28 dezembro 2004

MORRE LENTAMENTE

Morre lentamente quem não viaja; quem não lê; quem não ouve música; quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor próprio, quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajectos, quem não muda de marca, quem não se arrisca a vestir uma nova cor, ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem evita uma paixão; quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoínho de emoções, justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos sem bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás dum sonho, quem não se permite, pelo menos uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou chuva incessante.
Morre lentamente quem abandona um projecto antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples facto de respirar

Pablo Neruda

6 comentários:

Joaquim Manuel COUTINHO RIBEIRO disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Joaquim Manuel COUTINHO RIBEIRO disse...

Extraordinário Neruda!
Também morre devagar aquele que não saboreia os feitos, depois de feitos, e os arruma ao lado, insatisfeito por não ter conseguido fazer melhor, mesmo quando fez bem. E morre devagar aquele que se deixa enredar em passados, esquecido que o passado já foi, e que muito mais do que as lembranças, valem as palavras de quem nos ouve agora e nos quer bem agora e nos quererá bem amanhã.

Obrigado, Senhor Conselheiro, por esta naco de prosa.

Kamikaze (L.P.) disse...

Palavras sempre a propósito e que é bom relembrar a tempos,sem dúvida.
E o nosso amigo carteiro quanto espevitou nesta quadra festiva! escusava ter antecipado tanto negrume... mas vá lá, conseguiu acender as velinhas e aí está ele vivinho da costa, ao que parece! Continue a acender, carteiro, sem medo que venha o vento e as apague... e se vier, arranje um petromax,ok?

Joaquim Manuel COUTINHO RIBEIRO disse...

Saudemos o regresso de Kamikaze. Sempre atenta, como um mocho, ainda que não seja um mocho....

Kamikaze (L.P.) disse...

Ao contrário carteiro, ao contrário: estou a ficar cada vez mais mocho e cada vez menos atenta...

Joaquim Manuel COUTINHO RIBEIRO disse...

oh, minha amiga, fico estarrecido! Isso não é coisa sua, não é o seu caminho, o seu perfil, a sua vida... Conjugando várias coisas, atrevo-me a supôr (tem acento?) que alguma coisa a martirizou nos últimos dias. Tenho de ficar firme! Como sempre fiquei firme quando, à minha volta, as pessoas ficavam menos firmes. Nestas alturas, revelo-me. E sou um incansável companheiro de horas tristes. Não a quero assim, porque a menina é doce...