16 dezembro 2004

Apostrofemos então

Parménides II, discípulo dilecto, irrompeu de “Público” em riste: “Mestre, mestre, esta é consigo”. Tive a fraqueza de pensar que finalmente alguém fazia justiça ao meu “apeiron”, mas não. Era um tal Durão ou José Barroso, que pelo nome não perca, o qual, aborrecido com uns deputados portugueses que não tinham votado a favor do novo emprego dele, se virava contra os meus, exclamando algo como isto: “se calhar preferiam um grego na presidência”.
Nem queria acreditar e tomado de fúria helénica, Parménides II ouviu-me dizer das boas: “twV a1rch'n te kaì stoiceîon ei5rhke”.
Parménides II incitou-me: “Diga isso aos portugueses, força!”. Objectei que, além de não ter personalidade jurídica (infelizmente, a ressurreição não é causa de aquisição da dita), podia despertar sentimentos xenófobos (ainda por cima a palavra é grega, xenos phobein), que enfim havia quem não perdoasse aquele golo do Caristeas, ainda ia ter o serviço de estrangeiros à perna eu sei lá. Mas o Parménides não me deu saída: “O mestre nem parece o intemerato chefe militar que marchou contra Apolonia, contra o tirano de Samos, eu bem sei…”. Aqui para nós não fui eu, mas para não dar parte de fraco e até porque me apetece apostrofar, apostrofemos então:

Ó José Barroso, então essa União a que tu presides não é para construir uma cidadania europeia, destinada a acabar com distinções por Estado de origem, ou é só a fingir?
Ao escolher a minha Pátria helénica, bem mostraste a subserviência que te anima em relação aos Grandes e Poderosos. Não foi por acaso que tu não disseste, se calhar vocês queriam antes um inglês ou um alemão. Aí fiava fino. Arranjaste o exemplo dos gregos, enfim uns pobres diabos meridionais, meios trapalhões, de quem de se pode dizer mal. Um país menor, que nem tem categoria para ter um presidente da Comissão Europeia.
Não precisamos, ó Barroso, já ultrapassámos o teu país e, com a complicação que arranjaste por causa desse emprego, ainda ides ficar mais para trás.
E finalmente, orgulhamo-nos de não ter tido um dirigente a fazer de criado do Bush e do Blair, a remeter o país ao papel de Estado fantoche às ordens dos ditames dos senhores do mundo, envolvido numa guerra ilegal e criminosa, por cujas atrocidades e resultados funestos tu também és responsável
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5 comentários:

Kamikaze (L.P.) disse...

Assim fala quem é grego, ups! digo, quem não é gago!

Rebeldino Anaximandro disse...

Cara Kamikaze muitas saudações helénicas e pré-socráticas. Ao compadre Esteves, vejo que continua com boas leituras, o Kurz da EXIT é incontornável.Ainda não li a "Teoria Crítica...". Isto para quem queira sair um pouco da indigência cronical da paróquia não há melhor. Um abraço

Primo de Amarante disse...

Tenho pena que a nossa querida amiga Kamikase não tenha em conta o meu apelo para ler "O valor é o homem. teses sobre a socialização pelo valor e a relação entre os sexos" de Roswith Scholz. É uma tese que defende a ideia de que a configuração do valor é masculino e isso marcou a relação entre sexos.
A tese é muito interessante e é apoiada numa investigação séria. Sei que saberia aprofundar melhor do que eu esta questão e faria um post que a todos nos enriqueceria.

Kamikaze (L.P.) disse...

Quem disse que não quero ler? Lerei :)

Primo de Amarante disse...

Então para si, amiga Kamikaze, este poema de Sophia:

Nós reconheceremos a mentira do sonho,
Se assim o queres, Senhor.
Nós quebraremos o vidro da miragem,
Nós quebraremos o arco-iris da aliança com flores.

In. Antologia, p.120