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18 março 2009

Diário Político 104


Vou-me embora para Pasárgada….

Não vou. Também não sou o Manuel Bandeira embora, enquanto leitor dele desde os longínquos anos sessenta (primeiros anos sessenta…) me sinta um pouco parte dele. Os amadores de poesia transformam-se, com a leitura, no poeta, chegam a acreditar que que foram eles que escreveram aqueles versos magníficos que não se cansaram de ler.
Não vou para Pasárgada mas mais simplesmente para o SAPO, com a restante “companha” desta nau incursionista. Dizem-me que nem vou dar pela diferença, logo eu que só viajo para encontrar a diferença…
A coisa está por dias, quiçá por horas. E é isso que dá urgência a este último diário no google. Não queria ir sem me despedir desta paisagem etérea que provavelmente nem difere da próxima onde aportaremos em breve. Mas que querem? A gente apega-se aos sítios, ás casas, a um clima, ás mínimas coisas…
Estava mesmo com vontade de acabar aqui este bilhete não fora dar-se o caso de um outro viajante bem mais importante e muito mais responsável andar pelas áfricas a pregar a boa (e a má) palavra. Eu não tenho nada a ver com o Vaticano, não sou crente, muito menos católico, mas as palavras do Papa Bento XVI são no mínimo perigosas. E injustas.
Sei que a Igreja é contra a libertinagem ou o que ela define como tal. Sei que condena o uso do preservativo (como antes se fartou de condenar coisas que agora tolera ou até aprova). Mas sei também, e o Papa deveria sabê-lo que a SIDA se ceva em África na carne, na vida de milhões de africanos. De demasiados africanos. Que por serem pobres e terem outros estilos de vida e outras concepções da sexualidade estão ainda mais expostos que os ocidentais europeus e americanos. Acresce que em muitas, extensíssimas, zonas de África não há informação suficiente, sequer informação deficiente. E é aí que a SIDA penetra com mais intensidade. E nos bidonvilles gigantescos das grandes metrópoles africanas, nesses depósitos de gente miserável e ignorante.
Aqui a estratégia tem de ser diametralmente oposta ao apelo da Igreja. (Duma Igreja que não está nem nunca esteve isenta de cumplicidade com os dramas históricos que abalaram as sociedades africanas, convém esclarecer). Aqui impera a urgência! Aqui não pode haver apelos pomposos nem imposição de diktats religiosos que não têm possibilidade de obter êxito. Nem sequer de ser compreendidos. Condenar o uso de preservativos é, ou pode ser, pura e simplesmente, propor o seu não uso nas relações sexuais. Porque de uma coisa o Papa pode ter a certeza: os “damnés de la terre” (para usar uma expressão de Franz Fanon) não vão deixar de usar o sexo. É mesmo a única (ou uma das pouquíssimas) coisa que lhes resta. O apelo á castidade, a que ninguém na Europa ou nas Américas, liga, sequer ouve, é algo de tão anti-natural, de tão anti-humano que forçosamente numa sociedade bem mais genesíaca do que a europeia judaico-cristã, causa escândalo. E em África, a palavra de um dirigente branco por muito religioso que ele seja, é a palavra de um “branco”. Com tudo o peso negativo que isso implica.
Já disse que o Vaticano é uma das minhas preocupações menores. Todavia faz parte do sistema em que vivo, em que me reconheço e, quer eu queira quer não, influencia tudo à minha volta. Ora, se isso é assim, e é exactamente assim, causa-me perturbação e mal-estar a declaração imprudente sobre o uso de preservativos. Mais uma vez, uma declaração do Papa, põe em causa não só o que ele representa e dirige mas o que a Europa é e o que ela representa. E é aí que bate o ponto. Hoje os telejornais das televisões europeias abriram todos com esta notícia. E com as reacções das pessoas. Depois da confusão com a guerra das civilizações, do convite á reintegração dos integristas mesmo quando eles eram ou negacionistas ou tontos de atar (como o ex-futuro bispo auxiliar de Linz que achava o desastre de Nova Orleães um castigo de deus por via dos pecados dos habitantes da cidade) esta declaração que o Ministro dos Negócios Estrangeiros da França considerou “inoportuna” e “sanitariamente imprudente” não augura nada de bom ou de exaltante.
Mesmo sabendo perfeitamente que a César o que é de César e a Deus o que é de Deus tenho por seguro que nunca os planos estiveram separados nem sequer o podem estar. É aborrecido mas é mesmo assim.
Comecei por referir uma viagem meramente virtual que iremos fazer e afinal acabo com outra feita por outrem. Não é virtual e as suas consequências são, decerto, muito mais duradouras e importantes.
Esperemos que, doravante, ambas corram bem.



17 março 2009

Diário Político 103


“Presente!”

Facetta nera
Bell’abissina
Aspeta e spera
Che già l’ora s’avvicina


Corre com insistência entre alguns pequenos génios provinciais uma ideia peregrina: os deputados são do partido e tudo devem ao partido. Sobretudo obediência, muita e cega obediência. Porque é o partido que os escolhe, é o partido que os propõe sempre numa ranchada, é o partido que eventualmente os elege com os votos de “muito povo” que, provavelmente, também pertencerá ao partido. Os deputados sentam o sim senhor no parlamento para dizerem “sim senhor” a toda e qualquer bojarda que passe pela cabecinha louca que manda no partido. Não o fazerem é colaborar objectivamente com a oposição, seja nas grandes como nas pequenas questões. Como nos saudosos tempos do senhor Enver Hodja, ou de qualquer dos seus santos iluminadores chame-se ele Lenin, Stalin ou Brejnev. Também aí o partido, confundido com o Estado, com a polícia politica, com a nomenklatura e outras aberrações que deram no que deram, era tudo e os seus deputados nada.
Pratiquemos um pouco nesta elucubração : se os deputados estão ali para levantar e sentar o dito cujo ao estalido de dedos ou do knut da direcção parlamentar, se só falam a favor da proposta do partido que os pariu, para que é que são necessários tantos? Não bastaria, digamos, uma dúzia, dúzia e meia, vá lá um quarteirão de criaturas divididas consoante a percentagem de votos? E poupava-se um dinheirão (que até poderia ser dividido pelos deputados remanescentes… em vez de depois se ter que lhes arranjar prebendas compensatórias como acontece amiúde) e até se poupava em espaço. Que um deputado é muito espaço perdido: ele é gabinetes, sala grande para todos, passos perdidos, parking enfim um horror! Um horror!
Aliás, só não se percebe uma coisa: se os deputados são do partido e não da populaça votante, por que é que os dividem por distritos? Assim como assim já é uma maçada identificar os deputados, já não digo de Lisboa ou do Porto, mas tão só os de Braga, Coimbra ou Aveiro. A gente vai e lê a lista desses presuntivos ínclitos filhos da Nação: conhece o primeiro, talvez o segundo, com dificuldade o terceiro e depois é o deserto dos tártaros. Uma multidão de criaturas desconhecidas, absolutamente fungíveis e, a la rigueur, desnecessárias.
Fazia-se uma lista nacional com fins meramente informativos e a gente votava nas setas, na estrelinha, na foice, na rosa e nos restantes depauperados signos. Ou, em vez disso, aparecia à votação o candidato a primeiro ministro e, depois de eleito, arranjava não só os ministros e secretários de Estado mas também os deputados necessários indicados a dedo (como aliás agora ocorre) sem a tonta despesa da mediação de uma eleição que só promete aos eleitores uma coisa: os deputados nunca se responsabilizarão perante eles.
E, convenhamos, está bem. Os eleitores não percebem patavina dos negócios de Estado, das subtilezas das finança públicas ou da complicação que é o Serviço Nacional de Saúde. O eleitor quer é o papo cheio, o subsídio de desemprego, a escola a funcionar vinte e quatro horas sobre vinte quatro horas que é preciso arrumar os filhos em qualquer parte, o hospital à porta de casa e menos impostos.
Se o eleitor se junta a outros e protesta, é porque está feito com um sindicato que está infiltrado pelos bolchevistas, pelos anarco-sindicalistas, pelos corporativistas ou por outros istas desde que não sejam os meros arrivistas que esses não protestam, não querem votos em deputados independentes, sobretudo em deputados dependentes da vontade dita popular.
Aqui estamos, aqui chegámos. Como noutras épocas, e à sombra de eleições cada vez mais restritas, se chegou aos gauleiters, aos kapos, aos gulags e a outras coisas de menor importância. Que se saiba a maioria do povo punha a pata no ar de mão estendida ou punho cerrado e aí vai disto: longa vida ao pai dos povos, heil, heil chefe bem amado, Salazar estás nos nossos corações. E para quem protestar bastam uns safanões dados a tempo…

D’oliveira fecit

Ano 120º do nascimento do nosso “António”, do igualmente nosso Adolph, 130º ano do nascimento do Yossip Djugatchivilli , pai dos povos que está vivo nos nossos corações, e 116º ano do nascimento de Benito, o abençoado, o “canibal dos padres”, o “verdadeiro herético”.

* este texto deveria ser iniciado com uma citação dos deveres do bom filiado da Mocidade Portuguesa que se não encontrou. Em troca – e para melhor – aqui fica o estribilho de “Facetta nera” hino italiano dos anos de Benito

27 fevereiro 2009

Diário Político 102


Muito barulho para nada
ou
o congresso de berlin(de)


congresso (s. m.): reunião de pessoas
que deliberam sobre interesses comuns



O título shakespeareano que dá entrada a esta conversa tenta traduzir não só a leveza do acontecimento mas também é uma piscadela de olho a um par de amigos que, desde há anos, me acompanha no apoio discreto mas regular ao ps. É que, apesar de tudo,tenho pelo partido da rosa uma opinião idêntica à de Alexandre O'Neil: ele não merece mas voto ps.

Reparo agora que ao utilizar a palavra leveza poderei suscitar nalgum leitor mais sarcástico (são poucos os que me lêem mas muito dados à ironia...) o imorredoiro título de Kundera A insustentável leveza... ou mais comesinhamente alguém poderá tomar leveza por leviandade coisas que eu, claro, não quereria suscitar...

Eu venho, como o sr eng Guterres já afirmou, falar de política que é uma arte nobre e não tenciono perder-me por essas azinhagas do diz-se que diz que faz a glória e o lucro de tanta revista semanal. Não referirei portanto a performance de um jovem presidente de junta que para uns foi a estrela do congresso e para outros o motivo parvo para rir. Esse esforçado congressista disse alto e sem papas na língua o que quase todos calaram.

Passemos pois à parte substantiva do ajuntamento socialista. E em primeiro lugar há que tirar o chapéu ao joker eleitoral do secretário geral: candidatar Mário Soares ao parlamento europeu é conseguir, à cabeça, reforçar extraordináriamente, a lista. Para efeito interno é um golpe de génio. Externamente só terá consequências interessantes para Portugal se houver uma maioria no parlamento que leve Soares à sua presidência. Resta saber por que razão corre Soares. O parlamento europeu tem sido até hoje uma espécie simpática de verbo de encher: enche os deputados de dinheiro e os governos nacionais de conselhos. A comissão europeia tem ligado pouco a este babélico grupo de preopinantes: irão as coisas inverter-se agora? Só assim se compreende que um velho leão da política aceite ir para Estrasburgo ouvir discursatas chatíssimas em flamengo ou norueguês...

A segunda grande questão do congresso era a da participação das mulheres socialistas nos órgãos nacionais do partido. Convenhamos que aquí a solução tem consequências pesadas tal a leviandade com que se construiu: havia que meter 25% de mulheres e, ao mesmo tempo, não ofender os cavalheiros que desde sempre pastavam naqueles viçosos secretariado, comissão política e outras instâncias. Aumentou-se o número de lugares até caber toda a gente. Como malabarismo é grosseiro e como reconhecimento do direito das mulheres é infantil. Ainda tive a esperança de ver alguma militante recusar o bodo aos pobres. Nada disso: numa coisa as mulheres do ps já são iguais aos homens: aceitam tudo e depressa...

Foi de resto comovedor contabilizar as intervenções femininas no congresso: nem dez por cento...Continuem assim, companheiras que o futuro é vosso!

Um congresso sem confronto não é congresso nem é nada. Não que eu proponha a instauração da bagunça generalizada como método de discussão política mas convém sempre para efeitos externos contar com dois ou três frissons e um par de gritos para não parecer que se está num congresso do pc onde já tudo está convenientemente decidido graças ao centralismo dito democrático e a outras balivérnias do mesmo teor.

Havia porém um problema: a moção do secretário geral já tinha ganho tudo o que havia a ganhar pelo que tudo concorria para um duvidoso unanimismo que o governar sem oposição mais e mais suscitava. Sem discussão um congresso não tem direito de antena ou, tendo-o, arrisca-se ao zapping velocíssimo dos espectadores. Pediu-se pois aos militantes o sacrifício de uma oposição. Coube a Manuel Alegre o papel de contrincante na festa do Coliseu.

Nasceu assim a moção "Falar é preciso" muito embora se ignore qual o sentido a atribuir à última palavra: quereriam os subscritores dizer "necessário" ou subitamente desconfiados do parlapié da moção abrangente do secretário geral propuham ao ps reunido "rigor sóbrio de linguagem"? Ou finalmente queriam significar "urgência, necessidade"? Isto porque, apesar da cada vez maior langue de bois dos próceres socialistas, ainda não chegámos à "carência do que é necessário ou útil". A língua portuguesa é muito traiçoeira, dizem, e um poeta como Alegre pode usar as palavras só para confundir o pagode.

Com a entrega de mais esta moção esfregaram as mãos todos quantos se sentiam responsáveis: finalmente uma discussão, votos, vencedores e vencidos, separar das águas etc...Esfregaram depressa demais que logo alguém avisou contra os perigos temíveis de aquilo se transformar num duelo direita-esquerda, insensatez absoluta tendo em vista os próximos actos eleitorais, a penosa conquista do centro e mais quantos solecismos políticos se lembraram.

Unidade bradaram, unidade é o que é preciso neste momento crucial da vida nacional. Ai querem unidade respondeu-lhes o engenhoso secretário geral: pois assinam-se a duas moções e votam-se não uma contra a outra mas uma mais a outra. O partido é assim: muito plural de ideias e verdadeiramente singular na maneira como resolve as suas contradições internas!

No dia grande aconteceu o que se previa: Guterres abriu os trabalhos debitando para as massas não o discurso da sua moção mas sim o da contrária que aliás já não era contrária mas complementar. Alegre diria a seguir que, se na moção, Guterres tivesse defendido o mesmo que agora defendia sempre lhe teriam poupado a maçada de apresentar a sua moção. O povo socialista presente uivou de alegria pois entendeu as palavras de Alegre como um certificado de esquerdismo passado a Guterres. Guterres abraçou Alegre, Alegre abraçou Guterres, Vitorino abraçou Coelho, Sócrates acenou a Carrilho, este amuou e um anónimo das bases apalpou uma menina da JS que não se deu por achada.

Faltava ainda votar mas Almeida Santos achou que estavam todos numa boa pelo que despachou a maioria das votações com uma íntima convicção de que todos estavam de acordo com tudo. Parece que ninguém protestou pelo que, no que me toca, também não protesto.

As moções ditas sectoriais foram deixadas para melhor oportunidade, mais concretamente, para uma reunião da comissão nacional onde finalmente se votarão. A pergunta que se faz é se sequer os senhores conselheiros as discutirão ou se esfogueados pelo entusiasmo e pela vitória próxima que se adivinha as passarão directamente para o rol das inutilidades que se ignorou com o congresso. Assim, pelo menos, terão tempo para uma partida de matraquilhos ou, se preferirem, por um jogo de berlinde. Berlin(de) que como sabem todos é uma cidadde onde em 1884-1885 se realizou um célebre congresso a dividir África. Assim se prova que nos congressos há sempre qualquer coisa a dividir por quem se porta bem: continentes ou jobs for the boys... And for the girls, digo eu que também falo inglês.


“ Não trocem das minhas contradições: o homem é por natureza inconstante..."
(“Muito barulho para nada”, acto Vº, cena IVª)




* o cronista sabe que já ninguém se lembra deste congresso do PS realizado em pleno tempo da governação de Guterres. Todavia, o estado actual dessa formação política e as perspectivas que o seu congresso próximo futuro trazem são de tal modo desinteressantes (para não utilizar uma palavra mais apropriada e necessáriamente contundente) que ressuscitou esta crónica do desgraçado limbo onde jazia e resolveu publicá-la: como se fosse um comentário... a uma realidade que é, como de costume bem pior do que a que se descreve.


d'Oliveira


08 fevereiro 2009

Diário Político 101


A moda de Salazar

Hoje, em dois jornais, ele há coincidências!, fala-se na moda de Salazar. São livros (meia dúzia deles nos escaparates), é um filme recheado de belas mulheres, são comentários, enfim aqui há gato. Ou melhor: passa-se qualquer coisa que desde o célebre concurso televisivo não tem parado de aumentar.
Salazar desapareceu da cena política há quarenta anos. Uma cadeira velha e moscovita ou, pelo menos maçónica, desimpediu o caminho titubeante de Caetano e precipitou um fim de regime que, e convém lembrá-lo, ainda durou meia dúzia de anos.
Quarenta anos é muito tempo. Dá para esquecer muita coisa. Digamos que as gerações com menos de cinquenta anos não sabem nada desse tempo de urubus. Nada de nada, mesmo que tenham estudado a época. E não sabem porque a não viveram. Eu não quero aqui polemicar sobre a verdadeira natureza do Estado Novo. Se era ou não um fascismo declarado ou tão só um autoritarismo grotesco e clerical, apoiado na crassa indigência política de duas ou três gerações nascidas depois do 28 de Maio. E fortalecida por uma sociedade fortemente rural, analfabeta que via no cavalheiro de Santa Comba o homem que a salvara da guerra. Da Mundial, diga-se de passagem, que de outras não nos safou, antes nos precipitou nelas com as consabidas consequências.
Diga-se, entretanto, que a guerra (ou guerras) colonial com todo o seu medonho cortejo de mortos, de exílios, de matanças indiscriminadas (que não foram tantas como as que se publicitaram nem tão poucas como agora uma história desculpabilizadora nos quer fazer crer) teve na sociedade dos anos sessenta um efeito brutal. Despertou largas camadas da população que viu partir filhos, pais e irmãos. Levou à emigração muitos milhares de portugueses que entenderam mais prudente e mais rentável o trabalho no estrangeiro do que os ares africanos. Trouxe ao mercado do trabalho, rarefeito pela mobilização masculina, muitas dezenas de milhares de mulheres que de outro modo teriam continuado como domésticas, rurais ou criadas de servir. Politizou a sociedade portuguesa ou, pelo menos, obrigou-a a encarar de frente uma realidade que os mapas do Portugal não é pequeno disfarçavam.
E mesmo nas colónias, ou melhor dizendo em Moçambique e Angola, obrigou os poderes locais a abrir escolas e universidades, a permitir a entrada de negros e mulatos na administração pública, em lugares subalternos da carreira política, enfim realizou em meia dúzia de anos o que não fora feito nos anteriores cinquenta anos de política de “assimilação”.
Nada disto, porém, se deve a Salazar mas tão só às circunstancias especiais que a guerra em três frentes o obrigou.
Voltemos pois a este exercício de louvor a uma figura que deve ser tomada como um dos principais responsáveis do atraso português.
E comecemos por um filme que por aí se anuncia onde, pelos vistos, se atribui, ao eremita de S.Bento um número honroso de aventuras femininas. Eu não ponho as mãos no fogo pela virtude (se virtude aquilo era) de ninguém. Salazar conheceu algumas mulheres, sabe-se. Relacionou-se com outras tantas e recebeu (isso sim, bem documentado) milhares de cartas em que por vezes a admiração assumia tons quase libidinosos. Todavia, era voz corrente desde a direita até à esquerda que esse conhecimento da gens feminina era claramente platónico. O homem seria misógino ou apenas tímido, estava moldado pelo seminário e pela austeridade, enfim, ao cavalheiro o namoro e as suas mais evidentes consequências dizia pouco. Como já disse não ponho a mão no fogo sequer por mim, mas parece-me que esta faceta de Casanova lusitano, de macho ibérico discreto mas machão. É que não consta nos numerosos textos que ao longo dos anos fui tendo a paciência de ler. Não sei tudo, provavelmente sei pouco mas espanta-me esta súbita humanização do anacoreta.
A segunda parte desta nova atitude perante Salazar é a glorificação de uma política económica que, a todos os títulos, foi puramente defensiva. Agora, parece que as obras de regime, que as houve, evidentemente, foram algo de refulgente de original e de grandioso. As barragens, as escolas dos centenários (quando seria bom lembrar que só em fins de quarenta é que voltou a ser obrigatória a 3ª classe...), os bairros económicos, o escasso desenvolvimento industrial ou o viaduto Duarte Pacheco foram actos de mera gestão e se se distinguem por algo é exactamente por terem sempre ficado aquém das necessidades mesmo de um pais rural e empobrecido. Nem os lucros da neutralidade, que os houve, foram aproveitados, como aproveitado não foi o plano Marshall.
Nem o turismo, incipiente até sessenta e dois, sessenta e três, foi aproveitado para, a exemplo da vizinha e faminta Espanha, criar um grande destino de férias e de lazer internacional.
Mais curioso ainda: o exército, esteio do regime a partir do momento em que Salazar se desembaraçou da oficialagem republicana que fizera o golpe de 28 de Maio, também não estava preparado para a guerra: os primeiros meses, melhor dizendo os dois primeiros anos de guerra em África foram prova cabal disso mesmo. Pode até dizer-se dessas forças expedicionárias o mesmo que em fins do século XIX se disse do Exército Colonial. Mal preparado, mal enquadrado, armamento mais que deficiente, péssima intendência mas um espírito desenrasca e desenvolto e muito, mas muito, heroísmo individual. Está escrito não por comentadores nacionais mas por estudiosos estrangeiros que dedicaram às campanhas de consolidação do império um estudo que poucos nacionais foram capazes de igualar. O mesmo sucedeu nos primeiros tempos da campanha do Norte de Angola nos anos sessenta. Simples soldados, muitos milicianos e alguns oficiais do quadro fizeram das fraquezas força e reocuparam o território apesar das péssimas condições, da falta de armamento adequado (nem as fardas eram boas...) e da má retaguarda. Isto para não falar da péssima ou inexistente informação social e política. Angola rebentou na cara de um serviço de informações militar e civil inoperante e inculto.
A famosa polícia política de Salazar, a PIDE, a Legião e outras forças do mesmo teor andaram ás escuras durante meses. De facto a primeira apenas servia para espiar os nacionais na metrópole e mesmo aí usava mais os métodos brutais do que a investigação cuidadosa. Corre por aí a este respeito uma autobiografia de um Fernando Gouveia que além de repelente é de uma falsidade pasmosa. A tentativa de branqueamento dos processos de interrogatório, os famosos “safanões dados a tempo”, roça o ridículo tanto mais que se sabe que a policia nunca conseguiu prever sequer desmantelar os vários aparelhos oposicionistas. Os êxitos que teve (e teve-os, claro) devem-se em muito ao clima de medo e intimidação existente, às características plácidas de um pais em que nada acontecia e em que, por isso mesmo, a novidade era sempre insólita e subversiva. A eficácia da PIDE foi sempre uma miragem, basta ver o caso do assassinato de Delgado, muitas vezes engrandecida pelo medo de muitos e pelos exageros de outros tantos.
Mas o pior da herança salazarista não está nisto que já é muito, que já é demais.
Insidiosamente deixou a sociedade vacinada contra a democracia, contra a liberdade, contra a discussão livre, contra a polémica. Governo que se preze pede, antes de tudo, respeitinho. Exige autoridade. Muita e a qualquer preço, em qualquer circunstância, mesmo a mais comezinha. A contestação é considerada um desafio insuportável.
A ideia geral é esta: o governo governa e aos cidadãos compete baixar a cabeça e cumprir. “Deixem-me trabalhar” pedia alguém como se o discutir as suas opções tácticas fosse um crime e uma insuportável violência.
Neste clima tão escasso de discussão, não admira que esta seja postergada como o foi no regime nazi ou no das democracias populares que nem democracias nem populares eram, diga-se de passagem.
Aliás, quer Salazar quer a generalidade dos ditadores sempre recearam e condenaram a vozearia da praça pública ou das assembleias. Ou porque as consideram ignorantes e logo incapazes de decidir. Ou porque entendem que mesmo sem ser ignorantes, a crise aperta e exige medidas urgentes e a salvo da contestação. Ou porque, e este é o caso mais frequente, entendem o poder como algo que vem direito de Deus e que não pode nem deve ser partilhado.
Um último argumento, muito em voga, é o de qualquer cedência é sempre uma porta aberta para a mais completa libertinagem.
É talvez por isto que os nossos partidos estão pouco habituados ao confronto de opiniões. Interna ou externamente. Basta ver algumas sessões na AR ou, melhor, o que se passa nos congressos e estamos aliás em época deles. No CDS. Portas elegeu-se triunfalmente com um número de sins que lembra a saudosa Albânia. No Bloco, há mais discussão mas a coisa explica-se pela sua própria génese inter-partidária. E porque pode vir a ser um dos fieis da balança no caso provável de as eleições legislativas não darem a maioria absoluta a ninguém. Quanto ao P.S., basta ouvir Santos Silva para se perceber que naqueles lados também se está a preparar um heróico quadrado à volta do líder. E quando os quadrados se formam, as “minudências” ficam de fora.
Em países de tradição democrática mais antiga estes unanimismos seriam motivo de estupor. É ver o que se passou há bem pouco em França, no congresso do P.S. .
E até na Espanha tão próxima, tão parecida e tão diferente, as coisas correm de outra maneira. Neste exacto momento, leia-se o El Pais de hoje, quer no PP quer no PSOE para não falar em formações menores ou nas sucursais partidárias autonómicas, a discussão ferve. Defeito deles, seguramente...

d'Oliveira

05 fevereiro 2009

Diário Político 100


O país “positivo”

Não, não é nenhuma piada a quem quer que seja mas apenas uma resposta a um boletim luxuoso que volta e meia aparece nas caixas do correio, em separatas de jornais, um pouco por todo o lado. Ao lê-lo, fica-se com a vaga ideia que nos falam de um outro país de fantasia onde o crash de um banco não vai já nos 1800 milhões de euros. Ou seja só por aí já estamos cada um de nós, portugueses, a arder em 200 euros por cadáver. E a procissão ainda vai no adro porque ninguém garante que o descalabro não é ainda maior.
Em Dezembro noticiava o circunspecto Público que tinham fechado mais de doze mil empresas. Doze mil! Púnhamos que eram todas pequenas, pequeninas, mesmo assim devem andar pelos cinquenta, sessenta mil desempregados. O problema é que atrás delas aparecem as médias e as grandes. As quimondas e as têxteis, as do calçado e as da construção. Amorim despede cento e tal trabalhadores, a Sonae fecha fábricas por enquanto lá fora mas quem garante que cá dentro as não fechará? As empresas que fabricam ou montam, melhor dizendo, automóveis vão aliviando cadencias, suprimindo turnos, “dispensando” trabalhadores temporários, propondo dias de fecho etc...
Sou frequentador ocasional mas obrigatório de uma loja de computadores (que aliás já não tem material para venda) onde vou resolver pequenos problemas das minhas máquinas. Apareço por volta das onze e sou sistematicamente a primeira pessoa que os dois empregados (eram cinco...) vêem. De manhã é assim. Deve ser do frio.
À tarde, as coisas melhoram, disseram-me mas não há engarrafamentos...
Na pastelaria onde bebo o primeiro café da manhã enquanto leio o jornal há agora sempre mesas, muitas mesas. O mesmo se passa na esplanada. Deve ser do frio...
Amigos meus que trabalham num departamento da Segurança Social dizem-me que na Unidade Jurídica e, particularmente no sector de apoio jurídico triplicou o número de requerentes. Triplicou! Isto significa que mensalmente aparecem mais dez mil pessoas a requerer ajuda para accionar empregadores, defender-se de senhorios que exigem o pagamento das rendas, etc... É o inverno.
Num prédio aqui ao lado, acabado de construir, anuncia-se um desconto de 50.000€ por casa. Cinquenta mil euros leram bem. Dez mil antigos contos. Os preços das casas contraem-se com o frio, como se sabe. Há que esperar o verão para ver se descontraem.
Os saldos de Janeiro começaram no dia 26 de Dezembro para os estabelecimentos mais pudicos mas a coisa começou bem antes para muitos outros. Como se não acreditassem no Natal nem na pulsão consumista dos portugueses.
Mas o país, na versão cor de rosa da revistinha, continua positivo.
Claro que nas duas ou três últimas semanas estas questões estiveram submersas devido á maré alta do Fripór para utilizar a pitoresca pronúncia do senhor engenheiro. Convenhamos que esta avalancha noticiosa (oriunda como se sabe de uma central moscovita ou fascista maldosa e interessada em levar a cicuta ao seu natural destinatário) foi uma bênção para o Governo. À uma porque, como em Shakespeare, até agora há “muito barulho por nada”. Depois porque muito mais grave do que os pecados reais ou imaginários do senhor primeiro ministro é a sua incapacidade (dividida com as luminárias que trouxe para o Governo) cada vez mais exuberante em atalhar o mal-estar, a angústia, o medo de centenas de milhares de cidadãos trabalhadores. Enquanto se discute se os do fripór compraram ou não personalidades repolhudas ou apenas, como se vai ver no fim, dois moços de recados, folgam as costas dos responsáveis das Finanças, da Economia, do Trabalho etc..., do Governo no seu conjunto.
E é no meio desta enxúndia de notícias sobre coisa escassa que se oferece ao indigenato local um campeonato de futebol a meias com a Espanha. Eu sei que é para daqui a um largo par de anos mas o simples facto de isto perpassar na cabecinha pensadora dos madails do costume aterra-me. Primeiro parece que se esqueceram do flop de há poucos anos. Depois aí estão estádios enormes mais mortos que os ossos de um dinossáurio e mais desertos do que uma praia em noite de inverno e tempestade. Mas há pior: daqui a seis sete ou dez anos estes depauperados estádios vão necessitar de obras, de serem modernizados, sei lá mais de quê. E quem paga? O BPN? O BPP? Madaíl y sus muchachos? Ou apenas, e como de costume, a peonagem?
A revisteca positiva poderia, já agora, e logo ela que adora o turismo, referir que desde inícios de 2007 e até pelo menos o verão de 2008 o pais foi percorrido por uns turistas singulares e encapuçados. Da ETA, para ser mais preciso. Da ETA, como consta das famosas instruções de um Txeroki que o pariu aos membros de um dos últimos comandos desarticulados pela polícia espanhola. Para já só se registaram três automóveis roubados, o último dos quais encontrado em Salamanca e albergando umas cargas de explosivo não detonadas. Se ao menos esse material tivesse cá sido comprado...

estes DP é o nº 100. Nunca pensei aqui chegar! Mas cheguei. Confesso que se soubesse que era este o número me teria esmerado em falar de outra coisa. Mas os homens põem e a circunstância dispõe. E a circunstância é esta: um alçapão que vai andando um passo à nossa frente.

d'Oliveira

28 janeiro 2009

Diário Político 99


A propósito de um aniversário

O holocausto. Até a palavra custa a escrever. Sobre o holocausto, com letra grande ou pequena, tanto faz, já se disse tudo. Resta saber se a mensagem passou. Passou, claro, embora haja sempre quem não ouve, não vê, não sente. Nem acredita. E, convenhamos, que é difícil acreditar. É tudo tão grande, tão premeditado, tão extraordinário...
Mas aconteceu. Aliás, aconteceu algo ainda maior e mais terrível.
De facto não se tratava apenas de exterminar os judeus. Os judeus eram a ponta de um iceberg bem maior e mais trágico. Os judeus eram apenas, permitam-me o cinismo, o princípio de uma experiencia de eugenismo se é que isso tem algum significado. Quando o mundo se desembaraçasse deles pela expedita via dos fornos crematórios, da bala misericordiosa, da morte por inanição ou esgotamento, seguir-se-iam os outros.
Os ciganos, por exemplo. A ordem foi dada: exterminem essa canalha. Cigano apanhado era cigano enviado para um lager. Aqui os cálculos dos carrascos saíram ligeiramente errados. Perseguidos desde sempre por ladrões e nómadas, os ciganos criaram uma atávica desconfiança das autoridades. Nunca se integraram, nunca acreditaram no mundo dos payos (para usar a expressão espanhola)m souberam sempre que mais tarde ou mais cedo (sobretudo mais cedo) a repressão ocorreria. Criaram uma visceral suspeita quanto a fardas. E foi isso que os salvou (enfim salvou os que salvaram): ao mínimo sinal de polícia ou assimilado no horizonte, eis que se escafediam. Bem avisados andaram, diga-se de passagem. Nos memoriais dos campos lá estão milhares de nomes de ciganos.
Depois, uma outra “etnia” que foi perseguida e praticamente exterminada: os alemães negros e mulatos, fruto de uma pequena mestiçagem nos antigos territórios coloniais (Tanganika e Sudoeste Africano – actual Namíbia). Viviam, depois dos alemães terem sido expulsos destes territórios perdidos no fim da 1ª Guerra, na Alemanha umas dezenas de milhares de mestiços e de negros que por razões de ordem variada se tinham acolhido na antiga metrópole. Foram rapidamente presos, enviados para os campos e praticamente desapareceram. Convém lembrar que isto ocorreu logo nos primeiros anos do nazismo triunfante. Um povo ariano só tem uma cor, a branca. E de preferência loira.
Mas não fica por aqui a lista.
Os povos eslavos foram genericamente classificados como Untermenschen. Sub-humanos, se preferem. Serviam, para escravos da raça dos senhores. Escravos sem alma, claro e sem quaisquer direitos. Primeiro foram internados em campos os soldados feitos prisioneiros. Depois, dado que o esforço de guerra, deixava a pátria ariana sem homens, entendeu-se que estes quase animais talvez servissem para trabalhar nos campos. E em certas fábricas. De certo modo foi isso que os salvou de uma morte quase certa.
E, ironia da história, consta que as mulheres alemãs, enfim muitas delas, usaram os sub-humanos, para fins não exactamente ligados à reprodução mas de qualquer modo licenciosos. Quem não tem cão caça com furão, costumam dizer os entendidos.
Nos territórios conquistados, o desprezo pelas populações locais deu lugar a selvagerias inomináveis. À mínima resistência ia tudo raso, homens, mulheres e crianças. Ao fim e ao cabo eram sub-humanos...
Saindo do específico campo das etnias ou pseudo-etnias, lembremos que os campos de concentração começaram por ser alimentados por comunistas, socialistas e homossexuais. Os primeiros por obvias razões e os últimos por doença! Eram os famosos portadores da estrela cor de rosa. Não se fala dos loucos ou dos doentes mentais que também foram exterminados por mera eugenia. O Reich milenar não podia ter tarados. De resto esta noção de tarado sobrepunha-se a uma outra a de degenerado. E degenerado dava para tudo, desde o indivíduo associal até ao artista plástico que pintava ou esculpia coisas que o “pintor da brocha gorda” não percebia ou não gostava. Houve, até uma exposição de “arte degenerada” para mostrar ao povo ariano e saudável o que não devia ver, fazer ou comprar.
Com o correr dos tempos, chegaram aos campos os religiosos, primeiro as pequenas seitas evangélicas, depois os luteranos e os católicos. Não que as respectivas igrejas se tenham ilustrado particularmente na defesa dos direitos humanos. Todavia houve muitos crentes que seguindo a sua consciência e fortalecidos pela fé, entenderam dizer não ao admirável mundo novo e pagão que os hitlerianos representavam. Campo com eles.
Não vou especular sobre os números (que existem, claro) de mortos nos campos. Pouco me dá que em vez de seis milhões só tenham morrido, cinco ou quatro milhões de judeus. Não são os números (apesar de tudo impressionantes) que contam mas a específica e declarada intenção de não deixar um só que fosse.
E é esse o crime imperdoável. Crime que não se limita, já o disse, aos judeus mas a todos quantos não entravam na exclusiva lista de bons arianos. E isto às vezes é esquecido. Até pelos judeus que foram, de todo o modo, os mais eficazmente perseguidos. A pontos de com isso se prejudicar o esforço de guerra!
Uma última nota: não se diga que foram os alemães e só eles os perseguidores. Por um lado houve uma pequena mas corajosa oposição interna que foi sendo paulatinamente esmagada logo a partir dos primeiros dias do 3º Reich. O medo fez o resto e a guerra desviou as atenções.
A perseguição das minorias étnicas, sexuais, políticas e religiosas foi alegremente coadjuvada pelas populações dos territórios conquistados. Com um particular destaque para os franceses que denunciaram os seus judeus, que os prenderam e enviaram para campos de trânsito (Drancy, por exemplo). Com mais destaque ainda para os ucranianos que linchavam russos e judeus com idêntico fervor. Com mais destaque para os ustachis croatas que se lançaram à caça de sérvios comunistas ou judeus ou as duas coisas ao mesmo tempo. E não se esqueça neste festim infame o papel da pequena minoria muçulmana jugoeslava que não deixou os seus créditos pró-eixo em mãos alheias.
Como contraste, deve ser recordado que no Norte de África, milhares de judeus foram salvos por árabes, que os esconderam e auxiliaram na altura em que os alemães entenderam estender a essa zona a caça ao judeu.
A história é sempre mais complicada do que à primeira vista parece.

Nota final: volta e meia aprecem os chamados negacionistas ou revisionistas a negar o extermínio de judeus, os fornos crematórios e os números de mortos. Devem ser combatidos com rigor, com documentos, com a verdade. E isso é fácil. Todavia, houve, e há, quem opte por um esquema mais estúpido e menos educativo: proibir sob pena de prisão a divulgação dessas teorias. Por um lado não resolve nada, por outro responde com violência à violência das ideias. E estas, como a hidra, não morrem só porque as decepam. Bem pelo contrário. Renascem aureoladas pelo sacrifício e pelo martírio.

16 janeiro 2009

Diário Político 98

Coisas de que não gosto
(a propósito de mais uma guerra inútil, e não o serão todas?, em que nunca haverá vencedores)

Nunca aceitei, e não vai ser agora que sou velho, que um Estado, seja ele qual for, se entenda, defina, julgue, um Estado de um povo eleito. Não há povos eleitos. Aliás, excepção feita a algum perdido rincão, povo, no sentido de etnia sem mácula nem mistura, não há. O mundo, as guerras, os azares, as migrações mestiçaram, e de que maneira, a esmagadora maioria dos povos.
No caso de Israel então, não há dúvida alguma. Os actuais israelitas são provenientes de cem países, há-os loiros e de olhos azuis, há-os negros (os falacha da Abissínia) há os que imigraram de diferentes pontos do médio oriente e por aí fora.
Nunca aceitei, e também não será agora, a teoria da conspiração sionista que vem de longe, como o Judeu Errante, passa pelos Protocolos dos Sábios de Sião, e acaba nas invectivas infames de dirigentes iranianos ou de grupos religiosos integristas árabes. A ideia de expulsar os judeus até se afogarem no mar, por sobre ser ridícula e presunçosa, cheira a genocídio desejado. Mesmo que, em certos momentos, o Estado de Israel tenha ultrapassado (e ultrapassou várias vezes) a mais elementar obediência às regras de convivência internacional...
Nunca aceitei, e não aceitarei jamais, a infâmia que é usar escudos humanos seja a que pretexto for. Não é apenas uma questão de cobardia, que já seria suficiente, mas é sobretudo um revelador terrível do desprezo que se tem pela vida humana, sobretudo pela dos outros.
Não aceito, do ponto de vista ético, a teoria do olho por olho e, muito menos, a resposta à agressão com outra infinitamente maior.
Não aceito que seja quem for torne o estatuto de refugiado num estatuto hereditário que, no caso da Palestina já vai na terceira (e em alguns casos) quarta geração. Também, obviamente, não aceito mesmo que isso seja apenas folclore, a situação tantas vezes descrita entre descendentes de judeus expulsos da península ibérica que mantém e ostentam umas alegadas chaves das casas que deixaram em Toledo ou em vila Pouca de Aguiar.
Não aceito que as perseguições anti-judaicas de há quatrocentos anos imponham aos actuais portugueses um pedido de desculpas que não só não altera a história, que é retórico, vácuo e apenas satisfaz a nossa bem-pensância. Não sou, enquanto cidadão ou enquanto português, responsável pela inquisição, pelo tráfico de escravos ou pelo assassinato indiscriminado de qualquer minoria que tenha habitado este país. Respondo pelo que se passa, ou passou, desde a idade em que tive oportunidade e possibilidade de pensar o mundo e de aceitar ou recusar o que se passava à minha volta. Ou seja, sinto-me responsável pelo que fiz, não fiz ou omiti desde, digamos, os meus dezoito anos.
Não aceito que a sombra da Shoa, do Holocausto, dos campos de concentração, dos guettos de Varsóvia, de Baby-Yar ou de outro qualquer lugar, sirva de desculpa para que as vítimas de então, ou os seus descendentes, parentes, simples próximos, usem de meios violentos contra as minorias próprias ou contra os vizinhos.
Aceito ainda menos porque não admito a mentira espúria que isso representa que alguém qualifique de genocídio ou holocausto o que se passa na Palestina. Chame-se o autor dessa infâmia Saramago ou Zé da Esquina.
Não aceito que por trás das campanhas de apoio ou repúdio ao Hamas, ao Hezbolah, a Israel ou ao Iraque (vítima também de um ataque baseado em falsidades absolutas) exista como muitas vezes, anti-semitismo. E digo anti-semitismo pela simples e modesta razão de serem semitas ambos os protagonistas. Há muito anti-semitismo (anti-judeu) por esta esquerda europeia que, incapaz de fazer a revolução em casa, vive as pseudo-revoluções dos outros. Há muito anti-semitismo (anti-árabe) por preconceito, por inveja da riqueza do petróleo, por desconhecimento ou medo puro e simples.
Não aceito que, agora que passaram vinte ou trinta anos, se esqueça, ou finja que nunca aconteceu, aquela longa série de atentados que tornaram tristemente famosos nomes como o de Abu-Nidal recentemente falecido na cama e quase em estado de santidade.
Não aceito que, a pretexto de erros passados, de progroms passados, agora se defenda a outrance o estado de Israel. Um crime não se apaga com o silêncio sobre outro crime.
Não aceito finalmente que se confunda uma guerra (com tudo o que tem de horrível) de baixa intensidade, servida por “bombardeamentos cirúrgicos” mesmo com danos colaterais, como claramente ocorre em Gaza com um massacre absoluto. Se Israel quisesse levar a cabo um “genocídio” como por aí se lê amiúde, bastava-lhe cercar as cidades e varrê-las a tiro de artilharia. Tem canhões suficientes, tanques suficientes, aviões suficientes, navios suficientes para transformar uma cidade cujos edifícios são feitos de materiais relativamente ligeiros num cemitério, num “grande cemitério sob a lua”, se me é permitido citar o católico Bernanos quando escrevia sobre a infâmia franquista.
Não aceito que se confunda um Estado que, apesar de tudo, se rege pela lei, reconhecido pela comunidade internacional (que aliás o criou via ONU em 1948) com uma região submetida ao poder de um grupo islamista fanático que se apoderou da governação por meio de um golpe de estado sangrento cujas vítimas são, por enquanto largamente superiores ao milhar confirmado de mortos palestinianos. E que ainda por cima eram, como os seus executores, membros desditosos da comunidade palestiniana, defensores da mesma causa independentista e nacional.
Não aceito, finalmente, o relativismo moral que faz com que se encare esta guerra como apenas um conflito entre dois povos, duas religiões que a nós europeus e ocidentais dizem muito pouco. Há por aí muito racismo disfarçado e uma guerra como esta vem mesmo a calhar. entre matadores de Cristo e infieis, diz-se, venha o diabo e escolha. Eles que façam o que as cruzadas e Hitler não ocnseguiram fazer...

08 janeiro 2009

Diário Político 97


Regresso aos ensinamentos
do grande timoneiro

Se bem recordo foi Mao Zedong (ou Mao Tse Tung, como então se escrevia) quem numa brochura célebre, “A guerra revolucionária”, propunha uma série de regras para a chamada guerra de guerrilhas. Mao, nesse momento, enfrentava o Japão, ou seja, enfrentava o melhor e mais disciplinado exército oriental e porventura um dos melhores exércitos do mundo. Os japoneses iriam, aliás, prová-lo liquidando os exércitos inglês, francês e holandês sem sequer defrontar as mesmas dificuldades que tinha defrontado na China.
Derrotado o exército regular chinês, reduzido a pequenos bastiões sem importância, sem ligações e sem real capacidade ofensiva, apenas restava aos japoneses resolver o problema dos guerrilheiros comunistas baseados no longínquo Yenan. É desta época, se não erro, que data a brochura acima citada. Mao escreveu-a (provavelmente com a ajuda de alguns dos seus generais, Liu Xao Xi, Lin Piao entre outros) para servir de manual politico-militar da sua gente em armas.
Nessas páginas, escritas num tom demasiado simples mas não desprovidas de uma extrema lógica, Mao explica e propõe princípios absolutamente básicos hoje mas que na altura o não seriam. Agora parece evidente dizer que quando o inimigo ataca se recua no caso de não ter forças suficientes ou de a defesa mesmo vitoriosa resultar num sacrifício desproporcionado, que se o inimigo para, se deve hostilizá-lo e se ele recua há quer atacar com redobrada violência.
Depois, o mesmo Mao explica que no caso de ataque contra o inimigo há que fazê-lo com o maior número de forças possível, com uma superioridade numérica quatro cinco ou mais vezes superior de modo a liquidá-lo definitivamente.
No capítulo da movimentação guerrilheira, além do já famoso slogan, o guerrilheiro move-se no seio das massas como peixe na água", Mao explica que entre combatentes e apoiantes não devem existir quaisquer contradições ao mesmo tempo que, para certas circunstancias, não há sacrifícios a que se não deva recorrer. E por aí fora. Os interessados poderão, decerto, encontrar na internet o livrinho pelo que me dispenso de o citar mais.
Isto que venho de escrever deveria estar dentro da cabecinha de todas as almas que se comovem com o que se passa no médio oriente. E por uma razão fundamental: guerrilheiros do Hamas e Tsahal conhecem perfeitamente este texto fundador do maoísmo. Conhecem-no por vias diferentes. Tsahal é herdeiro do Palmach e da Haganah, organizações armadas do pré-Estado israelita. Não eram as únicas como já anteriormente se disse porque havia lateralmente organizações puramente terroristas a quem coube a parte mais vergonhosa da “luta de autodeterminação israelita”. Do mesmo modo, depois das duras derrotas sofridas pelos árabes, as novas organizações “revolucionárias” palestinianas aprenderam a mover-se nos campos de refugiados e nos territórios ocupados como “peixe na água”. Dentre elas apenas a Fatah, com o peso das funções oficiais que lhe couberam, que usurpou, ou que ganhou á força de votos, é que emergiu distinta e diferenciada. Os restantes grupos, clandestinos ou para-clandestinos continuaram submersos na população.
No caso do Hamas, a exemplo do Hezbolah libanês, a organização foi mais longe. Manteve uma direcção político militar clandestinizada e, em certos casos, emigrada, mas ao mesmo tempo criou redes sociais que o frágil Estado da OLP não conseguia formar ou formava mal. Criaram-se escolas, postos médicos, serviços de assistência religiosa e social, enfim uma multiplicidade de organizações civis que ou duplicavam as estruturas existentes ou respondiam a necessidades básicas da população da Faixa de Gaza.
Entre estes diferentes níveis as ligações são totais, obviamente. O Hamas não é exactamente uma organização caritativa (que também é) e sabe que pode e deve tirar dividendos políticos dessa imensa actividade.
Quer isto dizer que todas as escolas, postos médicos, serviços de assistência são velhacouto de guerrilheiros com uma granada atada à cinta e uma kalashnikov guardada no armário? Claro que não! Quer isto dizer que todos os funcionários que trabalham nestas organizações são guerrilheiros, logo inimigos combatentes do invasor israelita? Também não.
Todavia nenhuma destas organizações, como nenhuma das suas sedes, por mais cruzes vermelhas, crescentes vermelhos que ostentem, pode considerar-se território exclusivamente civil. Quando um destacado dirigente do Hamas nos declara com naturalidade que ao contrario dos seus adversários que amam a vida, os guerrilheiros amam a morte está apenas a referir uma das primeiras regras da ideologia do partido.
Poder-se-ia tentar fazer o exercício de pesquisar o momento em que esse bárbaro fatalismo se tornou uma verdade pelo menos para os mais politizados habitantes de Gaza. Poder-se-ia perguntar o que fez Israel durante os longos anos de potência ocupante (e perceber que em certa altura deu uma mãozinha ao Hamas para enfraquecer o Fatah). E perguntar finalmente o que é que foi feito pelos países irmãos para minorar a sorte desta desgraçada população. Só que isso, neste momento, é um exercício inútil. Primeiro porque há documentos mais que suficientes, públicos, esclarecedores da realidade da região. Depois porque agora há uma guerra em que ambos os lados levam a cabo com a eficiência possível as notas que um já longínquo político chinês escreveu para instruir o seu exército de camponeses.
Repete-se, e repetir-se-á o número necessário de vezes, que em Gaza não só está enraizada a ideia dos escudos humanos, do sacrifício até às últimas consequências, da guerra por todos os meios contra o inimigo sionista, como no campo contrario também se aprendeu que na dúvida os alvos são todos militares, que é preciso atacar com o máximo de força para liquidar depressa e totalmente o inimigo. Aliás com mais uma contrainte: o exército israelita sabe perfeitamente que o que tem a fazer tem de ser feito depressa. Ao contrario do Não-Estado do Hamas, Israel responde perante uma comunidade de nações, está sob o escrutínio de uma miríade de observadores, nem sempre neutrais, e tem de acatar (tão tarde quanto lhe é possível) as injunções da comunidade internacional e da sua própria opinião pública.
A campanha que decidiu levar a cabo tem objectivos limitados: derrotar temporariamente o Hamas, reduzir-lhe a eficácia e os meios, isolá-lo tanto quanto possível da população local e cortar-lhe as vias de abastecimento militar (os famosos túneis na fronteira egípcia...). numa palavra: retardar o momento de tréguas, de conversações, inverter a relação de forças Hamas-Fatah no território.
É ainda provável que estas operações militares possam obedecer a outra linhas de força. A administração americana está paralisada até 20 de Janeiro, há eleições políticas em Israel brevemente, e os problemas com que se debate a maioria dos países ocidentais também impedem que exerçam grande influência, tanto mais (e isso é fundamental) que são os checos quem dirige a União Europeia. Como aliás já se viu logo na primeira declaração sobre o conflito.
E finalmente, uma vez mais, uma nota sobre alguns dos protestos levados a cabo por pequenas franjas da esquerda radical: não se consegue perceber o que propõem, para além da condenação habitual de Israel. Quais são as soluções que defendem para o conflito no Médio Oriente? Que pensam do terrorismo? Que política propõem quanto ao Líbano, essa vacuidade política inventada pela França quando teve o mandato dos antigos territórios turcos dependentes da antiga província de Damasco no final da primeira guerra mundial? E para a Síria? E para o Irão? E, já agora, para o Iraque?
Porque, ao fim de quase um século nesta região, as coisas estão ainda pior do que no tempo do império turco. E é duvidoso que as populações sejam mais felizes... Ou que controlem melhor (ou mais) o seu destino enquanto povo.

* "Mao Tsé-toung: La guerre revolutionnaire" 10-18, UGE, 1962. Este livro consta de dois textos: "Problemas estratégicos da guerra revolucionária na China", e "Questões de estratégia na guerra de guerrilhas anti-japonesa" de 1936 e 1938 respectivamente.

d'Oliveira

04 janeiro 2009

Diário Político 96


Com olhos em Gaza*

Como infelizmente parecia provável, as tropas de Tsahal, o famoso e eficiente exército israelita entraram pela faixa de Gaza. E entraram como entram todos os exércitos com alto índice de profissionalismo: usando uma força enorme para evitar surpresas. De facto, custa ler certos comentadores que acham desproporcionada a força da invasão.
Do ponto de vista da eficácia só uma entrada duríssima pode ter êxito. Mandar uma companhia ou duas seria uma burrice que eventualmente o Hamas poderá ter esperado (coisa que apesar de tudo me parece impossível) e que eventualmente as pobres criaturas que povoam o Bloco de Esquerda achariam sensato. Convém demorar um par de parágrafos neste ajuntamento político e nas suas tonitruantes declarações que não se ficam por menos do que genocídio e crime contra a humanidade. Conhecidas as matrizes do grupo, a explosiva mistura de China da revo. cul., a Albânia do messiânico Hodja e os restos dispersos do putrefacto stalinismo (o de Stalin, himself, claro) e o fantasma do assassino de Kronstadt é risível a declaração dos bloquistas. Não, não estamos perante um genocídio, sequer perante um crime contra a humanidade, a menos que, isso sim, achemos que todas as guerras o são.
Entre Israel e o Hamas a luta é de morte. Alminhas piedosas dirão que é Golias contra David, numa menção que poderia ser irónica, mas nem o é, a uma história antiga e incerta.
Relembremos a crónica dos últimos meses, para não repetirmos o que já aqui se disse sobre a situação nesta zona. O Hamas, conquistou à ponta de pistola e de versículos do Corão ( con el palo dando y a Dios rogando) a faixa de Gaza, exterminando ou expulsando os elementos mais laicos e moderados do Fatah. Depois para provar a traição infamíssima destes, declarou que Israel tinha de ser tratado como o que eles acham que é. E a tiro.
Estabeleceram-se, entretanto, duvidosas tréguas que o Hamas aproveitou para se rearmar e Israel para espiar. Pode dizer-se sem receio de desmentido que a “inteligência” israelita conhece de cor e salteado todos os dirigentes do Hamas, sabe onde vivem as famílias deles, conhece-lhes os pseudónimos e boa parte dos esconderijos. Isso, obviamente, foi alcançado porque Israel tem agentes árabes no terreno, na organização do Hamas, quiçá dentro do seu mais exclusivo grupo dirigente. Só assim se explica a facilidade com que vai abatendo os principais chefes militares do Hamas.
O Hamas terá entendido que o momento era propício para hostilizar o inimigo sionista. Para o efeito foi disparando os seus mísseis mais ou menos caseiros, sabendo, supõe-se, que estas armas primitivas e erráticas fazem mais barulho do que vítimas. Todavia, sabe igualmente que tais mísseis tornam a vida dos seus potenciais alvos desagradável, angustiam populações e levam o governo israelita pressionado pelos eleitores a retaliar.
Eu gostaria de pensar que os dirigentes do Hamas são como nós: que antes de dar um passo pensam nas consequências. Gostaria mas desde há muito abandonei essa irrazoável ideia. O Hamas acredita nos prazeres indizíveis que esperam os mártires, no paraíso de Alah, nos milhões de huris que receberão amorosamente os combatentes e as vítimas da jihad. Por isso, porque se sente portador de uma missão sagrada, aceita que o sacrifício que lhe corresponde atinja absurdos que os ímpios ocidentais nunca permitiriam.
Morrer por Deus, numa terra onde pouco ou nada há pode parecer exaltante pelo menos para os militantes. As populações não interessam. Nunca interessaram. Não foram importantes para Hitler, parecem não ser importantes para Mugabe, Pinochet desprezava-as enquanto as metia nos estádios e a Junta argentina ia-as reduzindo nos calabouços e nas descargas aéreas de presos para o mar. Falamos obviamente de países onde a democracia não é regime.
Nestes casos os fins justificam os meios, os mortos são uma variável sem importância, e a guerra aberta apenas serve para provar quão mau é o inimigo.
Israel sabe disto, claro. E também, há que convir, não se importa muito. Pode proteger com eficácia o seu povo e não rejeita uma oportunidade destas. Todavia, dizer que riposta com meios desproporcionados é uma falácia para consumo das boas consciências. A ideia central é quebrar o moral dos invadidos, fazê-los ver que o Hamas não os protege, logo que não é digno de os governar, logo que se devem dissociar de tão perigosa e extravagante companhia.
E, pelas escassas notícias que vamos recebendo, está a consegui-lo. As desgraçadas populações fronteiriças estão em movimento, em fuga, desorganizando eventualmente os fracos dispositivos de defesa do Hamas, se existem. É provável que, desde a lição libanesa, os estrategos israelitas tenham aprendido os perigos de se meterem num vespeiro. Por isso soam a disparate as ameaças de converter a Palestina num cemitério judeu. Para já o cemitério é palestiniano, guerrilheiros e civis confundidos.
Vejamos um pouco mais além: qual é a reacção dos vizinhos de Israel? do Líbano, da S´ria, da Jordânia e do Egipto, para sermos mais precisos. Mobilizaram tropas? Ameaçaram intervir a favor dos irmãos palestinos? Usaram sequer uma linguagem mais dura do que a costumeira?
A resposta é negativa. E natural. Estes países não vivem na contingência e na provisoriedade de Gaza. Tem governos constituídos que obedecem a certas regras. Não estão interessados em combater Israel porque, por um lado não simpatizam com o Hamas e por outro não se sentem dispostos a morrer pelos irmãos agredidos. Diria que usam uma linguagem claramente menos belicosa que o citado Bloco, o nosso, o guerrilheiro de salão.
E que diz o governo palestiniano? Acaso rompeu dramaticamente as escassíssimas pontes que mantém com Israel? verifica-se algum aumento significativo de intifada nos territórios controlados pela Autoridade Palestiniana? Jerusalém já está a arder? Ou Belém?
Os governos principais da União Europeia condenam a invasão. Pedem um cessar fogo desde que o Hamas garanta que não dispara mais foguetes. Ou seja, pedem ao Hamas, outra vez, o que este não pode, não quer ou não pensa fazer. Ou que a partir do momento da invasão ninguém lhe perdoará que faça: depor as armas.
Resumindo o Hamas caiu numa armadilha que ele próprio, por ideologia cega ajudou a montar. Ou numa provocação se se entender que Israel se deixou bombardear o número necessário de vezes para poder ripostar.
Quer isto dizer que Hamas está fatalmente condenado à derrota? Não, se entendermos que para um grupo deste género a derrota só existe quando for totalmente aniquilado. Mas por muito que a população civil se dissocie dos guerrilheiros há sempre um certo grau de porosidade (no seio do povo o guerrilheiro é como peixe na água, dizia o falecido Mao) que evita mesmo in extremis o fim destes gruposJustificar completamente messiânicos.
Esta guerra de dramáticas consequências para os condenados da terra palestiniana terá mais uma vez como saldo, dor, violência, ressentimento e frustração. Daqui a uns meses, cessadas as hostilidades, nascerão do ventre fecundo da injustiça novos mártires. Mães árabes e mãe judias terão tempo para se habituar a chorar os filhos. Todavia as primeiras chorarão mais, por mais vítimas. E por mais tempo.

Eu não quereria que me tomassem por cínico sequer por indiferente. Defendo uma pátria palestiniana. Sou contra os colonatos, todos os colonatos fora do território histórico de Israel. Sou contra a ocupação israelita de Jerusalém. Mas isso não me impede de ser contra o terrorismo, contra o uso de escudos humanos e contra o fanatismo religioso. E neste englobo o Hamas, o Hezbolah e os integristas judeus cujo número cresce com os ventos de guerra.


*os leitores permitirão que use deturpando-o um título de um grande livro de um grande escritor: Aldous Huxley.

** a gravura: enterro de um mártir do Hamas.

29 dezembro 2008

Diário Político 95


Algumas perguntas


Até onde se pode ir numa luta de “libertação nacional”? Em tempo de guerra será lícito recorrer a todas as formas de luta, incluindo nestas o terrorismo, a tortura ou o assassínio selectivo de dirigentes políticos, de líderes sindicais ou de personalidades que, de um modo ou de outro, simbolizem a Nação aos olhos dos seus concidadãos?
Sem respondermos a estas questões que, na minha pobre e modesta opinião, são essenciais, não vale a pena determo-nos no conflito israelo-palestiniano.
Mesmo se entendermos (e eu faço parte desse grupo) que Israel vive em democracia, será que a defesa natural das fronteiras, da vida e bens dos seus cidadãos (judeus, árabes, drusos e outros) passa por castigar duramente os lançadores clandestinos de rockets artesanais?
Por outro lado, será lícito que, em nome de uma pátria palestiniana (e eu faço parte do grupo de pessoas que entende que deve existir, com as mesmas garantias internacionais de Israel um país palestiniano, governado por palestinianos, sem tutelas de qualquer espécie, mormente as actuais) se possa bombardear a terra do “inimigo sionista” com foguetes que não conseguem mais do que um percurso errático e por isso caem em qualquer sítio, matando indiferentemente militares ou civis, árabes ou judeus, homens ou mulheres crianças ou velhos?
Claro que, na conturbada história dos últimos noventa anos (isto é da história que acompanha as migrações massivas de sionistas (uso a expressão no seu exacto e histórico sentido sem a carregar de semânticas recentes e injuriosas) para a Palestina transformada em mandato britânico, podem reconhecer-se variados movimentos terroristas judeus (“Stern”, “Irgun”) que infligiram numerosas baixas quer às tropas da potência mandatária quer a cidadãos árabes indefesos. Não é menos verdade que, desde que começou a emigração judaica para “Eretz Israel” (em consonância com a famosa “Declaração Balfour” que nada mais era do que uma promessa ilegítima e ilegal de um governo imperial que dispunha de terras alheias como se de próprias se tratasse), houve resistências desencontradas por parte da população árabe. Desde o famoso “mufti” de Jerusalém até aldeãos despossuídos ou ameaçados ameaçaram e tentaram atacar o que consideravam como invasores. A Palestina não era uma terra vazia. Estava habitada, tinha instituições políticas tradicionais, herdadas do império turco e, há que salientá-lo, sempre permitira a existência de comunidades judias mesmo que durante séculos tais comunidades fossem escassíssimas.
É aliás falsa a ideia de que houvera uma expulsão massiva e praticamente total dos hebreus pelos romanos. Houve efectivamente pequenas deslocações forçadas de parte das populações da região mas nada que permita dar à diáspora esse significado apocalíptico que nos séculos XIX e XX foram propagandeadas.
Boa parte, senão a imensa maioria, dos judeus europeus não tinha raízes médio-orientais, não eram semitas e a fé que professavam derivava sobretudo de conversões ocorridas na alta idade média. Por outro lado, é sabido que em todos os países do médio oriente existiam sólidas populações de religião judaica (Iraque, Irão, Marrocos para não ir mais longe). Sabe-se também que durante esse longuíssimo período as relações inter-comunitárias foram pacíficas. De resto, foram os países de tradição muçulmana os maiores (e melhores) acolhedores dos judeus expulsos da península ibérica. Muito mais do que a Holanda, por exemplo.
É verdade que há uma oração, ou um refrão judaico “para o ano em Jerusalém” que se usou em toda a Europa e que adquiriria particular sentido dramático durante os pogroms de leste e as perseguições no ocidente. Todavia, esse pio desejo, nunca foi acompanhado, até ao segundo decénio do século XX, por migrações significativas para a terra de Israel.
Entretanto, há que reconhecê-lo, desde que o Estado de Israel foi proclamado, nunca mais houve paz na região. A primeira guerra, ocasionada, é verdade, por uma desorganizada e heteróclita invasão de tropas árabes, teve como resultado não só a derrota desses invasores mas, sobretudo a expulsão de dezenas (quiçá centenas) de milhares de civis palestinianos. A operação de expulsão (eventualmente genocida) chamou-se “Vassoura de Ferro” e e tinha por objectivo táctico limitar o avanço dos invasores e por finalidade estratégica a limpeza étnica de territórios atribuídos a Israel.
São os descendentes desses expulsos, criados em campos de refugiados, que constituiram e constituem a maioria dos candidatos a guerrilheiros, a terroristas, a suicidas. E isso também tem de ser tido em linha de conta.
Israel, de 48 até hoje, alargou ilegitimamente as suas fronteiras, ocupou e ocupa territórios ilegalmente, muniu-se de armas atómicas e criou o mais forte exército da região. E se é verdade que tem cidadãos árabes não menos verdade é que estes se sentem cidadãos de segunda. Por todas as razões mas sobretudo porque não conseguem deixar de observar o que se passa nos territórios ocupados, na agressividade dos ultra-ortodoxos, no movimento das colónias de povamento, que paulatinamente transformam a Transjordânia num xadrês de povoamento judaico que torna impossível a vida dos anteriores habitantes.
O Hamas é uma caricatura miserável das verdades reveladas no Corão. É uma associação criminosa que alimenta o ódio contra o judeu enquanto tal muito mais do que a ira contra o ocupante. Pior: tenta transformar uma população relativamente laica numa outra rigorista e islamizada até o extremo. A sua política militar é aventureira, não olha a meios, despreza a vida dos cidadãos que pretende defender, aceita a monstruosa teses dos mártires pela liberdade, doutrina crianças e adolescentes para o sacrificio supremo. O lançamento de foguetes é uma provocação estúpida e perigosa sobretudo num momento em que os israelitas se preparam para eleições ao mesmo tempo que a inação americana natural num país que se prepara para mudar de presidente muito em breve faz prever uma resposta contundente. E pior que isso: a acção descontrolada do Hamas pode modificar os previsiveis resultados eleitorais israelitas, ajudando o regresso da direita pura e dura ao governo. Como se a ideia fosse: quanto pior, melhor!
É isto, ou é também isto, que está em jogo.

d'Oliveira

23 dezembro 2008

Diário Político 94


Uso um nome carregado de símbolos, desde o ramo que a pomba trouxe no bico até ao óleo entre todos abençoado que une judeus e árabes, cristãos ortodoxos e cristãos romanos, negros forros do Brasil (que também recorrem ao dendém...), aristocratas da Virgínia (se ainda os há) e mais uns quantos que não vale a pena citar.
Entre todas, esta é a árvore da paz, da abundância, a árvore durável por excelência, a árvore que mata a fome ao pastor que junta um punhado de azeitonas ao naco de pão, ao viajante que nesse mesmo pão barrado de azeite junta uma cebola ou um tomate e segue o seu caminho e, já agora ao cliente do restaurante sofisticado que lhe serve, a preço de ouro, um pires de azeite onde se molha uma fatia de pão.
Uso ainda o nome de um certo Cavaleiro de Oliveira, esse mesmo que chamou a Lisboa “fremosa estrevaria” e que, quando foi queimado em efígie pelos poderes públicos portugueses, anotou no seu diário que “nunca sentira tanto frio como nesse dia”. Também é certo (se não erro) que nesse dia estava na Moscóvia acolhido à protecção de Catarina a Grande.
Dele tento ainda usar o lema: “é preciso dar força à razão para que o acaso não governe as nossas vidas”.

Isto tudo dá-me pretexto para desejar a todos quantos acompanham este blog um ano de 2009 sob a égide da árvore sagrada. Da árvore de ramos retorcidos que resiste ao tempo e ao vento e nos presenteia com o azeite que, com o vinho, é a metáfora verdadeira da civilização que penosamente vamos erguendo: fraterna, luminosa e exigente. Assim seja.

06 dezembro 2008

Diário Político 93


Chover no molhado


Ao que se lê, ou pelo menos em certos sítios, parece que as pessoas estão cansadas do duelo professores governo. Os professores, esses, não devem ler, ou não lêem estes curiosos jornalistas e opinion makers porque não se mostram cansados.
Mas há, de facto, umas criaturas, certamente movidas por um impetuoso desejo de servir a pátria, que juram que as pessoas estão fartas das lutas “estéreis” da “corporação” dos professores. Fora o facto de não saberem o que é uma corporação, e muito menos o que são direitos profissionais, devem estar cheias de razão. Ou não fossem opinion makers... impolutos e rigorosamente neutros...
Todavia, como parece haver um reduzido número de irredutíveis aqui vai mais uma acha para a fogueira.
A senhora ministra, com a argúcia e sentido de oportunidade que se lhe reconhecem, entendeu declarar em pleno parlamento que para o ano está disposta a rever tudo, absolutamente tudo mas que este ano a avaliação é o que está a dar. Ou seja: uma pessoa avaliada este ano pode, se novas normas (previsíveis) vigorarem, ficar altamente prejudicada por obedecer a uma lei que já é a prazo.
Chama-se a isto uma burla. Um gracejo, uma troça canalha a quem sofre os abusos de um poder que não sabe sê-lo nem se auto-limita.
Eu sei que amigos meus, camaradas desta viajem bloguística entenderam em seu tempo dar o seu honrado aval a esta ministra. Agora que ela mesma subverte as regras do jogo e dá o dito por não dito estes meus amigos ficam descalços. Claro que poderão continuar a achar exactamente o mesmo que achavam mas se por acaso formaram a sua opinião no argumentário ministerial devem estar um pouco atrapalhados. Como eu próprio estaria, devo dizê-lo, porquanto sempre entendi que toda e qualquer actividade (incluindo a política, sobretudo a política...) é passível de passar pelo crivo da avaliação. Deve passar por esse crivo. Só que...
Só que as regras que hão-de presidir a essa acção devem ser claras, justas, perceptíveis por todos e úteis. Não devem, por exemplo, servir para poupar uns miseráveis euros ao Estado como parece poder depreender-se da cuidadosa separação profissional e remuneratória entre professores titulares e o resto.
Um empresário pode começar por trabalhar só e terminar com dez mil empregados. Nada se opõe ao seu esforço e à sua subida. Basta-lhe trabalhar, ter sorte, saber vender o seu produto e recrutar os melhores para o cadjuvar. Não há nenhuma lei que limite o número de empresários de sucesso a 5, 10, 20 ou 50%.
No caso dos professores, basta ler, pelo que não vale a pena perdermos aqui tempo a falar disso. Aliás a regra que se aplica aos professores tem equivalências em diferentes corpos da função pública. De facto, se é certo que a percentagem de bons e muito bons profissionais é reduzida nada permite que se estabeleçam números fechados. Imaginem se isso ocorria na actividade privada...
Com um ponto de extrema gravidade. Desde há uns anos a esta parte, os cargos de chefia na função pública caíram inexoravelmente na escarcela do partido no poder. Os chamados concursos (e há uma lei que os contempla) ainda não ocorreram e duvida-se que alguma vez se concretizem. E mesmo que alguma vez algum se realize conviria saber quem entra no júri, quem estabelece as regras, como é que serão avaliadas as candidaturas. Ou seja, é esta gente, sem mandato que se conheça que avalia os restantes. Estão a ver?
Mas deixemos estas minúcias. Voltemos a pobre ministra que caminha com os olhos brilhantes e em alvo rumo ao matadouro. Desde há meses que tem sofrido consecutivas derrotas que apimenta com comentários que seriam patéticos se não fossem ridículos. Está a prazo, não há quem o negue. Nem ela, aliás.
Perguntar-se-á: então porque é que ainda lá está? Não causará desgaste na imagem do governo? Não se corre o risco de perder eleitores (e os professores, sabe-se, são votantes naturais do PS)?
A resposta a estas questões é infeliz e desgraçadamente simples: é a crise. A crise que alastra, os empregos que desaparecem, a deflação que avança, o marasmo, a quebra do consumo, o desinvestimento etc... etc...
Enquanto os portugueses estiverem entretidos neste rodeo, não olham à sua volta. E á sua volta as coisas complicam-se. E complicando-se (e nem se fala nos fretes ao BPP) complicam as hipóteses até há pouco triunfais de uma nova maioria forte senão absoluta. Os jornais, os maus, claro, já falam das estranhas parcerias de certos implicados nos escândalos com altas personalidades socialistas. E a procissão vai no adro. Com um pouco de paciência chegará a vez a outros, a muitos outros. E com um pouco de sorte nossa, nem o espesso manto, que a luta dos professores tem sido, abafará o escândalo. Cá estaremos para ver, ouvir e pasmar.
Ora é nesta dupla perspectiva, a da crise geral e a da queda provavel de alguns mitos domésticos, que se deve perceber o facto desta ministra continuar a passar por tal. Politicamente está finada, falta-lhe a certidão de óbito, mesmo que isso possa ser adiado para as calendas. A Educação, que passa o seu pior período de sempre, nunca foi uma prioridade pese embora a propaganda em sentido contrário. A crise não é de hoje, estava instalada, e isso tem feito com que as verdadeiras reformas se fiquem por um aligeirar da exigência, por uma extraordinária facilitação, pela redução dos programas á expressão mínima e por um devolver de responsabilidades à escola pública e aos seus agentes, os professores.
Quando se governa para a galeria e para os amesendados e protegidos há que encontrar um bode expiatório para as dificuldades que foram adiando enquanto puderam. O processo correra bem com os magistrados, razoavelmente com os funcionários, grupo heterogéneo com interesses divergentes, minado pelas entradas massivas ocorridas as mais das vezes por favor político ou por razões familiares (é conhecida a endogamia sistemática de centenas de repartições) para as quais não há concurso que valha. Pelo menos enquanto foram feitos no seio das instituições com júris caseiros e sujeitos a todas as pressões. Outro galo cantou com os médicos e outro galo começa a cantar com os professores. Não se fala dos militares, basta ler as notícias: bandeirinha branca e aumento já na calha.
A ideia era que os professores, classe em nítida perda de influencia social, maioritariamente constituída por mulheres (eventualmente mais dóceis!...), poderiam ser batidos recorrendo a alianças espúrias quais sejam a de bom número de associações de pais que vem a escola como um vazadouro diurno de filhos que se deve substituir á família no que toca á transmissão de conhecimentos e valores. Correu mal. E vai correr pior.
Ou seja: Vai correr melhor para todos quantos acreditam nos valores constitutivos da democracia e da responsabilidade cívica.
É mais algo que ficamos a dever aos que tem por dever educar.

30 novembro 2008

Diário Político 92




368 anos depois...


Terá sido no ano de 1963, em Coimbra, que a “latada” de Letras ditou o fim de todas as latadas. Entendamo-nos: as latadas, que começaram por ser uma festa exclusiva dos estudantes de Direito que celebravam o fim dos exames, passaram, em data incerta, mas já no século XX, a realizar-se no inicio do ano lectivo e serviam para os quartanistas de cada faculdade usarem definitivamente o grelo, a fita estreita que prenunciava um próximo fim de curso. Nesses cortejos, os caloiros mobilizados e vestidos de maneira estapafúrdia levavam cartazes maliciosos e/ou de charge política. Era nos anos sessenta uma das maneiras de mostrar que a Academia coimbrã cortara relações com o regime (que se não nascera em Coimbra, tivera nesta cidade e na sua universidade alguns dos principais teóricos para já não falar no alfobre de governantes em que a Faculdade de Direito se tornara). As faculdades competiam entre si por se mostrarem mais ousadas, mais inventivas e mais contestarias. A velha praxe coimbrã cobria com o seu espesso véu estas audácias juvenis e, de certo modo, protegia-as.
Todavia, depois da fortíssima (e mal conhecida) participação coimbrã na crise académica de 62, as autoridades estavam já mais atentas e pouco dispostas a aceitar a “irreverência da mocidade estudiosa”.
Ora, a latada de “Letras” (uma das primeira a ter um argumento único) era, do primeiro ao último cartaz, uma fortíssima manifestação política que aliás começava pelo título geral patente no primeiro cartaz: “Os velhos não devem governar”, piscadela de olhos ao texto teatral “Os velhos não devem namorar”, de Castelao, um dos pais do independentismo galego. Dentre os cartazes, quase todos notáveis e engraçados destacava-se um mais violento: “Há governos que caem pela força. Este cairá pelo ridículo”.
A reacção das autoridades foi rápida e dura: os responsáveis pela “latada” (que só recordo o António Luis Landeira) foram detidos pela PIDE e passaram umas semanas nos calabouços da delegação coimbrã. Recordo com ternura e emoção as muitas manifestações de solidariedade de que foram alvo e lembro-me que o Landeira recebeu não só muitos maços de tabaco mas um belíssimo isqueiro enviado por uma querida amiga nossa, perita em abrir latas de atum como, tantos anos depois, ela se retrata.
O governo não caiu, claro. Demorou ainda 11 longos anos, como se sabe. Demorou o governo mas a esse sobreviveu-lhe um certo espírito que ainda hoje anima muito governante. E não caiu pelo ridículo mas quase, porquanto bastaram umas escassas tropas mal armadas e uma rajada de metralhadora no quartel do Carmo.
Contudo, o ridículo continuou a sua triunfante caminhada (basta ver as declarações de vários lideres políticos com especial referencia a Jerónimo de Sousa, Santana Lopes e Maria de Lurdes Rodrigues, para não citar outros, muitos! Que se acotovelam na praça pública. Abramos ainda um pequeno espaço para a inerme Juventude Socialista, um ajuntamento de rapazinhos de que normalmente não se ouve falar a menos que entendam, a contra-corrente, aviar uma proposta “fracturante” que depois não defendem. Não defendem porque não acreditam, diga-se de passagem. E de que se esquecem logo que se apanham com uma sinecura com que habitualmente se calam os vagos opositores e os meninos bem comportados.
Eu não quero que o governo caia pelo ridículo nem creio que isso possa ocorrer. Infelizmente, governo e regime estão ameaçados por algo bem mais grave e maior: a democracia, flor frágil, necessita de ar puro, coisa que com estes sucessivos casos financeiros vai escasseando. Parece que, e até nisso o engenheiro Sócrates tem sorte, o escândalo está a ser habilidosamente circunscrito ao BPN e a Dias Loureiro. Vozes autorizadas fazem o possível por dizer que a avalanche que ameaça engolir o BPP tem causas diferentes. Terá. Mas ninguém me convence que a impossibilidade de continuar tem a ver com gestão desastrada, com ambições desmesuradas, com imprudência, com má avaliação da conjuntura. Também ninguém me convence que o plano salvífico que mete vários bancos ao barulho não vai custar nada aos cidadãos, como eu e como quem me lê. Porque é que o Banco de Portugal, tão distraído quanto às carências gritantes de supervisores capazes no seu quadro, se mostra tão atento ao plano de salvar uma centena de fortunas de cavalheiros que só acorreram aos balcões do BPP porque havia extraordinárias e miraculosas retribuições dos depósitos. Será que estes senhores não achavam que essa fartura poderia ter pés de barro? Convenhamos: se os outros bancos, mesmo na função private banking não davam tanto juro como é que este pequeno banco gestor de fortunas oferecia tanta remuneração? Será que o dr. Rendeiro era o moderno Laffite da banca nacional? E se era, porque é que agora tem de ser afastado da solução do problema? De um problema que, por força ele conhece melhor do que ninguém?
Passemos adiante. Há por aí alguém que me possa garantir, modestíssimo depositante de poucos centos de euros que mais nenhuma instituição financeira está em risco? Que não há mais políticos do bloco central a viver de benesses derivadas do seu ziguezaguear entre governo e privado, num entra e sai suspeito, em que cada entrada parece uma promessa de melhor saída e cada saída um prémio de favores passados, presentes ou mesmo futuros?
O país, pelo menos aquele que se interessa e não é ainda totalmente analfabeto, vê diariamente esta trasfega de interesses e pessoas, de pessoas e interesses, este toma lá dá cá, tudo no mais escrupuloso respeito de uma auto-denominada “ética republicana” que nenhuma lei acolhe e que na generalidade do mundo é considerada inaceitável. Alguém acredita que em França um Conselheiro de Estado venha de motu próprio dizer um par de banalidades que rapidamente são desmentidas e não seja substituído? Alguém acredita que nos Estados Unidos (país onde se recrutam governantes na elite dos negócios e das financeiras) se passe assim, de um pé para a mão do público para o privado, sem rede nem garantias especiais?
Alguém acredita que um cavalheiro de modesto rendimento e situação financeira condizente apareça meia dúzia de anos depois com um pecúlio notável, fruto de “muita economia, muito tino, muita sorte e incomparável inteligência”? Então as criaturas andavam por aí a beber, com conta peso e medida, um café com cheirinho – e só aos domingos e dias santos de guarda! – e agora passam as noites nos restaurantes e bares da moda a aviar whiskies escoceses de nomes impossíveis, vindos de ilhas desconhecidas e preços extravagantes? E pendurados em charutos de meio metro que fariam empalidecer de inveja um dos meus respeitáveis confrades de blog (que paga do bolsinho, e com o suor do rosto, o charuto que fuma)? E que passam subitamente das férias de oito dias em campismo para os fins de semana na neve, o verão nas Maldivas e os cruzeiros em Bora-bora? Que substituem o Corsa a prestações pelo BMW, série 5 (isto quando são modestos...)?
Amanhã, daqui a menos de uma hora, aliás, faz anos que um duque de Bragança convocado pelo Rei Filipe IV para fazer a guerra na Catalunha insubmissa, entendeu restaurar a independência pátria, coisa que, soit-disant, conseguiu ao fim de vinte e oito anos de guerra de fronteiras e de alianças espúrias com ingleses cobiçosos que ainda hoje nos fazem pagar esse favor. Trezentos e sessenta e oito anos!
Eu não sou iberista. Não que não gostasse mas, realista, sei bem que os espanhóis não estão para nos aturar. Muito menos para pagar os nossos pecados, a nossa incúria, o nosso eterno sentimento de frustração. Ainda por cima conseguem impingir-nos os seus produtos, as suas Zaras, a sua imprensa cor de rosa, as suas praias e o seu Corte Inglês sem a maçada de ter de nos governar.


PS que não tem nada a ver (ou terá?): o PCP está em congresso. E resolveu homenagear o “imortal” partido comunista cubano, o único que teve o direito a discursar. E alguém, Jerónimo?, teve direito a receber uma fotografia dos manos Castro! É obra! E uma fotografia de Stalin? E outra de Mao? Ou do Enver Hodja? Não servem? E do Ulbricht esse génio? Ou do Gomulka? Força, malta, força que nós somos a muralha de aço...

d’Oliveira fecit

11 novembro 2008

Diário Político 91


Cambalhotas, batotas,
petas e lorotas


O país viu cento e vinte mil professores manifestarem-se. Viu uma Ministra a uns prudentes 300 quilómetros dizer coisas surpreendentes (ou absurdas) desqualificando a manifestação. Viu o palavroso Primeiro Ministro dizer, avisar, ameaçar, que o governo tinha decidido e pronto. Era assim, Assim mesmo. Ou vai ou racha. Viu sessenta escolas darem o primeiro sinal de abandono do processo de avaliação. Hoje já devem ser seiscentas. Entretanto um Secretario de Estado, presume-se que subordinado da Ministra, já veio pôr água na fervura. A avaliação é só para daqui a um, dois, três ou mais anos (riscar o que não interessar). Outros responsáveis atiram-na mesmo para as calendas.
Em que ficamos? Em que não ficamos, para ser mais exactos?
O PS mexe-se. Sabem os socialistas menos desatentos que uma forte percentagem (quiçá a maioria...) dos professores é sua votante. Ou era. Ou será se... E vai daí, primeiro a esquerda, depois alguns, mais reguilas, lançam o alerta. Cuidado: os professores são votos. Muitos votos. Ou, pelo menos os suficientes para ganhar ou perder uma maioria, sobretudo absoluta.
Marcha atrás a todo o vapor! Tempus urgit.
E isto, esta procissão penitencial, ainda vai no adro. Os excelsos paisinhos de família, que andavam tão contentes com o milagre das rosas matemáticas, pedem serenidade. Eles também votam...
À hora em que escrevo, não sei se há ainda Ministra. Nem me interessa. Esta Ministra já caiu. Só que não sabe. Pode ser que só dê por isso daqui a meses mas politicamente é um zero. Porventura sempre o foi.
A propósito disto, desta fronda dos professores, há quem fale em corporações. Em privilégios corporativos defendidos a outrance. Nada mais errado. Se há coisa que nunca houve nesta democracia adolescente e frágil é corporações. Isso são coisas de país rico onde as profissões se defendem, onde o mínimo ataque ao status quo só acontece depois de pesados todos os prós e contras. Se os professores, ou os juízes, ou os funcionários públicos fossem efectivas corporações (ou seja, se tivessem interiorizada uma determinada situação, com os seus privilégios, os seus deveres e direitos, uma “consciência de classe”) onde o poder já não ia... É justamente porque as “corporações” não o são nem têm essa força que ,até agora, a bola tem estado do lado do poder. Deste poder.
Há em Portugal, conexo com um forte analfabetismo político e social, o sentimento que nomear uma coisa pela palavra que primeiro nos vier à cabeça transforma essa coisa no significado da palavra. É assim que se caracteriza uma situação anómala sob o termo de “surrealista”; é assim que o vago receio ou o desânimo são apodados de tremendismo; é assim que se confunde maioria absoluta com poder absoluto como se os povos, os paisanos só aqui andassem para votar de quatro em quatro anos num punhado de criaturas escolhidas a esmo entre os obedientes que levantam e baixam o cu à ordem da primeira fila da bancada parlamentar.
O facto de um governo ter legitimidade obtida nas urnas não significa nem pode significar que todos os seus actos são legítimos, justos ou se destinam a defender o bem comum. Um governo legítimo e legal pode, por razões as mais variadas, cometer autênticos crimes ou infâmias insondáveis. Assim foi com a guerra do Vietname, com a invasão do Iraque para citar dois exemplos inquestionáveis. Lamento não poder chamar à colação a Rússia mas não me parece que esse regime seja aquilo que nós entenderíamos como democrático (e por maioria de razão a China ou Cuba).
O folhetim continua ...
d'Oliveira

* entendi pôr um Signac a ilustrar este texto. É provável que as autoridades desconheçam o nome, a obra, a época ou a escola pictórica de Signac. Prova que são já obra do não ensino que propagandeiam...