22 novembro 2004

Pensamento para hoje

“Quando a força das circunstâncias te deixar como que desamparado, reflecte imediatamente e não percas o controlo por mais tempo do que deves. Serás tanto mais senhor da harmonia quanto mais frequentemente voltares a ela”.
Marco Aurélio

13 comentários:

josé disse...

Ora aqui está um bom conselho que eu devia seguir mais vezes, porque vem da sabedoria do tempo e fala em harmonia.

Mas o que será a harmonia, caro compadre?
Os gregos inventaram a deusa para simbolizar a concórdia. Se eu me referir às notas musicais, já o conceito muda para um mistério: por que razão determinadas sonoridades soam melhor que outras?
Que segredo lhes assiste para combinarem melhor numa forma do que noutra?

Bem, sem tergiversar, parece-me melhor repisar o conceito de concórdia...apaziguamento e serenidade.

Primo de Amarante disse...

Caro José: a harmonia não é uma virtude em si, mas o resultado da prática da solidariedade e da prudência. Vou tentar explicar-me: somos solidários, quando sentimos os problemas dos outros como fazendo parte dos nossos problemas. E somos prudentes, quando procuramos não criar problemas desnecessários. Para isso temos de saber, sem renunciar a princípios, avaliar as consequências previsíveis dos nossos actos. A prudência baseia-se na ética da responsabiliade. E ela é necessária, porque é um facto incontroverso que uma boa intenção pode levar a injustiças e a pureza dos motivos não impede o pior. A prudência e a solidariedade geram harmonia. A concordia não basta para criar harmonia(muitas vezes há acordo, porque a isso se é obrigado). Digamos que a harmonia é a prudência solidária em acção e a concórdia o cálculo matemático em exercício. A harmonia tem algo de simplicidade musical e, no plano filosófico, ocupa-se dos melhores meios para conseguir fins justos.
Talvez, por isso, os estoicos a tivessem considerado a única virtude capaz de levar à felicidade.
Será que estamos de acordo?!...

josé disse...

Compadre:

Por falar em prudência, no outro dia, deixei um comentário acrimonioso ( mas sem má intenção e muito menos pessoalizado em a ou b), a propósito dessa virtude como sendo apanágio do bom Conselheiro.

Colei o termo Conselheiro ao supremo estádio da magistratura para dizer que não me parecia que essa fosse a virtude das virtudes, para quem decide o direito e os direitos de outrém. Argumentei singelamente que me parecia muito mais valiosa enquanto virtude para esse cargo e encargo, a honestidade, como pedra basilar do carácter. Disse-o, porque assim o penso: pouco me importa a prudência de um julgador se ela não se nortear pela honestidade.

Porém, não acrescentei algo que completava o escrito: um Conselheiro também pode ser o que dá conselhos avulsos e a pedido. Aquilo que em gíria se pode designar como um "homem bom"( ou mulher, mas nesse caso cum grano salis no que se refere ao adjectivo).
E nesse caso, de facto, a prudência parece ser um bem precioso.
E estou de acordo com o bom casamento entre o tipo prudente e a desejada solidariedade.Mas não chega para a harmonia do lar. Como enxoval sugeria a sabedoria e o
espírito empreendedor.

Primo de Amarante disse...

Caro José: os gregos consideravam a sabedoria, como um saber que se "saboreia", porque faz parte de nós mesmos, resultando da nossa ligação à vida, ao mundo e aos outros. Revela a congruência do homem consigo mesmo e a autenticidade da sua relação com o mundo da vida. Caracteriza o que nós, hoje, designamos por prudência do bom senso no homem bom, experiente e de bons costumes.Sintetiza as virtudes da honestidade, da prudência e da competência. É própria do "sage",espécie de "sábio" mortal -- os gregos consideravam que sábios, no verdadeiro sentido, só podiam ser os deuses, precisamente porque neles o saber e as virtudes estavam em grau excelente.
Como Vê, a sabedoria é, por si, um enxoval de excelência humana. O espírito empreendedor, no meu entender, caracteriza mais o espirito jovem. E os jovens ainda não são sábios.Para a nossa idade, desculpe, para a minha idade (Você é um jovem sábio) basta a sabedoria e até tenho receio de ficar mal com o "espírito empreendedor".

josé disse...

Caro compadre:

Como diz, a sabedoria é o saber que se saboreia e que resulta de ligações à vida, ao mundo e aos outros.
Ou seja, assim, haverá várias sabedorias, tantas quantas as ligações que se podem fazer- e são milhões delas!
Também por isso, a sabedoria de um(uns) não se deveria facilmente opor à de outro(outros), de modo a fazer-lhes frente.
Mas isso acontece frequentemente e é a causa dos conflitos, guerras púnicas e ódios de longa duração.
Parece inevitável como o advento do Inverno a seguir ao Outono.
E contudo, existe certamente Sabedoria com sabor diferente e único. Quem a tem chama-lhe sua.
Por exemplo, chegar a esta Sabedoria de dizer "amai-vos uns aos outros", tem muito que se lhe diga. Já outros diziam: " a história do homem é a história da luta de classes".
Outros ainda proclamam a sabedoria de "laissez faire, laissez passer".
Como cortar a direito e descobrir a verdadeira sabedoria?!
Juntá-las todas, numa monumental misturadora ideológica, e chamar ao produto "social-democracia"?

Quanto mais sei, menos atino.

Primo de Amarante disse...

Caro José: penso que falamos de coisas diferentes. Talvez tenhamos de recorrer à leitura dos antigos. Um "saber ligado ao mundo da vida,que se - saboreia ou de que se gosta-" é, para os antigos, distinto de um saber teórico (como,de certa forma, as ideologias) ou de um saber instrumental(como é, p.ex. o conhecimento técnico). Por isso, Platão diz que a sabedoria "é o saber que está na base da acção virtuosa" (cf. República IV, 4439), Aristóteles exalta-a como "a forma mais alta e divina do próprio saber" (Etica a Nicómacos, VI,5. 1140 b4) e Epicuro afirma que "da sabedoria nascem todas as virtudes e é até mais preciosa que a filosofia"(Cartas a Menec.132). Como vê, não tem nada a ver com a interpretação que lhe está a dar.

josé disse...

Será que falamos de coisas diferentes?
Disse, noutro comentário que "a sabedoria é o saber que se saboreia e que resulta de ligações à vida, ao mundo e aos outros."
Poderemos destacar a sabedoria do conhecimento, sem envolver neste a ideologia ou o progresso técnico?
Ok. Então, divaguemos.
Einstein, quando percebeu que as suas descobertas conduziam directamente ao desenvolvimento de armas de destruição massiça, escreveu sobre o assunto.
Em italiano, disse:
...."Da quando è stata approntata la prima bomba atomica nessun tentativo è stato fatto per rendere il mondo piú sicuro dalla guerra, mentre molto è stato fatto per aumentare la capacità distruttrice della guerra stessa".

...." se non la si impedisce, è probabile che una nuova guerra porti la distruzione su una scala ritenuta impossibile prima (e anche ora difficilmente concepibile), e che solo poche tracce di civiltà sopravvivrebbero".

E agora pergunto: onde estava a sabedoria de Einstein ao desenvolver as bases teóricas para a fissão e fusão nucleares? Na sua capacidade de teorização abstracta e de lidar com números e hipóteses. Pressupunha ainda um conhecimento teórico avançado e genial de disciplinas cientíticas.
Onde está a sabedoria de Einstein ao escrever o que escreveu? À sua ligação à vida, ao mundo e aos outros.
Esta ligação não é independente de ideologia e de saber político.

Será que confundi tudo? E não será de confundir?
Ou a sabedoria a que se refere, é a da poesia dos sentidos?
A filosofia serve para quê, afinal? Para construir frases bonitas e de lógica aparentemente solidificada?
Ou para mostrar os caminhos da mente humana?
E nesse caso, os caminhos não têm margens que os comprimem e se devem conhecer?

Desculpe a confusão de conceitos, mas um qualquer fio condutor há-de haver... por aqui.

Augusto Silva disse...

Sem querer ser intrometido, parece-me que, não estando o Compadre Esteves e o José a falar em línguas diferentes, estarão a monologar em distintas linguagens. Será talvez a diferença dos propósitos ou das vidas. Há conversas que emperram num equívoco matricial. A partir daí, desfazer o nó torna-se muito complicado. Já agora, o meu contributo: a sabedoria vem de dentro, é uma espécie de clarividência - ou uma graça. Mas aqui sou eu que, não sendo agnóstico, estarei em sintonia com uma outra linguagem.

josé disse...

"massiça" não se escreve assim: escreve-se maciça. É um erro, pois até fui ver ao dicionário por suspeitar do felpo dos sss. Sorry.

josé disse...

Meu caro Augusto SIlva:

Se a sabedoria vem de dentro, pode muito bem desligar-se do que está fora. Aí entram os monges contemplativos e os budistas que passam horas a murmurar em oohmm...
Aí cabem os digníssimos perscrutadores da Kabala que passam anos à procura do sentido de uma palavra. Aí cabem os místicos que passam a vida na busca do nirvana e da contemplação dos mistérios. Numa palavra: Sabedoria, nesse sentido, equivale ao sanctum sanctorum da mente humana: a religião.

Primo de Amarante disse...

Caro José: peço desculpa, mas Você não compreende que a vida, para ser bem vivida, tem algo de estético e é isso que os gregos queriam dizer com sabedoria. Não se esqueça que na vida a estética cruza-se com a ética! O amigo Carlos Silva tem toda a razão.

josé disse...

Caro compadre:

Diz que para viver a vida temos que lhe associar a estética, no sentido que o gregos lhe davam.

E acha que eu desvalorizo a estética, a beleza das coisas?! Provavelmente será uma das coisas que mais valorizo.
Mas ainda aqui temos um problema sério: o que é a beleza? Santo Agostinho, parece-me na minha diletância, associava-a ao Bem que emana de Deus. O belo seria esse reflexo divino.
E surge outro problema ainda: o belo é igual para todos? É um conceito absoluto?

Lembro-me imediatamente da figura plástica do coronel Kilgore ( nome sugestivo...), encarnado pelo actor Roberto Duvall, no filme Apocalipse Now. Perante o ataque de aviões rasantes, a incendiar uma área com napalm, enquanto o tipo treinava surf, numa praia do Vietnam, dizia: "i love the smell of napalm in the morning!" O belo para esse marado, mesmo simbólico, era o horrível: COmo bem sabemos, há quem aprecie essa beleza, essa estética da morte em massa.


E não é preciso ir muito longe nesta reflexão.
Em Espanha, na guerra civil, ecoou um grito, vindo de um general fascista, em resposta a uma crítica pública de ...um filósofo, Unamuno! "Viva la Muerte"! Na net tirei isto:
"Aunque al principio fue comprensivo( refere-se a Miguel Unamuno) con la sublevación del Ejército español que en seguida encabezó el general, Francisco Franco, pronto les censuró públicamente: en un acto celebrado en la Universidad de Salamanca, su comentario “venceréis, pero no convenceréis”, provocó la respuesta del general Millán Astray, uno de los sublevados: “¡Viva la muerte y muera la inteligencia!”.

Este grito é o reflexo de um estética, não lhe parece?

A estética da guerra é ainda, parece-me bem, o que move estes belicistas modernos que dão pelo nome de Rumsfeld e P.Wolfowitz. Parece-me exactamente o mesmo impulso, a mesma força interior que os impele à movimentação de tropas e equipamentos;planificação;operações;ataques cirúrgicos;cercos;estratégias e tácticas.

Estarei fora do assunto?! Ok. Então, viro-me para outra estética: a beleza feminina!
E cito-lhe um filme antigo, dos anos setenta, de F. Truffaut que a simboliza: "L’Homme qui aimait les femmes" em que jean Louis Trintiganant diz « les jambes des femmes (qui) sont des compas qui arpentent le monde".
Se isso não é um conceito estético, nem sei que dizer mais.

Primo de Amarante disse...

Gosto imenso deste tipo de debate, mas penso que já estamos a perder de vista os outros compadres. Como sabe a ideia de belo e a ideia de bem estavam, para os antigos, associadas. A ética (ethos=modo de ser moral) era a arte de bem-viver.Naturalmente, o saber deveria orientar-se por essa arte que era aos olhos dos outros bela e nesse sentido tornava-se numa sabedoria.
Kant tem uma definição de belo que é interessante. Diz: "Belo é o que agrada universalmente sem conceito". Faz, portanto, apelo à intersubjectividade.As éticas e as estéticas cognitivas eliminaram este sentido. Temos de contextualizar para saber se usamos os mesmos conceitos para falar de coisas diferente.
Reparo que já me perdi. Penso que não estou a responder à sua questão. Peço desculpa! Fica um abraço.