ensinar a quem nessa altura tinha dez, doze quinze anos para já não falar nos outros ainda mais ovos. E todavia foi por eles, para eles que alguns se arriscaram. Não estou a pedir grande meditação sequer um minuto se silêncio. Prefiro mesmo que o dia tenha sido passado como qualquer outro feriado porque isso é o verdadeiro sinal da vitória: viver na normalidade.
E por isso, só por isso, digo in imo pectore: viva o vinte e cinco de Abril, sempre!
a ilustração de hoje: cerejas. Lembrando a velha canção de combate:
Quem te pôs na orelha
essas cerejas, pastor?
São de cor vermelha,
vai pintá-las de outra cor.

25 de Abril

Hoje comemorou-se o 33º aniversário da revolução dos cravos. O Dia da Liberdade foi de novo assinalado na minha terra, Marco de Canaveses. Desta vez sem as parangonas do ano passado, sem as televisões e a imprensa nacional, tanto mais que se havia perdido o “efeito” novidade que as comemorações de 2005 traziam em si. Ainda bem. Marco de Canaveses voltou a ser uma terra normal, que não tem vergonha de homenagear aqueles que lhe trouxeram a liberdade numa manhã de primavera (sim, também estou a pensar no mcr e nos seus tempos de Caxias).

Enquanto autarca em funções senti que tinha o dever de me associar e lá estive, para assistir à inauguração de uma modesta escultura (ou instalação?) alusiva à data e para participar na sessão solene organizada pela autarquia. Actos que, em Marco de Canaveses, também servem para exorcizar alguns fantasmas que ainda por lá pairam.

10 abril 2007


O Rui Namorado, poeta e meu amigo desde 1960 (uma vida!), companheiro de Caxias em 62, conspirador nato, alma abençoada do "conge" em 69, fundador da editora Centelha e mais um cento de coisas, manda-me quatro poemas dedicados ao Adriano. Foram já publicados no livro (a ler com urgência!) "Sete Caminhos" pela Fora do Texto Editora (o mesmo é dizer pela velha e inquieta Centelha) mas há por aí leitor(es) que os não conhecem. É para eles e para o João Tunes (leiam o comentário dele ao meu "estes dias ... 53" e digam lá se não vale a pena escrever aqui para ter comentários daquele gabarito...) e (a expresso pedido do Rui) para o Raimundo Narciso, que os poemas vão.
Peço desculpa ao meu caríssimo amigo carteiro por o substituir nesta amável tarefa de levar a carta a Garcia mas também é verdade que me arroguei em tempos do título de "recoveiro do Foco" o que me permite de longe em longe este tipo de recados.

(a ilustração é uma reprodução de uma das composições de Mondrian)


QUATRO POEMAS DE SAUDAÇÃO E MEMÓRIA
(para Adriano Correia de Oliveira)


1.
estamos todos fechados na parede do tempo
nessa teia bem triste onde os anos se perdem
no Penedo absortos descobrindo a Saudade

fomos espanto e guitarra ousadia e ternura
uma garra prendendo o terror que morria

nessa noite arrepio tão amarga tão espessa
o futuro era tanto o futuro era tudo
nessa noite onde fomos a mais louca semente

2.
a boémia bebida gota a gota com raiva
a boémia sorvida alegria tão breve
era então que nos ríamos do que havia de ser

uma casa cercando o bolor destes anos
o emprego roendo gota a gota levando
o que resta no fundo dessa larga memória

era então que aventura
era estar devagar nessa curva do tempo
onde a areia mais leve se perdia entre os dedos
dia a dia fugindo ansiosa e suave

era então que nos ríamos devagar sem saber
desta náusea futura que ainda havia de ser


3.
Na secreta raiz de algum poema
tu nasceste por dentro das palavras.

Cantar era para ti uma viagem.
Sentias a revolta, nervo a nervo,
como um pássaro ferido.

Neste tempo rasteiro e abafado,
guardavas o veneno precioso.

Ias para longe de mais e o tempo passa:
os milhafres do nojo prosseguiam,
rasgando a carne pura do teu sonho.

Matavas o silêncio.
Mas na sombra do tempo houve uma pausa,
um outono mais rápido,
um inverno mais súbito.
E as pétalas da noite desabaram,
corroendo o teu nome de grinaldas perdidas.


4.
Procura-se o criminoso !
Na treva mais remota,
nos pensamentos mais lisos,
na lógica mais fria,
nos lugares mais comuns,
nos sonhos mais seguros,
nos corações lineares,
no denso labirinto
das pequenas traições,
é possível encontrá-lo.
Procura-se o criminoso:
como encontrar o castigo?


09 abril 2007

Estes dias que passam 53


Adendar o adendável e tratar do inadiável

Ou eu sou ainda mais trengo do que penso ou o computador anda a pregar-mas. De facto não consigo põr em comentário seja o que for usando o mesmo nome e senha com que abro este texto.
De certo modo há males que vêm por bem porque me parece que estas coisas têm a dignidade suficiente para serem alvo de um postal e não de um comentário que poucos lerão.
A história continua a ser a mesma: um texto meu sobre o Adriano suscitou um comentário e teve a honra de ser reproduzido no excelente blog do JoãoTunes "Agualisa6" de que já aqui se disse todo o bem. Portanto e para começar, quando digo que o meu texto foi honrado com a sua reprodução é isso mesmo que, grata e alegremente, quero dizer.
O Raimundo Narciso (espero que não me leve a mal este desenfadado modo de o nomear), comentou o meu texto em termos que agradeci e a que repliquei. O problema segundo um segundo comentário, desta vez de João Tunes, é que o meu texto "adenda" pode ser ou parecer agreste. Seguramente que o erro é meu. Escrevi depressa, numa ânsia gulosa de ir para o cabrito pascal e a fome foi má conselheira. Vejamos se a resposta agora a seguir dada ao João Tunes consegue repor as coisas no seu lugar.

Meu caro João Tunes

A Páscoa só abençoa os que nela acreditam pelo que é provável que o meu texto, texto de um agnóstico total, possa ser lido vendo nele intenções que não tenho nem tive.
Efectivamente não é o cidadão RN que pretendi atingir mas apenas e só o modelo de organização política que ele serviu e que o impedia (e impediria o Adriano) de se compreenderem, de desabafarem. De, numa palavra, terem ambos uma conversa banalmente normal e normalmente entendível.
Isso, essa trágica impossibilidade, decorre, de facto, do tipo de estrutura em que ambos militavam e da sua permanente autofagia.
Os aparelhos têm essa caracteristica de se auto-purificarem constantemente, de lançarem para as trevas exteriores os réprobos e os malditos por boas ou más razões. sobretudo por estas.
Houve quem chamasse a isso stalinismo mas desconfio que a "coisa" teve mais pais subtilmente poupados, por exemplo Lenin... Há males que são como o brandy Constantino: vêm de longe. E Lenin foi um hábil separador de águas e condenou com inominável violência muitos dos que com ele lutaram contra o czarismo. O partido para Lenin era uma organização disciplinada, quase militar (a exemplo de certas ordens monástico-militares...) e "purifiicava-se" depurando-se.
Que um labroste ex-seminarista que fez as suas primeiras armas na organização logística e financeira do POSDR tenha posteriormente sido cooptado para a comissão Central e daí passasse a sucessor de Lenin, é sobretudo um acaso da história ou uma prova da brutalidade inerente a este tipo de organizações políticas.
A partir de um certo momento os partidos de obediencia bolchevique pautaram a sua disciplina interna pela cartilha de Stalin quando não a melhoraram ou refinaram. E isso é como uma marca de água a que nenhum escapou. E aí entra o PCP onde os mesmos processos tiveram os mesmos resultados.
E era isso que eu condenava. Isso e a mistificação histórica que agora piedosamente faz do triturado Adriano uma espécie de "santinha da ladeira" do povo pcp.
Em segundo lugar, gostaria de exclarecer que não me abono especialmente com o facto de nunca ter caído no magma pcp. Tive sorte, havia alternativas, "não era de confiança", estava pouco disposto àquele género de disciplina e sobretudo faltava-me a fé total e completa (lera demasiado Rilke, demasiados cartesianos e demasiado surrealismo) para embandeirar em arco ao som da gaivota que voava voava. Aliás não gosto de gaivotas, são inuteis como comida, e más como caçadoras...
Se, por um lado, posso fazer o esforço e o exercício inutil de compreender os modos de estar e os tempos dos altos responsáveis do PCP, mesmo depois do 25 de Abril, não deixo, porém, de me surpreender com a sua disciplinada obediência ao que, lá dentro do partido, era o politicamente correcto. Acredito de resto que RN e muitos outros (os meus amigos Zé Barros Moura ou João Amaral) passaram horas más a engolir o sapo vivo ou mesmo um que outro elefante.
Não ponho em dúvida o pesar de quantos hoje olham para trás e pensam que uma palavra ("...dizei uma só palavra e a minha alma será salva...") poderia ter feito a diferença. Acredito igualmente que as palavras de RN sejam o que V. chama uma auto-crítica.
Como já lhe disse sou agnóstico: não uso auto-crítica nem confissão seja a um sacerdote ou in imo pectore. Isso todavia não me salvou de muita burrice, de muita presunção e de ter provavelmente ofendido alguém. Dada a minha caracteristica incredulidade já apontada resta-me viver com isso e esperar que a partir de agora não cometa as mesmas asneiras. Terá sido por isso que não cuidei de polir o que eventualmente pode ser "agreste" no meu texto.
Note, contudo, e finalmente, que a minha resposta a RN implica pelo menos uma coisa: achei que poderia dialogar com ele ou com qualquer outro, coisa que, se o tivesse por stalinista convicto, seria uma inutilidade. E uma perda de tempo. Não penso que o seja e por isso entendi responder-lhe. E de pedir desculpa se fui insultuoso. Não o quis, não tenho esse hábito, e não erstou disposto com esta idade a começar uma carreira à Fialho de Almeida (ainda por cima falta-me a sua qualidade de escrita...)

Agradeço-lhe, embevecido, a citação no seu blog: isso sim é que é algo que dá dimensão a uma escrita como a minha.
Um abraço

07 abril 2007

Adenda



O meu texto sobre o Adriano mereceu um comentário que agradeço mas que me obriga a responder aqui e não em segundo comentário. Aliás por uma deficiencia do brouser que não me reconhece a password também não conseguiria responder ao comentário.
O comentador Raimundo Narciso deixou uma breve nota em comentário para a qual remeto porque não a quero resumir aqui por temer que me falhe algo de essencial.
Todavia, e porque não consigo juntar-lhe esta resposta aqui a deixo. Aliás penso que esta resposta é demasiadamente importante (para mim) para a deixar perdida num texto a que eventualmente já ninguém irá.
Ei-la:

Se V. é o NR que eu penso, desculpará que lhe diga que, na altura, a amargura do Adriano tinha muito a ver com os militantes (certos militantes e certos responsáveis infelizmente com decisiva influencia) e com a organização política em que ele generosamente (como muito bem reconhece) militou e a que nunca deveu nada, antes pelo contrário. Não era o PCP que fazia a fama de Adriano, foi Adriano que deu muito ao partido, a começar pelas inúmeras borlas em concertos nos tempos da clandestinidade, pela voz que emprestou às canções de luta, pelo exemplo que forneceu de artista empenhado e militante. E por aí fora.
Desculpará mas 1988 é uma data que já nada diz a quem morreu antes. O terrível foi ele não ter podido desabafar com camaradas mas tão só com amigos, de esquerda é certo, como eu, mas que obviamente não o tinham acompanhado no empenhamento militante dentro do pcp. E que por vezes (e muito bem, permita-me) combateram as teses do pcp sem por isso deixar igualmente de combater o regime salazarista.
Não veja nisto nenhum ajuste de contas com um passado que, hoje em dia, é quase comum mas tão só uma amarga advertência para o futuro. Os unanimismos e outros ismos igualmente maléficos geram muita e trágica amargura.

Na gravura: sob uma efígie de Marx a legenda: é possível um mundo diferente.
Às vezes não é, ou não foi. Vamos lá a ver se aprendemos com os erros, as omissões, os esquecimentos, a proeminencia da táctica sobre a nossa profunda convicção. Etc.

04 abril 2007

Expediente 4


Um gajo alto, esgargalado, ingénuo e de bela voz

Anda por aí uma colecção de música portuguesa que, desculpem lá, me parece um tanto ou quanto mescambilha. É que aquilo mistura no mesmo cd alhos com bugalhos, ou seja Zeca com Tonicha, Adriano com o Marceneiro (aliás respeitabilíssimo) e por aí fora. A ideia parece ser aviar as coisas por data e por estilo o que tem menos cabeça ainda do que os inexistentes pés. Claro que se vai vender em quantidade, tanto mais que dão um de cada três cds e o pagode é como se sabe: acredita em milagres das rosas e em ofertas de jornal.
Nós portugas somos mesmo assim: acreditámos no mito da pimenta, depois no outro do Brasil, no café de Angola, no volfrâmio (ah o volfrâmio! Quantas histórias se poderiam contar!) no dinheiro fácil da união europeia e agora parece que anda tudo entusiasmado com a “reforma” da função pública...
Foi, aliás, e também, contra isto que nos anos sessenta se começaram a ouvir vozes desafinadas dentro do “amorável concerto nacional”. Havia uns rapazolas que não acreditavam no fado do embuçado bondoso que só queria ouvir música e dar a régia pata a beijar. Havia uns rapazolas que, fartos da balada plangente de Coimbra menina e moça, rouxinol do Bernardim (coitado do Bernardim: ninguém lhe leu seriamente “a menina e moça” mas todos se espojaram num melífluo e dolicodoce responso a que o Bernardim Ribeiro é inteiramente alheio.) queriam outra música. Havia uns rapazolas, por aqui e por ali, que trouxeram para a cantilena nacional, duas notas vibrantes, sem angústias de mercearia barata, nem requebros enfermiços. Começou pelo Zeca, já aqui evocado, continuou imediata e contemporaneamente com o Adriano e depois aquilo pareceu um rio. E foi um rio, não tão grande e tão cheio como alguns gostariam que fosse, que naquelas águas revoltas mas limpas também se transportaram outras de mais duvidosa origem. Foi um rio, é um rio, agora mais calmo, menos cheio mas ainda autêntico.
O fenómeno não foi português mas geral e geracional. O já celebrado milagre das rosas não teve por berço este “torrâozinho de açúcar” à beira mar plantado mas nasceu em tantos sítios quantas as cabeças da hidra. E de facto foi considerado uma hidra e como tal tratado e perseguido. Felizmente, os governos mesmo todos juntos não têm o vigor e a astúcia de Hércules e a hidra sobreviveu, para consolo meu e vosso.
Vamos hoje praticar sobre um dos participantes da renovação da canção portuguesa. Adriano Correia de Oliveira. O Adriano, sem mais, para a malta coimbrã em geral e muito especialmente para os estúrdios repúblicos da “Rás-te-parta”, ali à rua da Matemática. Casa do Adriano e de quantos a qualquer hora e sobretudo a desoras a demandavam.
O Adriano foi caloiro no mesmo ano do que eu. Nesse ano para ferro de quantos se armam em coimbrinhas, nós reivindicamos essa qualidade: fomos caloiros, sim senhor. Ano sem caloiros é pura fantasia, e cheira a praxe que tresanda. Caloiros e amigos. Cábulas também. E metidos na Associação Académica e em tudo o que cheirava a política, a restolho, a desafio, a viagem, a sonho e a porrada (esta claro nos nossos lombos juvenis).
O Adriano cedo se manifestou cantador e por isso mesmo foi fartamente protegido porque estava sempre disponível para emprestar a voz a uma serenata ou apenas a uma modesta ceia de amigos. E isto, não o esqueçam, é a primeira e primacial qualidade do Adriano: mais generoso do que ele, vou ali e já volto. Aquela torre de metro e oitenta, passante, tinha coração de passarinho, de melro, de pardal de rua. Cantava para espantar males próprios e sobretudo alheios. A voz era um dom natural e o Adriano achava que não devia cobrar pelo seu uso. E mesmo, mais tarde, cobrou pouco, muito pouco. E recebeu menos, muito menos.
Andámos juntos pelo CITAC, antro de malas artes teatrais (e a fotografia aí em cima bem o regista) e aí o Adriano deu voz a muita música teatral, alguma – e boa - do Zé Niza (saravah irmãos Niza, um abração), ensinou gerações de candidatos a actor a colocar a voz, a não desafinar e só uma vez foi derrotado: tentou pôr-me a cantar o do re mi mas nem isso, à segunda nota eu metia água e o Adriano fartou-se. Se hoje não canto é por culpa dele!
A primeira canção manifesto, “a trova do vento que passa” traz o selo dele, do Alegre e do Portugal. E foi de imediato um êxito de público, a começar pelos sisudos tradicionalistas que fiados no facto do Adriano cantar fado coimbrão adoptaram a cantiga que ia bem ao arrepio de tudo o que fazia a canção coimbrã anterior. O Adriano e o António (Portugal) e, pouco depois, o Rui Pato mereciam só por isto uma lápide bem visível no Penedo da Saudade.
Às tantas o Adriano foi para Lisboa prosseguir uns vaguíssimos estudos de Direito que suponho não terá sequer terminado. A crescente fama por um lado e a agitação política por outro tornaram-no um ícone (ora toma lá!) de um certo público que com ele cantava a raiva impotente e a revolta crescente. Com o 25 de Abril, a carreira dele estava ao mesmo tempo traçada e destraçada. Num primeiro momento, o Adriano e a sua voz alentavam as forças políticas que ele abnegada e graciosamente servira. Depois...depois o Adriano começou a duvidar. Não da esquerda onde sempre esteve, mas daquela especial esquerda dogmática e contumaz que à força de excluir se foi excluindo da vida política e cultural do país. O Adriano foi lentamente perdendo a aura de herói e grande cantor popular para cair no poceirão dos esquecidos ou dos expulsos.
Nessa época encontrei-o vezes sem conta na “Opinião”, na “Trindade” e bastas vezes o arrastei até à “Trave” mítico restaurante de dois irmãos, o Jaime e o Santos, que mais tarde iria criar o “Primeiro de Maio”. Foi aí numa memorável noite e numa mesa em permanente algazarra, onde comiam os irmãos Salomé, o Zeca e uma alegre trupe de músicos e noctívagos que formalmente e em nome da Delegação Regional do Norte da Secretaria de Estado da Cultura, o convidei para se apresentar no “Auditório Nacional Carlos Alberto”, onde já tínhamos apresentado o Zeca, o Zé Mário, o Vitorino e o Sérgio. O Adriano sempre tinha feito parte da lista mas os desencontros em que ele era especialista só terminaram nessa noite. Convém dizer que corria contra o Adriano uma torpe insinuação de origem claramente política mas que se reflectia no aspecto profissional: que ele estava alcoolizado em último grau, que perdera a voz, que não cumpria os compromissos, etc...etc...
O Adriano, por uma vez sério e muito sério, perguntou-me se eu sabia do que se dizia. Que sim, respondi, sabia. E mesmo assim convidas-me? Claro repontei irritado, eu sei bem quem tu és e o que vales. Não consigo contar mais nada pois aquilo acabou em choradeira primeiro a dois, depois a três enfim um vale de lágrimas geral a que nem terá escapado o Fernando Assis Pacheco entretanto aparecido sabe-se lá por que razão.
No dia seguinte, mais compostos e recompostos, acertámos pormenores e atirámos para um par de meses depois os recitais. Confiávamos um no outro e ainda mais no futuro e na saúde do Adriano. A morte não tem dia marcado e gosta de se intrometer nos projectos dos vivos.
Hoje, que o Adriano é tão só uma saudade, hoje quando tantos maus amigos se redescobrem amigos dele, hoje quando se anuncia a volta da trova do vento que passa, dá vontade de dizer que nem sequer o vento cala a desgraça com que se desfazem reputações neste país. Bom, mesmo bom, só morto. E o Adriano não merecia morrer tão cedo e tão mal.


Na fotografia: Adriano Correia de Oliveira, mcr e Luísa Feijó. Não consigo lembrar-me do nome do 4º comparsa. Se alguém souber apite. E desculpa lá pá, é a PDI. A tempo: trata-se de uma fotografia de um ensaio do CITAC . Julgo que da peça A nossa cidade" de Thornton Wilder. A fotografia é do sempre jovem Forjaz de Sampaio hoje empresário em Liége. um abraço ó barbaças.

Este texto tem como principal destinatária a Luisa Feijó minha amiga de sempre, minha companheira na aventura do Auditório Nacional Carlos Alberto e em tropelias de vária ordem que algum dia se contarão.