15 julho 2004

CÃO

Cão passageiro, cão estrito,
cão rasteiro cor de luva amarela,
apara-lápis, fraldiqueiro,
cão liquefeito, cão estafado,
cão de gravata pendente,
cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
cão ululante, cão coruscante,
cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparate: cão aqui,
cão além, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia-a-dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal da poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moído de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção, cão pré-fabricado
cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
cão de olhos que afligem,
cão-problema…

Sai depressa, ó cão, deste poema!


Alexandre O’Neill
Poesias Completas, 1951-1986
Lisboa, INCM, 1990 (3ª ed.)

Ilustração: Aguarela de Mário Botas, A morte de um cão (1979)

4 comentários:

L.C. disse...

Por motivos alheios à nossa vontade, o cão que estava na imagem fugiu. Espera-se que volte em breve.

Primo de Amarante disse...

Cão, havia um: o meu mondego. Quando ía para a caça, saltava à minha frente de felicidade; sempre que falhava uma perdiz, ladrava-me. Nas encontas ou nas fraldas da serra, sempre que me vinha o sono, num fim de tarde de caça, ele, o mondego, era o meu travesseiro. E em Mazouco numa ravina que dava para o Douro,ao assistir à minha queda,ladrou, uivou e obrigou os meus companheiros de caça a socorrerem-me. Comia sempre metade do meu pão com um bife que a minha "patroa" me arrajaja a resmungar. Morreu em Maio, talvez envenenado. Não o consegui salvar! Lembrar-me do mondego é lembrar-me de um bom amigo e sofer com a sua ausência!

Silvia Chueire disse...

Mesmo nos cães há poesia. Digo isto e o meu cão, aqui a meus pés, concorda.

Primo de Amarante disse...

Obrigado, eugénia pelo conforto. Fiquei enternecido!