30 setembro 2007

Au bonheur des Dames 86


Paris vale uma missa, oh se vale!

Pois é queridas paroquianas: estou desde sábado em Paris, cumprindo um velho ritual de muitos anos: começar o Outono em Paris. Alturas houve que tive de me contentar com o desejo, porque a missa é cara e caixa das esmolas fraquinha. Mas, sempre que posso, zás, para Paris e em força. A C.G. alinha a sem por cento e, para continuar a usar uma linguagem litúrgica, faz de sacristã.
Um amigo meu criticou-me uma vez esta mania. Ele acha que uma semana bastava e que eu devia dedicar-me a outros destinos. A Ásia, por exemplo. Eu ainda não consegui explicar-lhe que tal região me interessa pouco e que, por outro lado, tenho sempre muito que ver e fazer por aqui. Por exemplo, os museus. Garanto que ainda me resta um quarteirão deles para visitar. Hoje mesmo fui ao Marmotan ver duas dúzias de Monets entre outras bizarrias. O programa era simples: ver o museu, passear pelas imediações, almoçar num restaurante recomendado pelo “routard” e voltar para St Germain, onde temos o nosso bivaque, num hotelzinho, na rue du Dragon. E fazer os “bouquinistes” de parte da margem esquerda. À excepção do restaurante, cumprimos o programa e consegui por um terço do preço o “Inventaire Voltaire”.
E neste domingo glorioso, quente, alegrado por multidões de irlandeses que cantavam a plenos pulmões em tudo quanto era bar com televisão, para ver o jogo Irlanda Argentina. Apesar da cantoria gaélica os argentinos não se deixaram levar e ganharam. Com justiça, há que dizê-lo. Como ontem a Nova Zelândia despachou a Roménia. Vi grande parte do jogo (que jogo!) enquanto nos batíamos com umas “moules marinière” que poderiam estar melhor do que estiveram. Falo de rugby para quem não tiver percebido. Paris está todo virado para campeonato do mundo. E no Luxemburgo vi uns pequenitos munidos do competente “melão” a tentarem umas placagens. Faltava-lhes a baliza para converter ensaios mas no resto estavam ali para as curvas.
De resto pouco há que acrescentar: as férias são para isto mesmo, flanar até nos doerem os pés, ver alguma coisa de interessante, preguiçar, enfim o habitual.
E tentar ter ligação internet aqui mesmo no quarto. É uma internet caprichosa esta. Vai e vem sem se saber exactamente porquê. Vou tentar mandar este texto ornado por uma ilustração “trés tendance”: Paris está literalmente cheio de ciclistas que graças ao novo serviço público de fornecimento de bicicletas de aluguer pôs esta malta toda a pedalar. Amanhã vou ver se bemmbém me meto na aventura de ir de bicicleta até ao quai de Branly ver o novo museu de artes primitivas. Vamos lá a ver se a CG se entusiasma...

29 setembro 2007

... e filosofia de rua

no separador das faixas de rodagem, na orla de Ipanema, em meditativa contemplação












defronte, no calçadão, uma tertúlia animada

Kamikaze













junto ao omnipresente

Kamikaze

vitaminas filosóficas

à venda nesta excelente livraria do Leblon-Rio de Janeiro, onde me levou a nossa amiga Sílvia.

kamikaze

Ando a tomar sobretudo das recomendadas em 2º lugar, pelo que ainda não é desta que volto a "kamikazear" aqui no blog, mas deixo o mote, na certeza de que o amigão MCR* desenvolverá o tema para gáudio e contento de todos :)


*MCR, sensibilizada por este post, mas eu avisara aqui que ia ao encontro da nossa garota de Ipanema...
(olhe que eu tive o cuidado de, antes de partir, renumerar mais uma vez os seus posts mas ai, seu grande maroto, já está tudo baralhado outra vez...)

28 setembro 2007

Diário Político 65


Poucas coisas são novas debaixo da roda do sol

Eu não sei se a nossa memória é curta porque não poderíamos viver com a notícia contínua e esmagadora das desgraças presentes e passadas ou se, pura e simplesmente, nos estamos nas tintas para o que se passa à nossa volta ou, à volta da nossa volta.
Digo isto porque dois dos assuntos que têm prendido a atenção dos cidadãos e dos jornais, ou vice-versa, são o Darfur e a Birmânia. Ora vejamos:
O problema do Darfur vem praticamente desde os inícios da descolonização do Sudão Anglo-egípcio. Se sob a férula conjunta dos ingleses e do Quediva o Sudão parecia amortecido e os antigos rebeldes do Mahdi domados, a verdade é que nunca fora resolvido o problema do sul cristão ou animista e negro em oposição ao norte muçulmano e profundamente arabizado. A independência não só trouxe qualquer solução para o problema étnico, religioso e político mas é até bastante provável que os tenha aumentado exponencialmente. Nos finais de sessenta já havia notícia duma Frente de Libertação do Darfur e sucediam-se os recontros cada vez mais sangrentos entre sulistas e nortistas. Esse problema portanto existiu desde que existe uma República do Sudão. A passagem dos anos e a islamização forçada e radical do país, imposta por Cartum só agravou a situação. O Sudão é um Estado em guerra civil larvar permanente. Nem sequer se pode dizer que agora morre mais gente de fome de doença ou de balas. A única diferença é a publicidade que se dá à situação. E o facto de os media se terem desenvolvido e democratizado ao ponto de qualquer deslocação de populações, qualquer conflito aberto ter hoje muito mais visibilidade.
Também é verdade que hoje em dia, a comunidade internacional e a opinião pública aceitam com muito maior facilidade a “ingerência” nos problemas internos de um país. E isso reflecte-se na súbita dimensão da tragédia do Darfur. Que já fora precedida por tragédias semelhantes no Chade ou na Republica Centro Africana. Com menores dimensões, sem dúvida, mas com causas conexas e actores não muito diferentes. Seria fácil dizer que se trata de problemas herdados da época colonial. Mas também são. Não vale a pena fingir que antes estava tudo bem e que agora está tudo mal “porque eles nem se sabem governar". Deixámos em quase toda a África uma herança pesada e um vírus temível: as fronteiras artificiais. Felizmente aquele pitoresco bispo moçambicano de que aí em baixo se fala não se lembrou disto. Ou achou conveniente não se lembrar. As estruturas políticas post-coloniais e a intangibilidade das fronteiras foram em seu tempo denunciadas por muito boa gente (e entre todos relembro René Dumont) logo que as independências começaram a cair em catadupa. E o mito teve tal força que só agora, depois da separação da ex-checoslováquia ou do desastre balcânico no território da antiga Jugoslávia, é que nos começamos a aperceber da complexidade da coisa. Tarde e com demasiados mortos.

A Birmânia, que até já deu um Secretario Geral à ONU, parecia ser um pais sossegado e sem história. Uma população maioritariamente budista e uma tradição de auto-governo estimulado pelos ingleses do vizinho Raj pareciam fazer antever um futuro sem grandes problemas. Todavia a realidade teve mais força e um punhado de generais apoderou-se do país. E apoderou-se porque alguém, por comissão ou omissão, os deixou à solta. Parece que não convinha uma Birmânia neutral. Isto da neutralidade naquela zona do globo era um descaramento sobretudo quando vigorava a ideia do “containment” do comunismo e estava viva e bem viva a recordação da guerra da Coreia e os desastres muito próximos do Vietnam.
Poucos se comoveram com o golpe militar. Menos ainda com a palhaçada semântica da mudança de nome do país. Ou com a transferência da capital. Rangun, para a generalagem, era demasiado cosmopolita e tinha demasiados (maus) hábitos democráticos.
Menos gente ainda se impressionou com a selvática repressão da minoria Karen, que ainda hoje alimenta focos de guerrilha nos confins birmaneses. O status quo dos militares não foi posto em causa durante muito tempo. Demasiado. Agora é o que se vê. Estão os generais mais agressivos? Estará a população mais revoltada? Ou estaremos, apenas e outra vez, a sofrer os efeitos da nova visibilidade que os recentes meios de comunicação propiciam?
Seja como for, ainda bem que alguém se lembrou de começar a olhar para este país e este povo à mercê dum bando de gangsters fardados e corruptos até à moela. A pergunta seguinte é esta: se, de facto a China defende os generais e por consequência ofende os birmaneses e a as nossas boas consciências, que medidas estaremos dispostos a tomar para fazer recuar a China e propiciar assim a queda da junta?
Vamos boicotar os jogos olímpicos, como em tempos não muito longínquos foi tentado por altura da olimpíada de Moscovo? Vamos impor sanções comerciais à China?
Porque “essa treta” de cortar investimentos na Birmânia é apenas uma cortina de fumo. Tirante o gás natural são escassos os capitais ocidentais por lá. E mesmo que de lá saíssem os nossos parcos investidores, isso pouco se reflectiria na (desgraçada) situação birmanesa. Eles já são pobres e provavelmente nunca viram um ceitil do dinheiro pago pelas empresas estrangeiras. Outro bolsos mais fundos e melhor armados terão apanhado os rendimentos. Provavelmente estes estarão até a dormir num banco suíço, do Liechtenstein ou dessas ilhas paradisíacas das Caraíbas menos conhecidas mas igualmente ricas.
E já agora, a mãozinha que armou os generais, deixa-se ficar ou oferece-se uma luva ao seu possuidor?

a ilustração: batalha entre tropas do Mahdi e ingleses (Abu Klea, 1895)

Estes dias que passam 78

O que eles dizem!

A gente tem de se de conformar: um diz alhos outra entende bugalhos. E não há volta a dar-lhe. A senhora dos bugalhos teimará pela vida fora que foi isso que o primeiro disse. E como, pelo menos nos círculos onde a segunda esbraceja, o primeiro é quase um desconhecido, eis que um alho se transforma em bugalho.
Refiro-me como está bom de ver à Sr.ª Dr.ª Esther Mucznik se é que estou a grafar-lhe correctamente o nome. Esta senhora, seguramente uma excelente alma, tem uma ideia fixa: que o mundo inteiro ameaça Israel. Que há uma conspiração universal contra os praticantes da fé judaica. Que quem quer que discorde de um simples parágrafo do que o governo israelita afirma é um nazi ou pelo menos alguém que não sabe que é um nazi mas, no fundo, bem lá no fundo, no refoulé, é um nazi. Ponto final, parágrafo. Eu que a leio sempre com intensa admiração e e me penitencio depois da má vontade que alguma vez terei tido contra Israel, fico sempre com a ideia de que a Drª Esther ainda pensa estar no ghetto de Varsóvia assaltado por todos os lados perante a passividade dos varsovianos e o silêncio do resto do mundo. Os primeiros pagaram bem cara a sua pouca solidariedade porquanto quando se revoltaram, tarde e a más horas, também se terão espantado com a passividade dos exércitos russos que não deram um passo (que provavelmente poderiam ter dado) para os ajudar. O restante mundo apanha com os artigos das inumeráveis Ester que querem emular a primeira, a salvadora do povo judeu, a sobrinha de Mardoqueu.
Mas entremos no tema: como sabem o presidente do Irão, o senhor Ahmadinejad, se não erro na grafia, foi de longada aos States. Uma cavilosa universidade profundamente anti-sionista, convidou-o para uma parlenga. O iraniano aceitou e foi o que se viu: o reitor da universidade apresentou-o dizendo dele e do Irão o que Mafoma não disse do chouriço (e do presunto! E do salpicão! e da morcela das Beiras! E de todos os produtos porcinos, incluindo as actuais alheiras que também já levam porco...): um festival. Ahmadinejad, aguentou estóico (vê-se que é um verdadeiro crente, um discípulo de Ali) e disse ao que vinha. O público regougava com o mesmo entusiasmo com que no Coliseu a plebe romana via os cristãos a ser comidos pelos leões. E quando alguém mencionou a perseguição aos homossexuais no antigo pais de Ciro e de Xerxes, o presidente iraniano afirmou com a candura dos mártires de Al Aksa que não havia disso no seu pais onde o mel corre paredes meias com o petróleo. A sala veio abaixo com as gargalhadas. Há, diz-se, pessoas internada nos cuidados intensivos devido à indigestão de riso que as acometeu. Em tudo o que é jornal, rádio e televisão, para não falar na internet, o pagode goza, à grande e à francesa, com descamisado presidente iraniano. Eu, agora, quando o vejo no ecrã tenho de me conter para não me mijar pernas abaixo. De riso, claro. A causa iraniana anda pelas ruas da amargura. O tonitruar anti-israelita (que já Esther a verdadeira contivera) perde seriedade se é que alguma vez teve alguma.
Só a drª Esther é que entendeu tudo ao contrário. Longe de agradecer à universidade americana este descalabro imenso do senhor Ahmadinejad, ela acha que mais uma vez a causa de Israel foi traída. Valerá a pena explicar-lhe alguma coisa? Ou será melhor deixá-la com os seus bugalhos e aproveitar os alhos desdenhados para num pingo de azeite saltear um belo molho de grelos que acompanharão, caso queiram, uma bela morcela da Beira?
Sempre nesta onda “febeapá” (quem não souber que leia Stanislau Ponte Preta que também dá por Sérgio Porto) cheguemo-nos ora, a um luminar da Igreja: o arcebispo de Maputo, Francisco Chimoio. Leio no imperdível blog “meubloconotas” do João Vasconcelos Costa que esta eminência entendeu afirmar que os europeus querem acabar com os africanos inoculando-lhes a sida através dos preservativos que eles, europeus, fabricam e vendem por aquelas bandas. E já agora, o prelado afirma também que os medicamentos anti retro-virais, produzidos e vendidos pelos mesmíssimos europeus, também propagam a SIDA.
As religiões são coisas muito sérias mas quando usadas em excesso produzem o chamado sono da razão. Este, à semelhança do da mosca tsé-tsé, povoa as mentalidades de monstros como alguma vez afirmou um tal Francisco de Goya y Lucientes. Não vou ao ponto de dizer que são o ópio do povo porque já alguém o disse antes. Um outro bispo, desta feita de Viseu, homem sábio, dizia que a religião devia ser como o sal na comida: pouco para dar sabor e não fazer mal. O problema é que pouco e bem não há quem.
Ora o senhor arcebispo de Maputo confunde um par de coisas, se é que não confunde tudo: a saber: se os europeus têm como clientes os africanos, e se estes, coitados, pagam a mistela que lhes vendem, porque raio é que se iria matar a galinha dos ovos de oiro? Então a rapaziada anda para aqui a explorar o pretinho e agora ia matá-lo? E a quem se haviam de vender os preservativos?
Mas suponhamos que um vento de loucura varria a Europa maldosa. Dado haver poucos judeus, e dado haver um iraniano disposto a fazer o frete de os liquidar, aceitemos que agora se teria de escolher outra “raça inferior” para prosseguir na via do finado Adolfo, o pintor da brocha larga. Acaso se iria logo liquidar os africanos que têm demonstrado ultimamente que são capazes de se auto-liquidarem sem ajuda nenhuma (veja-se o Uganda, o Darfur, a Serra Leoa, o Congo a Somália, e as restantes guerras (in)civis que percorrem o desventurado continente) deixando intactos os asiáticos que só pretendem a nossa desgraça, que vendem tudo mais barato e falsificam tudo desde os produtos Dior até aos galos de Barcelos? Não estaremos perante um senhor arcebispo garnizé a cantar de galo?
Claro que há sempre a possibilidade de o Senhor Deus dos Exércitos ter enlouquecido o seu Servo como também há exemplos múltiplos na literatura religiosa. Com que fins? Pois vingar os crentes islâmicos e fazer-nos rir dos cristãos. Ou mesmo, matar-nos à gargalhada. E então teríamos que, em vez de ser outra vez África mártir a ser sacrificada, seria a impante Europa a morrer com uma barrigada de riso. Não estaria mal visto. E os caminhos do Senhor nem sempre são perceptíveis...
Deixei para o fim o fait-divers: o dr. Santana Lopes, abandonou o plateau da televisão, dizem-me, que eu não vi, porque uma entrevista sua foi abruptamente cortada por uma parvoejada da redacção da SIC. Chegava a Lisboa o sr. Mourinho e só isso levava a SIC inteira a correr até à Portela para o ver. Convenhamos... Eu, claro, estou de acordo com a atitude viril e heróica de Santana. Isto não se faz! Um político sério, rigoroso, um modelo de virtudes governamentais (como se viu) municipais (idem, aspas) e parlamentares merece outro tratamento. O dr Santana Lopes, dizem-me, nem sequer agiu para defender a sua, dele, honra. Para isso há um passado sem televisões nem revistas do coração, sem frases bombásticas, sem violinos de Chopin, a falar por ele.
Claro que há-de aparecer sempre alguém a dizer que Santana conhece bem o meio, usou o meio até à exaustão, ganhou bom dinheiro nesse meio, com os meios desse meio, enfim, o habitual “por quem Deus nos manda avisar”.
Num breve momento, Santana Lopes, faz esquecer um governo Titanic, o seu, uma insuportável bazófia, a sua, e reaparece lavado a OMO quimicamente puro. O gesto merece reflexão, acaso elogio. A SIC meteu o mimoso pé na argola, para não dizer que meteu a pata na poça. Não é a primeira vez e não será a última. A sociedade do espectáculo fraquinho que temos não dá para mais. Ou melhor: dá para Santana sair vencedor e para um país babado se render, esquecido, ao novo herói do dia. Felizmente, Santana não é pessoa para deixar os créditos em mãos alheias, e com o tempo, fará esquecer a burrice supina da SIC. Espero-o pelo menos. E não me esqueço do desastre absoluto que ele foi. Era o que me faltava.
Já agora: quantas pessoas vão deixar de ver a SIC e os seus subprodutos?

a gravura: os únicos soldados de que se deve gostar. De chumbo e inofensivos.

27 setembro 2007

expediente 9


Conheci a Marta, ainda pequena, pela mão amável do Anibal Belo, velho e querido companheiro dos tempos de Coimbra.
Pouco a pouco vi-a crescer até que num dia, ainda antes de se formar em Arquitectura, fomos surpreeendidos pela primeira exposição. Desenho segurissímo, claro e solto. E pouco a pouco, ano atrás de ano, a Marta foi mostrando o que fazia. Sempre bem, melhorando a cada dia, a mesma mão certeira, o mesmo olhar inocente sobre o mundo.
Desta vez, aproveitou umas pequenas férias e fez o que se vê.
Quem viva no Porto ou perto, passe pelo Ipanema Park que não perde tempo. Por isso e para ver se tenho um desconto nas peças que comprei aqui a trago ao convívio dos incursionistas (escrevinhadores e leitores).

25 setembro 2007

O leitor (im)penitente 20


A concorrência aumenta...

Ainda não tinha secado a metafórica tinta do meu post abaixo e eis que alguém me comunica que se pode ler imensa coisa sobre André Gorz num blog chamado www.ograndezoo.blogspot com.
É verdade. Mais um colega recente a fazer-nos concorrência. E da boa. Vale a pena ler. O blogger parece que gosta de política e poesia. Grande novidade! Também eu!
E a propósito de poesia e de grande zoo aqui vai para homenagear o recem-chegado e o grande Nicolás Guillen:
Foram caçar guitarras
em noite de lua cheia.
e trouxeram esta,
pálida, fina, esbelta,
olhos de inesgotável mulata,
cintura de madeira aberta.
É jvem, mal voa.
Mas já canta
quando ouve noutras jaulas
entoar sons e cantigas.
tem na jaula esta inscrição:
"cuidado:sonha"



a gravura: Picasso: violino e guitarra. O poema chama-se "A guitarra" e foi publicado em "O Grande zoo", de Nicolás Guillen pela Editora Centelha (de Coimbra) em 1973. como diria o Eduardo Guerra Carneiro "isto anda tudo ligado" (outro livro a não perder).

O leitor (im)penitente 19


André Gorz
No glorioso ano de 75, ano de todos os perigos para a ideia de revolução, para a minha ideia de revolução, melhor dizendo, caiu-me na mão um livro de Gorz, o primeiro, aliás: "Reforma ou revolução". Uma revelação? Tanto também não mas um livro que me permitiu arrumar algumas coisas.
Dele apenas conhecia alguns artigos, publicados, suponho, em "les temps modernes" e este livro teve uma segura importância no meu percurso.
ao longo do tempo vli mais três ou quatro livros de Gorz. Recordo este "Adieu au Proletariat" e mais tarde "Les Chemins du Paradis". Haverá mais um ou dois nas estantes cá de casa mas estes três são os que me ficaram marcados.
A gente é assim: de simpatias. E de leituras num certo tempo, num tempo certo.
Agora leio que se suicidou. A notícia apanhou-me numa manhã leve e fresca, enquanto bebia um café e me dispunha a ler o jornal na habitual esplanada ainda quase deserta mas sempre com o perdigueiro maluco a correr pelo jardim. Por um momento, por um longo momento, senti-me muito mais velho e cansado. Não sei porque se matou e, de resto, isso agora já não é relevante. Mas não deixo de me sentir desanimado, triste e cansado.

O Metro do Porto na Asprela (continuação)

aqui escrevi sobre a saga do metro do Porto na zona da Asprela. Agora, com uns dois anos de atraso, a empresa Metro do Porto decidiu finalmente arranjar o piso e as áreas de circulação da Rua Dr. António Bernardino de Almeida, arruamento que serve o IPO, a Escola Superior de Enfermagem e várias outras instituições de ensino, um hotel e um centro comercial e que ficou esventrado todo este tempo por acção das obras do metro. Parece que a seguir será a própria Alameda Dr. Hernâni Monteiro, defronte do Hospital de S. João, a ser recuperada, de modo a acabar com os túneis a céu aberto que de nada servem. Até aqui tudo bem, apesar do longo atraso registado.

Contudo, encerrada ao trânsito a Rua Dr. António Bernardino de Almeida, as “autoridades” decidiram desviar a circulação automóvel para poente, em direcção à Rua de S. Tomé. E é aqui que a porca torce o rabo. Precisamente no cruzamento da Estrada da Circunvalação com a Rua de S. Tomé, aconteceu há alguns meses um aluimento da via da direita na sequência de uma obra que aí decorria. Por essa razão, enquanto ninguém repara o aluimento o imenso tráfego é desviado para um local incapaz de escoar o volume de trânsito que para aí é debitado, provocando engarrafamentos tremendos em horas de ponta.

Quem gere o espaço público não viu isto? Quem é responsável por aquele aluimento e pela sua reparação? Quem deu ordem para começar uma obra sem acabar a anterior? Por estas e por outras tenho pena de não haver por aqui calhambeques ou avionetas. Assim, o Senhor Dr. Rui Rio sempre se esmerava em ter isto num brinquinho…

Mas…

Uma das características do discurso usual dos portugueses é conter, invariavelmente, um mas. Gosto disso mas não posso comer; gosto deste documento mas devia estar um pouco mais sintético; o professor até ensina bem mas…; aquele tipo é competente mas…

Depois temos as primas e vizinhas do mas: porem, todavia, contudo, não fora, se não fosse, no entanto, se, …

Não há o habito corrente de elogiar e quando, por milagre, alguém se lembra de fazer algum reconhecidamente positivo o mais certo é que seja estragado com um mas ou algo similar.

Criticar é tão fácil. Salta com muita facilidade. Normalmente a critica aos outros, claro, já que a autocrítica anda pelas ruas da amargura, apesar de ser das melhores ferramentas pessoais que conheço.

24 setembro 2007

Au Bonheur des Dames 86


Solidariedade!







há momentos em que se deve ser humilde perante a coragem. E solidário .

missanga a pataco 27

Adventure in Portugal the beautiful


Farto, fartíssimo das inépcias, da grosseria, do gigantismo e do preço do mau serviço que me prestam, resolvi mudar de banco. Fui obviamente recebido com folares e cavalhadas pelo gerente da agência do novo banco que agora abriu aqui. Pudera! Ao que sei já uma data de vizinhos puseram pés ao caminho com a mesma finalidade. Para a “Obra” já dei tempo demasiado.
Ora nisto de emigrar de um banco para o outro, nem tudo são rosas, sobretudo se as pessoas tiverem contas mensais de serviços vários domiciliadas.
Comigo então é um rosário delas: a água, a luz, o telefone, a tvcabo, o seguro automóvel, o gás, a via verde e sei lá mais o quê.
Munido dos diferentes papeis que as empresas mandam para avisar o incauto que tem de pagar, lá fui ao novo banco, entreguei o maço e, ala que se faz tarde, um café para me retemperar do esforço.
Quando hoje lá voltei para continuar o calvário da abertura (hoje era para receber um cartão de crédito provisório e me associar ao sistema internet do banco para futuramente gerir a débil conta que abri) informaram-me pesarosamente que a maior parte das facturas ou não traz o número de identificação do credor ou não traz o numero da autorização de débito em conta. Ou as duas coisas. O sr doutor vai ter de lhes telefonar que aqui por nós o processo arrisca-se a demorar o dobro do tempo. Sim, senhor, pois claro, vou já tratar disso, que a minha ojeriza ( o burro do computador também não conhece esta palavra!) ao banco anterior mantém-se viva e intacta, se é que não aumentou.
Em casa resolvi começar pela mimosa EDP que tem um número de atendimento até às 20 horas. Às 17, uma voz feminina e seca como o deserto da Trafaria, indicou-me que não havia nada a fazer. “Não é possível estabelecer a ligação”, dizia a invisível criatura.
Bom, vamos tentar a internet em www.edp.pt. Sai-me uma coisa toda em ingliche! Devem pensar que eu vivo no East End, no Surrey ou qualquer antiga colónia de Sua Majestade. Tentei depois encontrar uma coisa que servisse os pobres consumidores mas as opções mais evidentes dividiam-se entre investors e journalists.
Com alguma batota, lá consegui mandar uma mensagem a pedir os dados em falta. A resposta, pronta e em duplicado e sempre em ingliche (técnico?) dizia-me o costume: que a minha mensagem will receive full attention. E minha opinion is great importance for EDP group.
É por estas e por outras que uma pessoa de bem e de idade, de seu natural calma e optimista, tem, de quando em quando, a vontade imensa de ir por uma lata de petróleo e uma mão cheia de pregos , fabricar uma bomba artesanal e, zás!, pô-la no primeiro balcão da edp que lhe ficar em caminho. Por muito menos a Al Qaeda mata americanos ou gente que se lhes assemelhe.
E não há quem puxe a delicada e felpuda orelhinha do big chairman da electricity of Portugal on the rocks?

From oporto to universe,
mcr sincerely
Ora porra!

23 setembro 2007

Estes dias que passam 77


Marcel Marceau

Só quem o viu! E quando digo viu, falo disso mesmo. Ver. Ver um homem num palco nu, sem uma palavra, ele e o seu gesto. Ah, anos 50, gloriosos anos para o teatro que viram autonomizar-se uma arte maior, o mimo. E durante muitos anos, mimo e Marcel Marceau quiseram dizer a mesma coisa. O milagre do teatro, desta vez sem um dos seus elementos maiores, a palavra. Mas a mesma intensa comoção, a beleza calorosa do gesto, o amor por uma história bem contada.
Aos noventa e quatro anos Marcel Marceau navega pelos espaços siderais, os anjos que se acautelem pois este viajeiro nunca precisou de asas para se erguer no palco.

Uma senhora, uma grande senhora, já aqui o disse, e repito, deu mais uma lição às tristes criaturas que nos governam: Ângela Merkel, uma conservadora, recebeu o Dalai Lama na Chancelaria. Só numa republica semi-bananneira como esta em que nos estamos a transformar é que o diktat chinês (se é que o houve, pois dizem-me que a não recepção ao Dalai-Lama foi toda saída da cabecinha dos nossos governantes) teve força suficiente para fingir que o Dalai-Lam é mais um emigrante clandestino .

Aliás parece que a triste vergonha vai continuar: desta vez receberão com folares e cavalhadas o tirano do Zimbabué, um empedernido criminoso que governa a chicote um pais desfeito em vias de rapidamente se tornar o exemplo absoluto da pobreza provocada. Ao que parece, Gordon Brown, primeiro ministro britânico não virá justamente porque não quer encontrar-se com a detestável criatura. E resta saber se outros políticos europeus não lhe seguirão o exemplo. É que, convém dizê-lo, Mugabe tem desde há muito a entrada proibida na União Europeia. A cimeira perde assim tudo ou quase, porquanto perderá grande parte da sua reduzida relevância sem a Grã Bretanha. O desejo de protagonismo do governo português leva a estes extremos de ridículo.

Pouco a pouco, por todo o pais vão-se erguendo vozes sobre a vergonhosa omissão dos jogos de uma equipa nacional na televisão pública. Por uma vez sem exemplo uma equipa de gente vulgar ou quase tem mostrado que Portugal pode ser mais do que fado, Fátima e futebol. De todos os lados, e nos mais prestigiados meios de informação tem podido ler-se homenagens a gente nossa, em três jogos dois jogadores portugueses foram considerados os homens do jogo, e uma equipa vencida mas não batida, a portuguesa tem saído dos estádios sobre o aplauso unânime do público.
Pois bem, a gentinha da televisão e quem nela manda continua mouca como um portão de quinta. E defendem-se com a sport tv, como se não tivesse sido possível um acordo amigável com este grupo privado.
Não há quem faça uma placagem a estes fulanos e os mande para fora do campo por uns tempos?
Este apontamento pertence à série “ o rugby que você não vê”.

Diário Político 65


Longa deriva para o centro

Eu sou um antigo e orgulhoso leitor de Salgari (Emílio) e de Verne (Júlio). Isto assim dito não tem qualquer importância nem significado especial excepto se vocês aí desse lado do ecrã me aceitarem como pessoa de certa imaginação. Imaginação temperada por mil aventuras de que os dois autores, por cá tão estupidamente esquecidos (porque nem se imagina o número de sites a eles dedicados por essa internet fora) foram, aceitarão inexcedíveis por muito Harry Potter que por aí ande a mostrar habilidades. Verne e Salgari nunca recorreram a artes mágicas para fazer os seus heróis vencerem as adversidades. Pelo contrario puseram em cena gente normal mas teimosa, destemida mas prudente que com paciência, bom senso e alguma ciência enfrentavam e venciam os desafios com que se deparavam.
Como já disse estes autores caíram numa certa obscuridade neste risonho país, ainda que eu saiba, por experiência própria, quão disputadas são as suas obras no chamado mercado alfarrabista. Sinal que os verno-salgarianos andam por aí como o nunca assaz lamentado dr. Santana Lopes, o inventor da política bola de sabão.
Mas a que vem tudo isto, esta divagação por autores que os nossos políticos lamentavelmente ignoram, como aliás suponho que ignorarão Marx ou Tocqueville, Bobbio ou Montesquieu ou, mais nacionalmente, o falecido Dr. Oliveira Salazar, pessoa detestável mas que deixou algumas pistas interessantes sobre o anestesiamento dos cidadãos e o valor da propaganda na imagem dos regimes?
Ora tudo isto vem dessa frase de somenos pronunciada pelo senhor Primeiro Ministro sobre o que é a essência do P.S. (ou pelo menos do PS que ele governa com mão de ferro e luva de veludo), S.ª Ex.ª deixou cair sem escândalo dos seus correligionários, ou se o houve não teve pública manifestação, que o partido era de centro-esquerda.
Convenhamos: ninguém se admirou muito, se é que, sequer, em algum cérebro mais confuso, algum laivo de surpresa perpassou. A acção governamental tem-se pautado por um principio simples e prático do ponto de vista de ocupação do espaço do poder: o governo tem feito o que a direita tentou mas não soube fazer. Ou receou fazer temendo que a confundissem com o finado (?) Estado Novo. Ou seja, o PS governa à direita retirando o tapete ao pobre dr. Marques Mendes que a nada é poupado. Roubam-lhe o parco programa, ocupam-lhe o território e deixam-no mu e inerme à mercê do dr Meneses, o tal que se celebrizou por ser contra os elitistas, sulistas e não sei que mais. Com essa frase de que chorosamente se arrependeu, mal sabia o dr. Meneses que ela o projectaria para a luz forte dos holofotes da opinião pública que viu nele, ligeiramente remodelado, um daqueles brigadeiros que Eça descrevia numa polémica com Pinheiro Chagas. A partir desse momento o dr. Meneses deixou de precisar de ideias, de que de resto não há sinal no que vai debitando. Ficou com uma fama de político que é contra os políticos e com isso, apenas com isso, ameaça o dr. Mendes. E corre o risco de ganhar. Teríamos assim na direita, no centro direita, se faz favor, uma anti-Sócrates à medida, com a mesma falta de ideias mas aureolado com o prestígio que, desde sempre, Portugal tributa a este género de criaturas que põem na ordem os senhores, os elitistas, os licenciados das grandes universidades, os “bem educados”, os “bem nascidos”, enfim os oriundos do “establishment”.
Porque é isso, no fundo, o que Sócrates anuncia com o tal “centro-esquerda” a que vota o PS, partido que ainda há bem pouco tinha no Estatutos umas referências (inócuas e para inglês ver) ao marxismo e à luta de classes. Sócrates veio dizer, preto no branco, o que, desde há muito (desde a sua eleição pelo menos, dentro do PS), era mais que visível. O PS é um partido de centro-esquerda, ou seja uma espécie de ala esquerda do centrão cinzento que boa parte dos seus actuais militantes quer. A bem dizer estes esforçados cavalheiros que enchem por estas alturas as secções e federações do PS sempre entenderam que boa parte das palavras de ordem antigas eram meras balivérnias que podendo servir para ganhar eleições não serviam de modo algum como bússola para a acção política. Direi mesmo mais, fosse Sócrates o primeiro ministro em vez de Barroso e também ele teria ficado na fotografia dos Açores com o casal Bush-Blair e o menino das alianças Aznar.
Temos pois a confirmação oficial da deriva do partido do dr. Sócrates. Oficial repito porque oficiosamente a coisa vinha de bem mais longe, por muita margem esquerda e outras ilusões que iam vegetando dentro do partido. A linha maioritária, e aqui a palavra maioritário deverá significar uma fortíssima percentagem que não dará à esquerda sequer os 16% que a candidatura Alegre obteve na ultima pugna intra-partidária, há muito que vinha defendendo o recentramento do partido ainda que isso torne inútil o qualificativo “socialista” como de há muito se mostrou inútil o “social democrata” do PPD ou o CDS do PP.
A nau Portugal vai vogando para o no man’s land da desideologia em nome do pragmatismo, da realpolitik e do combate aos abusos e desvios revolucionários. Mesmo se esses abusos já só forem uma mera lembrança, mastigada por vinte anos de normalização, por mais um par de anos de união europeia. E pela desqualificação acentuada das organizações putativamente á esquerda do partido socialista. Também delas só resta uma vaga recordação. O partido comunista enquistou-se numa tristonha e defensiva hagiologia de Álvaro Cunhal, o último bolchevique, e o chamado bloco de esquerda, tem tão pouco de bloco como de esquerda: basta ver a ânsia com que se coligou em Lisboa e a pobreza das propostas que apresenta. É folclórico, provavelmente anti milho transgénico e socialmente fracturante mesmo que isso diga pouco ou nada aos “trabalhadores” portugueses. É mesmo, a nível de direcção política visível, outro símbolo de uma certa elite que desde sempre se associou à detenção do poder.
Neste teatro de sombras que é a política nacional, a frase de Sócrates tem pelo menos um mérito: indica um caminho. Não o caminho futuro mas o caminho já feito. Daqui para a frente tudo é possível, por exemplo vir a ser o partido centro-central.
E não se preocupem os que pensam o mundo como algo em que há horror ao vazio. Em Portugal é perfeitamente possível haver centro, direita e até extrema direita sem necessidade de esquerda. Nalguma coisa havíamos de ser originais.

PS: no “Manifesto” diz-se de entrada que um fantasma aterroriza a Europa: o fantasma do comunismo. Ora aqui está uma coisa em que Marx e Engels tiveram razão: o comunismo (que não era o que depois Lenin e os seus amigos dele fizeram, convém dizer), e com ele o socialismo e a esquerda começam cada vez mais a ser meros ectoplasmas. Pelo menos em Portugal, país de que Marx, pelo que me lembro, não fala. Mal ele sabia que, exactamente cento e sessenta anos depois do Manifesto, este, pelo menos nesta parte, seria tão profético...em Portugal.

d'Oliveira
(que jura a pés juntos não ser proletário nem nada que se pareça nem membro de qualquer associação política, religiosa ou social. E que ao nome de Marx também responde Groucho. Mas nem sempre.

22 setembro 2007

Desistir


Tudo era um silêncio absoluto.
O mundo formado de pedras,
água, luz. Imóvel.
Tudo era um inverno de silêncios,
de modo que o mistério
desvelava e ocultava sua face
sem que compreendêssemos.
Vivíamos da memória das coisas.

Hoje ao descortinar a noite,
a meia lua nítida,
os ruídos da cidade nos entraram
pelos olhos e ouvidos.
A canção nos tocou,
o poema subiu-nos à garganta.

Sair da tangência dos dias,
e vislumbrar vida.
A quem será dado o privilégio
em meio ao tempo,
às nostalgias, à memória,
de perceber a humaníssima possibilidade
de retorno ao amor?
A quem, se desistimos dele?


Silvia Chueire

21 setembro 2007

Seguros de Vida, Crédito e Fraude

A falta de ética profissional e do sentido de responsabilidade social é elevada nestes tempos de voluntarismo, neoliberalismo bacoco e de promoção da imbecilidade.

Todos os adultos responsáveis procuravam deixar os seus filhos em melhor posição do que a que haviam herdado. A preocupação com a nossa prole é uma questão civilizacional (não digo biológica, porque o homem vai perdendo o contacto com a Natureza e procura fazer de conta que os mecanismos biológicos não se lhe aplicam). Todos amamos os nossos filhos e queremos de certeza que eles tenham melhor vida que a nossa. Por isso, num tempo de crédito fácil, a aquisição de habitação foi acompanhada de seguro de vida. Quem subscrevia a apólice acreditava (é mesmo acto de Fé) que, quando morresse, o seguro pagava o crédito e assim não deixava encargos aos seus filhos.

Os seguros eram contratados nas seguradoras no mesmo grupo do Banco e assim os seus accionistas (as únicas pessoas que constituem uma grande preocupação social, como se o capitalismo popular e as Bolsas não contribuíssem para a desgraça do mundo e a depauperização, beneficiando especuladores e nababos que nada fizeram na vida) recebem de todo o lado.

O problema é que agora começaram a morrer as pessoas que fizeram aqueles seguros. As seguradoras não pagam os capitais seguros aos Bancos. Pedem mil e um documentos, informações inúteis, a pretexto das coberturas e das cláusulas da apólice. E se for necessária autópsia, então é para esquecer. Demoram mais de 2 anos os resultados dos exames. Entretanto, o Banco vai cobrando as prestações (enquanto a família puder pagar). Se acabar o dinheiro, não há problema para o Banco que pede execução, penhora e requer a adjudicação do imóvel por 70% do valor. Tudo em nome do Direito ! Esta vigarice fas com que o Banco fique com o bem e ainda credor do remanescente, por um crédito que devia ter sido pago pela seguradora do Banco. Claro que há um dia em que a seguradora resolve declarar que afinal estão reunidos todos os elementos para proceder ao pagamento do capital seguro. Mas, nessa altura, apenas paga o capital seguro á data da morte e os herdeiros, não podendo pagar ao Banco os juros que lhe sejam exigidos, ficam sem nada !...

Isto é uma fraude.

Uma vergonha!...

20 setembro 2007

S/ TÍTULO

A reunião marcada para as 10H00 de ontem, da Comissão de Orçamento e Finanças da Assembleia da República, não se realizou, por falta de quórum, apesar do Presidente da Comissão ter aguardado os 30 minutos da praxe. Como a Comissão é constituída por 27 deputados, tal significa que 14 ou mais deputados faltaram à reunião, tornando ainda improdutiva a deslocação dos que compareceram.

Do sítio da Assembleia da República não consigo saber qual a agenda da falhada reunião, o que seria interessante para ver quais os assuntos que foram adiados…

Outra curiosidade com que fico é a de saber como é que os deputados faltosos justificarão (se é que a tal estão obrigados) as respectivas faltas.

Tempos conturbados

Há épocas da vida em que sentimos que tudo corre mal. As nossas certezas vacilam! As nossas convicções deixam de parecer coerentes com a realidade que vivemos! E, no entanto, não conseguimos deixar de ser o que somos, de agir como consideramos correcto, esperando que a turbulência passe. E há-de passar ...

Há dias, faltei a uma almoçarada porque tinha julgamento num daqueles processos que já nos custa ver, tal o tempo decorrido, tais as vicissitudes porque passou. Mas dever é para cumprir. Só que, na hora designada, com o Juiz na sala, verifica-se que a Colega não apareceu, nem disse nada. Faltavam também as testemunhas que ela havia arrolado. Mandei SMS. Recebi resposta que estava noutro tribunal. O Senhor Juiz, nos termos da lei, dado não ter recebido qualquer comunicação da mandatária, queria iniciar o julgamento. Senti-me desconfortável e solicitei o adiamento, que me foi deferido com o elogio pelo comportamento deontológico. Não percebi sequer o elogio, pois pensava que todos assim procediam. Mas, segundo me foi dito, parece que a prática já não é esta! Triste profissão a minha!

Sábado passado, durante hora e meia, estive a falar a dirigentes dos Escuteiros sobre a responsabilidade civil e criminal. A incredulidade dos ouvintes foi patente. De facto, não se admite que pessoas que dão a sua vida, esforçada e gratuitamente, ao serviço dos outros possam ser responsabilizadas pessoalmente, nos termos em que os tribunais vêm interpretando a causalidade adequada em caso de acidente, onde se inventam mil e uma acções exigíveis para evitar o dano. Não há protecção para quem trabalha em favor dos outros. Nenhuma seguradora aceita cobertura adequada, muito menos para quem trabalha com menores de 14 anos. O Estado devia promover um Seguro Social do Voluntário que lhe permitisse trabalhar com um mínimo de protecção contra os riscos inerentes à acção educativa. É claro que a sociedade privilegia o ócio e a estupidez das novas gerações, em nome de uma falsa noção de proteccionismo, que muitas vezes roça a paranóia do risco. A vida comporta riscos e as crianças e jovens precisam de aprender a enfrentá-los, promovendo a solidariedade, a partilha, a participação, o empenho pessoal e comunitário, o desenvolvimento integrado e equilibrado da habilidade manual, da criatividade, da inteligência, da vontade e do sentido de dever e da responsabilidade.Mas nesta sociedade mesquinha, obtusa, confusa e emocional, os verdadeiros problemas não se colocam, não se discutem, não se resolvem.

O sistema legal português é disfuncional e constitui na actualidade um elemento de grave perturbação da organização e coesão social. Por isso, ninguém entende as leis que saem (a não ser os altos especialistas que as elaboram), nem os critérios de aplicação, nem as decisões judiciais. Quando assim acontece, a culpa de certeza que não é do Povo! Ou será?!

Para a semana, devo estar mais bem disposto, espero eu ...

19 setembro 2007

REFORMA DO CPP & COMUNICAÇÃO SOCIAL

O que a comunicação social tem noticiado sobre o momento conturbado que se vive na Justiça não é lá muito tranquilizador para o cidadão comum. Claro que a comunicação social, nomeadamente a imprensa, escolhe para títulos os aspectos mais negativos, sensacionalistas ou dolorosos, acreditando que essa opção funcione para promover o jornal e incrementar as vendas.
Creio que esta estratégia já não deveria espantar ninguém e muito menos originar grande reflexão ou recriminação, a não ser que esses títulos assentassem em mentiras ou em leituras erróneas ou deturpassem claramente declarações proferidas por agentes judiciários, por políticos ou por personalidades com intervenção pública sobre as matérias da justiça.

Ora, em meu entender, o que alguns operadores judiciais têm declarado, acerca dos problemas desencadeados pela entrada em vigor do Código do Processo Penal, validam os títulos que a comunicação social tem espelhado.

Ainda há dias o JN titulava: “Crimes Económicos em alto risco de arquivamento” e em caixa titulava: “Assassino de criança de cinco anos foi posto em liberdade”. Na mesma página o JN apresentava declarações de personalidades intervenientes no processo judiciário que confirmam que 70 a 80% dos processos de crimes económicos, corrupção e de outros crimes complexos poderão vir a ser arquivados na sequência da entrada em vigor do novo CPP, conforme se induz das declarações do Presidente da ASFIC, transcritas na notícia. O Procurador-Geral da República também aparece a chamar à atenção para o
perigo de bloqueio à investigação criminal com os novos prazos do CPP.

Por sua vez, Maria José Morgado fala do “risco de colapso” dos serviços de investigação criminal. A Procuradora geral Adjunta, Cândida Oliveira, diz que “ a investigação da criminalidade económico-financeira e do terrorismo está em causa” e diz ainda que os prazos fixados para a investigação da criminalidade económica é “uma norma com uma interpretação muito ambígua” (DE, 19/9).

Perante as leituras que o novo CPP desencadeou dentro do sistema judicial será que a comunicação social não está a ser fiel transmissora do sentir do povo judiciário? Por outro lado, não há razões para que os utentes da justiça se interrogarem acerca do estado de sonolência que terá atacado o edifício judicial ou das razões para esperar pela entrada em vigor no novo CPP para se gerar toda esta controvérsia?

Não restam dúvidas que os títulos, muito de negro carregado, incutem um sentimento de insegurança na população. Contudo, parece-me que tal não resulta da interpretação abusiva da comunicação social, pelo contrário, tem por base a leitura que os diferentes agentes judiciais transmitem, para a comunicação social, do novo CPP?

É altamente provável que as críticas contundentes formuladas pelos diferentes operadores façam o seu caminho e a comunicação social ao dar-lhes eco gerará a ambiência social para os políticos inflectirem algumas coisas, retalharem outras, alterarem (descaracterizando eventualmente) o novo CPP.

Como alguém, ironicamente, dizia há dias num debate sobre a educação, em Portugal as reformas nunca começam pelo sítio certo nem no tempo certo. A reforma do CPP é mais um exemplo!

Au Bonheur des Dames 85


Outra carta para uma amiga em parte incerta


Não se espante, querida amiga, do tom dorido desta carta que, agarrada a um laivo informe de esperança, envio para o éter, acreditando que, pelos misteriosos e ínvios caminhos da internet, a alcance.
Vai pois insegura porque isto do éter, da internet e de mais um par de coisas do mesmo teor, assenta em tantas improbabilidades quantas a da teoria da evolução do senhor Darwin.
E se, nos Estados Unidos, farol da civilização técnica, boa parte da população descrê absoluta e firmemente do homo sapiens, mais ainda do sapiens sapiens sem falar nessa abominação que foi, ou é, a tal Lucy (in the sky with diamonds?), Lucy essa, convém dizê-lo que não é mais que uma mão mal cheia de ossos de uma criatura baixinha e francamente simiesca, porque havemos de acreditar nestas coisas que agora o senhor Steve Jobs e o senhor Bill Gates nos querem vender como a última e definitiva maravilha da comunicação ?
Todavia, façamos um esforço e acreditemos que estas mal traçadas regras, que vou deitando a um ecrã azul do MacBook Pro (sim um Macintosh, dessa negregada apple que agora se enche à custa da musica alheia e do ipod), viajarão por céus nunca dantes navegados e, ventura indizível, a encontrarão, porventura em Calecut, jantando em casa do Samorim e discutindo bagatelas filosóficas do Kamasutra ou do Maharabharata (mas poderia igualmente tratar-se do Mahabhasya do grande Patanjali ou, até, audácia das audácias, do Manavadharmasastra esse grandioso texto jurídico em dez livros e 2685 estrofes, só na Índia prodigiosa é que se escreveria um livro de Direito em verso, mas enfim...). Seria sinal de que os portugueses de antanho estariam finalmente perdoados da manhosa descoberta do Gama, das bombardas de Diu, das inumeráveis mortes causadas por D Francisco de Almeida para vingar o filho Raul, mimoso adolescente, que o turco infiel, ou o indígena igualmente infiel, trucidou não recordo já em que circunstâncias.
Mas eu perco-me, como de costume, terei de o confessar, eu perco-me subitamente desviado pela epopeia de descoberta, enfim, da viagem que levou do torrão lusitano gente para as Índias, para as Ilhas das especiarias, para a Abissínia do Prestes João ou para o Tibete desse actual réprobo que se intitula Dalai Lama e que a reacção internacional coroou com o Nobel da Paz. Nem consigo entender como é que o deixaram pôr o pé, enfim a sandália, no território nacional. Bem avisado andou o Governo da Nação que o ignorou olimpicamente enquanto ele, sorrateiro destilava a habitual peçonha contra os actuais mandarins que governam o Celeste Império com quem Portugal mantém uma aliança tão antiga e profícua, uma aliança que em breve se traduzirá na inauguração de uma asseada chinatown que uma senhora doutora Nogueira Pinto, recentemente eleita vereadora de Lisboa (ai não foi eleita? Pois merecia! Mas elegem-na agora, nem que seja por postura municipal, que grosso favor fez ela à actual vereação fazendo cair a anterior, acho muito bem que lhe dêem o vice-reino da baixa pombalina já que provavelmente não lhe poderão conceder o grande colar da Ordem da Liberdade por espúrias razões ligadas ao devotado amor que a senhora nutre pelo falecido dr. Salazar, aquele que disse: em política o que parece é!).
Mas não querem lá ver que me perdi outra vez: ai do triste que navega na sua bateirinha pelo mar proceloso da internet à mercê de ventos alísios mas inconstantes, em demanda de Frau Kamikaze, a desaparecida em parte incerta, de que não há novas nem mandados há um largo tempo.
Que foi? Que não foi? A que se deve esta prolongada ausência deste palco que foi sempre seu, dos aplausos prolongados do respeitável público rendido às artes, às malasartes, duma Kamikaze cujo nome prometia e cuja acção cumpria sobradamente as promessas?
Terei eu, teremos nós todos, incursionistas, cometido, por pensamentos palavras ou obras, algum pecado capital entre os capitais, algum crime inqualificável, alguma afronta imperdoável, algum desleixo insólito e grave cujo castigo, o primeiro de uma longa lista, seja este desdém, tenaz e pungente, que sobre nós, sobre os nossos amigos, companheiros e compadres, sobre a inteira rede bloguista se abateu como um vento malsão, um maremoto daninho, um eclipse dessa inteira galáxia chamada K.?
Mas o que fizemos, ó mais ilustre das ex-juristas, ó provedora deste vosso aflito filho de Eva desterrado neste vale de lágrimas e que andava a tentar pedir-vos o favor de o ensinar a pôr um link, maldita palavra (maldita corvina diria, se arrotasse, o que não faço por educação antiga e respeito novo mas sincero por vós, ó maga, feiticeira, bruxa, endireita, se mais não puder ser, aí do bairro da Estrela ou do luminoso Allgarve onde volta e meia estadeais nesse centro cultural prestes a abrir) mas única, pelo menos não sei outra, aliás sei: links, ah palavra prenhe de esperança noutros tempos, links bin Ich, poderia dizer este ex-quase berliner que nunca, niemals, jemals, esqueci essa cidade marcada com uma cicatriz que era um muro, der Mauer, a prova provada que a memória antiga dos arames farpados, não espera senão uma oportunidade para reemergir das trevas onde a pensávamos para sempre remetida.
E lá me perdi de novo. Está a ver Kami, o que dá abandonar-nos aqui, nesta terra que, sem V., é terra de ninguém, como o romeiro do Frei Luís, também ele regressado de nenhures?
Dê-nos uma notícia, uma só, uma carta trazida em bico de rola, por um pelicano, pelo pássaro rok, esse mesmo, o desaparecido, pode até ser um bilhete postal, mas ilustrado por favor!, enfim qualquer coisa que nos acalme os humores, que nos arrefeça as saudades, que nos tranquilize os receios e que nos prove que se mantém viva e pronta a reentrar no seu avião e picar feroz e implacável sobre este nosso galeão das índias que pode estar cheio de pimenta e ouro e incenso e mirra mas que se perde seguramente nalgum malfadado sertão africano só povoado por cafres malignos à falta de timoneira.
Vosso, como sempre,
Mcr, grumete

na gravura: avião japonês da 2ª Guerra Mundial

17 setembro 2007

Um bom exemplo

Por razões profissionais, participei na passada sexta-feira, em Paredes, na fundação da APPIS – Associação Paredes Pela Inclusão Social.

O objectivo estratégico da associação é combater o insucesso e o abandono escolar através da prevenção e da remediação de factores de risco e através da indução de factores externos de sucesso, prestando especial atenção ao 3º ciclo.

O concelho de Paredes é o nono pior do país no que diz respeito às saídas precoces e antecipadas e a constituição da APPIS visa inverter esta realidade, tornando-se o primeiro caso de aplicação local das metodologias desenvolvidas pela Associação Empresários pela Inclusão Social, criada sob a inspiração e o estímulo do Presidente da República.

Este é um bom exemplo para caracterizar o que deve ser a intervenção pedagógica do mais alto magistrado da nação e para ilustrar a capacidade de iniciativa de uma autarquia verdadeiramente preocupada com a qualificação do seu território e das suas populações mais jovens.

15 setembro 2007

Estes dias que passam 76


De Sprinsgteen ao fado vadio,
raio de sorte a nossa

Há já muitos anos, tantos que me envergonho de os dizer (ou já não me lembro o que vem dar ao mesmo) um critico, suponho que da Rolling Stone, disse de Bruce Springsteen, por alturas da saída de “Born to Run”, que vira a face do futuro do rock. Não se enganava, claro, que o “boss” é uma máquina. Basta ouvir o disco que acabou de sair, há dias, de novo com a “E Street Band”.
Hoje vi, igualmente, a face do futuro do rugby. Em boa verdade também do passado e do presente! Vi os “all black” no jogo Portugal - Nova Zelândia. E digo vi, porque não tendo a sport tv e sabida que é a política televisiva portuguesa, pública ou privada, partilho com milhares de cidadãos essa capitis deminutio que é não poder ver uma selecção nacional a disputar um campeonato do mundo.
Já se sabe que sou um entusiasta do rugby porque já aqui o confessei. Estou contente com o pouco que consigo ver da equipa portuguesa. Hoje vi o jogo quase todo num amável restaurante de Carcavelos onde levei a minha mãe a almoçar. Enquanto ela e o tio Quim se batiam com uma dose faraónica de cozido à portuguesa, eu, de frente para um prato de jaquinzinhos com arroz de feijão regalava-me com o jogo.
A Nova Zelândia ganhou como não podia deixar de ser. Por uma diferença expressiva que todavia não envergonha os derrotados. E não envergonha porque se bateram como leões, embora a defesa tenha sido pecaminosamente frágil, há que dizê-lo. Mas o jogo teve grandeza, os neo-zelandeses não fizeram favores e, quando os portugas puderam, a coisa teve dignidade. Claro que me babei com certas jogadas dos “nossos” adversários que jogam muito e muito bonito. Tudo parece fácil com aqueles tipos. Fácil, aéreo, sereno!
No fim os jogadores portugueses aplaudiram os vencedores que por sua vez corresponderam com elegância e simpatia.
Tudo isto está a milhas desse miserável e obsceno espectáculo do futebol de há dias, do murro do senhor Scolari, das solidariedades patuscas dos jogadores que poderão jogar bem (nem por isso!...) mas só ganhariam em ficar caladinhos. Não ficaram. Igual verborreia atacou um punhado de dirigentes desportivos que acham tudo bem, tudo normal, até parece que foi o sérvio que bateu no treinador.
Parece que estas águias de voo rasante, melhor diria estes urubus, se esquecem que, mesmo no caso de provocação, o senhor treinador, devoto duma santinha nem eu sei bem donde, devia ter a presença de espírito e a dignidade (oh palavra horrível e abstrusa!) de ficar quietinho e de não dar o espectáculo que infelizmente se viu e se tem visto. Este senhor, neste jogo em particular, está a representar um país, Portugal, que lhe paga generosamente e que merece em troca ser dignificado pela boa educação do treinador nacional (insisto nacional!). Está em marcha uma campanha imbecil de desculpabilização que só nos inferioriza e sobretudo inferioriza os seus responsáveis. Não é primeira vez que se vêm cenas tristes no âmbito de uma selecção nacional. E pelo andar da carruagem vão ver-se muitas mais. Porque a histérica campanha desencadeada no sentido de absolver Scolari vai ter como frutos, cedo ou tarde, outras cenas pouco dignificantes no relvado e nesta selecção nacional. Normalmente só se pede aos jogadores pé mas convinha lembra-lhes que a cabecinha que trazem em cima dos ombros deve servir para pensar. E a carinha que acompanha a cabecinha citada deveria neste momento estar vermelha. De vergonha!
Dos dirigentes desportivos parece-me que não vale a pena falar. Já tinham mostrado de que madeira são feitos e é por estas e por outras que penso que o apito dourado é apenas a ponta mais apresentável do iceberg. E, já agora, a Portugal cabe o triste papel de Titanic.

a ilustração foi roubada ao Le Monde, meu jornal desde 1960. Bem que mereço roubar uma fotografiazinha, pas vrai, mes chers amis?

13 setembro 2007

expediente 8


Quatro anos de pastor....

É. Quatro anos! O João Tunes anda nisto há quatro anos... É obra! No mundo dos blogs quatro anos são quatro séculos. Ou, usando uma analogia que até há pouco, não agradaria ao João, um blog com quatro anos é como uma república coimbrã com a mesma idade. Celebram ambos quatro centenários. Ora aí está, João, uma pequena partida: parabéns pelo 4º centenário!
Voltando a um tom mais convencional, caro João, quero daqui dizer-lhe que primeiro por curiosidade, depois por necessidade me tornei um leitor diário do seu estaminé: o Agualisa6.blogs.sapo.pt
Com esta confissão angariei eventualmente um par de amigos e umas largas dezenas de inimigos, tanto mais que V. não é meigo quando dispara. Paciência! Para mim, um blog como o seu, é uma pedrada no charco das pequenas complacências, do nacional porreirismo, do somos todos bons rapazes e de outras perversas cedências que justificam tudo, aceitam tudo e acabam por ser causa de todos os desastres.
Em boa verdade isto deveria ser escrito aí mas tenho por mim, que aqui, nesta honrada barca de bons conversadores e melhores discutidores também não fica mal. E tenha um bom 5º centenário. E os que se lhe seguirem.

mcr

A gravura é do Pomar, esse grande senhor e chama-se “os três efes” mas não é isso que porventura pensem. Descubram!

Vergonha

aqui disse, há muito tempo, o que penso sobre o consulado de Scolari à frente da selecção nacional de futebol. E não vou gastar mais cera…Contudo, o que se passou ontem à noite no final do Portugal-Sérvia, com Scolari a agredir o jogador Dragutinovic e depois a ser incapaz de assumir o erro e de pedir desculpa aos sérvios, aos portugueses e a todos os desportistas em geral, ultrapassou todas as marcas imagináveis.

Recordando os pesados castigos impostos a jogadores das selecções nacionais de futebol por casos menos graves do que este, exige-se uma tomada de posição firme da federação e da própria UEFA. Não se pode transigir com este tipo de comportamentos, qualquer que seja o preço a pagar. A solução, no meu entender, é simples: Scolari já não deveria ter dormido esta noite na condição de seleccionador nacional de futebol.

E o que pensará disto o pressuroso secretário de Estado da Juventude e do Desporto, sempre pronto a aparecer ao lado de Scolari? E a administração da Caixa Geral de Depósitos, o banco do Estado que paga principescamente as campanhas publicitárias protagonizadas por Scolari? Haja decoro.

12 setembro 2007

LIVRO DE RECLAMAÇÕES - alerta!!!


Enviaram-se um e-mail com um artigo de Elisa Ferreira, publicado no Jornal de Notícias, de 25/05/2007, a dar conta de um facto estranho. Diz assim:


“… um grupo de amigos, todos gente madura e responsável, organizou um jantar num restaurante popular perto do Porto em que foram mal e grosseiramente atendidos; tendo pedido o livro de reclamações, só após hora e meia de espera e insistência acabaram por conseguir obtê-lo e nele escrever a merecida nota de protesto; passados meses, o cliente signatário da reclamação recebeu uma notificação do tribunal informando-o de que contra ele tinha sido apresentada uma queixa pelo dono do restaurante a acusá-lo de ter dado má imagem ao restaurante e prejudicado o seu negócio com o reiterado pedido do dito livro! Resultado: apesar das testemunhas abonatórias e da credibilidade das pessoas em causa, a decisão do tribunal foi no sentido de condenar esses clientes mal servidos e maltratados a uma indemnização do restaurante em 300euros!”.

Confesso que gostava de conhecer o teor daquela sentença. É que a mesma deve conter matéria interessante acerca do modo e dos cuidados a ter quando se pede um livro de Reclamações.

Confesso, ainda que, em meu parecer, o conteúdo da notícia não pode deixar de causar alguma estranheza e alerta. Portanto, manda a prudência que mesmo que nos julguemos com alguma razão de queixa devemos pensar duas vezes antes de pedir o Livro de Reclamações, não vá o dono entender que lhe estamos a estragar a imagem, avançar para Tribunal e ao valor da conta que já pagamos termos ainda de somar o valor da indemnização, fixada pelo Juiz, a que acresce a mancha da condenação em juízo.

11 setembro 2007

farmácia de serviço 37


A EMOÇÃO EM ESTADO PURO

A receita de hoje, vai parecer bem magrinha a quem (se há alguém aí desse lado) frequenta este estaminé. Tempos duros, difíceis, tempo de vacas magras e políticos gordos, mas isso é outro falar, cala-te boca, juízo, juizinho, que ainda te arrependes que “os de cima”, como dizia o B. B. (o de Augsburg, já falecido...) ainda te açulam a canzoada que medra por essa jornalada, atrás de tudo o que mexe, parece que é por via da iníqua liberdade de imprensa, da nossa imprensa ainda ontem saída da mordaça e com hipóteses de para lá voltar, uma imprensa bisbilhoteira é uma imprensa má, irresponsável, carteira profissional em cima deles, chicote, “knut” para citar um saudoso e desmilinguado ex-militante do partidão que agora professa uma sã aversão às extravagancias da liberdade, enfim deixemos isto que não vale a tinta metafórica que neles se gasta.
E vamos ao que interessa, Eric Tanguy, diz-vos alguma coisa? A mim também não dizia nada, raspas de nada até há uns dias em que ainda sem saber o nome da criatura vi um extraordinário Michel Blanc recitar acompanhado de uma orquestra um texto que me pareceu lindíssimo. Texto e música, já agora. Música da boa, pelo menos para mim, que não sou assim tão boa boca como isso. Numa segunda vez, também em zapping, voltei a apanhar este trecho. Sempre no mezzo, se não erro.
Raios parta isto, murmurei in imo pectore, que diabo será isto?
O diabo que, como sabem, anda de monco caído, com a desclassificação vaticana do inferno, agora ouve toda a gente. E já não é preciso vender-lhe a alma para ele, anjo decaído e decadente, fazer um jeito. E fez.
Apanhei, de cabo a rabo, o monodrama (é assim que lhe chamam) Senéque, dernier jour.
Recitante Michel Blanc acompanhado pela Orquestra da Bretanha. Música de Eric Tanguy sobre um libreto de Xavier Couture.
Tentei ver se há disco por aí. Niente, pelo menos nos locais do costume nem sequer na abeillemusic...
Para quem conheça os costumes do programa mezzo é fácil perceber que eles voltarão a transmitir este concerto. Não o percam. Uma pessoa faz as pazes (se é que alguma vez as cortou...) com a música contemporânea.

A gravura é de um disco de Eric Tanguy

10 setembro 2007

Caso Madeleine McCann

Quando começaram a aparecer as notícias do desaparecimento de Madeleine e alguém me disse que podiam ter sido os pais considerei tal hipótese como uma blasfémia.
Quando estes partiram para Inglaterra considerei que era o melhor que tinham a fazer para tentarem retomar alguma normalidade, apesar da pressão agressiva da comunicação social.
Pelo meio questionei-me se estes pais não teriam aberto uma porta perigosa ao incentivar e alimentar notícias na comunicação social e isso era perigoso porque, em algum momento, poderiam perder o controlo dos acontecimentos e passarem de dadores da notícia para a notícia em si mesma.

Agora, depois de saber que advogados vão contratar, fico com muitas reservas. A ser verdade, tudo indica que o dinheiro que muitos deram para procurar Madeleine vai cair nos bolsos dos advogados para protecção dos pais. Assim sendo, esta opção, em favor de si próprios, tem como reverso ser em desfavor da busca da filha. Por outro lado, a mim parece-me que quem se considera inocente não investe tanto na sua defesa.
Claro que esta notícia da indicação dos advogados pode ser falsa mas, a ser verdadeira, a minha crença inicial desvanece-se.

o leitor (im)penitente 18


Em qualquer sítio desta casa, provavelmente entre velhas colecções do “A Suivre”, do “Harakiri”, do “Charlie hebdo” e do “Echo des Savanes” ainda devem restar alguns exemplares do "Actuel".
Tralha dos anos sessenta e setenta, mais estes do que aqueles, dirá algum dos “rapazes” que depois de ter palmilhado “un petit bout de chemin” com a geração de sessenta foi dar uma volta por outro lado. Também por aqui há bom número de “arrependidos”, de “envergonhados” e de tontos que que acham necessário renegar tudo para acampar no neo-liberalismo triunfante. Os pobres tristes (e nunca a expressão “neo-cons” foi tão bem aplicada...) pensam que à força de novo proselitismo podem entrar na primeira divisão do conservadorismo... Alguém lhes devia contar aquela de “Roma não pagar...”
Bom, tudo isto vem a propósito de mais uma morte. Jean François Bizot fez o que pode contra o cancro mas este jogava em casa. Aos 63 anos é mais um de uma já longa lista que “passa a arma à esquerda”, para traduzir literalmente uma expressão que o seu antigo jornal não desdenharia. Bizot, pai do “Actuel” onde também estiveram Kouchner agora vagamente ministro (se é que Sarkozy já os deixa fazer qualquer coisinha) e Michel Antoine Burnier (e Patrick Rambaud, já agora) foi um dos homens da descoberta do underground pelos franceses e a esse título personifica, de certo modo, uma das derivas interessantes do joli mois de Mai. Impertinente, apaixonado, intratável segundo alguns, capaz de ganhar dinheiro em qualquer circunstância, ele que nascera rico e que, recém-formado em engenharia entra clandestinamente como operário numa fábrica para perceber como era, foi além do mais um jornalista talentoso que começou no Express, vagueou pelo Nouvel Observateur antes de se convencer a fazer ele mesmo um jornal que fosse diferente. E foi. Para elogio fúnebre, chega. Mas que deixa um vazio, ai isso deixa.

Na gravura: uma capa de Actuel, provavelmente a última e um sinal claro da estética daqueles. anos

O Tempo, Factor de Constrangimento na Aplicação da Justiça


Há algum tempo fui a um Tribunal como testemunha (figura que, segundo fiquei hoje a saber, possui menos direitos que a de arguido). O que mais me impressionou foi a quantidade de processos espalhados por tudo quanto era sítio. Eram processos apinhados nas secretárias, nas estantes, por cima das estantes, nas escadas, no chão. Bem, no chão os processos amontoavam-se ao lado das secretárias e das estantes, apenas eram deixados pequenos espaços livres por onde circulavam os funcionários. Na altura, enquanto esperava, pensei acerca da trabalheira que deveria ter dado organizar tanto processo, mantê-los em dia e no cansaço que deve ser andar à procura do processo X ou Y, no meio daquilo tudo. Depois, lembrei-me da minha secretária, sempre toda desorganizada, mas onde encontro sempre os papéis. Ali, naquele Tribunal, devia ser um pouco a mesma coisa. Um pouco...

Hoje lembrei-me desta minha ida ao Tribunal ao ler no Diário Económico que há três crimes de bolsa à beira da prescrição.

Como se trata de processos crime na área económica, já tão envelhecidos, acabam por nem ser notícia na imprensa não especializada. São eles:

  1. O abuso de informação privilegiada na OPA lançada pela PT sobre a Lusomundo, que já leva 7 anos e que terá gerado uma mais valia de mais de 350 mil euros;
  2. A manipulação de acções da empresa ITI que terá rendido uma mais valia de 1,9 mil milhões de euros;
  3. "Também à beira da extinção pela passagem do tempo" está o abuso de informação privilegiada na compra de acções do BPA ao tempo da integração no BCP.


Estes bons exemplos, lembrados pelo DE, mostram que não é só a Casa Pia e o Apito que jazem nos corredores dos Tribunais, enquanto o tempo vai fazendo o seu percurso. Por lá amarelecem outros processos, de que pouco ou nada se fala, mas igualmente carregados de euros, também à espera que o tempo os alise e sepulte.

O problema é que se tudo se passar assim, e plagiando o DE, a Justiça não contribui para que o Mercado fique mais transparente, isento e acima de qualquer suspeita.

E a Justiça, como é que fica?

09 setembro 2007

Au Bonheur des Dames 84


Oh que belo dia!

Eu sei, sei perfeitamente, que já usei este título, em inglês, se estou bem lembrado, só não sei a que propósito foi, tenho de arranjar um ficheiro, qualquer coisa que cruze dados e me permita revisitar-me para não me repetir. Esta é boa: repetir-me. Se não faço outra coisa senão voltar aos mesmos sítios, como o ladrão escrupuloso que volta ao local do crime, que os ladrões têm ética, estão ali para dar razão ao rifoneiro popular e piedoso que quer fazer-nos acreditar que os maus lerpam e os porreiros vão para o céu. Nesta nem o senhor ministro Rui Pereira acredita. Enfim, não ponho as mãos no fogo.
Bom, onde é que íamos? Ah, no dia perfeito... Bem, perfeito o que se chama perfeito, também não... Como o ministro! De todo o modo podia ter sido pior. Ora vejamos: consegui ver umas nesgas de rugby andando aos saltos por programas impossíveis de notícias, enfim nada a que já não esteja acostumado.
O dia escorreu bem, não se enganaram eu escrevi escorreu, que o nevoeiro que caía depois destes dias quentes de Verão às prestações, parecia cacimbo. Portanto o dia foi escorrendo, sossegado, na velha esplanada, a mesma clientela, stesso mare stessa spiaggia, a miudagem do costume, só que mais rabinos, aproveitando o facto das paternidades e maternidades estarem mergulhados no Expresso, no Sol (inexistente em todos os sentidos) e em mais três ou quatro folhas de couve que, embrenhadas no renovado caso da criança inglesa morta, se esqueceram de tudo o que não aprenderam sobre bom senso, ética (nisto quase que são iguais aos ingleses) e o que mais me lembrar. De todo o modo entre os jornais e a tal ERC sempre pelos jornais, era o que faltava mais uns agentes governamentais a ganhar o deles e uma senhora a escrever coisas inenarráveis e o Cintra Torres a responder-lhe, também é preciso ter paciência.
As criancinhas, portanto, a pintarem a manta, correndo como gamos pelo jardim, e záz!, li que no holliwood iam passar à noite os “Blues Brothers” (John Landis) a melhor e mais divertida homenagem ao “rhythm’n’blues” que alguma vez passou peloc cinema.
Obviamente não perdi o filme. E ri-me como da primeira vez.
E ri-me mais ainda quando me lembrei que tenho o dvd por aí... virgem, por estrear...

08 setembro 2007

Notícias do planeta oval
(é só por uns dias...)

A França que se pretendia favorita caiu diante da Argentina! É uma boa piada.
A Nova Zelandia arrumou uns desgraçados italianos por 76-14! Ou a prova de que o Haka (canto e dança guerreiros maoris executados no inicio do jogo(na fotografia)) e a presença em força dos nativos na equipa faz milagres.
A Australia desfez o Japão por 81-3, esperava-se a vitória mas não a exorbitância do resultado, prova que a Austrália é um dos grandes pretendentes. Finalmente a Inglaterra bateu os Estados Unidos. sem surpresa a não ser no resultado. Portugal entra em breve em cena. Sem presunção, sem grandes expectativas mas com dignidade. Aliás, a equipa portuguesa tem sido alvo de reportagens inesperadas e bastante agradáveis, São os únicos completamente amadores na competição e isso causa alguma sensação num mundo que se tem progressivamente profissionalizado.
Como de costume o amador de rugby está reduzido aos noticiários, sobretudo franceses.

07 setembro 2007

Poder Económico. Poder Político. Justiça. Cidadania

Poder Económico. Poder Político. Justiça. Cidadania. Estas são as palavras chave da notícia publicada n’ O Diabo, de 4 do corrente. A jornalista coloca a questão de se saber “em que medida é que o poder económico domina os centros de decisão política”, tendo como causa próxima os “exemplos de violação da Lei de Financiamento dos Partidos”.

Para Paulo Morais, um dos entrevistados, “quem controla o aparelho de Estado são aqueles que são nomeados pelos partidos e quem controla os partidos é o poder económico” porque, diz, “os directórios partidários são dominados por cliques que estão ao serviço dos interesses económicos”.

Rui Moreira, Presidente da Associação Comercial do Porto, abordou esta mesma questão afirmando ser natural que o poder económico procure exercer influência sobre o poder político, uma vez que “as políticas públicas influenciam o desempenho dos vários poderes económicos”. Contudo, diz, “o que não é natural, nem saudável, é que essas influências não sejam visíveis”, o que, diz ainda, “contribui para uma relação incestuosa, em que, naturalmente, se subvertem as relações e os equilíbrios de poderes”.

Mas Rui Moreira vai mais fundo na avaliação destas relações e de como promovem a corrupção. Pergunta a jornalista: “Considera que este domínio do poder económico sobre o poder político leva muitas vezes a fomentar a corrupção em Portugal?

A resposta é: “Sim. Mas também me parece que há cada vez mais sintomas de que a corrupção não atinge apenas o espectro político-partidário. A corrupção e a traficância vão certamente mais longe, e podem estar na génese do clima de impunidade que todos sentimos, um clima pestilento que aflige os cidadãos cumpridores e que incentiva os criminosos… A título de exemplo, será que a crise da justiça é apenas um problema de falta de meios e de incompetência? O que sei é que quem tenta denunciar o clima de impunidade, quem se indigna com as negociatas, quem recusa a mordaça, transforma-se numa voz incómoda…”

Que impacto tiveram as desassombradas palavras de Rui Moreira junto do poder político? Terá sido convidado por Sócrates para um jantar? O Ministro da Economia procurou-o para que lhe explicasse melhor como é o que “o poder político disputa despojos com o poder económico tradicional”? E o Ministro da Justiça terá telefonado?

Confesso que, passados estes dias, nada ouvi ou li acerca de tais declarações. Foi como se nada tivesse sido dito ou publicado.

Mas nas palavras de Rui Moreira há ainda um outro aspecto digno de relevo. É que Rui Moreira parece acreditar que “os cidadãos desistiram da intervenção cívica e desinteressada” e quando lhe perguntam - Porquê? Responde, “certamente porque o choque ideológico tradicional desapareceu…
Mas também é óbvio que se o cidadão comum sente que as cartas estão marcadas, não está interessado em participar ou sequer assistir a esse jogo, que deixou de ter regras claras para ser subterrâneo…”

Congratulações desportivas

Congratulo-me, é claro, pelos êxitos das equipas portuguesas, quer no basquetebol, quer no rugby. Mas confesso que nenhuma das modalidades me entusiasma. O basquetebol, que entusiasma o nosso JCP, é mesmo daqueles desportos que não me diz nada. Porquê? Enquanto, por exemplo, no futebol, andam uns tantos a tentar meter a bola na baliza do adversário, o que não é fácil, no basquetebol aquilo parece-me fácil de mais. Como? Assim: correm uns tantos para um lado, e raramente falham; correm os outros para o outro lado, e quase nunca falham. Confirme-se a teoria com o número de pontos que os tipos fazem. O rugby é mais aliciante, mas eu nunca percebi propriamente as regras. Ok. Nunca tentei. Nem tenciono. É mais ou menos a mesma coisa que o xadrez, que também não sei nem tenciono. Mas tenho algumas dúvidas - por muito que possam insistir - que seja um jogo de cavalheiros. MCR fala do rugby de Coimbra. Tem tradições. Mas, ó meu amigo, tanto quanto me lembro aquilo não era jogo de cavalheiros, mesmo quando é certo que alguns dos que por lá jogavam na década de 80 eram meus amigos, o que, por si só, é abonatório. Mas eu lembro-me bem: festas no clube de rugby corriam sempre mal, porque havia sempre uma auréola de violência associada. E, depois disso, lembro-me muito bem do que dizia o A., do alto do seu corpanzil, que não havia nada que mais lhe agradasse do que, num jogo, pisar a cara do adversário no chão. Ele há gostos para tudo.

06 setembro 2007

missanga a pataco 26

Outro feito notável, notabilíssimo


Um desporto puramente amador, feito por malta que, e não foi assim há tanto tempo, até as viagens para os jogos pagava.
Isto quando, como uma vez vi em Coimbra, não se pedia ajuda aos espectadores para arranjar o campo...
Portugal está no VI Campeonato do Mundo de Rugby que amanhã começa em França. Está de pleno direito, pese a ser, uma selecção classificada na terceira divisão mundial da modalidade.
Não se esperam, não esperamos (nós os parcos entusiastas deste desporto fraterno, leal, amador, bem disposto) resultados sensacionais. Estão lá os neo-zelandeses, os sul africanos, os argentinos, os franceses, ingleses galeses etc... Equipas fortíssimas, com um longo historial, com um presente glorioso, animadas por legiões de apoiantes que não estragam coisas, não batem nos oponentes, não causam zaragatas, mas cantam do primeiro ao último minuto, divertem-se e aceitam, contrariados mas aceitam, a derrota limpa em campo.
Esperamos luta, espírito de sacrifício, alegria e o melhor jogo possível.
Vamos lá a ver o qe a têvê nos dá... sem grande espectativa, claro, mas isso a malta já está habituada.

na gravura: o que se arranjou. Gostaria de pôr a fotografia da selecção mas não a encontrei. O título é uma vénia ao camarada JCP.

Um feito notável

Ao beneficiar da conjugação de dois resultados favoráveis – a vitória sobre a Letónia e a derrota da Espanha campeã do mundo frente à Croácia – Portugal classificou-se ontem para a fase seguinte do Eurobasket 2007. É a primeira vez que a selecção nacional disputa por direito próprio um campeonato da Europa (tinha participado por convite em 1951!) e este apuramento é um feito extraordinário, que beneficia do excelente trabalho dos clubes portugueses, da experiência acumulada pelos vários jogadores que jogam no estrangeiro e da maturidade do técnico ucraniano Valentyn Melnychuk, há muitos anos entre nós.

Esta campanha da selecção era impensável ainda há pouco tempo e não será demais enaltecer este êxito, ainda mais relevante se compararmos a expressão do nosso basquetebol com a dos outros países europeus. O basquetebol será talvez a modalidade que mais me faz vibrar, depois do futebol, e gosto particularmente de ver nesta selecção alguns atletas cuja evolução acompanhei mais de perto pelo facto de representarem ou terem sido formados no meu clube.

05 setembro 2007

Au Bonheur des Dames 83 - suplemento




Intermezzo na esplanada


Estou sentado na esplanada aqui mesmo a dois passos de casa. É uma esplanada simpática sobre o jardim onde um perdigueiro doido e um labrador preto e anafado travam conhecimento. Abanam as respectivas caudas, vê-se que têm real prazer neste encontro, ao fim e ao cabo são vizinhos, só que nunca se tinham cruzado antes. Agora o perdigueiro vem cumprimentar-me, também nos conhecemos, é o que é, volta e meia pára junto da mesa onde estou e eu faço-lhe uma festa, e isso bastou para que ele sempre que me vê me vir cumprimentar. Isso e, claro, algum pedaço de sanduíche que às vezes lhe dou. Os perdigueiros, mesmo de casas ricas, gostam de pão com queijo. Não é fome mas apenas apetite... E memória.
Como todas as esplanadas, esta tem os seus habitués. A começar pela “hospedeira”, uma vizinha que é certa todos os dias e a várias horas, pelo menos de manhã. E foi assim crismada porque, no dizer de uma antiga conhecida, ela veste-se como uma hospedeira de bordo. Só as mulheres são capazes destas maldades, mas de facto, sempre que a vejo, lembro-me de antigas hospedeiras em aviões ainda mais antigos onde durante dois dias se fazia a travessia Portugal-Moçambique. E que viagens! O Super-constelation voava a uma altura conveniente e logo que se entrava em África, e era dia, podíamos ver a paisagem lá em baixo. Os caminhos na savana, as povoações, a bicheza quando por sorte se passava pelas grandes manadas, os rios, ah a entrada do Zaire no mar, uma mancha escura na água azul, quilómetros e quilómetros de águas que se não misturavam...
Mas deixemos essa memória da juventude, antes que venha alguém tresler esta página e pensar que se tem saudades do colonialismo, ele há cada um, esta merece ser contada: uma vez publiquei aqui um texto onde falava da África que conheci. Alguém, muito tonto, entendeu que aquilo era um convite à reconquista das colónias ou uma saudade dos “bons velhos tempos” em que o chefe do posto mandava os cipaios arriar forte e feio nos indígenas relapsos que não tinham cuidado bem as machambas de algodão. E o kuekuero fervia na pele dos desgraçados, enquanto Sexa, o chefe do posto, bebia o seu whisky ou o seu chá à sombra e ia despachando outros assuntos correntes. Isto nos anos tardios e já perto do fim da ilusão colonial. Convirá dizer que esse “império” com que se babam alguns saudosos, durou escassos anos. Foi a partir da segunda metade do século XIX que as expedições militares (centenas de expedições para só referir as três colónias na terra firme africana) foram pouco a pouco quebrando a resistência dos povos que achavam um abuso pagar imposto e ainda por cima perder as melhores terras para já não falar do trabalho forçado, e da deslocação maciça de trabalhadores para outras zonas do país ou para S. Tomé. Junte-se a corveia de carregadores (a tropa ao avançar para o interior precisava de centenas de carregadores para transportar a impedimenta, as tendas, as munições e o alimento) e outras miudezas de mau gosto para se perceber a má vontade, e a preguiça!, dos “indigenas” fartamente glosada pelos arautos da missão civilizadora de Portugal.
Feito este intervalo neo-colonialista, regressemos ao jardim onde dois grandes canteiros de gladíolos e de agapantos dão cor. Os cães já se foram mas agora há uma série de pequenos galfarros cuidadosamente vigiados por um par de progenitores voluntários que correm sem se cansar, as crianças são incansáveis, valha-as Deus. Também agora, com isto de viver em andares onde é que hão-de dar largas à sua feliz vitalidade? Ao meu lado alguém comenta que até se cansa só de as ver. Mas faz este reparo com um sorriso, uma longínqua infância a espreitar por trás dos olhos claros e cansados.
Numa mesa mais longe, há um conspícuo cavalheiro, freguês certo desde há uns tempos com quem troquei umas palavras em Matosinhos durante as jornadas da “literatura em viagem”. Nessa altura ele perguntou-me se eu vivia por aqui porque me via todos os dias. Tem graça: eu nunca o tinha visto! Prova provada que quando aqui estou ferrado num livro ou no jornal, o mundo pode desabar à minha volta. Agora, quando chego, certifico-me de que está, cumprimento, baixo o periscópio e afundo-me na leitura. A menos que um cão ou duas crianças me façam o favor de me acordar para poder reparar no dia macio e quente, nos canteiros gloriosos do jardim e no cheiro antigo e renovado do verão.
Como se o miúdo que corria desabaladamente na praia de Buarcos me estivesse a fazer negaças do fundo de quem sou convidando-me mais uma vez para ir até ao mar “picar umas carreiras”...

na gravura: Claude Monet