01 agosto 2004

Coimbra

Hoje, talvez por causa de Zeca Afonso ou talvez não, tive uma enorme saudade de Coimbra, aquela saudade que só conhece quem lá viveu e, sobretudo, quem viveu intensamente a cidade encantada. Lembrei-me das coisas más e acima de tudo das coisas boas, dos irrepetíveis tempos da quase inimputabilidade, dos tempos em que todos os sonhos eram possíveis e as dificuldades não passavam de meros acidentes de percurso que tornavam a vida mais apetecível. Curiosamente, raramente me apetece voltar lá, agora, que os tempos são outros. Talvez seja medo. O medo de encontrar tudo diferente. Ou o medo de que os meus olhos estejam diferentes. E que o encanto se perca.

27 comentários:

marinquieto disse...

Você fez-me lembrar o Miguel Torga, que, no seu "Portugal", começa assim o texto sobre Coimbra:
" ... "Reclinada molemente na sua verdejante colina, como odalisca em seus aposentos, está a sábia Coimbra, a Lusa-Atenas. Beija-lhe os pés, segredando-lhe de amor, o saudoso Mondego. E em seus bosques, no bem conhecido salgueiral, o rouxinol e outras aves canoras soltam seus melancólicos trinados".
Não há nada mais perigoso do que a ironia. Rilke di-lo numa das suas cartas a um jovem Poeta, prevenindo-o contra as ciladas a que está sujeito o criador quando ela o visita. O nosso Eça é um dos exemplos vivos desse risco - um exemplo às vezes confrangedor. Sempre que a utilizou sem medida, esquecido de que tinha na mão uma faca de dois gumes, cortou os dedos. A acidez do sorriso respinga-o e macula-lhe a obre de manchas esverdeadas. No caso da página conhecida de Acácio sobre a cidade dos doutores, porém, o bisturi acretou em cheio e esventrou o fleimão. A ridícula visão do Conselheiro exprime com fidelidade o deslumbramento da retina de todos os bacharéis da nação. Graças a eles, na verdade, Coimbra atravessa o país de lés a lés nas asas dum lirismo beócio. E quem chega para a visitar, se não traz virgindade nos olhos e falta de erudição, não há dúvida que vê uma "odalisca" "reclinada molemente na sua verdejante colina". Hipnotizado por esse sentimentalismo de meia-tijela, que é hoje endémico entre nós graças a gerações sucessivas de licenciados, descortina realmente uma huri de seios ao sol onde devia enxergar casas e tons. E logo a seguir, já dentro do harém, soletra com lágrimas na voz a poética do Penedo da Saudade, convencido de que é ali o Parnaso lusitano.
Como um ferrete indelével, o trecho do romancista denuncia os Acácios desta deformação. Mas , desgraçadamente, a contrafacção continua, e será talvez necessário um terramoto, uma erupção, uma bomba atómica, para fazer o saneamento desta pornografia.
E, contudo, Coimbra é uma linda cidade ...".

Conheço bem este livro porque a ele regresso com frequência para ler e reler a descrição que o Torga faz do local em que vim ao mundo, a que chama "a primeira estação da longa via-sacra que tivemos de percorrer através do grande Oceano".

néscio disse...

Coincidência, este post faz-me lembrar este!

Joaquim Manuel COUTINHO RIBEIRO disse...

Néscio, não consegui encontrar o post que lhe fez lembrar o meu...

Joaquim Manuel COUTINHO RIBEIRO disse...

Eu gostei de estar em Coimbra.

Joaquim Manuel COUTINHO RIBEIRO disse...
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Joaquim Manuel COUTINHO RIBEIRO disse...

Cara Marinquieto:
Aceito que ache que o meu sentimentalismo relativamente a Coimbra seja de "meia-tijela". E, por isso, creio que também me dará o direito a ter sentimentalismos de meia-tijela. Como, de resto, espero também que aceite que há momentos em que a vida nos torna mais nostálgicos, em que nos sentimos mais fragilizados, porque, infelizmente, temos fundados e sérios motivos para isso. E espero também que aceite que haja pessoas que são incapazes de mascarar as suas fragilidades quando estão fragilizadas. Há pessoas que conseguem, nem que seja à custa de uma arrogância doentia que as torna insuportáveis.
O que é bom, é não ter momentos de fragilidade, como, felizmente!, me parece ser o seu caso.

Kamikaze (L.P.) disse...

Gostei muito do post (na linha intimista em que o carteiro é exímio).
E achei o coment. de Marinquieto muito interessante e bom ponto de partida para mais coment. (que não meus, que Coimbra para mim é quase "estrangeiro");um bom mote para se falar de Coimbra, para além do tradicional sentimentalismo com que, habitualmente, se fala da cidade e que pode bem ter sido/ser um grande responsável pelo marasmo em que dizem ter-se esta atolado durante demasiado tempo. Não vi no coment. nenhuma ironia em relação ao post ou aos sentimentos expressos pelo Carteiro, mas talvez tivesse sentido diferente se o tivesse escrito eu... sobretudo se estivesse mais fargilizada, como por vezes acontece.

Em todo o caso, tenho pena que neste blog, em que tanto se apelou a uma "abertura" e em que alguns têm procurado lançar efectivos debates (sem grande sucesso), se reaja por regra com enorme desconfiança a tudo que não esteja ainda suficientemente "identificado-catalogado".

(Coment. escrito enquanto escuto e vejo o Zeca na RTP1.)

Zu disse...

Há lugares que não devem ser revisitados, ou pelo menos não quando as recordações demasiado vivas. Acreditas que há anos que não assisto a um cortejo da Queima? Quando fui e me deu um ataque de saudades, fugi e nunca mais voltei. Não me apetece, já não é comigo. Mas Coimbra continua a ter coisas boas. Amigos, por exemplo.

Joaquim Manuel COUTINHO RIBEIRO disse...

Talvez Coimbra não tenha sido feita para ser uma cidade grande, no sentido corrente do termo. Talvez a grandeza lhe venha das marcas que deixa nas pessoas que por lá passam...

Kamikaze (L.P.) disse...

Continuando:
também se pode dar o caso de estar a ser pouco objectiva relativamente a Marinquieto, pois não escondi, desde as suas primeiras "incurssões", que me agradava ter maiss uma incursionista no debate...
na verdade Marinquieto parece querer "chegar à fala", mas em geral tem-se escudado em judiciosas citações que, à falta de enquadranmento, têm, por vezes sido entendidas como provocações (no mau sentido). Será por isso, quiçá, que aos olhos do Carteiro a misteriosa senhora aparece como alguém arrogante e sem fraquezas e só Marinquieto nos poderá esclarecer se não se tratará, ao invés, de excessiva timidez em desvendar-se a ela própria...
Uma coisa é certa: o "estilo" não deixa ninguém indiferente e parece haver bastante mais, com interesse para este blog, para além do estilo. Por isso, aqui deixo um apelo: Marinquieto, se está a ser incompreendida neste blog, não desista, mostre-nos é mais de si!

Joaquim Manuel COUTINHO RIBEIRO disse...

É verdade, umpoucomais. Mas já uma vez discutimos isso: Coimbra tem um sentido diferente para quem chega de fora. É nesse encontro com tantos desconhecidos (muitos deles a tornarem-se os amigos mais marcantes de toda a vida), que se forjam as solidariedades. E nisso, Coimbra é uma cidade como julgo não haver outra em Portugal. Por exemplo: eu tenho a certeza que seria de esquerda se tivesse vivido em Coimbra antes do 25 de Abril.

Zu disse...

Cara Kamikaze,
Dou-lhe razão na sua apreciação sobre Coimbra, de que se fala com as saudades do tempo de estudante, como uma memória dos bons anos da juventude, e não como a cidade viva que esteve atolada de facto num marasmo aflitivo durante muito tempo. Nos últimos anos alguma coisa tem mudado, felizmente.
De alguma forma, a universidade é uma faca de dois gumes. Pesa demasiadamente na vida da cidade. Na imagem que os que de cá não são têm de Coimbra, mas também na imagem que a cidade tem de si.

Joaquim Manuel COUTINHO RIBEIRO disse...

Cara Kamikaze: eu não insinuei que a marinquieto pertence ao grupo das pessoas arrogantes. Sublinhei e sublinho que me parece mais do tipo de pessoas que não têm fragilidades. O que deve ser muito bom.

Kamikaze (L.P.) disse...

Caro carteiro,
escrevi o último coment. antes de ler os seus que o precedem. Excedi-me, parece-me, em incursões para-psicológicas sobre a misteriosa Marinquito. Chega, portanto.

Quanto ao seu post e coment.- compreendo muito os sentimentos que expressa, já os vivi, ou vivo, relativamente a lugares e até pessoas.

Outra coisa é querer/desejar que tudo permanece como é na nossa memória. E não se deve confundir tamanho com marasmo. É que para além dos que passaram por Coimbra e guardam recordações, há os que lá vivem...

Joaquim Manuel COUTINHO RIBEIRO disse...

Tal como disse uma vez numa mesa redonda da Revista do Expresso, prefiro uma cidade assim do que uma cidade como o Porto, que tem como principal referência o presidente de um clube de futebol e que não sabe quem é o reitor da sua Universidade.
Todavia, também sou capaz de reconhecer que Coimbra sempre viveu à sombra dos seus "lentes" e da sucessão dinástica.
Mas não é disso que falo: falo do que a cidade significou para mim.

Zu disse...

Ao contrário de ti, fui estudante vivendo aqui. Tenho consciência de ter perdido algo, apesar de também então se terem criado amizades imensas e duradouras. Coimbra não tem de ser uma cidade grande, de facto - mas tem de ser mais do que uma cidade de estudantes.

Joaquim Manuel COUTINHO RIBEIRO disse...

Comprendo o teu sentimento, que vives aí. mas recorda que eu também sempre disse que seria incapaz de viver em Coimbra depois de deixar de ser estudante...

Silvia Chueire disse...

Coimbra tem uma capela ( transformada em museu ) da qual não me esqueço.Todos temos direito aos nossos sentimentalismos, ou chamem como quiserem. Nada disso é pecado, num ridiculo. É apenas humano. e mais: tem valor. Siga em frente, Sr. Carteiro. Na verdade gostaria de dizer que: talvez os olhos mudados criem outros encantos, não é necessariamente uma perda, mudar.
Abraços.

néscio disse...

Este Carteiro deve ter mel! Começo a ter inveja.

Zu disse...

Não sei se o Carteiro tem mel, Néscio. Sei que, para além da amizade que a ele me liga, aprecio a sua forma de escrever e o lado muito humano que revela. No caso concreto, fala da minha cidade, o que naturalmente me interessa.
As memórias dos tempos de estudante pouco me assaltam, de um modo geral, apesar de aqui continuar a viver. Mas basta ouvir um fado de Coimbra, e sobretudo os Verdes Anos do Carlos Paredes, e regresso a esse tempo. Por isso, caro Carteiro, atrevo-me a pensar que a memória de Coimbra que conservas nunca se apagará: essa vive em ti. Podes cá vir, ver tudo diferente em teu redor, podes até nada sentir ao percorrer os mesmos lugares, mas a lembrança permanece, intacta, tua, em ti.

marinquieto disse...

Aconteceu-me hoje uma coisa desagradável. Precisei de escrever uma carta, as letras saíram disformes, os dedos ficaram sujos de tinta e as palavras foram violentadas no seu natural vagar. Atribuí a culpa a este hábito, recentemente adquirido, de só escrever com o teclado do computador. Por isso decidi abandoná-lo enquanto reaprendo a fixar o sentido das palavras no papel, a escolher o corpo da caneta e o aparo, a textura do suporte, a ler-me na mancha final. Pequenos prazeres de que não quero abdicar!
Até um dia destes.
Quando (se) regressar, será que vos posso propor a edição de um post com qualquer coisa que tenha escrito, à mão?


Mas, antes de desaparecer da mesma forma que cheguei, não posso deixar de responder ao Carteiro.
Para lhe dizer, em primeiro lugar, que toda as pessoas têm fragilidades, nem que sejam as que decorrem de as não terem, ou, melhor, de pensarem que as não têm. Você partilha-as aqui porque, parece-me, está no meio de um grupo de amigos. Ora, eu não vos conheço e vocês não me conhecem - que sentido faria estar a deitar-me neste divã?
E, em segundo lugar, porque não o queria ver ofendido com o Torga. De cujo texto, de resto, não escolhi as partes mais fortes. Torga amou Coimbra (que escolheu para viver) depois da sua S. Martinho de Anta, como se pode retirar da Fotobiografia que a filha Clara publicou em 2000. E foi em defesa da sua amada que se insurgiu neste texto contra a “tradição parola” que lhe colou “um rabo-leva atroz, carnavalesco e fútil”. Texto que, escrito em pleno salazarismo, é também acto de coragem quando invectiva a Universidade - “um casarão para ensinar campónios” -, “que se basta no simples facto de o parecer aos olhos da ignorância colectiva” e “se defende com unhas e dentes de toda a originalidade, de todo o pensamento subversivo, recusando-se obstinadamente a pôr de lado a borla e o capelo da mistificação, e a abrir nos seus muros medievais um postigo sequer que deixe entrar qualquer luz actual” (sic).
Gostou de andar em Coimbra? Tem saudades de Coimbra? Porque não? Não merece nenhuma censura por isso. Torga apenas vociferou contra ao que, tendo lá andado, “confundiram um pedaço da natureza e da pátria com uma oleogravura de bordel”. Não é, estou certa, o seu caso!!

E adeus. As decisões são para cumprir!

L.C. disse...

Marinquieto, não nos deixe com essa amargura. O pluralismo de ideias e sensibilidades será um dos nossos lemas. Deixe o seu contacto em "incursoes@hotmail.com". Os seus "posts", quando o quiser fazer, serão bem vindos e, certamente, apreciados. Deixe notícias!

Anónimo disse...

Já não sei manuscrever, detesto as palavras manuscritas. Teclo em hcesar mecânico ou no qwerty computacional. Todos temos um mar inquieto, nem que esse mar se chame Mondego. As mulheres precisam de pretextos para irem de férias. Quando voltam, já não se lembram do que prometeram. O L.C. vai ter de esperar uma eternidade pelos manuscritos da dita. Claro está que o Director-Executivo do Incursões precisa de ser paciente.

Joaquim Manuel COUTINHO RIBEIRO disse...

Mel? Eu! Olhe que não, Néscio...

Joaquim Manuel COUTINHO RIBEIRO disse...

Estou um bocadinho espantado com a reacção da marinquieto. É pena que se despeça assim. Digo-o sem ironia, não vá a ironia a mais cortar-me os dedos, para citar a marinquieto. Mas eu acho que volta: mais não seja, porque vai continuar a ter curiosidade de ver o que alguns dizem aqui no divã...

Zu disse...

O comentário não foi para mim, mas porque é que as mulheres precisam de pretextos para ir de férias? E acha mesmo, caro Anónimo avesso a manuscrever, que se esquecem das promessas que fazem? Não é generalizar em excesso? Ou fui eu que nada entendi?
Cara Marinquieto, também eu ando a ficar preocupada com a qualidade da minha letra manuscrita; ainda há bocado tomei uns apontamentosque não consigo decifrar, eu que me gabo de até ser capaz de ler qualquer letra de médico (ou advogado...). Mas não deixo o computador por causa disso. Um beijinho para si, e boas férias informáticas.

Kamikaze (L.P.) disse...

Volte sempre, Marinquieto!