03 junho 2004

AMOR VULCÂNICO


Oh! Esta loucura Morse
Com tracinhos dos teus dedos
E pontos das tuas unhas!
A saudade se reforce
Nos eléctricos segredos
Para a matarmos melhor.

Sou tão feliz! Nem supunhas:
Sei o telegrama de cor.
Diz: "A Macaca de Fogo
Não pode passar sem ti.
Vem depressa." - Volto logo.
"Saudades de ripipi."

Mal sabia o operador,
Grafando a onomatopeia,
Que era o teu grito de amor
Chilreando veia a veia!
"Um vendaval de saudades"
("Vendaval", por vento ilhéu
Que bate vidros e grades
E arrasta o amor no escarcéu).

"Com muito amor" - continua
O cabograma contado -
E acaba dizendo "tua
Margarida", como se
O não soubesse o povoado,
O correio, o homem da rua,
O groom e eu mesmo que de
Ti sou, na Terra e na Lua.

Stop. No explicit Morse
Está "Macaca" e "ripipi"
Para que o espanto reforce
Tudo o que me vem de ti.

Agora pergunto: A cara
Do funcionário, ao guichet,
Vendo-te séria, avis rara,
De coroa e franja, até
Firmares, com anéis nos dedos,
Como às tuas Confissões,
Todos aqueles segredos
Contra escudos e tostões...

Oh, bendito seja o Fontes,
(Teu tio Hintze, já se vê...)
Que lançaram estas pontes
De pressa e amor - C.T.T.!

O Telegrama, in Obras Completas de Vitorino Nemésio (Vol. III - Caderno de Caligraphia e outros poemas a Marga)

26 comentários:

Anónimo disse...

Belíssima escolha.
Uma outra escolha do mesmo livro:

Não cantarei a virgem que o cavalo
Com um xairel de sangue arrebatou,
Quebrada pelo bruto, - nem levá-lo
Ao potro vingador de um verso vou.


Não cantarei tal noite aziaga. Falo
Apenas do que tenho, do que sou
Com ela, como vinho no gargalo
Do frasco em que me bebe e me esgotou.


Nem cantarei a vítima do resto,
Violada na inocência que perdeu
Nas emboscadas de um punício lodo:


Que só meu próprio amor acendo. E atesto
A chama da Victoria que me deu
Na maragarida branca o mundo todo.

29/03/73

Silvia Chueire disse...

Lindo, o poema. Amor é isso.

Primo de Amarante disse...

Bom... não é só isso!

Kamikaze (L.P.) disse...

Pois não, COMPADRE... relembrando os comentários ao post Yesterday, de 29 de Maio, aqui vai outro poema, DEDICADO A SI:

O suporte da música

O suporte da música pode ser a relação
entre um homem e uma mulher, a pauta
dos seus gestos tocando-se, ou dos seus
olhares encontrando-se, ou das suas

vogais adivinhando-se abertas e recíprocas,
ou dos seus obscuros sinais de entendimento,
crescendo como trepadeiras com eles.
o suporte da música pode ser uma apetência

dos seus ouvidos e do olfacto, de tudo o que se
ramifica entre os timbres, os perfumes,
mas é também um ritmo interior, uma parcela
do cosmos, e eles sabem-no, perpassando

por uns frágeis momentos, concentrando
num ponto minúsculo, intensamente luminoso,
que a música, desvendando-se, desdobra,
entre conhecimento e cúmplice harmonia.

(Vasco Graça Moura - Poemas com Pessoas - Quetzal)

Kamikaze (L.P.) disse...

Amplia-se a dedicatória à Eugênia...

Silvia Chueire disse...

O compadre esteves está implicando comigo? : )
O amor é isso. E, claro, é muito mais que isso, compadre.

E para retribuir ao Kamikase , dois poemas :

você está tão longe
que às vezes penso
que nem existo

nem fale em amor
que amor é isto

Paulo Leminsky - Melhores POemas - Global Editora.

Silvia Chueire disse...

O segundo :

de amor (I)



mãos que escorrem pelo meu corpo,
fio d’água. rio,
corrente que me ata e desata
neste nó de desejo.
língua que desliza,
me trespassa a alma,
faz surgir a essência.


o amplo sentido dos gestos,
do grito incontido,
no silêncio crepuscular :
surpresa aguda.

este mar com que te olho,
a um tempo calmo e turbulento,
é como o que nos leva :
onda de pequenas delicadezas,
e sôfrega a lamber areia e rochas.

pouso a cabeça num porto:
meu pouso.
repouso sem dúvidas,
na liberdade antes desconhecida.

amor inesperado esse,
sem medo,
sem fantasmas,
sem degredo.

silvia chueire

Primo de Amarante disse...

Com tais poemas a noite ficou viúva, como diria O´Neill.

"Uma pequena angústia sentida nos joelhos
Como o bater do próprio coração
E é a noite que chega
Não a noite-diamante
Mas a noite-viúva a noite
Sete vezes mais impura do que eu
Em passo obsceno em obscena força
Minúscula perversa venenosa."

Alexandre O´Neill, in "No reino da dinamarca". Guimarães Editora

Primo de Amarante disse...

Mas S. João da Cruz, na "Noite obscura" vai mesmo à questão de fundo:

"Em uma noite profunda,
Estando eu cheio de angústia e de amor ardente,
Oh! sorte feliz!
Saí sem ser visto!
Quando a minha casa estava já em paz.

Eu estava nas trevas e em segurança
Quando saí disfarçado pela casa secreta,
Oh! sorte feliz!
Eu estava nas trevas e em segredo,
Quando a minha casa estava jé em paz.


Nessa noite feliz
Eu mantinha-me em segredo, ninguém me via
E de nada me apercebia
Para me guiar, além da luz
Que ardia no meu coração."

Segue-se uma resposta

"Sobre o meu seio ornado de flores,
Que eu guardava inteiro só para ele,
Ele adormeceu,
E eu acariciava-o
E com um leque de cedro o refrescava".

Cântico da alma.

Primo de Amarante disse...

Obrigado Kamicase. Mas, como já percebeu, embora tenha pedigry (mais de trinta anos de resistente) fui preterido. Só S. João da Cruz e o meu amigo é que me compreendem!

Kamikaze (L.P.) disse...

Pois meu caro, nem todos terão a sua capacidade de resistência...

Primo de Amarante disse...

Espero que não resista, se valer apena...

néscio disse...

Só por isto valeu a pena criar este blog... Ah, a música do amor!

Primo de Amarante disse...

Amigo Kamikase: queria dizer "a pena " e não apenas. Apenas... é pouco. Nem sempre as disgrafias têm razão e aos amigos deve-se desejar a abundância.

Silvia Chueire disse...

Dedicado ao compadre, e ao Kamikase. Porque o amor também é isso :

E Se Eu Disser

E se eu disser que te amo - assim, de cara,
sem mais delonga ou tímidos rodeios,
sem nem saber se a confissão te enfara
ou se te apraz o emprego de tais meios?
E se eu disser que sonho com teus seios,
teu ventre, tuas coxas, tua clara
maneira de sorrir, os lábios cheios
da luz que escorre de uma estrela rara?
E se eu disser que à noite não consigo
sequer adormecer porque me agarro
à imagem que de ti em vão persigo?
Pois eis que o digo, amor. E logo esbarro
em tua ausência - essa lâmina exata
que me penetra e fere e sangra e mata.

Ivan Junqueira - Melhores POemas - Editora Global

Kamikaze (L.P.) disse...

Com uma vénia ao anónimo e de novo dedicado ao Compadre, um primeiro poema,a modos de resposta ao seu conselho e um 2ª poema, com uma piscadela de olho à Eugênia.

FUI

Não me manietei.Dei-me totalmente e fui.
Aos deleites, que metade reais,
metade volteantes dentro da minha cabeça estavam,
fui para dentro da noite iluminada.
E bebi dos vinhos fortes, tal
como bebem os denodados do prazer.

(Konstandinos Kavafis
"Poemas e Prosas", Relógio d'Água)

AMANTES

Andar na vida,
ofício de mulheres
e poetas.

dadivosos
da sua mísera dádiva.

Amantes
sempre aquém
do amor.

(António Osório
"O lugar do Amor e Décima Aurora"
Gótica )

Kamikaze (L.P.) disse...

ooops, a vénia é para o néscio, não para o anónimo!

Kamikaze (L.P.) disse...

Ao anónimo, que por ser anónimo me permite fantasiar ter estado na origem das minhas mais recentes incursões poéticas, dedico este poema ao absurdo, do meu talvez mais antigo livro de poesia, um verdadeiro "livro de cabeceira". Aí vai:

QUARTIER LIBRE

J'ai mis mon képi dans la cage
et je suis sorti avec l'oiseau sur la tête
Alors
on ne salue plus
a demandé le commandant
Non
on ne salue plus
a répondu l'oiseau
Ah bon
excusez-moi je croyais qu'on saluait
a dit le commandant
Vous êstes tout excusé tout le monde peut se tromper
a dit l'oiseau.

(Jacques Prévert - Paroles
Le Livre de Poche)

Silvia Chueire disse...

Ao Kamikase, porque discordo do tom do poema a mim por ele dedicado ( apesar da piscadela, sorrio aqui), e pelo conteúdo deste que aqui vai.Ao compadre também pelo conteúdo deste poema e pelo que ele já disse.
Espero que me perdoem o atrevimento. O que pode parecer exibicionismo, nada mais foi do que uma tentativa de alinhavar línguas certo dia. Obrigada

listen...
it's the whisper of a wind long gone.
the memory fading in time
of the room crossed by dawn.

it's the music of a silent garden
where we blossomed,
where we knew the glory.

c'est la chanson
que nous chantions
quand nous étions jeunes.
when we were young
through love.

the dance we danced
surrended and fearless,
the harmony.

when everything made sense.

remember?
it was just yesterday.


silvia chueire

Primo de Amarante disse...

Deixou-me deslumbrado este inter-activo poetizar. Amanhã, depois de acordar, vou responder com outro poema, se estiver mais freco. A idade, o entardecer e a cachaça podem mais que a lucidez.

Anónimo disse...

L’ALLIANCE
Para si Kamikase.
Deixe que continue a ser o que imaginou eu poder ser.
Visitemos agora Paul Eluard.

Définitivement ils sont deux petits arbres
Seuls dans un champ léger
Ils ne se sépareront plus jamais.

Paul Eluard
Une Longue Réflexion Amoureuse
1945

Primo de Amarante disse...

Num outro tom, mas sempre o amor:

"Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente
(...)
Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

António Gedeão (in: Poesias completas)

Silvia Chueire disse...

Lágrimas são um significante significativo, compadre. Para além de serem água e cloreto de sódio.Mas isso todos já sabemos. : )

Primo de Amarante disse...

Eugénia: o mais importante é a metáfora. E esta não se esgota em qualquer sabedoria. Por isso, foi utilizada por poetas, por mágicos e por deuses. Toda a sabedoria começou pela metáfora e, ainda, é ela que nos ajuda a ultrapassar os limites das palavras.

Silvia Chueire disse...

Foi exatamente o que tentei dizer, compadre. Do muito além da água com sal. Concordamos aí.

Amanita muscaria disse...

Também gosto deste:

Lancei-me num fojo absintamente repleto
Por não ter o meu pojo inconsequente
no fêmeo porto do teu afecto

Ah, velho arrojo, rojo repente
Já hoje continente e discreto
Serás já morto ou abstinente de um amor mais completo?