04 julho 2004

Prolegómeno

Sentado numa pedra, à sombra dum castanheiro, eu saboreava o silêncio da tarde como quem lê um livro ou ouve música.
No meu caso, a música era a dos pássaros.
Um casal de toutinegras que tem o ninho nas traseiras da casa onde moro, mantinha uma acesa discussão doméstica: crés, crés, crés, lés, crés: sublinhadas as palavras com acentos de cauda ou pequenos voos dum lado para o outro.
Empoleirada no cocuruto da chaminé, uma carriça ensaiava solos de prima-dona de teatro lírico.
Nunca tinha reparado que a carriça, a bem dizer um passareco irrisório, cantasse tão bem. Ou será esta a Maria Calas das carriças? Assim no alto da chaminé, bem projectado no espaço, o raio do passaroco até parecia ave de maior vulto. E quanto à cantiga, nada mal.
Dum emaranhado de silvas e salgueiros, vinha o improviso dum rouxinol. E esse sim, que é um génio. Creio que adormeci ao som do rouxinol.
Acordei com a sensação de que me estavam a bater à porta. Abri os olhos e vi um burro atrás de mim. Era ele que, incomodado por uma vespa, batia as patas no chão.
As toutinegras continuavam a discutir, a carriça empoleirada na chaminé e o rouxinol a desfazer-se em melodias, sem nunca repetir a mesma nota.
Já um tentilhão que ensaiava a rabeca lá para a macieira, repisava sempre o mesmo estribilho.
Escondidos na copa dum carvalho alvarinho, um gaio amarelo e um melro pareciam pegados numa desgarrada sem fim à vista. O melro, porém, senhor dum assobio mais poderoso e variado, ia levando a melhor.
Enquanto os ouvia, eu pensava: será que os pássaros são dotados por igual de voz e ouvido, ou também entre eles haverá Amálias Rodrigues e Josés Cabras?
Estive para perguntar ao burro. Mas ele pareceu-me tão filósofo e concentrado que eu não tive coragem de o perturbar.
A meus pés, uma planta de folhas verdes, flores azuis e vários caules em círculo e divergentes a partir da raiz comum, era uma orquestra de instrumentos de corda dedilhados por numerosos insectos da família das abelhas, onde sobressaíam moscões amarelos listrados de preto: vam-am, vam-am, vom-om, vom.
Para além dos pássaros, dos grilos, das rãs, dos insectos, silêncio absoluto. Apenas o sol brando, a aragem leve, o ar perfumado.
Se me tenho mantido fiel a este recanto do paraíso onde nasci, muito provavelmente hoje seria um poeta ou um santo, disse para comigo.
O burro deve ter-me lido o pensamento porque, mal eu acabara de pensar isto, ele alongou o focinho e o rabo numa gargalhada estrondosa:
- Uah! Uah! Uah! Ah! Ah! Ah! Brr, brr, brr, ipsilon, ipsilon, ipsilon.
Fugi espavorido.
Ao que eu cheguei. Até os burros se riem de mim...
VIVA BARROSO!

Bento da Cruz
In O Correio do Planalto (Montalegre), de 30-5-2004

2 comentários:

L.C. disse...

Prémio 'A Loba' de Bento da Cruz Em Santiago de Compostela, na Galiza, foi ontem (?) entregue o Prémio Arzobispo Juan de San Clemente ao escritor Bento da Cruz pelo seu romance A Loba, na tradução galega de Moncha Arias. A cerimónia teve lugar no Instituto Rosalía de Castro. Nos oito anos que que tem este prémio, foram galardoados Vargas Llosa, Javier Marias, Carmen Martin Gaite, António Tabucchi, José Saramago, Gonzalo Navaza, Manuel Rivas, Paul Auster, Milan Kundera, entre outros. Bento da Cruz é médico no Porto, tendo obtido o Prémio Literário Diário de Notícias com O Lobo Guerrlheiro e o Prémio Literário Eixo Atlântico com A Loba, que se encontra traduzido em galego. A paisagem humana e geográfica transmontana de um autor de Barroso impondo-se.

Silvia Chueire disse...

Gostei de ler o conto. Obrigada.