09 janeiro 2006

Um aviso à navegação

Esta tarde, numa visita aos estaleiros da Lisnave, um operário, em discurso directo e perante as Câmaras das televisões, virou-se para Mário Soares e disse: «o sr.dr. é responsável pelos anos de fome que passamos, aqui, no Distrito. Desculpe que lhe diga, o seu governo foi igual ao do dr. Cavaco».

Mário Soares, depois de trocar algumas palavras com o operário, virou-se para os jornalistas e afirmou: «Agora estamos em campanha, é outra coisa, eu não vos falo directamente, fala ele», apontando para o seu assessor de imprensa.

A declaração de Mário Soares foi entendida como afirmação de «blackout». Em nome do candidato, os assessores explicaram, posteriormente, que Mário Soares pretendeu apenas «disciplinar os contactos com os jornalistas».

Não imagino que efeitos na opinião pública surtiam ser por conferências de imprensa o contacto de Mário Soares com os jornalistas, mas gostava de poder avaliar…

Naturalmente, as declarações do operário, transmitidas pelas televisões, não ajudam a promover o candidato e, por isso, compreende-se a irritação de Mário Soares. Mas, como é público e notório, parece que, no nosso sistema partidário, só pode ambicionar ser presidente da República (e como ambicionam!...) quem já foi “chefe” de partido e primeiro-ministro.

Sendo assim, é bom que lhes seja avivada a memória da sua governação para que se convençam que fazer campanha não é só ter lábia para dar espectáculo. O povo é sereno, mas há sempre quem não esqueça.

A memória é a nossa raiz e são as raízes que não nos deixam andar ao sabor do vento ou dos espectáculos.

Ora, aqui está um bom aviso para a governação! É, até, o mais positivo desta campanha.

13 comentários:

Primo de Amarante disse...

Não quero estar a inflacionar o blog com posts da minha autoria. Fica em comentário este desabafo: desde há muito que se conhecem os cárceres privados, os “guantannamos” da Europa e África, onde se pratica a tortura, com total desprezo pelos direitos humanos. Vergonhosamente não se ouviram protestos dos dirigentes europeus, particularmente dos de partidos ditos de esquerda. Felizmente, apareceu uma mulher, Ângela Merkel, a levantar a voz, dizendo ser intoleráveis os “guantannamos”. Grande mulher! É de direita, mas é decente. E isso é a virtude que falta a certos blaires, schroeders, barrosos, sócrates e quejandos.

Cabral-Mendes disse...

E esta, hem?!
Ora toma!

M.C.R. disse...

Meu caro Compadre:
Desde que me conheço que sou de esquerda.
Convém porém exclarecer que já conheci na minha gente muito bandalho, muito arrivista e um sem número de sacaninhas ambiciosos.
Ser de direira não é nem nunca foi sinónimo de indecente ou algo de repulsivo. A direita tem também valores que a esquerda compartilha (a verdadeira esquerda, digo): a liberdade é um deles. Quanto aos protestos contra Guantánamo, permita que o exclareça que de todos os partidos socialistas europeus e da sua internacional já foram e de há muito feitos os protestos que V. não ouviu. Houve mesmo na nossa praça alguns comentadores que entenderam isso como um ataque à América nossa protectora. Por todos cfr. Pacheco Pereira e José Manuel Fernandes.

O facto de um operário dizer que passou fome na Lisnave seria risível se não fosse algo mais grave. O dito operário, membro dessa aristocracia operária que só se lembra do sindicato quando lhe vão ao bolso esquece algo bem dramático que é: que fazer, cedo ou tarde, com os nossos estaleiros e sobretudo com esse devorador de fundos públicos que foi a Lisnave.
Hoje mesmo fechou a Carrera: 69 mulheres na rua. Ontem fechou sei lá quem, amanhã idem. A culpa é do Sócrates?
Se o Dr Soares se zanga com a comunicação social é algo que até eu, apoiante de Alegre, compreendo: a comunicação social já fez as eleições e Expresso de Balsemão até já deu posse a Cavaco.
as eleições para PR tem isto de massacrante: são unipessoais. ORa sendo assim é natural que os partidos se inclinem para poiar os seus principais dirigentes e se nesse bolo houver a cereja de ex-presidente ou ex-primeiro ministro melhor. V. não gosta. Eu tão-pouco. Mas é essa a lógica. E foi assim até com a Engª Lurdes Pintasilgo...
Finalmente a governação de Soares. No seu primeiro período foi continuamente e duramente hostilizado pelos que ainda acreditavam na Revolução (eu próprio não me ponho de lado.) No segundo período, o das vacas magras, convirá lembrar que sem ovos não há omeletas. Todavia, se bem recordo, foi Soares quem conseguiou negociar com o FMI e quem conseguiu levar Portugal para a Europa. É pouco? Aponte-me quem fez melhor em circunstancias semelhantes.
Fraternalmente

Primo de Amarante disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Primo de Amarante disse...

Caro M.C.R.: somos praticamente da mesma idade, vivemos os mesmos acontecimentos, criamos esperanças em relação a este país semelhantes e pelo menos folheamos praticamente os mesmos livros. Não nos vamos enganar um ao outro. O que eu penso de Mário Soares foi já repetido por muito boa gente, à minha esquerda e à minha direita. Não tenho duas bitolas: uma para medir os de esquerda e outra para medir os de direita. Um erro à face dos princípios é sempre um erro, seja cometido pelo meu Pai, por um correligionário ou por um adversário qualquer. Para mim, Mário Soares é um monarca da república e só muito depois se pode dizer dele o que ele diz de si: socialista e laico. Governou num período difícil, mas podia ter governado melhor se soubesse ouvir outra gente que não fosse a sua corte. Todos nos lembramos de Macau, do que se passou nomeadamente em certos jornais, em certas empresas públicas, etc., etc.. Tem muitos telhados de vidro, porque foi mais, como diz o povo, um politiqueiro que um governante. Esta é claramente a minha posição e, por isso, já me arrependi de ter votado uma única vez nele.

Quanto, à indignação sobre Guantannamos” transcrevo-lhe o que diz Ana Gomes: ela é uma pessoa mais importante do que eu e diz muito mehlor do que eu o que eu disse.

«Há muito, desde 2002, que Guantanamo e a tortura sub-contratada através da «extraordinary rendition» são conhecidos de todos e assumidos e «justificados» pela Administração Bush.
O que não se ouviu, vergonhosamente, foram protestos enérgicos de dirigentes europeus (apesar de insistentemente instigados a manifestar-se pelo Parlamento Europeu). O mais ensurdecedor silêncio veio dos que se dizem «socialistas».
Foi preciso aparecer uma mulher com honradez e coragem para dizer o que há muito devia ter sido dito na cara de Bush: que é moralmente intolerável conviver com Guantanamo. Que é estrategicamente um erro admitir Guantanamo e o mais à margem do direito internacional e da decência que Guantanamo arrasta.
Tanto me dá que Angela Merkel seja de direita. Eu aplaudo-a por isto.
Blair, Schroeder, Persson, Barroso e aprendizezecos: tenham vergonha e aprendam!
[Publicado por AG] 8.1.06

Primo de Amarante disse...

A texto é do blog causa nossa e foi nesse texto que inspirou o desabafo.

M.C.R. disse...

Meu caro compadre
Como muito bem diz não temos de nos enganar um ao outro. Tudo o que acima disse é rigorosamente o que penso. Discordamos? Muito bem: a democracia felizmente contempla isso. Soares para si foi um "monarca"? É a sua opinião. Para mim foi um excelente presidente da república e como primeiro ministro ainda hoje gostava de ver quem nas mesmas circunstancias teria feito melhor. Atrevo-me mesmo a pensar que do seculo XX portugu~es passarão à história apenas quatro políticos:Afonso Costa, Salazar, Soares e Cunhal.
Quanto á afirmação da D. Ana Gomes , dois pontos: Trata-se de uma senhora, sem duvida respeitavel, que diz o que lhe passa pela cabeça. Não só é falso, rotundamente falso, dizer-se que a esquerda europeia (Schroder, incluído) não condenou Gauntanamo, como, por exemplo, Soares em Portugal foi nesse capítulo peremptório. A senhora não ouviu? Paciência... há ouvidos assim, discricionários. Devo mesmo dizer-lhe que em questões de esquerda se esta se medir por tal senhora vou ali e já volto. Aliás ela está no parlamento europeu à boleia de um partido socialista... Quando afinal há desacordos resta sempre a honrada posição de nos demitirmos. Enfim nem todos podem ter a coerencia do Pacheco
Pereira. Também é verdade que ele não é de esquerda...
Uma ressalva: nunca ouvi Blair criticar Guantanamo (apesar de haver no Labour muita voz crítica). Pessoalmente acho Blair uma caricatura de esquerda modernaça e penteadinha. Mas isto deve ser do meu conhecido mau feitio...
No que toca a Angela Merkel eu só pontuei o facto de V. dizer (sic) "é de direita mas é decente". Há nisto como quye um espanto por alguém sendo de direita poder ser decente. Foi só essa a razão do meu reparo que sem dúvida se dirige ao facto de às vezes a escrita ultrapassar o que realmente queremos dizer.

Primo de Amarante disse...

Caro MCR: as palavras são polissémicas. Aqui o sentido de "decente" não é o que lhe quer dar: significa ter sensibilidade ás questões que se prendem com os direitos humanos que, como sabe, funcionam, no nosso tempo, como uma ética mínima comum a toda a gente decente, de esquerda ou de direita ou sem posições politicas.

Sobre Guantanamo, o que disse a esquerda europeia foi de tal forma frouxo que eu e muita gente não demos por nada. E penso que o caso mereceria uma estrodosa indignação.

Acerca da Drª Ana Gomes a referencia que tenho dela é a que me vem da sua posição relativamente a Timor. Não me parece que a partir dessa altura tenha mudado assim tanto. Nem tempo terá tido para isso! O que pensava dela na altura, penso hoje. Por isso, continuo a admirá-la como pessoa de coragem, frontal e de esquerda. Suponho que foi secretária de Eanes e foi a partir daí que fez carreira política. Foi escolhida pelo PS pela mais-valia que trazia ao partido. De contrário, o PS tinha uma longa fila de ambiciosos medíocres para escolher(que aliás, devem ter ficado muito "chateados" com o partido!). Também não me parece que o PS ou outro qualquer partido funcionem como as conferências de S. Vicente de Paulo, a quem se deva ficar agradecido eternamente pela generosidade de uma escolha para deputado ou para outro cargo qualquer. Muito menos, penso que a consciência de alguém fique amarrada a um partido só porque “fez” desse alguém um deputado (cargo que aliás está muito desvalorizado, como sabe!).

Caro MVR: estou noutro paradigma!

M.C.R. disse...

Caro Compadre, eu já tinha percebido que V não ia dizer uma enormidade daquelas.
No que toca á drº Ana Gomes, desculpe mas ela é deputada europeia pelo PS. Pode aquilo estar desvalorizado mas a verdade é que dá muita, mas muita massa ($$$). . Quanto a timor tremo que estejamos em desacordo. O futuro dirá se o Timor (in)dependente o é realmente. Para já depende de toda a gente e não é o petróleo (de que os australianos já se apoderam) que vai resolver a coisa.
Quanto a ser uma mais valia, desculpe que lhe diga que foi por o ser que a mandaram para longe. Entenda isto como quiser.
eu penso que o mínimo ético de quem está numa função escolhido pelo partido quando discorda sai, Estou à vontade para o dizer porque saí do MES e do PS (neste ainda durei menos tempo do que no outro...) E agora, boa tarde, partiudos nem mais um. Nem eu lhes (os) sirvo nem decerto eles me quererão. E sinto-me bem assim.
Claro que isso tem custos: quem quer intervir com possibilidades de ser ouvido ou o faz dentro de um partido ou está só a cuspir contra o vento.

Primo de Amarante disse...

Mas, então, a independência de Timor não é um valor?!...E não são os timorenses que devem continuar a lutar por aquilo que querem no futuro ser?!...

Eu não sou paternalista em relação aos povos e por isso é que discordo da invasão do Iraque como discordava da invasão de Timor.

Relativamente aos partidos eu não os vejo como um funcionário olha para o patronato. Tenho uma visão mais republicana dos partidos: como um instrumento de servir uma causa «pela qual se tomou partido». Não há proprietários de um partido, como diria o candidato que o meu amigo apoia. E é necessário que haja quem dentro dos partidos lute contra a contrafacção dos mesmos. O PS é hoje uma contrafacção dos ideais socialistas e já parece uma legenda para um grupo de interesses se ir governando, como aguram alguns escândalos recentes. Dizer isto de fora é fácil: é mais difícil dizê-lo de dentro. Eu, p. ex. foi-me mais fácil não me refiliar que continuar lá dentro a dizer o que achava que deveria dizer. È desesperante a marginalização a que é votado quem não se acomoda dentro dos partidos à linha dominante. E essa é mais uma razão para admirar quem é contra a corrente.

Em relação aos $$$ que Ana Gomes pode ganhar, penso ser essa uma perspectiva injusta e desajustada. Como sabe, ela se seguisse a carreira de diplomata ganharia pelo menos o que ganha agora, mas em troca o cargo dava-lhe mais prestigio.

Primo de Amarante disse...

Só queria sublinhar uma coisa que me parece muit importante: o que justifica um partido é a causa e não quem o dirige. A causa não é um dogma que se imponha, mas uma concepção do mundo, da vida e do homem que queremos para o futuro e que pode ser interpretada de diferentes maneiras. É pela dialéctica interactiva dessas interpretação que a tal causa se torna mais justa. É não só legitimo discordar dentro dos partidos do rumo ideológico que orienta a acção , como também um dever de consciência. Confundir o partido com a linha dos dirigentes, desculpe, caro MCR, mas é muito perigoso, como a história demonstra.

M.C.R. disse...

Devo esclarecer que o Parlamento Europeu paga muitíssimo mais a um deputado do que o Estado paga a um embaixador nos melhores locais (Londres, Washington ou Paris...). E já não me refiro ao ordenado que o diplomata tem quando está em Portugal.

Primo de Amarante disse...

E eu até penso que pelas posições de Ana Gomes ainda lhe deveria pagar mais.