08 junho 2005

Constituição europeia?

Acordei e pensei (imaginem lá no que se pode pensar quando se acorda a esta hora...!): se eu tivesse que votar hoje num referendo sobre "sim" ou "não" à Constituição Europeia, eu teria que reconhecer: não vou daqui ao Marco para isso, porque não sei o que votar. Não li o texto, não estive atento aos debates que se fizeram sobre o assunto, leio aqui e ali os comentários laterais que se vão fazendo à questão (que normalmente esquecem o essencial), não sei questionar as consequências de uma ou outra decisão. Imagine-se agora que era obrigatório votar: teria de votar em branco, que é a única atitude sensata perante a minha ignorância.

Agora, pense-se assim: eu sou o cidadão médio, no sentido de mediamente informado. E pense-se também: como olhará o cidadão menos informado que eu (que deve haver) sobre tão candente questão? Não pensa nada, obviamente. E, no entanto, lá iremos todos votar...

4 comentários:

Kamikaze (L.P.) disse...

Iremos?
1º ainda não é certo que haja referendo;
2º - lembra-se (mais ou menos) da percentagem de efectivos votantes no referendo sobre "o aborto"? Quanto a esta questão é legítimo presumir que o "cidadão medianamente informado" e também os outros estivessem informados!
E pure...
Não lhe parece ser de prever, sem grande margem para surpresas, que a corrida às urnas no refrendo sobre a CE não seria propriamente maciça? Os defensores da manutenção, à outrance, do referendo estão a cavar a sua (nossa) própria sepultura...

josé disse...

Caro carteiro:

O que diz é válido para noventa e nove vírgula noventa picos de cidadãos portugueses.

Há uns happy few que julgam até que dominam a cena da discussão, entre os quais avultam os constitucionalistas da praxe. Mas mesmo entre estes há alguma dissensão, como me parece ser o caso de Vital Moreira e Jorge Miranda.
Na segunda-feira segui o Prós e COntras, sobre o assunto.
A discussão era interessante, mas algo académica, equívoca e fragmentadíssima.
É sempre o mesmo problema: para se discutir seja o que for com alguma comlexidade, é sempre necessário saber as bases mínimas daquilo que está em causa.
Que adianta perguntar em sondagens pelos sim ou não, quando é certo e sabido que a opinião é completamente ao acaso do vento que sopra na ocasião?
Por outro lado, há bons adeptos do sim como os há do não e assim, sendo uma questão a branco e preto, a decisão final deixará muita gente a pensar que fez uma escolha inteligente, ainda que não saiba porquê...

Em França, as opiniões dividiram-se e os adeptos do sim, curiosamente, eram na sua esmagadora maioria pessoas ligadas á comunicação social e portanto, minimamente esclarecidas.
Até o Serge July, serôdio representante de Maio de 68, uma espécie de patrono do nosso José Manuel Fernandes, quase insultou os leitores do seu Libération, logo a seguir à vitória do "non"!
O tipo queria mesmo que todos dissessem "oui"!

Seja como for, parece-me muito divertido e instrutivo um Quizz, sobre o assunto e que pode ser lido Aqui

Vale a pena, não é maçador, é divertido até e mostra até que ponto os franceses são espertos

M.C.R. disse...

Desculpe lá Carteiro: E nas eleições? Crê V seriamente que 90% ds eleitores se tenham dado á maçada de ler o programa eleitoral do partido em que vão votar? Crê V que sequer conhecem os deputados que vão eleger no seu círculo? V. conhecia os candidatos a deputados do Porto que, presumo, é o seu círculo? Conhecia sequer metade? Vamos lá, sou generoso, conhecia 10 candidatos?
As votações são algo de aberto: dizem o seguinte: se achas que deves decidir o teu futuro vem e vota. Só. Hoje como ontem na Grécia. Só que lá era mais fácil. O universo eleitoral era pequeno, mais pequeno que o Marco. Mas já nessa altura alguém perguntava se valia a pena,
O ponto é: qual é alternativa?
Em relacção ao problema do referendo europeu a questão parece-me simples: ficamos em Nice? Ou vamos ainda mais para trás? E se sim, para onde? Para as vésperas da 2ª mundial de saudosa memória ou para as da primeira?
Eu não quero, nem tenho jeito para, ser dramático. Todavia irrita-me estar numa União onde só oiço falar do económico e dos que decidem sem a malta poder dizer Ui! A porcaria da constituição ao menos servia para isso: podermos dizer Ui ou "alto e para o baile. Não era boa? Pois não. E a nossa, portuguesa? Há alguém de juízo para dizer que é boa? E a americana, mailas suas emendas?
O grilo do pinóquio, lá do canto, vai murmurando num cricri muito ténue: é preciso começar por algum lado. Isso chega-me.
um abraço

Coutinho Ribeiro disse...

Pois, é verdade, caro MCR. Mas quando votamos num partido, sabemos que votamos numa cara, em propostas que vamos ouvindo, mesmo que os programas não sejam lidos. É um bocadinho diferente. Quanto ao mais, acho que já fui mais europeísta do que sou....