23 maio 2005

Gaudeamus Igitur 3

A História Trágico-marítima segundo Reynolds

Quando havia uma tempestade no canal da Mancha os jornais ingleses costumavam afirmar que a Europa estava isolada. Provavelmente os insulares súbditos de Sua Majestade pensavam que os europeus não sabiam nadar e que um canal como o deles era intransponível. Isto apesar dos normandos o terem atravessado sem dissabor e de o nosso portuguesíssimo Baptista Pereira, por duas vezes e num "crawl" mais que decente, o ter vencido.

Desta confiança no Canal, melhor nos canais, tive, nos já longínquos anos de 72/75, uma confirmação mais do que superlativa.

Nesses tempos felizes e descuidados, aproou à Faculdade Internacional de Direito Comparado um inglês que respondia ao vulgar nome de Michael Reynolds. Meão de altura, cara risonha e sardenta e uma sede polaca e ancestral. Acrescente-se, como única excentricidade notória, o dom e o gosto pelas línguas francesa e italiana que ele praticava com facilidade e elegância.

O Michael apareceu-nos em Pescara, terra natal de D'Anunzio, e logo ao fim do primeiro dia, tinha pronta e verificada a difícil geografia dos bares e tascas da cidade.

Adoptámo-lo imediatamente tanto mais que ele fazia um spaghetti al pesto digno de louvor sobretudo, e era geralmente o caso, quando, cerca das quatro da manhã, a fome apertava.

Foi numa funesta noite em Veneza que recebemos o primeiro aviso de que o nosso Michael (jamais Mike, s.f.f.!) era atraído por canais. De facto, enquanto víamos um grupo de turcas dançar, o Michael caiu no Rio della Paglia. "Antes fosse na Riva del Vin que ia mais a condizer" -foi o comentário do Édmond Gérard, luxemburguês imperturbável e subtil que assinava por mim nas aulas do meio dia quando eu me baldava para a praia.

Em Amsterdão, no ano seguinte, reuniu-se de novo a mesma tertúlia amável para mais um ciclo do Curso de Direito Comparado. Um distinto cavalheiro que dava pelo nome de V.W. Bossenbroek levou a sua extrema hospitalidade ao ponto de nos franquear gratuitamente (isto é sem pagar jóia e quotas) e durante todo o período da nossa estadia, as portas da Stiching Societeit Uilenstede que era, de facto, um honradíssimo bar de estudantes da Vreie Universiteit Amsterdam. Abria às dez da noite e encerrava às seis da matina. Os jus-comparatistas, por muito canudo de direito que ostentassem, gostavam, com alguma desmesura só perdoada pelos verdes anos, de álcoois brancos ou tintos, da genebra traiçoeira, da Heineken e de toda a restante e copiosa variedade de bebidas que, a preço módico, a SSU fornecia.

Numa noite, em que as libações, por via do frio que faz no verão holandês, terão sido, digamos, substanciais -e, à saída - o Michael mergulhou de chapa num canalzinho de dois metros de largura que saía de um braço do Amstel e se perdia entre Amstelveen e Uilenstede.

-"Este gajo tem a mania de tomar banho à noite!" -soltou o Gérard para um luzido grupo de meninas em que avultavam, -benditas as mães! - a Catherine Fox e a Maria Kirkos.

Esta estranha repetição de banhos terá enervado alguém do grupo pelo que decidimos convocar o aquático "bife" para uma reunião de emergência no "Bistro Anette". Aí, apanhado ele sóbrio, exprobamos-lhe a atitude demasiado líquida para um "fellow" de Cambridge e cominámo-lo a deixar de frequentar qualquer espécie de canal. Enumerou-se, mesmo, em documento hoje em mãos de Maître Jean François Bregi, uma série de canais entre os quais avultavam os de Suez e de Corinto (este a instâncias patrióticas da Maria e do Stellos).

Ora sucede que sete anos mais tarde, em Paris, a Catherine Fox me apareceu de telegrama fresco e urgente na mão. O nosso Michael tinha naufragado em pleno canal do Panamá a bordo de um barco bananeiro.

Melhor dito: o barco rebentara com uma comporta e adornara atirando o sedento britânico para aquele no man's land que já não é Atlântico mas ainda não chegou a Pacífico.

O Michael informava que só naufragara naquele lava-pés yankee por não constar da lista de proibições que fora estabelecida na ridente Amsterdão...

Em nome e representação da restante comandita, espalhada por esse vasto mundo de Deus, a Catherine e este vosso criado telegrafaram para Londres perdoando o recente naufrágio (tanto mais que além de frustrado não se verificavam dolo, má fé ou sequer erro grosseiro) .

Recordava-se, todavia, ao trágico-marítimo malgré lui a velha máxima conhecida de todos os juristas: non bis in idem !

Gaudeamus igitur !

4 comentários:

josé disse...

Aparentemente nada tem a ver com o tema do postal, mas a expressão "Meão de altura, cara risonha e sardenta", lembrou-me esta poesia de um nosso maior:

"Magro, de olhos azuis, carão moreno,

bem servido de pés, meão na altura,

triste de facha, o mesmo de figura,

nariz alto no meio e não pequeno.


Incapaz de assistir num só terreno,

mais propenso ao furor do que à ternura,

bebendo em níveas mãos por taça escura

de zelos infernais letal veneno.

Devoto incensador de mil deidades

(digo, de moças mil) num só momento

e somente no altar amando os frades,

eis Bocage, em quem luz algum talento.

Saíram dele mesmo estas verdades

num dia em que se achou mais pachorrento."

Não é de um Reynolds, mas de um...Bocage!

M.C.R. disse...

...que era (ele Bocage)um grande poeta que infelizmente só chegou até nós travestido em pilhéria grosseira e desbocada. Parece que vão sair as "Obras Copmpletas". Sairá Bocage do purgatório mesquinho onde o meteram? E joão de Deus? E Guerra Junqueiro e o extraordinário Garrett ou o menos (ainda ...!!!) recordado Sá de Miranda? Raio de país de poetas que os esquece mais depressa que o tempo de um suspiro.
Não sei se ao descrever o meu velho amigo Michael( nunca Mike, "please") não me servi do poema do Manuel Maria. Pelo sim, pelo não, expresso-lhe a minha gratidão. E o mesmo digo ao meu amigo e leitor José que tão gentilmente mo recordou.
mcr

josé disse...

Todos esses que mencionou e mais alguns, eram ensinados, ou pelo menos divulgados em selectas, com nomes tão escolhidos como "Alma Pátria Pátria Alma" ( está a ver associação evidente ao "O tempo e a Alma"?!)nos anos do salazarismo e caetanismo.
Havia também uma selecta específica para autores dos prim+ordios da nossa nacionalidade e dos séculos imediatamente a seguir até ao sec XVI.

Eram coisas inegavelmente boas e incentivadoras da elevação do nível cultural de um povo.
A par da censura e da repressão policial às ideias "subversivas", o nosso "fassismo" abria as portas ao conhecimento dos nossos antepassados cujas ideias o combatiam em romances novelas e poesia do modo mais eficaz: por histórias de proveito, exemplo e divertimento.
É certo que Alves Redol não era um dos favoritos e nem Fernando Namora tinha exposição nas selectas, para não falar em Soeiro Pereira GOmes. mas sabe quando li o Esteiros?
Logo que saiu, por volta de 1971 ou 72, na colecção dos livros de bolso da Europa América. Acho até que foi o nº1 e tenho-o guardado.

Essas selectas não traziam toda a produção literára contemporânea, mas já a tinham um Eça e um Camilo e do Aquilino , para mim o maior romancista do sec XX português, também se liam coisas nas selectas.
Do Sá de Miranda e dos que vieram a seguir na Renascença, com destaque para o Camões, não havia restrições.

Agora pergunto:

Que temos hoje nas selectas?!
Olhe, a minha filha mais velha disse-me que na escola lhe escolheram a "Aparição" do Virgílio Ferreira e o "Felizmente há luar" do Sttau Monteiro, como leitura obrigatória. É claro que todos achma uma "seca". Provavelmente como achariam uma obra do Aquilino que tem uma densidade por parágrafo, superior á que muito intelecto do secundário pode aguentar.
Contudo, nesse tempo aguentava-se- e agora não!

Eu gosto de ambos os autores, mas como prioridade, escolher estes, deixa muito a desejar...
Ah! por falar nestas coisas:´sabe quem ganhou este ano o prémio da APE por um...romance?!
Vasco Graça Moura! Habitué de júris de prémios literários, tem a honra de ver distinguido um romance da sua autoria! É obra!

Mostra bem a que nível estamos.

M.C.R. disse...

Caro José: V. é temível. Mas tem carradas de razão. O VG Moura é um bom poeta e um bom tradutor. As prosas que lhe li (não falo das políticas) não eram entusiasmantes. Caíam mais para a moda do momento com laivos de pescadinha com o rabo na boca. Pode ser que este romance seja bom. Vou espreitá-lo antes de comprar. Gosto muito do Aquilino mas o meu grande romance do século passado português é "no fundo deste canal" do Nemésio. E a minha grande novela é "o anjo ancorado" do Zé Cardoso Pires.
Achei graça ao seu comentário sobre o Soeiro Pereira Gomes: fui compulsar o meu exemplar: é de 1962, 4ª edição em formato normal, custou 30$ e tem o número 192 de entrada na minha biblioteca.
Já não me recordo do título das selectas do meu tempo de liceu que correu pelos anos cinquenta. Tive porém um grande professor de Literatura: o dr. Feliciano Ramos, autor aliás de uma Historia da Literatura. Fui aluno dele no fim dum sexto ano que fiz em Braga em 58. Depois alombei com um colégio por via da minha incipiente libertinagem em Braga (outro grande escritor o Luís Pacheco. Parece que saiu um livro dele na D quixote). um abraço
mcr