28 fevereiro 2009

Au Bonheur des Dames 172


Eiswein ou Jeropiga,
that's the question

Tenho um amigo de há mais de quarenta anos que é a coisa mais parecida com um original que conheço: desistiu de guiar há cerca de vinte anos e portanto usa transportes públicos e táxis de noite ou quando não consegue fazer os seus percursos a pé. Abandonou o velho casarão familiar, logo que se divorciou, comprou um T1 espaçoso que lhe funciona de biblioteca. Vive num hotel onde além de lhe fazerem preços escandalosamente baixos ainda lhe tratam da roupa. Também lhe fazem óptimos descontos ao jantar visto que almoça sempre fora. Contas feitas, garantiu-me que nunca viveu tão bem e com tanto dinheiro disponível. “E também tenho desconto no bar”, acrescentou num sorriso malicioso.
Nada predispunha este abencerragem a tão extraordinária vida. Nem a família, classe média abastada, moderadamente conservadora, nem o seu percurso que foi aliás o percurso de quase toda a geração ainda que em allegro moderato. Fez as greves da praxe enquanto estudante, ajudou alguns amigos mais conspirativos, trocou o Direito pela consultadoria (o que lhe permitiu viajar bem mais do que a maioria dos amigos), casou e descasou duas vezes, tem um filho gerado em terras estranhas que é actor mimo, músico ambulante e veterinário (!!!) ou seja, é mesmo mimo, toca em pequenos grupos de jazz e ostenta um título de veterinário que lhe permite dar consulta aos cães e gatos das numerosas amigas. Pai e filho reúnem-se duas vezes por ano, na Primavera (lá) e no Outono (cá). Cumpre acrescentar que o filho vive numa roulotte nos terrenos de uma quinta da mãe.
Tudo isto para situar a carta que há dias recebi (eu já disse que K. é um original, não disse?, pois ainda escreve cartas num papel espesso e creme, num elegante cursivo que a caneta Aurora -sempre canetas Aurora, italianas e caras, vício que me transmitiu – acentua numa tinta entre o castanho e o azul que ele jura ser também italiana de uma pequena loja de Milão) onde ele me perguntava pelo P.S.
Depois de referir os nomes de vários contemporâneos nossos (cumpre dizer que ele fez grande parte do curso em Lisboa com um intervalo de dois anos estroinas em Coimbra), diz-me “... e esses gajos eram tão, tão esquerdistas, tão dogmáticos, tão cheios de nove horas e agora estão às palmadinhas ao José Sócrates? Então, naquele tempo, diziam-me as últimas por eu achar o sistema sueco uma coisa maravilhosa com a sua social-democracia, o seu Ingmar Bergman e o rei a passear de bicicleta entre o povo e agora essa social democracia, o rei, a princesa que vai casar com um plebeu e o fantasma do Ingmar estão a milhas à esquerda deles?
... Lembras-te que me quiseram forçar a ler o George Politzer, “O Materialismo e o empirocriticismo” e uns romances horrendos do Amado (os subterrâneos da liberdade, a seara vermelha e o cavaleiro da esperança!!!, credo que atentado ao pudor!,) e que me chateavam por eu usar umas gravatas herdadas do meu tio e que além de inglesas eram lindíssimas? E o que me criticavam por eu usar blaser azul escuro, pago e oferecido, de resto pela minha mãe quando descobriu que eu desviava o dinheiro para comprar roupa em livros, copos e cinema usando e abusando de uma coisa informe que em tempos teria sido casaco mas que até puído na bainha das mangas estava?
Estás a vê-los agora, no parlamento, todos enfatiotados, engravatados (convenhamos que com escasso gosto, escassíssimo até...) a trocarem banalidades com a oposição ou em infindáveis e insubstanciais berreiros que soam a falsete? E foram eles quem me exprobaram o facto de logo depois do 25 A eu votar socialista? Votar, nota bem, que não caí na asneira de me filiar... Para esta gentinha eu estava à direita, quase mancumonado com o Freitas do Amaral (que agora é um dos compagnons de route deles!..., ministro e tudo!) e com o ELP...
Quando apoiei (foste tu que me meteste nessa) o Bochecha Mimosa para Belém andavam eles todos enfrascados no pintasilguismo. Ouvi poucas mas boas, como tu também terás ouvido. E por aí fora. Agora estão unha com carne – ou isso parece – com a moção vitoriosa do querido líder proto-coreano que exerce de secretario geral do P.S.. Eu poderia pensar que neles a ideologia se transmutou na palha da mangedoura política. Quem quer bolota “atrepa” e quem quer benesses e vida parlamentar, mete a viola no saco e canta missa com os outros. Se calhar com mais força para que se veja bem a profundidade da conversão.
...Custa-me isso, apesar de tudo. E sinto-me incómodo nesta posição de crítico. É que tenho medo de ser confundido com o bloco de esquerda ou até, sabe-se lá, com o partidão. Logo eu que nunca dei para tais peditórios! E agora, em quem voto? Já sei que me vais falar do papelinho branco mas eu, caríssimo M., tenho uma certa fobia ao vazio. E branco só em paredes. Para poder pendurar quadros ou rechear de estantes com livros. Ou em certos vinhos, de preferência do Reno para não falar de um certo Eiswein que recordarás o velho Prum JJWehler que agora deve andar pelos 900 eurinhos a garrafa, se os preços que tenho ainda são os mesmos.
...Os rapazes da esquerda do nosso tempo meteram a viola no saco e politicamente em vez de vinho branco inclinam-se para a jeropiga. Lá terão as suas (deles) razões. Que lhes aproveite.

De vez em quando um blogger tem de descansar. Sobretudo se, de entre um vasto leque de amigos, puder pescar algo que lhe aproveite. O que é o caso. Resta-me apenas situar o "Eiswein" citado, um JJ Prum que bebemos num dia memorável na Alemanha, à conta de uma namorada dele e de uma garrafa de Porto (Alcino Corrêa Ribeiro, 1946, uma pomada de que o Fernando Assis Pacheco dizia valer um inteiro livro de poemas) por mim trazida para um tio de um amigo nosso que, além de Junker era um notabilissimo vinicultor. Os vinhos de gelo são colheitas ultra-tardias estilo Sauternes que valem o que pesam em metais raros e nobres. São feitos com uvas colhidas á mão, antes do sol raiar, uma a uma, ou quase e o deus que rege estas coisa do vinho dá-lhes um toque, uma cor, um perfume que trinta anos depois ainda recordo com intensa emoção. Como K que obviamente não se chama K. mas que é, garanto, um gajo porreiro. Saravah, mano!

27 fevereiro 2009

Diário Político 102


Muito barulho para nada
ou
o congresso de berlin(de)


congresso (s. m.): reunião de pessoas
que deliberam sobre interesses comuns



O título shakespeareano que dá entrada a esta conversa tenta traduzir não só a leveza do acontecimento mas também é uma piscadela de olho a um par de amigos que, desde há anos, me acompanha no apoio discreto mas regular ao ps. É que, apesar de tudo,tenho pelo partido da rosa uma opinião idêntica à de Alexandre O'Neil: ele não merece mas voto ps.

Reparo agora que ao utilizar a palavra leveza poderei suscitar nalgum leitor mais sarcástico (são poucos os que me lêem mas muito dados à ironia...) o imorredoiro título de Kundera A insustentável leveza... ou mais comesinhamente alguém poderá tomar leveza por leviandade coisas que eu, claro, não quereria suscitar...

Eu venho, como o sr eng Guterres já afirmou, falar de política que é uma arte nobre e não tenciono perder-me por essas azinhagas do diz-se que diz que faz a glória e o lucro de tanta revista semanal. Não referirei portanto a performance de um jovem presidente de junta que para uns foi a estrela do congresso e para outros o motivo parvo para rir. Esse esforçado congressista disse alto e sem papas na língua o que quase todos calaram.

Passemos pois à parte substantiva do ajuntamento socialista. E em primeiro lugar há que tirar o chapéu ao joker eleitoral do secretário geral: candidatar Mário Soares ao parlamento europeu é conseguir, à cabeça, reforçar extraordináriamente, a lista. Para efeito interno é um golpe de génio. Externamente só terá consequências interessantes para Portugal se houver uma maioria no parlamento que leve Soares à sua presidência. Resta saber por que razão corre Soares. O parlamento europeu tem sido até hoje uma espécie simpática de verbo de encher: enche os deputados de dinheiro e os governos nacionais de conselhos. A comissão europeia tem ligado pouco a este babélico grupo de preopinantes: irão as coisas inverter-se agora? Só assim se compreende que um velho leão da política aceite ir para Estrasburgo ouvir discursatas chatíssimas em flamengo ou norueguês...

A segunda grande questão do congresso era a da participação das mulheres socialistas nos órgãos nacionais do partido. Convenhamos que aquí a solução tem consequências pesadas tal a leviandade com que se construiu: havia que meter 25% de mulheres e, ao mesmo tempo, não ofender os cavalheiros que desde sempre pastavam naqueles viçosos secretariado, comissão política e outras instâncias. Aumentou-se o número de lugares até caber toda a gente. Como malabarismo é grosseiro e como reconhecimento do direito das mulheres é infantil. Ainda tive a esperança de ver alguma militante recusar o bodo aos pobres. Nada disso: numa coisa as mulheres do ps já são iguais aos homens: aceitam tudo e depressa...

Foi de resto comovedor contabilizar as intervenções femininas no congresso: nem dez por cento...Continuem assim, companheiras que o futuro é vosso!

Um congresso sem confronto não é congresso nem é nada. Não que eu proponha a instauração da bagunça generalizada como método de discussão política mas convém sempre para efeitos externos contar com dois ou três frissons e um par de gritos para não parecer que se está num congresso do pc onde já tudo está convenientemente decidido graças ao centralismo dito democrático e a outras balivérnias do mesmo teor.

Havia porém um problema: a moção do secretário geral já tinha ganho tudo o que havia a ganhar pelo que tudo concorria para um duvidoso unanimismo que o governar sem oposição mais e mais suscitava. Sem discussão um congresso não tem direito de antena ou, tendo-o, arrisca-se ao zapping velocíssimo dos espectadores. Pediu-se pois aos militantes o sacrifício de uma oposição. Coube a Manuel Alegre o papel de contrincante na festa do Coliseu.

Nasceu assim a moção "Falar é preciso" muito embora se ignore qual o sentido a atribuir à última palavra: quereriam os subscritores dizer "necessário" ou subitamente desconfiados do parlapié da moção abrangente do secretário geral propuham ao ps reunido "rigor sóbrio de linguagem"? Ou finalmente queriam significar "urgência, necessidade"? Isto porque, apesar da cada vez maior langue de bois dos próceres socialistas, ainda não chegámos à "carência do que é necessário ou útil". A língua portuguesa é muito traiçoeira, dizem, e um poeta como Alegre pode usar as palavras só para confundir o pagode.

Com a entrega de mais esta moção esfregaram as mãos todos quantos se sentiam responsáveis: finalmente uma discussão, votos, vencedores e vencidos, separar das águas etc...Esfregaram depressa demais que logo alguém avisou contra os perigos temíveis de aquilo se transformar num duelo direita-esquerda, insensatez absoluta tendo em vista os próximos actos eleitorais, a penosa conquista do centro e mais quantos solecismos políticos se lembraram.

Unidade bradaram, unidade é o que é preciso neste momento crucial da vida nacional. Ai querem unidade respondeu-lhes o engenhoso secretário geral: pois assinam-se a duas moções e votam-se não uma contra a outra mas uma mais a outra. O partido é assim: muito plural de ideias e verdadeiramente singular na maneira como resolve as suas contradições internas!

No dia grande aconteceu o que se previa: Guterres abriu os trabalhos debitando para as massas não o discurso da sua moção mas sim o da contrária que aliás já não era contrária mas complementar. Alegre diria a seguir que, se na moção, Guterres tivesse defendido o mesmo que agora defendia sempre lhe teriam poupado a maçada de apresentar a sua moção. O povo socialista presente uivou de alegria pois entendeu as palavras de Alegre como um certificado de esquerdismo passado a Guterres. Guterres abraçou Alegre, Alegre abraçou Guterres, Vitorino abraçou Coelho, Sócrates acenou a Carrilho, este amuou e um anónimo das bases apalpou uma menina da JS que não se deu por achada.

Faltava ainda votar mas Almeida Santos achou que estavam todos numa boa pelo que despachou a maioria das votações com uma íntima convicção de que todos estavam de acordo com tudo. Parece que ninguém protestou pelo que, no que me toca, também não protesto.

As moções ditas sectoriais foram deixadas para melhor oportunidade, mais concretamente, para uma reunião da comissão nacional onde finalmente se votarão. A pergunta que se faz é se sequer os senhores conselheiros as discutirão ou se esfogueados pelo entusiasmo e pela vitória próxima que se adivinha as passarão directamente para o rol das inutilidades que se ignorou com o congresso. Assim, pelo menos, terão tempo para uma partida de matraquilhos ou, se preferirem, por um jogo de berlinde. Berlin(de) que como sabem todos é uma cidadde onde em 1884-1885 se realizou um célebre congresso a dividir África. Assim se prova que nos congressos há sempre qualquer coisa a dividir por quem se porta bem: continentes ou jobs for the boys... And for the girls, digo eu que também falo inglês.


“ Não trocem das minhas contradições: o homem é por natureza inconstante..."
(“Muito barulho para nada”, acto Vº, cena IVª)




* o cronista sabe que já ninguém se lembra deste congresso do PS realizado em pleno tempo da governação de Guterres. Todavia, o estado actual dessa formação política e as perspectivas que o seu congresso próximo futuro trazem são de tal modo desinteressantes (para não utilizar uma palavra mais apropriada e necessáriamente contundente) que ressuscitou esta crónica do desgraçado limbo onde jazia e resolveu publicá-la: como se fosse um comentário... a uma realidade que é, como de costume bem pior do que a que se descreve.


d'Oliveira


O FRÁGIL DESTINO DOS SOBREIROS

Como se sabe Portugal tem milhares e milhares de sobreiros. Os sobreiros são tão importantes para a economia do país que há uma lei que os reconhece como “espécie protegida”. Contudo, esta lei conflitua com uma outra que, caso a caso, reconhece a actividade de abate de sobreiros como de “utilidade pública”.

Deste conflito legislativo, materializado em decisões político-administrativas, vão surgindo processos judiciais que, como não poderia deixar de ser, demoram muito tempo a decidir. Tanto tempo que entretanto já cresceram outros sobreiros e abateram-se muitos mais.

O momento actual, em matéria de abate de sobreiros, caracteriza-se, por num lado, a actividade de abate de mais umas centenas de sobreiros estar suspensa da decisão do Tribunal, noutro lado, o tribunal suspendeu, melhor, adiou “sine die” o desenvolvimento do processo que julga o abate ilegal de 2,0 milhares de sobreiros, que corre os seus trâmites desde 2005, e que agora vai ficar a aguardar melhores dias. Porque? Ler aqui .

A ter em conta o peso dos processos que a notícia diz que estão “em mãos” do mesmo juiz instrutor – Portucale, "processo Isaltino, Operação Furacão e Freeport – ainda irão ser abatidos muitos sobreiros e muitos outros processos nascerão, que por sua vez dificultarão a resolução de processos mais antigos e assim sucessivamente.

O Mar e Tu - Andrea Bocelli & Dulce Pontes

26 fevereiro 2009

Madrid com Bacon

Ir por estes dias a Madrid permite que nos reconciliemos com uma certa forma de viver a cidade. Madrid está nas suas ruas e bares, nas lojas e nas esplanadas. Não há horas de encerramento generalizado das lojas e, noite dentro, é possível ver os passeios cheios de gente. E não são só os turistas. São os madrilenos que vivem a cidade, frequentam-na, defendem-na. Também não se vê prédios a cair, mas sim uma recuperação continuada das fachadas e dos edifícios, pelo menos nas áreas nobres da cidade. É claro que não é alheia a esta forma de viver a cidade, ainda para mais na capital de um país perseguido pelo terrorismo, a permanente presença da polícia nas ruas, que aí está e se insinua na vida das pessoas, transmitindo-lhes tranquilidade.

Por outro lado, ir por estes dias a Madrid torna obrigatória uma visita ao Museu do Prado para ver a exposição de Francis Bacon, comemorativa do centenário do seu nascimento. Instalada na parte nova do museu, uma ampliação muito feliz projectada por Rafael Moneo, a exposição percorre a obra do pintor, falecido em Madrid em 1992, a evolução das suas técnicas e as suas obsessões sobre o homem e a natureza humana. Uma exposição que nos revela as facetas de um artista que marcou o século passado.


Na foto, uma das variações de Francis Bacon sobre o Retrato do Papa Inocêncio X, de Velásquez.

23 fevereiro 2009

estes dias que passam 144


A propósito de um comentário

Copiei aqui abaixo um texto inspirado e inspirador da autoria de uma dignitária do regime. Pequena dignitária, mas dignitária apesar de tudo. Recebi-o com outra forma que denotava a sua origem e só não publiquei assim por não saber passá-lo tal e qual para o blog.
Tive o cuidado de verificar a sua autenticidade não só porque quem mo enviou é pessoa honrada (e ainda por cima militante com quotas pagas do P.S.) mas também porque tendo lido mais prosa da mesma criatura logo verifiquei (ou não tivesse exercido durante uma boa década crítica de livros) que o estilo se mantinha em todo o seu formidável esplendor.
Um amigo e leitor perguntou-me se eu garantia a veracidade do texto. A pergunta é legítima mesmo que me surpreenda. Eu ando nesta lide vai para três anos, tenho aqui publicados cerca de quinhentos posts, tenho alguma coisa publicada em diferentes jornais e revistas nos últimos cinquenta anos, e nunca me deu para, em casos deste género que podem envolver polémica, falsificar sequer uma vírgula. A palavra escrita permanece e a batota sempre vem ao de cima.
Nisto e no jogo. E em ambos é igualmente repelente.
Para mim estas croniquetas são, mais do que algum putativo dever cívico, um prazer simples e descomplicado que, para o continuar a ser, tem de se basear na simples verdade. A menos que me dê para a ficção (e já deu) e por isso me permita um toque álacre de fantasia sobre a nudez forte da verdade, como aconselhava Eça.
Todavia, quando me dou ao desagradável trabalho de criticar os poderes constituídos, sejam eles quais forem, como já terão reparado, tenho o cuidado de investigar as fontes. Por mais de uma vez, não escrevi o que me apetecia por duvidar destas. Ou, como há bem pouco, e sobre o FRIPÓR, defendi com unhas e dentes uma criatura de que não gosto, digamos mesmo que me suscita uma certa repugnância quando não algum desprezo, apenas por que não vi até agora indícios suficientes para a acusar. Alguns meros pontos circunstanciais não fazem um acusado. Defeitos da minha formação jurídica, se calhar. Mas defeitos de que me orgulho porque me evitam linchar alguém só porque não me agrada.
Dito isto, e porque a dúvida expressa por um leitor pode ser extensiva a outros, poucos ou muitos, tenho a declarar que aqui não se serve política requentada, não se perseguem justos, não há arcas encoiradas nem lobbies de qualquer espécie. Sou um pobre homem de Buarcos, louvo-me na franqueza, dou ao demo quaisquer interesses políticos ou outros e uso a pequena liberdade que ajudei a conquistar(quando muitos, uma imensa maioria, assobiavam para o lado) para discutir como português e cidadão questões portuguesas que interessam a portugueses. Como tenho muito pouco de nacionalista, também arrisco palpites sobre outros lugares. Mas sempre com a mesma linha de rumo: “a verdade, a áspera verdade” de que falava Danton. E não vou abonar-me no brocardo de Lenin (“a verdade é sempre revolucionária”) mesmo se a prática deste nem sempre foi tão concorde com a frase que, hoje, me parece ser apenas um truque retórico que serviu a causa do totalitarismo bolchevique. Mas isso são outras histórias...
Os leitores ficam pois prevenidos. É provável que muitas vezes me engane (e se puder retratar-me-ei), mas podem ter a certeza duma coisa: aqui não se serve gato por lebre nem se cede à propaganda ou ao amiguismo.
Amicus Plato sed magis amica veritas, como bem ensina Aristóteles (Ética para Nicómaco, I,4), o que em português dará: sou amigo de Platão mas mais ainda da verdade.

* a gravura: "O Tempo eleva a Verdade dentre a Disputa e a Inveja", Poussin (1640-2)

21 fevereiro 2009

missanga a pataco 68

Para que não fiquem dúvidas:

Exm.ª Senhora Presidente do Conselho Executivo do
AE Territorio Educativo de Paredes de Coura

A confirmarem-se as notícias vindas a publico sobre a suspensão de actividades previstas no Projecto Educativo e no Plano de Actividades dessa Escola, e na salvaguarda primeira das obrigações da esola - cumprir a sua missão de processos de socialização e de aprendizagem para os alunos, razão central porque definiu as actividades de Carnaval nos documentos de acção educativa anteriormente referidos.
Tomando por base estes pressupostos, determino:
1. o cumprimentos das actividades com os alunos previstas para esta época;
2. o envio a esta DRE de um memorando clarificador dos problemas que têm vindo a ser denunciados pelas estruturas representativas;
3. Sendo certo que muitos docentes não se aceitam o uso dos alunos nesta atitude inaceitável, acompanharemos de muito perto a defesa do bom nome da escola dos professores, dos alunos e de toda a população que muito tem orgulhado o nosso país pela valorização que à escola tem dado
Margarida Elisa Santos Teixeira Moreira

Respeitou-se cuidadosamente (e com a difícil neutralidade que se imagina) o surpreendente português em que o texto é vertido. Se de português se trata, claro.
Fica-se com a penosa sensação que já há dois países distintos neste jardim à beira mar plantado: um, aquele em que frequentámos a escola que nem sempre era risonha e franca mas que cumpria (mesmo naqueles negros tempos) com uma função essencial: socializar a criança indefesa pondo-a a falar um português aceitável , outro, o da senhora directora Margarida Elisa Santos Teixeira Moreira em que se usa esta esdrúxula redacção em que há professores que não se aceitam o uso de alunos para não referir, com uma desconsolada gargalhada, a passagem do primeiro para o segundo parágrafo.
Também parece desnecessário referir o tom ameaçador do último parágrafo e a patetice apologética da defesa do bom nome de várias criaturas que ao que parece muito tem orgulhado o país da dita senhora pela extraordinaráia valorização que dá à escola.
Eu não sei onde é que esta criatura estudou, se estudou, quem lhe ensinou português se culpados de tão nefanda acção existem ou existiram mas, pelos resultados aqui exuberantemente visíveis, seria aconselhável (se acaso ainda vai a tempo) um curso género novas oportunidades com muita insistencia na língua pátria e obrigatório exame da antiga terceira classe ao fim.
Isto que acima se lê é o retrato puro e duro do Ministério da Educação e dos seus distritais sátrapas. Isto provaria à saciedade algo de que há muito se sabe: a fidelidade partidária vence toda e qualquer outra noção de qualidade para prestar serviço público. Quando a senhora ministra refere a má vontade dos professores deveria ler estas charadas da autoria dos seus dedicados agentes para perceber o estado a que chegou a chamada Educação Nacional. E tirar daí as necessárias consequências...
Mas isso seria pedir muito, demasiado mesmo.



20 fevereiro 2009

missanga a pataco 67


O corso de Paredes de Coura

Esta notícia é do mais sério que pode haver num país que apesar de oito séculos parece mais uma estouvada criação de algum deus malicioso apaixonado pela leitura do Peter Pan.
Na ridente vila (será cidade?) de Paredes de Coura, as escolas desfilam num corso de Carnaval. Parece que alguma vez um grupo de educadores terá achado que em vez da gramática, da aritmética e da leitura, as crianças deveriam mascarar-se de parvas e, ala que se faz tarde, emular as escolas de samba do Rio ou os desfiles tristonhos e moribundos de Veneza.
Entretanto, dado o volume de tarefas (e a luta dos professores contra o Ministério e as suas habituais prepotências...) o Conselho Pedagógico decidiu eliminar das actividades escolares a marcha dos gaiatos. Ai Jesus que se acaba o mundo!, terão regougado pais e encarregados de educação. “que é que se faz às pobres criancinhas assim despojadas de uma tão alta prova de futura cidadania e cultura?”
A extraordinária DREN (leia-se sem sorrir: Direcção Regional de Educação do Norte) sempre atenta ao sentir profundo das populações que pastoreia, ouviu a queixa das almas jovens, e menos jovens, de Paredes de Coura e determinou, num dos seus habituais e beneméritos ukases, que o desfile se fizesse e que nele participassem os senhores professores sob pena de processo disciplinar ao que se intui da leitura do jornal.
O cortejo ter-se-á realizado hoje, sexta-feira, e terá tido a forçada participação dos docentes.
Ignora-se se os senhores professores iam mascarados. É provável que fossem. De carneiros obedientes? De animais destinados à hecatombe em honra de um deus Momo imbecil e que pouco ou nada diz à tutelar DREN? Terá a DREN despachado para o local o seu habitual circo de informadores para verificar se tudo correu como se determinava? Terá a senhora directora da dita DREN, de sua graça Margarida Moreira, estado presente? E, estando, estaria à futrica ou ataviada carnavalescamente para escarmento dos professores rebeldes? E neste último caso que fantasia levava? A rainha madrasta da Branca de Neve? Pluto? Fantasma da Ópera? Cinderela? Ou iria simples mas bem de Margarida Moreira?
É que nesta historieta não se sabe bem o que mais devemos admirar: se os pais de Paredes de Coura, se os professores que se prestam a esta fantochada, se a distinta Câmara Municipal que também se terá dado por achada ou simplesmente essa aberração educacional que já é visita dos jornais de escândalos por via das singularidades a que dá cobertura. Refiro-me obviamente a esse cadáver que dá por DREN e que fechado, além de muito dinheiro, pouparia o país e os cidadãos ao espectáculo do ridículo. Decididamente esta gente não sabe nem aprende.

* e já agora que estamos com a mão no pífio carnaval que por cá se usa: não acham incrível a história da proibição de um magalhães com uma menina despida e censurado pela excelentíssima senhora procuradora de Torres Vedras? Eu não quero discutir com tão alta autoridade o significado da palavra pornográfico mas gostaria mesmo assim de ver a explicação...
E depois o Ministério Público admira-se com o descaso com que os cidadãos o brindam. E não haverá ninguém que telefone discretamente para Torres Vedras, para o Tribunal, para evitar que o ridículo arruíne as austeras paredes do que deveria ser apenas e tão só um local onde se aplica a Justiça?

O Sonho Impossível - Maria Bethania

Uma óptima ideia!


Texto retirado à Margem Esquerda, do nosso amigo Primo de Amarante:


A corrupção é o cancro que corrói a economia, empobrece as sociedades e destrói a credibilidade dos sistemas democráticos. Combatê-la é um imperativo cívico e moral.
Um grupo de euro-deputados lançou, agora, através da Internet, uma petição contra a corrupção.
Pretendem que a Comissão Europeia e os Estados-membros da U.E. crie legislação e mecanismos de combate à corrupção.
Estima-se, por exemplo, que, em África, se percam anualmente cerca de 25 por cento do PIB devido à corrupção.Esta petição pretende recolher um milhão de assinaturas de cidadãos dos 27 países da U.E. e pode ser subscrita aqui:

http://www.stopcorruption.eu/index.html

18 fevereiro 2009

missanga a pataco 66


O Quixote de sapatilhas...

Há alguns anos um dos meus amigos editores convidou-me para traduzir um livro. Respondi-lhe que a tradução era mal paga e que, se porventura alguma vez me desse a tais tarefas, só traduziria de línguas onde pudesse insultar alguém tão copiosamente como em português e onde pudesse fazer palavras cruzadas. Acordámos, ao fim e ao cabo, que sem especial compromisso de continuidade lhe traduziria originais franceses e espanhóis. Tratava-se de línguas que dominava razoavelmente e que não me dariam grande trabalho. Só assim a tradução é rentável. De repente, ao fim de alguns anos, tenho quase duas dúzias de livros traduzidos. Alguns foram um prazer muitos foram uma provação. Algumas vezes recebi elogios uma fui insultado. O critico não aceitava que um livro notoriamente mau fosse mau por culpa do autor que era um desastre. Preferia atribuir as culpas ao tradutor. A tese deste singular critico era a seguinte: o autor da inverossimilhança era filho de um grande escritor espanhol. logo era bom. Como se sabe o talento herda-se... Se o livro era aquele conjunto de patacoadas decerto que o tradutor era o culpado.
Nesse dia, comecei a pensar largar esta tarefa. Traduzir inanidades é uma perda de tempo e um contínuo desgosto para quem tem de as verter fielmente em português.
Estou a ultimar o que eventualmente será a minha última tradução. Às razões perceptíveis no que acima escrevi junta-se estoutra: os tradutores sérios são pagos pela mesma bitola dos maus. Nem um cêntimo mais.
E se é assim, e é exactamente assim, não vale a pena gastar as meninges. Eu passo bem sem as traduções porque prefiro ler nas línguas originais. Os leitores se quiserem que protestem.
Ontem, numa livraria, abri um livro de recente tradução e de que tinha gostado (no original). Entre outras pérolas, li esta: o pobre D. Quixote usava umas sapatilhas rotas. O tradutor ignorante e ansioso nem sequer sabe que zapatilla também significa chinelo. O que naquele tempo se adequava mais ao cavaleiro da triste figura. É provável que o tradutor nem sequer tivesse lido Cervantes. E até que nem soubesse exactamente de que época se fala quando se fala dele. E sobretudo não sabe suficiente português o que, aliado ao seu mais que deficiente espanhol, dá uma tradução medíocre, indigna.
Aposto que lhe pagaram tanto como me pagam. Que lhe faça bom proveito. Eu que já não tenho pachorra. Como dizia o imortal vocalista dos Ena Pá 2000: se um gajo tem de ser puta que seja puta fina.
E bem paga, acrescento, muito bem paga.

Obras no Tribunal

O Tribunal de Chaves está em obras. Entra-se pela cave nas traseiras. Acede-se ao 2º piso por uma escada manhosa, estreita, suja e nojenta. O ar é irrespirável, o espaço está cheio de pó, os cheiros são insuportáveis. Respiro com dificuldade. E tenho vontade de me vir embora. A Justiça não é tratada com dignidade. E o Ministério deve ser o mais incompetente serviço público português. É a vida! Paciência!

17 fevereiro 2009

Os municípios também vão pagar

O Programa Pagar a Tempo e Horas e o Programa de Regularização Extraordinária de Dívidas do Estado foram criados pelo Governo com o objectivo de reduzir os prazos de pagamento a fornecedores praticados por entidades públicas, permitindo uma injecção de capital na economia que ajudará as empresas, em particular as PME’s, a ultrapassar as suas actuais dificuldades de tesouraria.

Relativamente aos pagamentos de dívidas a fornecedores por parte dos municípios, no âmbito do Programa de Regularização Extraordinária de Dívidas do Estado, a Direcção-Geral do Tesouro e Finanças recebeu 79 candidaturas de municípios que se candidataram a financiamentos de médio e longo prazo, no valor de cerca de 485 milhões de euros. A lista final das 69 candidaturas aprovadas, num montante global superior a 415 milhões de euros, foi ontem publicada aqui.

O Jogo da Memória

O que é que William James e Marc Augé têm a ver com Dias Loureiro? Descobrir aqui

SClENTIA IVRIDICA, Tomo LVII - N," 316

Critica da razão comunicativa: o Direito entre o consenso e o conflito, Túlio Vianna
Os "novos" desafios do Direito Penal no século XXI. André Teixeira dos Santos
Fraude fiscal e branqueamento: prejudicialidade e concurso, Jorge Bravo
A protecção nacional da propriedade industrial (à luz da evolução recente), Luís M. Couto Gonçalves
Nótulas sobre a Sociedade Privada Europeia, Renato Gonçalves
Dois modelos de implantação da mediação familiar, Inmaculada García Presas
Sanção pecuniária compulsória: meios coercitivos -'- modelo português, Lurdes Varregoso Mesquita
Crónica do Tribunal da Relação de Guimarães, António A. R. Ribeiro e José António Barreto Nunes
Crón
Crónica do Tribunal Administrativo e Fiscal de Braga (XVIII), Jorge Manuel Lopes de Sousa

16 fevereiro 2009

Farmácia de Serviço 48


É cada vez mais irregular o horário de abertura da “farmácia”. O boticário está velho, esquecido e, aqui para nós, duvida bastante da eficácia das suas receitas. Todavia, e antes de fechar de vez o estaminé, lembrou-se de deixar três apontamentos. Como de costume, só fala do que sabe, só recomenda o que já viu, leu, ouviu. Em muito contados casos, e é o caso da exposição, louva-se em notícias e criticas várias todas concordantes.
E comecemos pela música: setenta discos (70!!!) da inolvidável Callas a menos de € 0,50 cada diz-voa alguma coisa? Não vos desperta a vontade de, por um único e irrepetível momento, mandar a crise dar uma volta ao bilhar grande de mão dada com o senhor inginheiro, e “despilfarrar” uns morabitinos? Que diabo são setenta cd dessa enorme diva. A cerca de 30 euros por junto!
The complete studio recordings of Maria Callas (1949-1969)", EMI. Com o aval do Teatro alla Scala de Milão, ainda por cima. Peçam-nos via amazon.fr. que foi de onde os mandei vir. E depois digam qualquer coisinha...

Escuso de vos recomendar “Ofício Cantante” do Herberto Helder. Ou melhor, recordo-vos que é uma reedição da obra completa, versão 2009. E digo isto porque a aquele mafarrico reelabora constantemente os seus textos pelo que poderão estar certos que muitos dos mais conhecidos poemas aparecem em nova versão. A edição é da Assírio & Alvim e anda pelos quarenta e tal euros. Vale-os absolutamente, claro, tanto mais que o livro vem com encadernação de editor o que o protege mais. Quem quiser encomenda-o ao “Pátio das letras” em Faro. A almirante fluvial Kamikaze terá todo o prazer em vo-lo enviar.

E agora uma novidade, novinha, acabadinha de sair do forno: “la ninfa inconstante” de Guillermo Cabrera Infante, esse cubano prodigioso, desaparecido há cerca de três anos e que nos deu “Tres tristes tigres” e “La Habana para un infante difunto” (acabo de escrever isto e vejo que o mesmo se escreve na contracapa. Raios!, já não se pode ser original). A “ninfa...” é uma obra póstuma. Nem sempre são recomendáveis estas cavadelas no espólio de um escritor desaparecido mas aqui estamos em presença de algo que vos encantará. A edição, bem bonita, corre a cargo da Galáxia Gutenberg/Círculo de Lectores. Anda pelos 20 euros. O Corte Inglês encomenda-a.

Não é uma novidade mas é uma raridade. Ou melhor, é uma reedição facsimilada de uma raridade: “Proverbe”. Proverbe foi uma revista dadaísta dirigida por Éluard que publicou seis números entre Fevereiro de 1920 e Julho de 1921. Os originais, escassos, escassíssimos tem preços estratosféricos, claro. Como tudo o que toca o surrealismo e o dadaísmo. Para mais informação consultem www.editions-dilecta.com ou a velha amazon.fr. não é barato, não senhor: cerca de 23 euros por uns fascículos magrinhos mas excelentes.

E agora um para os soixante-huitards assanhados. Para os que ainda não depuseram as armas. Para os que se divertiram. “Harakiri 1960-1985, les belles images" (Hoebeke). Para quem não saiba, Harakiri (journal bête et méchant) foi uma das melhores e mais agressivas revistas desse tempo prodigioso. Cavanna, Wollinsky, Cabu, Reiser, Delfeil de Ton entre outros colaboraram neste panfleto monumental. A bem-pensância horrorizada criticava-lhe o mau gosto, a ferocidade, a intransigência sei lá que mais. Imperdível. Imperdível sobretudo porque o poder proibia vezes sem conta a revista até que a forçou a mudar de nome. Trata-se de uma sólida edição ilustradíssima de 320 páginas formato grande. Pour lecteurs avertis, como se diz para os filmes ousados... 28 euros!

Quem pode vai a Paris ver o Chirico (Chirico et la fabrique des rêves) ao Musée d’Art Moderne. Impressionante, ao que leio. E Paris é sempre uma festa. E pode aproveitar para ver a exposição Paris capital de la photographie no Jeu de Paume. Ao fim e ao cabo voltamos um pouco ao tempo da publicação de Proverbe. E da invenção do século XX.

E agora, muito à puridade, uma dica: entrou na tipografia, ou no que quer que seja, “Máscaras da Utopia (história do teatro universitário em Portugal, 1938-1975)” de José Oliveira Barata, ex-professor catedrático em Coimbra. Será a Gulbenkian a editar. Já li as primeiras 200 páginas de um total de 370, e roí-me de inveja. Porque raio não fui eu a escrever este livro? O Zé B é um velho amigo e discutimos muito o livro á medida em que o ia escrevendo mas a surpresa da versão final é extraordinária. E a iconografia é simplesmente esplendorosa. Só a Gulbenkian é que poderia atrever-se a um lançamento destes. E o teatro universitário português merecia este belíssimo estudo. E os leitores, vocês, também!

15 fevereiro 2009

Revolução na Arábia Saudita?

Noura Al-Fayez, nova vice-ministra da educação para os assuntos das raparigas, tornou-se a primeira mulher a entrar ao governo da Arábia Saudita, um país onde a religião impõe uma estrita separação dos sexos. “É uma fonte de orgulho para todas as mulheres”, considerou a Sra. Al-Fayez na imprensa saudita, saudando a decisão do rei Abdallah como “uma feliz iniciativa”.
“Há muito tempo que temos sofrido que um homem ocupe este posto. A mulher conhece os problemas e os desafios que encontram as suas concidadãs. É uma mudança para uma melhor situação ", explicou Noura Al-Fayez, que fez carreira no sector do ensino. A sua entrada ao governo é entendida como um progresso pelos observadores, que esperam agora ver se outras medidas de promoção das mulheres a postos de responsabilidade se vão seguir.

Notícia dada por Le Monde

A pedra

É o nome do blog onde escreve o Pedro Afonso, que tenho a sorte de gostar de trabalhar no Pátio de Letras.
O Pedro saía do trabalho às 15h, mas ia voltar pelas 17h, não em serviço mas sim para assitir à sessão de poesia que integrava a apresentação do antologia Os Dias do Amor. Aliás, está representado na antologia e um dos seus poemas foi lido (e que bem lido!) na sessão pelo actor Álvaro Faria - tarefa difícil, que a poesia do Pedro, publicada neste livro, noutros antes e em revistas várias, raras vezes é assim como a que escreveu hoje (certamente de um só fôlego), "por causa" do tal intervalo...

February 14, 2009

não há nada como
aproveitar um intervalo
pequeno no trabalho
para dar a tal voltinha
descer a cidade até às muralhas
beber uma cerveja na tasquinha
e ir até à ponte
donde partem os barcos para a deserta
e cruza o combóio
apanhar um pouco de sol
e observar com todos os sentidos
os peixes nadarem na espuma branca
do esgoto que rebentou
por ter chovido
um bocadinho mais do que o normal
ver os caranguejos rebentarem
bolhas opacas de reflexos lindos
de detergentes óleos e químicos variados
misturados com a habitual gasolina

não há nada como esta
ambiência depressivo-decadente
pseudo-mediterrânica
e olhar a ilha ao fundo
através do bosque de mastros
e bandos de gaivotas
ver bófias passar de bicicleta
armados como na guerra
de pistola e belo capacete
enfiado na tola sedenta de acção

não se passa nada
continuem lá com a vossa gincana
e joguinhos de gang autorizado
enquanto eu volto a subir
a cidade de regresso ao trabalho

alguns miúdos enfeitaram o jardim
com fita magnética de VHS
bonito mais do que as palmeiras importadas


O trabalho no Pátio já quase não deixa tempos livres durante o período de serviço mas, quando assim não era, gostava de saboraer a surpresa de ver, no A Pedra, os poemas que o Pedro por vezes escrevia durante aqueles períodos mais calmos, e que agrupou AQUI. Ficava eu então a imaginar se e que frase estaria ele a escrever no momento em que, quiçá, o abordara para falar daquela ou daqueloutra minudência...


October 20, 2008

vou
sentado ao balcão
do lado de dentro
conduzo o nada pelo vazio
da tarde de sábado
enquanto
provavelmente
os clientes almoçam

tenho na frente uma paragem
a letras verdes
"próximo cliente"
e a parede branca ao fundo

conduzo o tempo
embatendo na suave ondulação
do som ambiente

vou aqui deixando
o meu estar


July 26, 2008

cumprindo o suposto
sem fugas surpreendentes
onde há paredes há chão
cobrindo o abismo constante

é nele que me diluo
sentindo o fresco que resta
da manhã que morre na luz
talvez quase que acorde
antes da absorção derradeira


Há mais poemas, escritos e opinião que vale a pena ler e ter em conta - podem ir lendo AQUI.

Agora que o MCR voltou...

--- das Correntes d' Escritas, onde já sabemos que reencontrou dezenas (quiçá mesmo centenas) de amigos e que acabo de ler este escrito num blog aqui do SUL, não resisto a deixar-vos o copy-paste. Quem queira aceder ao blog onde foi escrito pode fazê-lo clicando clicando no título abaixo.

Ondjaki, Correntes d'Escritas, Pátio de Letras, Os Dias do Amor, ontem, eu

Ontem: ontem comecei por ter a certeza que nunca seria convidado para as Correntes d'Escritas, pois segundo o Ondjaki esse é um espaço "de reencontro de amigos". Ora, eu, sem amigos na literatura (e ainda com uma pessoa que se arroga de ter uma inimizade comigo, apesar de não me conhecer) como posso esperar ser convidado?

Quando cheguei ao Pátio de Letras esqueci-me do choque da definição de Correntes d'Escritas do Ondjaki e desfrutei de boas leituras de poemas na apresentação da antologia de poesia Os Dias do Amor. Fiquei um pouco vaidoso por terem lido o meu poema "antologia", é verdade, mas também envergonhado quando os muitos presentes olharam para mim. No final, alguém que não conhecia, depois de me ter felicitado pelo poema, pediu-me para escrever algo na página onde ele se encontra. Então escrevi assim "para a Filipa, que a sua vida também seja uma antologia e, de preferência, com muitos poemas".

Fui para Tavira, logo de seguida para uma festa de família, e a declaração do Ondjaki reapareceu na minha cabeça: "As Correntes d'Escritas são um espaço para o reencontro de amigos". Como diria alguém: e esta, hein?

[tn]

14 fevereiro 2009

Estes dias que passam 143


Uma semana igual a tantas outras

S.ª Ex.ª não mentiu. Simplesmente não se lembra. Assinou ou não assinou? Sei lá. Mas está lá a assinaturazinha... Bem, estar, está, mas uma pessoa assina tanto papel... E a maior parte das vezes isso é puramente maquinal. Pensamos estar a dar um autógrafo e pimba, aí vai disto: está a assinar-se um contrato. E S.ª Ex.ª não se lembra... Eu também não. Também, valha a verdade, nunca fui a Porto Rico, bem que teria gostado, aquilo é tudo praias, bancos, loiras e morenas de ressuscitar um morto (e só Deus sabe quanto preciso de ser ressuscitado...). E empresas de informática doentinhas, pálidas, murchas, que hoje valem um balúrdio e amanhã o papel das acções nem para limpar o dito cujo serve. E também não vendi nem comprei empresas mesmo daquelas das que não valem meio pataco. Minto: vendi quando jogava o monopólio. Mas isso foi há tantos anos que o crime, se crime era, prescreveu.
S.ª Ex.ª ao não se lembrar de coisa alguma entra naquela categoria catatónica dos relapsos da memória. Que dia é hoje? Não sei. E ontem? Esqueci-me. E amanhã? O futuro a Deus pertence e quem sou eu para tentar perscrutar os caminhos do Senhor.
S.ª Ex.ª perguntado se é Conselheiro de Estado, conselheiro amoroso ou apenas o Leal Conselheiro abreviado para uso de adolescentes retardados e da Ministra respectiva, respondeu que nada disso, era tão só o concelho de Mortágua... ou (hesitação sorridente) Aigues Mortes. Mais tarde, mais modesto, negou tais palavras e assumiu-se como “freguesia”...
Em suma, tudo como dantes, quartel general em Abrantes.

2
Os jornais noticiam severamente uma forte dissonância entre as previsões do nosso sábio e experiente governo e os resultados da contracção do PIB. Até os mais pessimistas ficaram surpreendidos. Engano, queridas paroquianas. Engano. Eu, que sou um blogger a soldo das potências das trevas, não fiquei surpreendido. Também não fiquei feliz, cabe dizer, mas não fiquei surpreendido e quem me lê fielmente (ora tomem lá!, só leram em diagonal e agora queixam-se) sabe que me gastei até ao tutano em agoirentas predições que agora se mostram horrivelmente reais. Achei, e acho, que as etéreas criaturas que nos (des)governam não merecem mais crédito que o Zandinga. São amadores. Amadores fraquinhos, seja dito. Principiantes, mesmo. E esta gente que quer fazer comboios de alta velocidade e outras bizarrias. Vê-se que em pequenos ninguém lhes fez a caridade de um comboio eléctrico, mesmo dos baratinhos. Agora vingam-se. Ele é TGV para aqui, para acoli e mesmo para Vigo. E Vigo, porquê? Já cá há o El Corte Inglês e vendem-se em qualquer praça os pimentos do Padron (unos pican otros non). Há por aí umas alminhas inocentes que acham que estas e outras despesas trarão para Portugal inumeráveis benefícios. Outras almas mais dadas à libertinagem juram que o tal comboio irá aumentar a predominância das praças espanholas sobre as portuguesas. Ou, por outras palavras: o tal Noroeste peninsular serve para favorecer ainda mais os hermanos espanhóis à custa de uma série de papalvos lusitanos que se julgam inteligentes.
E agora a verificação do erro de previsão. Vão dizer que é a crise, olá se vão. Qual crise qual quê! O tanas e o badanas. A burrice supina é só nossa, muito nossa. Ou melhor, deles, desse estouvado grupo de governantes que, contra todas as probabilidades e a mais elementar prudência, andaram por aí a armar-se ao pingarelho. Cotejem as suas declarações de, por exemplo, há dois meses atrás. Basta ir a uma biblioteca e pedir uma colecção de jornais referente a esse período. E digam-me depois se o que leram não parecia a a história da Branca de Neve travestida em lobo do Capuchinho Vermelho.

3 De repente o país entrou em polvorosa. Um porta-voz da Conferencia Episcopal disse, e isso está gravado, um par de coisas sobre o hipotético casamento dos homossexuais. Aqui para nós, se de facto acreditam no que dizem, já o deveriam ter dito por alturas da proposta do BE há um par de meses. A menos que, e isso é compreensível, não levassem o BE muito a sério. Ou que, e isso é ainda mais compreensível, soubessem que o P.S. entendia que essa proposta era aberrante, redundante ou fracturante (risquem o que não interessar). E de facto o Ps votou contra. Agora, ainda nem seis meses passados, é a favor. Como? Porquè? Pois não se sabe. De repente a proposta derrotada aparece como uma “bandeira” do novo congresso que se avizinha. Parece que o P.S. não dorme condoído com a sorte dos homossexuais impedidos de convolar em justa núpcias diante de um cavalheiro do registo civil. O P.S. viu a luz enquanto entrava no túnel da crise e das próximas eleições. Em momentos deste género, o P.S. “reencontra-se” e encontra milagrosamente o que ele pensa ser os ideais de esquerda. Se é que o casamento dos homossexuais ainda tem essa categoria. Países e parlamentos bem mais à direita do que é suposto ser o nosso partido socrático já há muito que admitem este casamento mesmo que ele se não destine à procriação...
Os senhores bispos já mandaram dizer que não estavam a forçar ninguém e muito menos a pregar uma cruzada contra o P.S.. E nissp foram pressurosamente ajudados por comentadores que asseveram que a Igreja portuguesa reconhece que a César o que é de César. E que, ainda por cima, belo argumento, a Igreja sabia que não tinha força nem capacidade para mobilizar eleitores contra a nefanda medida.
Tem força, claro. Só que, no caso em questão, os paroquianos, ou uma grande parte, esmagadora parte, se está nas tintas. Dois homens ou duas mulheres a tentar viver juntos não suscita grande surpresa e, muito menos, grande reparo. As pessoas têm mais problemas e mais instantes, a resolver. A única coisa estranha é a Igreja ignorar isso. Todavia, um punhado de federações socialistas já veio pedir que a medida seja alvo de referendo. Quando não querem decidir, pimba!, toma lá referendo. Parece que o dr. Mário Soares também se comoveu com esta novidade. Também ele acharia que o casamento é para os heterossexuais. Ou pelo menos, o que é mais crivel, entenderá que Lisboa vale uma missa, o mesmo é dizer que mais vale ter a Igreja por perto do que contra.
O dr. Almeida Santos entretanto arriscou uma palavrinha, modesta e cautelosa, sobre a eutanásia e sobre o reconhecimento do testamento vital. Oh que tumulto! E as pressões não se fizeram esperar. O dr. Santos meteu a viola no saco e as pessoas que querem evitar a si próprias e á família o espectáculo de um fim de vida degradado, sórdido, doloroso que se lixem. Notem bem que não discutir isto é condenar-nos à não vida daquela desgraçada italiana que penou meia vida carregada de isquemias e chagas até há meia dúzia de dias. Ninguém quer matar um inocentinho, como já se dizia no caso do aborto, apenas se exige que deixem morrer com dignidade e sem sofrimento próprio e dos familiares quem isso antecipadamente pede.
Andam por aí uns guardiões de um templo que querem impor a todos os outros a sua Weltanschaung, o seu modo de ver o mundo e participar dele. Se for assim, e é assim, então devemos começar a pronunciar-nos sobre questões de fé e sobre a vida interna da Igreja.
Em Portugal a questão religiosa morreu há um bom par de anos. Morreu primeiro quando o excesso republicano inventou o “delírio religioso”, morreu depois quando uma certa versão do salazarismo mais torpe entendeu defender um Estado nacional-católico. Mas volta e meia ressurge nestas discussões como se subitamente se olhasse para a vizinha Espanha onde a militância religiosa tem amotinado multidões sobre temas tão normais quanto o do ensino da educação cívica. Será assim? Quererão alguns portugueses importar o Monsenhor Rouco Varela e a nova cruzada que ele tenta pôr de pé?

4 Um tribunal da relação deu o golpe de misericórdia na bambochata dos apitos. Lendo os excertos do acordão, fica-se com a penosa ideia de que o Ministério Público meteu os pés pelas mãos, produziu uma prova nula ou tão pobre que mereceu um arraial de bordoada. A violência dos termos do acórdão é aterradora. E faz-nos temer pela nossa segurança e pela garantia de competência que soi atribuir-se ao MP (ou a algum MP) e isso, desculpem que o diga, corrói a própria base do sistema democrático em que vivemos e queremos viver. E faz-nos pensar nesta outra coisa: se em vez de procurar estar continuamente na ribalta mediática algumas personalidades do MP se preocupassem em instruir com seriedade, competência e bom senso os processos que lhes são atribuídos? Perdiam em visibilidade negativa o que todos ganharíamos em boa justiça.

Conselheiro de Estado mentiu?

Entre não se lembrar e mentir há uma grande diferença. Será que ainda vamos ter Dias Loureiro num daqueles programas que descobrem a verdade?

Arquitectura Militar Portuguesa no Golfo Pérsico

Ontem na Universidade de Coimbra apresentou dissertação de doutoramento o Arqº João Campos, licenciado em Arquitectura pela ESBAP, Mestre em Relações Interculturais e agora Doutor em História da Arte pela Univerdidade de Coimbra, aprovado com nota máxima e distinção.

O trabalho apresentado foi muito elogiado e constitui um marco no estudo da arquitectura militar portuguesa nos séculos XVI e XVII no Golfo Pérsico.

CEAMA: um exemplo a seguir

Em Almeida, pequeno concelho com 8.000 habitantes situado no interior do interior, a Cãmara Municipal patrocinou a criação de um Centro de Estudos de Arquitectura Militar que, entre outras iniciativas, publica uma revista semestral "CEAMA", cujo nº 3 acaba de ser distribuído.

Trata-se de uma iniciativa cultural, de relevância nacional, que mereceria melhor atenção e destaque.

Esta é uma das provas de que o que falta em Portugal não é dinheiro, são ideias ...

Padroeiros da Europa

Hoje, a Igreja Católica celebra a Festa de S. Cirilo e S. Metódio, Padroeiros da Europa.

Mas apenas se houve falar de S. Valentim, bispo, mártir, falecido em 273.

The Moody Blues - Nights in White satin

O leitor (im)penitente 45

Impenitente, impertinente mas contente

O escriba anda fugido em parte incerta. Ou, melhor dizendo, em parte mais que certa, certíssima. Na Póvoa do Varzim em alegre conversata com outros leitores, autores, livreiros, editores e muito povo, como se dizia no antigamente.
É a festa dos livros: a 10ª edição de Correntes d'Escrita, que este ano e pelo facto de ser um número redondo dá origem a uma alegre confusão de autores, muitos, mais que muitos, autores e mesas redondas que não acabam. Tudo devido ao trabalho da Manuela Ribeiro e do Francisco Guedes (e de mais muita e boa gente) sem falar do apoio da Câmara Municipal da Póvoa (honra lhe seja!) e de várias entidades culturais e turísitcas da terra. Ora aqui está uma grande lição para o amorfo e tristonho poder autárquico de muita terra que poderia e deveria pegar em reptos semelhantes.
Hoje, e daí a fotografia do malogrado Eduardo Guerra Carneiro, homenageiam-se alguns mortos recentes que em seu tempo aqui estiveram com a sua alegria, a sua escrita e sua contribuição cidadã. Escolhi ilustrar este telegrama com um amigo desde os principios de 60 em Coimbra por razões muito minhas mas públicas: ECG foi um excelente poeta, um jornalista generoso e um cronista ímpar. Mereceria uma reedição da sua obra que anda por aí quase esgotada.

Será o Vítor Quelhas quem o relembrará. Relembrados serão também o Eduardo Prado Coelho (por Francisco Belard) e o Ramiro Fonte (pelo infatigável e sempre risonho Vergílio Alberto Vieira). Ora aqui está um pequeno sinal de que a tribu literária não esquece os seus. Esperemos que a este gesto se sigam outros. Pelo menos uma antologia do Ramiro poeta de reconhecida qualidade, amigo de Portugal e dos nossos escritores que ele procurava por alfarrabistas e a qualquer preço. Poucas vezes ouvi alguém falar tão certeiramente de Raul Brandão...

A Póvoa foi uma festa. É uma festa e pelos vistos aquilo está para durar. Acaba hoje esta maratona de seis dias e, para os amadores de livros, resta esperar por Matosinhos, lá para fins de Abril. Ou, para os felizardos que vivem no Algarve (Algarve e não aquela bambochata inglesada All qualquer coisa), ir de longada até ao Pátio das Letras livraria animada pela almirante Kamikazi (que era muito ká de kaza...ou kasi....). onde há livros, curiosidade, generosidade e um bar para descansar das agruras da leitura.

13 fevereiro 2009

Lobbying

Esta notícia dá conta da vontade, hoje, de Ângelo Correia em substituir Manuela Ferreira Leite na liderança do PSD. Esta outra dá conta das intenções do mesmo Ângelo Correia, mas na passada terça-feira, em que dizia que era necessário respeitar a líder. Está bonito o PSD.

Ângelo Correia, como se sabe, é o mais-que-tudo de Pedro Passos Coelho e deve estar na origem do verdadeiro lobbying em defesa do putativo candidato a líder. Passos Coelho foi entronizado na conferência do jornal “The Economist” e nos almoços do “American Club”, ainda ontem, e tem sido levado ao colo pela redacção do “Diário de Notícias", como bem tem denunciado Pacheco Pereira, no Abrupto.

Julgo que nunca se terá visto uma campanha tão profissional e empenhada na promoção de um candidato à liderança de um partido por forças estranhas ao mesmo. Novos tempos e novas desconfianças sobre o que faz mover os partidos.

Porque sim

Caros leitores, venho fazer prova de vida neste fórum, após prolongado silêncio, dando conta daquilo que os amigos incursionistas, companheiros queridos de incursões várias, sempre no meu coração, lembrança e recorrentes pensamentos (ainda que não na ponta dos dedos teclantes) bem sabem: estou em "prisão domiciliária", por conta da concretização de um sonho que espero não me arraste para o pesadelo do real :)

Teclo muito ao longo do dia e da noite mas só hoje, demasiado tempo depois da radical mudança de vida, escrevi o que se pode chamar "um post". E apeteceu-me vir dar conta disso aqui. Por muitas razões, uma das quais, provavelmente a mais importante, porque sim.

Com amizade e muitas saudades,

vossa Kami

12 fevereiro 2009

Relação arquiva "caso da fruta"

O Tribunal da Relação do Porto confirmou o arquivamento do famoso "caso da fruta", negando provimento ao recurso da equipa de Maria José Morgado. A obssessão parece que vai cair por terra, assente que estava em testemunho(s) de credibilidade nula. Como se percebia desde o início.

Quando se procura combater a corrupção, desportiva ou não, com semelhantes pés de barro não se vai longe. E os beneficiados são os verdadeiros corruptos.

“A Lei dificulta combate à fraude económica”. Porquê?

O Professor Carlos Pimenta, que coordenada uma pós-graduação sobre fraude, na FEP, em declarações ao JN, garante que "o que tem acontecido na Banca resulta da situação económica em que estamos. Quando as dificuldades no acesso ao crédito são muitas, a maré começa a baixar e a rocha a vir ao de cima. Não há a possibilidade de encobrir tanto o buraco como em situação de prosperidade económica".

Por outro lado, para Carlos Pimenta a lei "preserva muito os direitos dos indivíduos". Daí que afirme não se espantar nada com a duração que algumas investigações têm porque a lei dificulta extremamente as investigações. "O problema não é dos investigadores mas da legislação", conclui.

O Prof. Carlos Pimenta não é o primeiro a responsabilizar a lei pela ineficácia no combate à corrupção e fraude. A questão é: O quê e quem impede a alteração da lei?

11 fevereiro 2009

CONGRESSO INTERNACIONAL SOBRE EVOLUÇÃO BIOLÓGICA

De 3 a 7 de Março vai realizar-se em Roma um Congresso Internacional sobre “Evolução biológica: Factos e Teorias. Uma avaliação crítica 150 anos depois de " A origem das espécies "
Organizam o Congresso a Pontifícia Universidade Gregoriana, em colaboração com a Universidade de Notre Dame (Indiana, E.U.A.), sob o patrocínio do Conselho Pontifício para a Cultura, no âmbito do Projecto STOQ (Ciência, Teologia e Questão Ontológica).
Intervieram na conferência de imprensa de apresentação do Congreso, o Arcebispo Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura e presidente honorário da Comissão de Honra do Congresso, o padre Marc Leclerc, SI, professor de Filosofia da Natureza da Universidade Gregoriana e director do Congresso, Giuseppe Tanzella-Nitti, professor de Teologia Fundamental na Pontifícia Universidade da Santa Cruz, e Saverio Forestiero, professor de Zoologia da Universidade de Roma Tor Vergata, membro da comissão organizadora.
O Arcebispo Ravasi afirmou que este Congresso responde à exigência de restabelecer “o diálogo entre ciência e fé, porque nenhuma delas pode esgotar o mistério do homem e do universo"
O Professor Leclerc explicou que o Congresso está dividido em nove sessões, que vão discutir sobre "os factos essenciais sobre a teoria da evolução relacionados com a paleontologia e a biologia molecular", "o estudo científico dos mecanismos da evolução”, “o que diz a ciência sobre a origem do homem, "grandes questões antropológicas relacionadas com a evolução”, “as implicações racionais da teoria, quer no campo epistemológico como metafísico ou da filosofia da natureza." Finalmente disse que "haverá duas sessões teológicas para examinar a evolução a partir da perspectiva da fé cristã, baseada numa correcta exegese dos textos bíblicos que tratam da Criação, bem como a recepção da teoria pela Igreja ".
O Professor Saverio Forestiero observou que "a relativa fluidez da teoria evolutiva contemporânea se deve, em grande parte, a uma série de descobertas do último quarto de século que requerem uma reconfiguração da teoria sintética e poderá conduzir a uma teoria evolutiva de terceira geração ". "Penso que o Congresso representa substancialmente uma ocasião, nem propagandista, nem apologética, de encontro entre cientistas, filósofos e teólogos sobre as questões fundamentais colocadas pela evolução biológica, que se assume e discute como um facto para além de qualquer dúvida razoável, para aprofundar as suas manifestações e mecanismos causais, além de analisar o alcance e a qualidade das teorias explicativas propostas até à data."
Por sua vez, o professor Tanzella Nitti sublinhou que "a partir da perspectiva da teologia cristã, a evolução biológica e a Criação não se excluem em absoluto. (...) Nenhum dos mecanismos evolutivos se opõe à afirmação de que Deus"quis", e decidiu "criar "o ser humano. Nem sequer se opõem aos numerosos eventos aleatórios durante a lenta evolução da vida, desde que o recurso ao caso seja uma simples leitura científica dos fenómenos científicos, incapaz de negar a esfera dos fins”. Depois de manifestar a esperança de que "a teologia faça cada vez uma maior utilização das ciências naturais como um recurso positivo de conhecimentos, e não só como uma fonte de problemas", Professor Tanzella-Nitti, admitiu: "Não creio que seja possível uma evolução biológica num mundo materialista, sem informação, sem direcção, sem um projecto. No mundo criado, a tarefa da teologia é precisamente falar sobre a natureza e do significado desta informação, o logos, que, como gosta de repetir Bento XVI, é a razão não criada fundamento de todas as coisas e da história. "

In Serviços de Informação do Vaticano

Estes dias que passam 142


Afinal o senhor bispo mantém o que disse. Convenhamos que só lhe fica bem. Sª Reverência (espero que seja este o tratamento adequado mas se não for paciência...) acha que não houve gás nem fornos crematórios. E que os judeus, esses matadores de Jesus, nem foram assim tão atingidos. Duzentos mil no máximo, segundo sábias contas feitas lá nas terras patagónias onde tantos cavalheiros de bem, injustamente acusados, passavam o resto dos seus dias esperando ver-se livres do Wiesenthal e dos de Israel (que gente tão vingativa, vê-se logo que são judeus!).
O lefebvriano bispo (que reintegraria a Igreja Católica nessa qualidade apesar de ter sido ordenado por quem o não podia fazer) disse ao Papa que não. Que para renegar as suas opiniões teria de re-estudar toda uma série de questões e que tal tarefa parecia não estar na (sua) ordem do dia.
Ou, por outras palavras, um bispo “cismático” derrota com meia dúzia de afirmações toda uma estratégia do Vaticano. Porque, e este é o ponto central, não foram os cismáticos a pedir o re-ingresso na Igreja oficial mas sim esta que se propôs absorvê-los apesar de, como tudo indica, esse grupo estar não só contra o que foi determinado pelo concílio Vaticano II mas, pior ainda, representar uma clara incursão do fascismo na Igreja. A menos que se considere de somenos a negação do Holocausto. Pessoalmente entendo que quem nega esta evidência é fascista, isto é está de acordo com os mandantes e executantes dessa política infame de aniquilamento de uma inteira religião pelo expedito meio de acabar com os seus praticantes. E mesmo com os não praticantes desde que filhos netos ou afins e familiares de judeus. São quatro “bispos” entre aspas e umas dezenas de milhares de simpatizantes. A maioria gente idosa mas com penetração em alguns meios mais jovens. Geograficamente dividem-se pela França e países vizinhos na sua imensa maioria. É duvidoso que, por exemplo, tenham representantes em Portugal. O país está demasiadamente descristianizado para alimentar estas dissidências integristas. Cá, os desiludidos com o catolicismo viram-se para os Adventistas do 7º Dia e para as Testemunhas de Jeová. E começam a aparecer mórmons e seitas brasileiras. Há mesmo um pequeno grupo de ortodoxos de obediência grega ou russa ainda que, em obediência aos princípios da autonomia ortodoxa, isso seja pouco visível. É de supor que estes novos grupos religiosos tenham até mais praticantes do que as tradicionais Igrejas Protestantes já estabelecidas em Portugal.
De todo o modo, a Igreja católica portuguesa fora o problema da crise de vocações e da falta cada vez maior de sacerdotes debate-se mais com a pouca afluência ao ofício dominical do que com o integrismo. Em Portugal, a Igreja pode não ter a força da sua congénere espanhola, mas o facto é que também não cria os anti-corpos que esta suscita quase diariamente no país vizinho.
Pessoalmente, sinto-me bem com esta Igreja que não frequento, de que não comungo ideais ou estratégias mas com quem consigo conviver sem me sentir pressionado mesmo quando se debatem questões de sociedade que no resto da Europa católica levantam enorme alvoroço. Em Portugal, nunca se levantaria a tempestade italiana a propósito de uma Eluanna presa durante mais de metade da sua (não) vida a um aparelho. Penso que isto é um bom sinal de coexistência de uma Igreja e de uma sociedade formalmente católica mas bastante laicizada.
Mas voltemos ao “bispo” rebelde. E sem querer pôr especialmente em causa o Papa há que convir que as coisas não correram bem. O Vaticano correu um risco desnecessário e, mais do que isso, pode vir a ser prejudicado na sua alegada tentativa de estabelecer relações mais distendidas com os mundos muçulmano e judaico. Levantou problemas na Alemanha, terra natal do Papa Ratzinger, onde as susceptibilidades são naturalmente muito vivas. E apareceu como uma rendição frente ao grupo integrista. Pouco importa se não era assim porque foi assim que foi vista a reintegração dos lefebvrianos. Eu sei que haverá quem diga que isto é uma análise apressada (pode ser) e que não toma em linha de conta todos os vectores (concedo) mas a opinião pública também não tem tempo para grandes estudos e maiores análises.
E nestes tempos de reinado do efémero é nessa arena que a Igreja defronta o mundo.

10 fevereiro 2009

Para reflexão

O JN de hoje publica um oportuno artigo do Prof. Alberto Castro, em que nos fala da crise, de algumas verdades adquiridas, de mudanças que se fazem e de outras que não parece possível fazer. A ler.

Diferentes Visões da Segurança Pública

O Governo acaba de anunciar que este ano vai abrir dois concursos para contratar mais 2.000 polícias, para a PSP e GNR, com o objectivo de reforçar o combate ao crime violento. O objectivo é, ainda, reforçar o controlo das fronteiras e reequipar as forças policiais com 7.000 armas de 9mm e mil coletes à prova de bala.

Esta medida, que agora se diz que vai ser executada, decorre de outros anúncios anteriores e creio que do próprio programa do Governo em fim de exercício. Os cidadãos, em geral, vão achar bem porque acreditam que com mais policiais se melhora a segurança de cada um.

Contudo, face ao clima de crise generalizada e ao desemprego que dia a dia se anuncia bem pode o governo programar já a abertura de novos concursos para a admissão de mais polícias, porque não é preciso ser sociólogo para saber que o que vem aí é mais criminalidade e que esta acompanhará (não sei em que grau) o crescimento do desemprego.

Talvez o reforço dos polícias devesse ser acompanhado pela exigência dos empresários, em particular dos grandes empresários, assumirem, finalmente, o que, em gloriosas conferências e brochuras de promoção dos ditos, se tem apelidado de “responsabilidade social das empresas”. Acredito que, nesta fase, por esta via se possa fazer mais pela segurança pública, do que pela via do reforço policial.

BPN - um caso de polícia

O BPN é uma mega fraude", declarou Rui Pedras, administrador do BPN, convidado por Miguel Cadilhe, que está a ser ouvido pela comissão de inquérito. Rui Pedras disse, ainda, que "o BPN é um caso de polícia" e que "a fraude do Madoff é inferior à do BPN, em termos comparativos. Porque a relação com a economia dos EUA é inferior.

A ler aqui e aqui.
Com tamanha fraude como é que os auditores externos e as entidades de supervisão se mantêm incólumes? E toda aquela fraudulência foi cometida por um único personagem? É que se foi o homem é um génio.
E o BPP, como é que vai? Já pouco se ouve falar dos avultados recursos públicos, via CGD, que recebeu, que mantém a sua administração e que não consta que tenham sido afectados, com excepção do ex-presidente, onde ninguém terá sido incomodado, para não perturbar a confiança dos cidadãos, supõe-se.

08 fevereiro 2009

Diário Político 101


A moda de Salazar

Hoje, em dois jornais, ele há coincidências!, fala-se na moda de Salazar. São livros (meia dúzia deles nos escaparates), é um filme recheado de belas mulheres, são comentários, enfim aqui há gato. Ou melhor: passa-se qualquer coisa que desde o célebre concurso televisivo não tem parado de aumentar.
Salazar desapareceu da cena política há quarenta anos. Uma cadeira velha e moscovita ou, pelo menos maçónica, desimpediu o caminho titubeante de Caetano e precipitou um fim de regime que, e convém lembrá-lo, ainda durou meia dúzia de anos.
Quarenta anos é muito tempo. Dá para esquecer muita coisa. Digamos que as gerações com menos de cinquenta anos não sabem nada desse tempo de urubus. Nada de nada, mesmo que tenham estudado a época. E não sabem porque a não viveram. Eu não quero aqui polemicar sobre a verdadeira natureza do Estado Novo. Se era ou não um fascismo declarado ou tão só um autoritarismo grotesco e clerical, apoiado na crassa indigência política de duas ou três gerações nascidas depois do 28 de Maio. E fortalecida por uma sociedade fortemente rural, analfabeta que via no cavalheiro de Santa Comba o homem que a salvara da guerra. Da Mundial, diga-se de passagem, que de outras não nos safou, antes nos precipitou nelas com as consabidas consequências.
Diga-se, entretanto, que a guerra (ou guerras) colonial com todo o seu medonho cortejo de mortos, de exílios, de matanças indiscriminadas (que não foram tantas como as que se publicitaram nem tão poucas como agora uma história desculpabilizadora nos quer fazer crer) teve na sociedade dos anos sessenta um efeito brutal. Despertou largas camadas da população que viu partir filhos, pais e irmãos. Levou à emigração muitos milhares de portugueses que entenderam mais prudente e mais rentável o trabalho no estrangeiro do que os ares africanos. Trouxe ao mercado do trabalho, rarefeito pela mobilização masculina, muitas dezenas de milhares de mulheres que de outro modo teriam continuado como domésticas, rurais ou criadas de servir. Politizou a sociedade portuguesa ou, pelo menos, obrigou-a a encarar de frente uma realidade que os mapas do Portugal não é pequeno disfarçavam.
E mesmo nas colónias, ou melhor dizendo em Moçambique e Angola, obrigou os poderes locais a abrir escolas e universidades, a permitir a entrada de negros e mulatos na administração pública, em lugares subalternos da carreira política, enfim realizou em meia dúzia de anos o que não fora feito nos anteriores cinquenta anos de política de “assimilação”.
Nada disto, porém, se deve a Salazar mas tão só às circunstancias especiais que a guerra em três frentes o obrigou.
Voltemos pois a este exercício de louvor a uma figura que deve ser tomada como um dos principais responsáveis do atraso português.
E comecemos por um filme que por aí se anuncia onde, pelos vistos, se atribui, ao eremita de S.Bento um número honroso de aventuras femininas. Eu não ponho as mãos no fogo pela virtude (se virtude aquilo era) de ninguém. Salazar conheceu algumas mulheres, sabe-se. Relacionou-se com outras tantas e recebeu (isso sim, bem documentado) milhares de cartas em que por vezes a admiração assumia tons quase libidinosos. Todavia, era voz corrente desde a direita até à esquerda que esse conhecimento da gens feminina era claramente platónico. O homem seria misógino ou apenas tímido, estava moldado pelo seminário e pela austeridade, enfim, ao cavalheiro o namoro e as suas mais evidentes consequências dizia pouco. Como já disse não ponho a mão no fogo sequer por mim, mas parece-me que esta faceta de Casanova lusitano, de macho ibérico discreto mas machão. É que não consta nos numerosos textos que ao longo dos anos fui tendo a paciência de ler. Não sei tudo, provavelmente sei pouco mas espanta-me esta súbita humanização do anacoreta.
A segunda parte desta nova atitude perante Salazar é a glorificação de uma política económica que, a todos os títulos, foi puramente defensiva. Agora, parece que as obras de regime, que as houve, evidentemente, foram algo de refulgente de original e de grandioso. As barragens, as escolas dos centenários (quando seria bom lembrar que só em fins de quarenta é que voltou a ser obrigatória a 3ª classe...), os bairros económicos, o escasso desenvolvimento industrial ou o viaduto Duarte Pacheco foram actos de mera gestão e se se distinguem por algo é exactamente por terem sempre ficado aquém das necessidades mesmo de um pais rural e empobrecido. Nem os lucros da neutralidade, que os houve, foram aproveitados, como aproveitado não foi o plano Marshall.
Nem o turismo, incipiente até sessenta e dois, sessenta e três, foi aproveitado para, a exemplo da vizinha e faminta Espanha, criar um grande destino de férias e de lazer internacional.
Mais curioso ainda: o exército, esteio do regime a partir do momento em que Salazar se desembaraçou da oficialagem republicana que fizera o golpe de 28 de Maio, também não estava preparado para a guerra: os primeiros meses, melhor dizendo os dois primeiros anos de guerra em África foram prova cabal disso mesmo. Pode até dizer-se dessas forças expedicionárias o mesmo que em fins do século XIX se disse do Exército Colonial. Mal preparado, mal enquadrado, armamento mais que deficiente, péssima intendência mas um espírito desenrasca e desenvolto e muito, mas muito, heroísmo individual. Está escrito não por comentadores nacionais mas por estudiosos estrangeiros que dedicaram às campanhas de consolidação do império um estudo que poucos nacionais foram capazes de igualar. O mesmo sucedeu nos primeiros tempos da campanha do Norte de Angola nos anos sessenta. Simples soldados, muitos milicianos e alguns oficiais do quadro fizeram das fraquezas força e reocuparam o território apesar das péssimas condições, da falta de armamento adequado (nem as fardas eram boas...) e da má retaguarda. Isto para não falar da péssima ou inexistente informação social e política. Angola rebentou na cara de um serviço de informações militar e civil inoperante e inculto.
A famosa polícia política de Salazar, a PIDE, a Legião e outras forças do mesmo teor andaram ás escuras durante meses. De facto a primeira apenas servia para espiar os nacionais na metrópole e mesmo aí usava mais os métodos brutais do que a investigação cuidadosa. Corre por aí a este respeito uma autobiografia de um Fernando Gouveia que além de repelente é de uma falsidade pasmosa. A tentativa de branqueamento dos processos de interrogatório, os famosos “safanões dados a tempo”, roça o ridículo tanto mais que se sabe que a policia nunca conseguiu prever sequer desmantelar os vários aparelhos oposicionistas. Os êxitos que teve (e teve-os, claro) devem-se em muito ao clima de medo e intimidação existente, às características plácidas de um pais em que nada acontecia e em que, por isso mesmo, a novidade era sempre insólita e subversiva. A eficácia da PIDE foi sempre uma miragem, basta ver o caso do assassinato de Delgado, muitas vezes engrandecida pelo medo de muitos e pelos exageros de outros tantos.
Mas o pior da herança salazarista não está nisto que já é muito, que já é demais.
Insidiosamente deixou a sociedade vacinada contra a democracia, contra a liberdade, contra a discussão livre, contra a polémica. Governo que se preze pede, antes de tudo, respeitinho. Exige autoridade. Muita e a qualquer preço, em qualquer circunstância, mesmo a mais comezinha. A contestação é considerada um desafio insuportável.
A ideia geral é esta: o governo governa e aos cidadãos compete baixar a cabeça e cumprir. “Deixem-me trabalhar” pedia alguém como se o discutir as suas opções tácticas fosse um crime e uma insuportável violência.
Neste clima tão escasso de discussão, não admira que esta seja postergada como o foi no regime nazi ou no das democracias populares que nem democracias nem populares eram, diga-se de passagem.
Aliás, quer Salazar quer a generalidade dos ditadores sempre recearam e condenaram a vozearia da praça pública ou das assembleias. Ou porque as consideram ignorantes e logo incapazes de decidir. Ou porque entendem que mesmo sem ser ignorantes, a crise aperta e exige medidas urgentes e a salvo da contestação. Ou porque, e este é o caso mais frequente, entendem o poder como algo que vem direito de Deus e que não pode nem deve ser partilhado.
Um último argumento, muito em voga, é o de qualquer cedência é sempre uma porta aberta para a mais completa libertinagem.
É talvez por isto que os nossos partidos estão pouco habituados ao confronto de opiniões. Interna ou externamente. Basta ver algumas sessões na AR ou, melhor, o que se passa nos congressos e estamos aliás em época deles. No CDS. Portas elegeu-se triunfalmente com um número de sins que lembra a saudosa Albânia. No Bloco, há mais discussão mas a coisa explica-se pela sua própria génese inter-partidária. E porque pode vir a ser um dos fieis da balança no caso provável de as eleições legislativas não darem a maioria absoluta a ninguém. Quanto ao P.S., basta ouvir Santos Silva para se perceber que naqueles lados também se está a preparar um heróico quadrado à volta do líder. E quando os quadrados se formam, as “minudências” ficam de fora.
Em países de tradição democrática mais antiga estes unanimismos seriam motivo de estupor. É ver o que se passou há bem pouco em França, no congresso do P.S. .
E até na Espanha tão próxima, tão parecida e tão diferente, as coisas correm de outra maneira. Neste exacto momento, leia-se o El Pais de hoje, quer no PP quer no PSOE para não falar em formações menores ou nas sucursais partidárias autonómicas, a discussão ferve. Defeito deles, seguramente...

d'Oliveira

07 fevereiro 2009

Se eu fosse militante do PS

Aproxima-se o congresso do PS e decorre por esta altura a campanha, junto dos militantes, para esclarecimento sobre as moções de estratégia e preparação da eleição dos delegados ao congresso. Não sou militante do PS, mas se o fosse empenhar-me-ia na defesa da candidatura de José Sócrates. Sem dúvidas e sem reservas.
A reeleição do secretário-geral do PS, desta feita sem adversários na corrida interna, é de importância acrescida nestes tempos conturbados. A crise que aí está exige lideranças fortes por parte dos partidos de poder e, no caso do PS, essa liderança de Sócrates deve ser reforçada a pensar no próximo acto eleitoral. Por isso, é pena que os seus adversários, que os há, não tenham assumido nenhuma candidatura a este congresso.
Nem tudo foi excelente nestes quase quatro anos de governação, é verdade, mas basta recordarmo-nos do que foram os anos antes de Sócrates para imaginarmos o que seria o regresso ao passado. Por outro lado, um PS refém das minorias, à direita e à esquerda, poderia trazer sérios problemas de (in)governabilidade.
O governo do PS interveio em sectores como a segurança social, a solidariedade, a justiça, a educação, a reforma da administração pública. Apostou na quebra de alguns monopólios instalados. Enfrentou com coragem as forças de pressão de algumas corporações. Umas vezes melhor, outras menos bem. O balanço que faço, no entanto, é bastante positivo. Sei que muitos dos leitores não concordarão, mas estou certo que a maioria acompanhar-me-á nesta avaliação. Veremos nas próximas eleições quem está mais próximo da razão.