27 novembro 2004

Carta (resposta) a Anaximandro

Tem toda a razão, quando diz que é muito complicado o problema das dracmas, neste canto do mundo. E o seu fiel relato é sentido por muitos de nós. E é ainda mais grave para quem, como o camarada (trato-o assim porque já me sinto sentado à mesa da sua sabedoria), tem ideias próprias e se preocupa com as questões da cultura, do saber, chegando a desafiar os deuses e os seus sacerdotes com um desenho do mapa da Terra e a criação de uma espécie de globo celeste. Lembra-se da afronta que isto representou?!... E o impacto que teve aquela sua descoberta de que nem o Sol, nem a Lua, nem as Estrelas estão submersas no mar quando a noite chega?!...
Muita gente que o esqueceu, anda por aí a debitar balúrdios de dracmas à custa dos horizontes que essa sua intuição abriu! E é, precisamente, na sua maneira de estar no mundo que, três mil anos depois, se enraíza a sua dificuldade de ganhar com o suor dos seus neurónios as dracmas que lhe são merecidas. Se o camarada Anaximandro tivesse aprendido a só dizer o que sabia agradar aos deuses e aos seus sacerdotes, se aprendesse a aparecer como um emplastro nos meios de comunicação social, se configurasse o seu pensamento às conveniências do momento, se fosse gelatinoso e não como um fio-de-prumo, hoje não tinha esses problemas e saberia como ter sucesso na soma de dracmas. Já neste momento tinha toda a sua família, todos os seus amigos inscritos num daqueles partidos que, alternadamente, vão tendo o poder. Já, com esse apoio, tinha aparelhado a entrada para um desses cartéis de notáveis que dividem entre si autarquias, ministérios, lugares de deputados, administração de empresas públicas, etc. e, poderia até já ser presidente da câmara, por exemplo, do Marco. Chegado a este ponto, comprava a maioria das quintas dos pobres agricultores e, nesses terrenos, onde não seria possível construir, Você faria estradões, muitos estradões, com rotundas, muitas rotundas e repuxos – tudo contratado sem concurso (note que até cerca de 100 mil dracmas pode entregar obras sem concurso e isso dá muitas vantagens!)--, e loteava tudo isso, que, com as licenças de construção, lhe permitiria adquirir uma fortuna de milhões. Se alguém se opusesse, com o argumento de que estava a violar o plano director municipal e cometido crimes ambientais, Você vitimizava-se, dizia que essas acusações resultavam de politiquices de um pequeno grupo. E se a inspecção das autarquias investigasse, Você apresentaria uma informação de um técnico da câmara e isso serviria de justificação para se concluir não ter havido intenção de dolo. E como já tinha muitas dracmas, podia também estar certo de que os Tribunais (de recurso em recurso) nunca mais acabariam por o condenar. Entretanto, era convidado para fazer figura numa quinta de celebridades e passava a ser visto em todas as revistas cor-de-rosa como um bom homem que fez muito pela Terra a que presidia.
Nietzsche, um rapaz quase do nosso tempo, já previu essa situação, quando privilegiou a desmesura de Dionísio em vez do espírito Apolíneo. Talvez o velho, de barbas fartas, que entrava para a maior biblioteca de Londres, logo que o contínuo abria a porta e contrariava Platão com a citação que referiu, tenha compreendido melhor que Nietzsche a situação. E, de certa forma, respondeu a uma questão que nós hoje colocamos e que La Boétie no “Discurso sobre a servidão voluntária”, muitos anos antes do velho Marx, formulou da seguinte forma: ”Que nome se deve dar a esta desgraça? Que vício, que triste vício será este: um número infinito de pessoas não só a obedecer mas a servir, não governadas, mas tiranizadas, sem bens, sem pais, sem filhos, sem vida a que possam chamar sua!?”
O Velho de barbas fartas, chamar-lhe-ía alienação! Será que o conceito explicará tudo?!...

As minhas saudações (só marxistas)

2 comentários:

Primo de Amarante disse...

Queria escrever um texto sobre Fernando Valle para colocar em post, mas não consegui. Conheci-o há muitos anos, com a boina preta na cabeça e a afivelar um sorriso que ternurava com o seu olhar fixo. Vamos perdendo os nossos pais, os que foram nossas referências em momentos de solidão. O que ficará para os nossos filhos?!...

Joaquim Manuel COUTINHO RIBEIRO disse...

Para os nossos filhos fica o exemplo que cada um de nós dermos. Independentemente do exemplo que aqueles que nos mandam derem.