12 dezembro 2005

estes dias que passam 8

De vez em quando as coisas correm melhor do que se espera. Tinha perdido o telefone de um amigo, de há mais de cinquenta anos. Os números que sucessivamente me davam mais pareciam um jogo de batalha naval: tiro na água. Ora, graças a este blogue, mais retemperador do que nunca, esse amigo apareceu: em mail claro, mas apareceu. Então não é que o tunante andava á pesca sei lá de quê relacionado com o seu nome de família (Pinguel, nome marítimo, nome de Buarcos, nome de capitães de longo curso, está bem de ver...) e, Zaz! Catrapaz!, acertou num texto meu sobre uma peregrinação a Fátima perpetrada (mais diria tentada...) por um grupo de cavalheiros figueirenses tão apostólicos quão alcoólicos. Ele jura que reconheceu o autor á 3ª linha. Eu desconfio, mas a verdade é que o mail já cá canta e só espero resposta ao que lhe enviei se os deuses do éter me foram propícios. António Manuel dos Santos Pinguel, rei da praia, príncipe do parque Sottomayor, saravá Mano, estamos vivos!

Há dias o Dr. Mário Soares relembrava, sem identificar, uma terra onde à sua espera durante a campanha eleitoral para a sua primeira presidência da república estavam três gatos pingados. Para o caso de não se lembrar, recordarei ao ilustre político que a terra era o Porto, que ele vinha para uma sessão de pré campanha na faculdade de Medicina e que os três amigos e eleitores dele eram Maria da Graça Cochofel (Dolly) Rui Feijó e este Vosso criado. Por acaso agora apoiamos todos o Manuel Alegre. Não deixámos de ser amigos de Soares mas a democracia permite estas coisas. O que a democracia não permite, querido Mário Soares é esse delírio anti-Alegre. Não se engane de inimigo, homem de Deus. Ainda vão pensar que está nervoso...

Num El Pais de há dias dizia-se que em Portugal passaram 59 aviões com passageiros à força ainda que gratuitamente transportados pela CIA. Há países onde o tráfego foi mais intenso mas 59 é um bom número e põe-nos perto dos “melhores”.
Convinha que alguém do governo nos dissesse qualquer coisinha. Para não morrermos estúpidos.
Já agora, dava jeito um desmentido. Convincente! Para não vivermos envergonhados!

E a propósito de vergonha (ou da falta dela) que me dizem, compadres, desse projecto que assombra os corredores do inefável Ministério da Educação e que, parece, propõe a abolição dos exames de português e filosofia no 12º ano? Quando o Jorge de Sena escreveu “ Reino da Estupidez”estragou a vida a muito boa gente que gostaria de usar o título agora... Eu bem sei que falar, ler, perceber a língua pátria é coisa provavelmente inútil dado que a nov-lingua dos telemóveis é mais do que suficiente para kumonikar. Quanto á filosofia acho que é matéria deletéria (ai meu Deus fiz um verso!) e por tanto caixote do lixo com ela. É que se ensinam a canalha a pensar ainda são capazes de fazer uma revolução, credo, cruzes canhoto!!!
Não haverá, neste Natal milagreiro e consumista, um DDT que elimine de vez esta gentinha do M.E. e do eduquês?
Os juristas que frequentam este blogue poderão informar-me se posso pedir que me concedam a apatridia ou pelo menos a declaração de rebelião civil. É que ao ser governado por criaturas destas ainda me arrependo de ter sido anti-salazarista... E isto aos sessenta e tal... Porra!

O meu prezadíssimo leitor José que junta ao defeito de me aturar essoutro menos grave de preferir os discos de vinil aos cd (ele há cada maduro neste mundo de Deus...) fica avisado que nas Escadinhas do Duque, em Lisboa, naquelas que descem do Largo Trindade Coelho (a quem quase toda a gente chama da Misericórdia) para o Rossio há uma loja de discos de vinil. Força, força, companheiro José, bata-me essas escadinhas, e se lhe der a fome não hesite: no meio das ditas cujas há um restaurantinho chamado, se não estou em erro, Casa Transmontana onde se comia bem. Mais para cima, quase no largo da misericórdia havia um snack tasco onde a malta ia beber umas cervejolas com o Manuel da Fonseca e o Herberto Hélder. Bons tempos...

A Tv, via Mezzo, está a dar um programa sobre esse génio que se chamou Fats Waller. Os bloguistas incursionistas, que no Natal se arruínam a dar prendas, bem avisados andariam em oferecer a si próprios um disquinho deste especialista do piano stride ( e onde ele cante os imortais Honeysuckle Rose e Ain’t misbehavin.) Tenho razão ou não, etérea Sílvia?


9 comentários:

Conservador disse...

Em relação à CIA: é óbvio que o governo já sabia, é óbvio que os aviões têm que andar por cima de alguém por mais democrata que se seja. Sabe o que é desigual na luta anti-terrorista ? É o facto de não se poder referir os êxitos...Claro que os mesmos não passam por diálogo, mesa redonda, paleio inconsequente, enfim Habermas...Passam por recolha de informação (e não é aos jornalistas...), combate sério, vidas em risco...e não no sofá a ver a cnn...com ballantines ou chá verde.

M.C.R. disse...

Eu pensava que a condenação da tortura era comum a conservadores e progressistas. enfim, mais uma ilusão que se vai.
Aqui o problema não é a luta mas o modo da luta. A superioridade moral que alguém de bem tem sobre o terrorista é e que esse alguém age legalmente. Isto é: não tortura, não transfere os presos do solo onde podem ser defendidos para o solo desconhecido onde a defesa de um preso é uma piada de mau gosto. Ou por outras palavras: os fins não justificam os meios.
A luta anti-terrorista também se faz não apoiando os países que geram o terrorismo (e por todos a Arábia saudita). Também se faz não treinando futuros terroristas ( e por todos Bin Laden). quanto ao combate sério, vidas em risco e etc., por favor poupe-me a essas balivérnias de mau gosto. Por acaso tem morrido mais jornalistas que agentes secretos nos últimos tempos. E quanto a agentes sérios suponho que se não estará a referir aos que viam armas de destruição maciça por todo o Iraque... e que convenceram gente tão séria como Blair, Aznar e Durão Barroso. Esses de certeza que não estão no sofá a ver a cnn. Infelizmente...

Silvia Chueire disse...

Apoiado, MCR ! Concordo com a sua opinião no que diz respeito à tortura, à luta contra ela, quanto à defesa de uma atitude minimamente ética. Mas não de qualquer ética, é claro.
E apoio a escolha da música ( especialmente Ain't misbehavin'). Acrescento apenas a título de curiosidade o endereço de um sítio onde será possível encontrar uma pequeníssima amostra das canções de Fats Waller, das quais minha preferida é Stop Pretending. Mas veja bem, eu sabia pouco sobre ele até ler o seu post e procurar no Google. : )
http://www.fatswaller.org/page2.html

Abraços,
Silvia
ps: sem conexão não pude vir ao incursões antes.

M.C.R. disse...

Querida Sílvia: um dos meus antigos parceios de bridge - esse jogo burguês e conservador em que no fim da partida se pode tranquila e educadamente insultar o parceiro - dizia quando alguém lhe agradava: "é um carácter!".
Aproveito essa boleia para lho dizer a si, também: V. é um carácter!
Não conhecer esse macacão do Fats Waller não é crime especial. Apenas um pecado mortal de lesa música. Mas depois de o conhecer (a ele e a mais cem!...): Meu Deus que grande gozo!. E já que V. se desembaraça nisso de ouvir músicas na internet aqui vai outro segredo: Willie "the Lion" Smith: ouvi esse cavalheiro em Berlim vai para mais de 30 anos e ele já tinha uma provecta idade. Que pianista! Ó bloguistas não percam também o velho "Lion". E se houver algum dvd com o homem, atirem-se de cabeça: as histórias que ele contava enquanto tocava...

Cabral-Mendes disse...

Meu Caro MCR,

“mais uma ilusão que se vai”... como diz; mas é que vão todas, meu caro, nesta época em que vivemos. Não quero dizer que estamos nos fins dos tempos mas que parece...lá isso parece...

Com efeito, a tortura é algo de tenebroso, que entronca no mais negro e selvagem que o homem eventualmente possui dentro de si próprio; é como dar largas ao mal, às forças demoníacas que tomam posse de alguém e que o levam a destruir tudo o que se agita à sua volta, seja belo, seja horrível.


Noutro registo, também seria uma “tortura” obrigar as crianças de hoje a estudarem inutilidades como a língua portuguesa e essa coisa intitulada de filosofia...para quê saber ler (entender o que se lê) saber escrever e especular acerca da realidade? Para quê tentar encontrar respostas para as mais variadas situações e problemas que se colocam aos homens? Dêem antes às criancinhas o ópio de uns Nintendo Games, umas Playstations...e deixem-se de violências...

Amanhã elas não saberão exprimir-se, não saberão defender-se, como já disse noutro comentário, desta raça de “feirantes” que nos governa, o que aliás lhes convém...

M.C.R. disse...

Caro Delfim:
Suponho que logo no princípio desta relação "blogular" (???. eu ia dizer "epistolar" mas lembrei-me que estas palavrinhas navegam num abstracto éter que ja não conseguirei entender bem) V. se declarou "conservador", monárquico (lá vem a bandeirinha...) e mais não sei quantas coisas.
Todavia depressa me apercebi que estava a "falar" com alguém que, para lá de naturais (e salutares?) diferenças ideológicas, era dialogante e poderia ensinar-me algo e fortalecer-me nesta ideia de que todos não seremos demasiados para construir uma cidade em que se viva decentetemente.
Os seus comentários são disso excelente prova bem como o tom irónico da segunda parte e a conclusão que tira na terceira.
Obrigado por me restituir alguma confiança nas pessoas.
Um abraço

Cabral-Mendes disse...

Caríssimo MCR,

Encontro-me penhorado pelas suas palavras...espero nunca desmerecer das mesmas...

Creio que o amor, a solidariedade, a fraternidade, vividos com convicção e assumidos como verdadeiros "actos de fé" formarão, pelo menos, alguns círculos de bondade os quais, propagados através dos nossos amigos, ajudarão a tornar o nosso quotidiano menos selvagem, menos agressivo para que, todos nós, possamos viver com uma certa capacidade de encanto, condição indispensável para sermos um pouco felizes.

Diz o Livro do Génesis que criadas as coisas, Deus, encantado, exclamou: Que lindo!

Assim gostaria eu de viver com todas as pessoas, achando lindo tudo o que me envolve…

(assim eu acho lindo o sistema da Monarquia, ligado que está intimamente à nossa História e ao Cristianismo…).

Um Abraço, MCR!

Conservador disse...

Está certo e reconheço o óbvio relativamente à tortura. A síntese deu azo a crítica justamente apontada. Contudo, não posso deixar de referir que de um lado está uma Nação que fez em concreto (na prática) um combate real pela democracia no mundo, uma Nação que não olhou a meios para o combate ao Nazismo, uma Nação que não olhou a meios para o combate ao Socialismo Ditatorial, e que agora combate a paranoia islâmica. Paranoia Islãmica que não reconhece a figura da mulher, dos direitos inalienáveis do Homem, e da democracia. Naturalmente, e é nesse terreno, que a história é feita de homens...homens que trocam informações, que fazem vôos, com a notória e necessária cumplicidade dos Governos do Mundo Livre. Trata-se de um caso em que necessariamente ou se está de um lado, ou se está no outro. Conhecem-se na História os Grandes Inimigos da América, conhecem-se na História os Totalitários, e contra estes não deverá haver razões que outras emoções aniquilem. É nos E.U.A. que a figura do Homem Livre se mais realizou ao nível do aparelho do Poder como na sociedade, independentemente das ideias. É nos E.U.A. que reside uma porção proporcional da Humanidade, e é este País que encabeça a luta constante contra o terrorismo. Ou seria melhor que os E.U.A. fechassem as suas fronteiras e se marimbassem para o resto do mundo ? Creio que não haveria tempo para estar descansado...

M.C.R. disse...

Caro Conservador

Verifico com prazer que V. não queria escrever o que escreveu. Não tenho nada contra a América e já por escrito em vários jornais e revistas o provei. O que me não impede de criticar o criticavel, e nesse cabaz entram as tais prisões secretas, os transportes clandestinos e a encomenda de tortura a terceiros (agora, segundo consta - e são alguns dos melhores jornais americanos que o afirmam - é em Marrocos que se "tratam" os prisioneiros).
É verdade que os EUA vieram para a guerra duas vezes e safaram as democracias europeias. Convém, porém não esquecer que o fizeram depois do torpedeamento do Lusitania (1ª guerra) e depois de Pearl Harbour ( a 2ª)
É já discutível o que foram fazer á Coreia e é indiscutível que a ida para o Vietnam foi uma burrice e um contrassenso estratégico.
É verdade que fizeram o plano Marshall mas não se pode esquecer que ainda não se entende a ida para o Iraque e muito menos a defesa a outrance de Israel. Não pense que quero ver os judeus mortos na praia, ou algo no género. Gostaria tão só que largassem os territórios abusivamente ocupados e boa parte de Jerusalém (veja que lhes dou um pedaço o que não acontecia em 1948...).
Também nunca achei justo que se persiga o repelente regime dos molahs do Irão por via da bomba atómica e se permita que Israel a fabrique impunemente, Neste momento terão já mais de 200 ogivas prontas a cair em cima de algum vizinho.
Tenho andado por aqui a pregar as excelências da grande cultura americana, desde o jazz ao cinema sem esquecer os Pollock, os Rauschensberg e outros pintores ou essa enorme pleiade de poetas e romancistas que começam em Poe ou Withman e acabam (não acabam) em Faulkner, Hemingway Pound ou Steinbeck. Adoro Nova Iorque e o meu sonho é atravessar os states de NY a Chicago, daí a Seatle, descer toda a California, virar pelo Colorado, mergulhar en New Orleans , subir o Mississipi etc...
assim me chegue uma qualquer sorte grande. Mas há coisas que nunca mais farei: comer hamburguers, beber coca cola os mascar chicletes. Para isso não há pachorra. Nem para o Bush, livra!