20 julho 2004

Prolegómeno

Desde que trabalhei em Montalegre, em 1979, onde fui delegado do procurador da República durante cerca de um ano, mandam-me religiosamente o Correio do Planalto. No último número (Junho de 2004), recebido há dias, lá vinha o costumado Prolegómeno, do seu director Bento da Cruz, nome grande das nossas letras. Deliciem-se.

Pertenço a uma família de caçadores inveterados. Eu não cheguei a viciar-me porque sou pitosga de nascença e só comecei a usar óculos aos vinte e tal anos. Suponho que foi por isso. Ou não seria. 0 certo é que, quando de férias, uma vez por outra pegava na espingarda e saia para o monte. 
O meu pretexto era esticar as pernas. Minha mãe e irmãs, no entanto, partiam do princípio de que, se eu ia à caça, tinha obrigação de trazer coelho, perdiz ou lebre para o arroz. Neste pressuposto, se a sorte me favorecia, quer dizer, se os cães agarrassem qualquer coisa para eu pôr à cinta, elas recebiam-nos de sorriso aberto e mesa posta. Se não, corriam os cães da cozinha a pontapés, como a dizer-me:
- Era o que tu merecias...
Também hoje merecia uns pontapés. Saí de casa à cata de assunto para este prolegómeno e trouxe apenas um braça­do de flores silvestres. E à volta delas que vou circunvagar.
As dedaleiras estão agora no apogeu da florescência. Colhi uma e comecei a dar estraloques. Consiste a habilidade em premer a campâ­nula pela boca entre os dedos polegar e indicador direitos e esborra­chá-la de encontro à palma da mão esquerda. A manobra produz um estalido seco - o estraloque. Como nem todas produzem o mesmo sonido, nós, os garotos doutros tempos, desafiávamo-nos a ver quem estralocava mais alto. Não havia dedaleira que nos escapasse. Onde quer que as víssemos, íamo-nos a elas e toca a estralocar.
Mais tarde, quando estudante de farmacologia, fiquei a saber que há duas variedades de dedaleira. A digitalis purupurea, de campânulas intensamente coloridas de vermelho e rosa e a digi­talis lanata, um pouco mais esbran­quiçada, e que de ambas se extrai a digitalina, medicamento muito usado em cardiologia. Dada a abundância duma e doutra em Barroso, apetece perguntar: porque não industrializá-la?
Cansado dos estraloques, fixei a minha atenção num maciço de mentrastos. Também deles, parentes próximos da hortelã-pimenta, ou mentha, aprendi que se extrai o mentol e a água-de­-colónia. Nunca passo pelos mentrastos que não colha um raminho. Gosto do aroma.
Já trazia um ramalhete de dedalei­ras. Juntei-lhe outro de mentrastos e fui andando.
Ia lá numa calhelha solitária, comecei a sentir um perfume intenso e agradável. Tate, disse para comigo. Donde virá isto? Depressa descobri. Dos salgueiros, nesta época do ano mais solenes e vistosos do que abades de sobrepeliz e turíbulo. Também os salgueiros andam ligados à minha infância. Era deles que, pelo Entrudo, fazíamos seringas de água para seringar as raparigas, e, pela Páscoa, pistolas de ar comprimido, cujas balas eram de estopa humedecida. Em Peireses, os salgueiros são tão abun­dantes como as silvas e, como elas, que agora ninguém corta, inundam tudo.
Aqui há uns anos visitei o mosteiro de S. João de Tarouca. E reparando na abundância de salgueiros por aqueles campos, perguntei aos tarouquenses porque é que os não cortavam, como fazem os Barrosões.
- Ai eles cortam-nos?
- Como árvores inúteis.
- Inúteis? A baga de sabugueiro vende-se a quinhentos escudos o quilo e tem sempre venda garantida.
De regresso a casa, tentei transmitir a descoberta aos meus vizinhos. Mas ninguém fez caso.
Colhi um ramo de flores de sabugueiro e fui andando.
Mais adiante juntei-lhe outro de urze florida dum perfume fortemente ado­cicado. E outro de silva-macha, que me não cheirou a nada, mas cuja cor de fogo me seduziu. E outro de giesta amarela. E outro.
Em breve, as flores eram mais do que os meus braços podiam abarcar. Retrocedi.
Em sentido oposto vinham duas jovens de palhinha, biquini e sandálias.
- A ponte romana, por favor?
- Sempre a direito.
Elas continuaram a descer em direcção ao rio e eu fiquei a observá-las pelas costas.
Decerto convencida de que eu havia continuado, uma delas fez o seguinte comentário:
- O homem parece uma jarra de flores.
- O que ele parece é um jarreta - acrescentou a outra.
VIVA BARROSO!

2 comentários:

Primo de Amarante disse...

Oh compadre! isso é que é saber integrar-se nas «novas causas da ecologia».
VIVA BARROSO!
e
VIVA O COMPADRE!

Joaquim Manuel COUTINHO RIBEIRO disse...

É admirável a forma como as pessoas conquistam um tal estatuto de "inimputabilidade" que as leva ao ponto de se "gozarem" a si mesmas. É a verdadeira maturidade.