11 junho 2005

Faleceu Vasco Gonçalves

Faleceu, de repente, no Algarve, o General Vasco Gonçalves. Tinha 83 anos. Foi um Homem de convicções que serviu o País pensando nos pobres, nos que só têm os braços para sustentar a si e à sua família. Foi um Capitão de Abril, fez parte da Comissão de Coordenação do Movimento das Forças Armadas e exerceu o cargo de primeiro-ministro. Tornou-se político pelas suas convicções católicas. Nunca foi bem compreendido. Para muitos continuará a ser um ídolo. Admirei-o sempre. O meu compadre e conterrâneo, Alfredo Vieira de Sousa, gravou, com o Grupo Outubro, a canção que para ele fez "força, força, companheiro Vasco".
Para Vasco Gonçalves, onde já estiver, o meu grande abraço.

21 comentários:

josé disse...

Compadre, meu caro:

Aprecio que alguém seja fiel às suas crenças, principalmente as que se ligam a motivações poítico-ideológicas.
Alguns dos meus melhores amigos que estimo desde há muito anos, são...ou melhor, dizem-se, comunistas.

As discussões infindas em tertúlias animadas à roda de umas canecas, já lá vão e sempre foram motivo de alegres dissensões, sem que alguém tenha convencido alguém.
A razão para tal, sei-o há algum tempo, tem a ver com as razões que a razão desconhece.
Explico: por muito inteligente e sabedor que alguém seja, em certa altura da vida, de repente ou gradualmente, viu uma luz que o iluminou na escolha do caminho de um bem que idealizou para a organização social.
Pode mostrar-se em conversas alargadas que essas escolhas conduziram a becos sem saída social que muitos lá continuam à espera de descobrir o que correu mal, mas sem ver que é o próprio caminho percorrido que estava errado e qual labirinto sem fio de ariadne, não permite adivinhar o retorno e retomar o percurso certo.

Como quase ninguém sabe,à partida, se o caminho é o certo, quem opta por um percurso ou outro, fá-lo no convencimento de que está certo e por razões que dificilmente explicará aos outros.
Mas essa explicação às vezes, é a chave para perceber as opções.

Para mim, as opções nunca se fizeram por causa das "classes", mas há muita gente que o faz exactamente por causa disso.

É por esse motivo que respeito as opções alheias, mas gosto de vincar que do meu ponto de vista estarão errados...ahahaahahah!

Quanto ao Vasco GOnçalves, ( que Deus tenha em bom lugar)lembro-me do seu ar alucinado a vituperar em 1975 contra o Expresso, a Luta e o Jornal Novo, apodando-os de pasquins.

Para mim, foi o fim e a revelação de uma alucinação.
Se fôssemos por onde ele queria, tínhamos neste momento em Portugal, um modelo de sociedade que não se aguentaria na União Europeia e com cerca de 12% por cento de crentes não é possível fazer uma igreja.
Por muito que ela prometesse amanhãs a cantar e risos todo o dia.

Coutinho Ribeiro disse...

Estou de acordo com o josé. E paz à alma do companheiro Vasco, a muralha de aço.

Primo de Amarante disse...

Nunca fui do P.C.P e, por mais incrível que pareça, tanto quanto sei, Vasco Gonçalves não era militante do P.C.P. O estio do homem é fruto de muitas circunstâncias. Vasco Gonçalves era emocional,um apaixonado, tinha um estilo próprio das circunstãncias, mas não era um alucinado. Pintou-se uma ideia do Vasco que só o tempo demonstrará que não coincide ao que, de facto, era o Vasco Gonçalves.

Primo de Amarante disse...

Escreve, hoje, Vital Moreira no “CAUSA NOSSA“ sobre Vasco Gonçalves: “Mal o conheci pessoalmente. Mas as duas ou três vezes que nos encontrámos em 1974 e 1975 revelaram-me um homem sério, empenhado, honesto, culto e idealista. Para ele a revolução ficou amarguradamente inacabada, muito aquém do "verdadeiro socialismo" por que lutava. Mas o principal que o 25 de Abril nos trouxe e nos legou -- a liberdade, a democracia, a modernização, o progresso social -- devêmo-lo também a ele, por menos que ele se reconhecesse em alguns traços dessa herança.
Sucede muitas vezes aos revolucionários não se reconhecerem nos resultados da revolução. Faz parte da natureza das coisas a realidade ficar aquém da utopia revolucionária. Revoluções bem sucedidas são as que ficam a meio caminho dos seus propósitos transformadores...”
Peço desculpa, mas não sei linkar.

josé disse...

Caro Compadre:

Não quis encostar o Vasco GOnçalves ao paredão do comunismo caído.
Quis apenas dar testemunho de que aprecio quem defende ideias de esquerda, mesmo próximas do comunismo ( e para mim, o comunismo é a unica via da esquerda, coerente e aceitável, porque supõe o colectivismo e uma organização social e política em nome de uma suposta classe de trabalhadores em detrimento de outras supostas classes burguesas).
A esquerda actual, não comunista, tem o nome de social democracia e confunde-se com a direita democrática e social.

Assim, o Vasco Gonçalves não sendo comunista inscrito, era um compagnon de route perfeito. Por essa razão, a única força política que o incensa como grande herói de Abril, é efectivamente o PCP.
Lembra-me muito bem do percurso hostórico do Vasco GOnçalves e do que ele próprio dizia a propósito da sua evolução política: chegou a dizer que no início era social democrata, e que admirava as democracias do norte- a sueca, por exemplo. Depois, foi evoluindo e chegou a CUba.
O caro COmpadre sabe bem que mesmo não sendo comunista, o Vasco GOnçalves defenderia o PCP no caso e na eventualidade de o mesmo assumir o poder em 1975.
Tal não sucedeu- a meu ver bem!- e Vasco GOnçalves durante anos a fio, depois disso, foi lembrado por quen?!
Pelo PCP , sempre!
Não foi pela xstrema esquerda da UDP ou o PSR ou do PRP. FOi sempre pelo PCP.
Para mim, é o suficiente para dizer que o Vasco Gonçalves, não sendo comunista, andava lá muito perto e em caso de...sê-lo-ia no momento oportuno e sem grande esforço.

josé disse...

A alucinação de que falo, não é um mero termo retórico.

Na altura, em 1975, lembro-me bem da alocução que o mesmo fez ao país enquanto primeiro ministro do V governo provisório.

Na tv, numa célebre noite, o homem ( paz à sua alma, masi uma vez), parecia desvairado e- isso mesmo! - alucinado.
Nessa célebre noite, apodou efectivamente todos os jornais que contestavam a deriva da democracia representativa para a democracia a la PCP, com unicidades sindicais e outras particularidades, de "pasquins" e nem me lembro se não chegou a proferir a palavra "fascistas".

Agora me lembro que foi num comício em Almada.
Assustou-me!

Primo de Amarante disse...

Neste momento, o silêncio é para mim mais forte que qualquer polémica.

M.C.R. disse...

A revolução devora os seus filhos...
Isto, julgo, foi dito a propósito da revolução francesa mas aplica-se bem A V. Gonçalves.
Não sei se foi membro inscrito no PCP nem isso me interessa agora.
Foi, sem dúvida, uma absoluto "compagnon de route", com todos os defeitos que isso implica: intransigência, incapacidade política de fazer a "analise concreta da situação concreta" (cfr . V.I. Lenin), incapacidade para perceber a cada momento a verdadeira relação de forças.
Porventura o seu fundo católico terá influido nisto: poderá ter querido mostrar ao pc e aliados que ele era tão revolucionário ou mais do que eles.
Quando o momento chegou, o pc, desligou-se suavemente dele e VG foi directo para o sótão dos objectos inuteis.
Já nem iconográfico era. O Otelo teve mais sorte...
E os dois mais sérios e exclarecidos capitães de Abril tem uma lousa de silêncio sobre eles: refiro-me, evidentemente, a Salgueiro Maia e Melo Antunes.
De todo o modo, e sem pretender conciliar o inconcilíavel: VG e os restantes fazem já parte de uma História, a nossa. Terão tentado patrioticamente melhorar o país, e que eu saiba morreram pobres: em Roma isto merecia um epitáfio nas escadas do Capitólio.
Tenhamos também essa generosidade.
Mas só essa!

Primo de Amarante disse...

Só me faz quebrar o silêncio, aquele silêncio de respeito por quem se gosta, a seguinte constatação e perplexidade: muitos daqueles que eram mais gonçalvistas do que o próprio Vasco Gonçalves passaram a ser os seus maiores críticos, logo que Vasco Gonçalves deixou o poder. E com argumentos muito persuasivos, mas por que será que antes lhes faltou esse "científico" discernimento?!...

H. Magalhaes disse...

Recordo-me muito bem dos tempos do chamado Verão Quente, Verão em que PS, PSD, CDS, MRPP,ELP, MDLP, IGREJA CATÓLICA, ex-PIDES, CARLUCCI, NATO, ETC, ETC, pegaram fogo a tudo que eram sedes do PCP e MDP/CDE no centro e norte do País. Alguma comunicação social ateava os fogos, entre as quais os jornais totalmente controlados por jornalistas/proprietários afectos ao PS de Mário Soares. As bombas explodiam todos os dias em centros de trabalho do PCP, as agressões a militantes de esquerda eram sistemáticas. Vasco Gonçalves, ALUCINADO ou LOUCO, como a direita lhe chama(va)? Não, caros senhoras da direita, LUCIDO, LEAL, HONESTO e CONVICTO, ao contrário da maioria dos Mários Soares desta praça! Sem sombra de dúvidas, um dos maiores nomes Portugueses do Século XX.
Não sendo militante de qualquer formação partidária, apenas digo que admirei esse Homem simples e cujo exemplo me merece o mais profundo respeito, a mais elevada consideração. Até pela Sua capacidade de enfrentar as ideias adversas, sempre de rosto erguido, limpo, de mãos vazias das prebendas dos patrões e demais corruptos!
Já agora, caros senhores cheios de falta de conhecimento e até de cultura: se lerem o livro "VASCO GONÇALVES - Um General na Revolução", entrevista realizada por Maria Manuela Cruzeiro e publicado pela Editorial Notícias, talvez passem a poder dizer alguma coisa com conhecimento de causa e não apenas lugares comuns de quem apenas sabe verter fel e manter os privilégios na posse dos mesmos do costume, as sacrossantas famílias donas deste nosso destino supostamente colectivo, os Espíritos Santos, etc, etc, isto é, a burguesia

josé disse...

Ah! Caro H.Magalhães! Como tudo seria mais simples se o mundo fosse a preto e branco, onde de um lado estivessem os bravos trabalhadores que de seu têm a força do trabalho, iconografada como se pode ver nos cartazes revolucionários do PCTP/MRPP e do outro lado da barricada, os desprezíveis burgueses que dominam o capital e os meios de produção e exploram o povo trabalhador, sugando-lhes as entranhas através das mais valias acumuladas!

Onde e em que país deste mundo e desta terra, o povo trabalhador teve direito a essa luz que alumia e a esse destino de redenção?!
~
Em nenhum lado, caro A.Magalhães! Em lado nenhum! NUnca, em lado algum!
As elites e os comités centrais e os escolhidos por voto de braço no ar e os cultos de personalidade encarregaram-se sempre de sapar essas pretensões, sempre sempre em nome e no interesse do povo!

As utopias são de sempre e seja bem aventurado quem continua a acreditar nelas, embora para efeitos meramente intelectuais.

Há umas semanas atrás no palácio da Piazza do Risorgimento, pude ver quase sozinho, pois não havia visitantes, uma esposição de quadros originais e de fotos de época, sobre a tecnologia e a força operária russa, prè e imediatamante após a Revolução de 1917.
O célebre realismo que afastou veleidades artísticas de outras correntes mostrava esse mundo, a preto e branco e também a cores, de tinta, neste caso.
Mas isso, foi em 1917! E gostei de ver esses quadros e fotos, retratos de uma época!

É sempre interessante ler alguém que nunca esqueceu nada. Seria interessante saber se algo aprendeu, mas com certeza que sim. E é por isso que leio o que escrevem, mesmo se me insultam, chamando-me inculto e burro.
Mas por aí, faço orelhas moucas...
E sobre cultura e conhecimento, cada um toma a que quer e segue por onde quer.

josé disse...

"exposição",claro.

Anto disse...

Concordo com MCR. Mas acrescentaria mais alguma coisa àquele, pelos vistos único, reconhecimento (ou àquela "generosidade"): é que com V.G. morre também um pouco dos meus juvenis(?) ideiais, acomodados a uma democracia formal em que a maioria de nós(pelos vistos) se revê.
Como sou agnóstico, penso que a História e a minha lembrança do V.G. farão a homenagem adequada à sua memória

Primo de Amarante disse...

Se os pressupostos da nossa perspectiva forem apenas processos de intenções, todo o debate é frustrante, desgasta e só serve para nos magoarmos. É que nunca se chega a nenhuma conclusão e facilmene se cai na agressão verbal. O subjectivismo é sempre reducionista e só uma discussão que avalie pressupostos pode ser objectiva.Pessoalmente, recuso um debate onde não se pode esperar qualquer entendimento.O que disse Vital Moreira sobre Vasco Gonçalves faz parte do que me leva a respeitar esse Homem que contribuiu (naturalmente, também com erros) para que o 25 de Abrl fosse,como pintou Vieira da Silva, uma poesia na rua; isto é, a celebração da festa de sentir como nossa a rua que nos haviam confiscado, ganhando consciência de que a rua, este País, este Mundo, é de nós todos e não apenas de alguns. É este lado, o lado das virtudes morais e civicas de um HOMEM generoso e bom (no meu entender)que procurei homenagear com um modestissimo post. Não me interessa, nesta hora, discutir Vasco Gonçalves em tese. Nesta hora, o respeito que sinto por ele não se harmoniza com esse tipo de debate. Nunca esperei que de roldão fosse atirado para comentar o meu post a revolução russa, o mrpp, o pc, os desprezíveis burgueses que dominam o capital e os meios de produção e exploram o povo etc., etc. Nem percebo que tudo possa ser metido no mesmo saco. Apenas procurei manifestar uma modesta homenagem a Vasco Gonçalves e achei que o deveria fazer em consciência e nunca quis despoletar polémicas. Admiro Vasco Gonçalves e sinto que continua a ser injustiçado, sendo-lhe atribuido intenções que nunca foram as suas. Prefiro que fique comigo este sentimento e não entro em polémicas.Não me parece a altura ajustada.

H. Magalhaes disse...

Caro José%eacute:
O "realismo socialista" não nasce em 1917! Lembro-lhe o construtivismo, as experiências de vanguarda no cinema, na música, na dança, na arquitectura, tudo nos anos imediatos à revolução de Outubro, etc, etc. Só alguns anos depois é que se instaura essa prática idiota, ideologicamente não marxista, cujos resultados em todas as áreas levou ao que os Srs adoraram-a extinção da URSS!
E já agora,regressando a Vasco Gonçalves, se não fosse a nacionalização das várias empresas ligadas ao sector da produção de energia eléctrica-a HICA, a UEP, etc, com a criação da EDP, seguramente que não haveriam tantas aldeias com a dita energia ainda nos dias de hoje. Como também se não houvesse a nacionalização da Viação António de Magalhães, etc, etc, e criação da Rodoviária Nacional, muitas aldeias continuariam a não ser servidas por transportes públicos. Aliás, mal esta RN acabou, foram dezenas as carreiras canceladas porque "não eram rentáveis", e assim se regressou ao antigamente.
Não meu caro, nunca vi o mundo a duas cores, vejo é a existência de milhões de pobres, de pessoas que passaram e continuam a passar toda a sua vida a trabalhar duramente e a permanecerem na mais absoluta dsa misérias para que alguns continuem a viver na mais despudorada das opulências. E se ver isto é ver o mundo a preto e branco, então é porque o mundo só existe a preto e branco. Se não vê esta realidade factual, das duas uma: ou é cego ou só quer ver do mundo o que lhe agrada, isto é, a opulência de alguns, esquecendo porque dá jeito, a miséria à custa de quem essa opulência é construida.
Quanto aos mundos novos, as experiências falham, renascem, aprendendo com os erros passados, voltam a falhar, e continuarão a renascer. Entre a revolta de Spartacus e o fim da escravatura tal como foi definida e existiu até ao século XIX, quanto séculos se passaram, quantas outras revoltas existiram, quantas derrotas, quantos renasceres, quantos traidores? Não há aqui uma visão maniqueísta da vida, há uma realidade mesquinha, podre, que levará à extinção da espécie humana ou à sua transformação em qualquer coisa desconhecida (talvez que o Boris Vian no seu "Morte aos Feios" previsse já esse destino!). Há seguramente um desejo de que a nossa espécie se redima, que se abrace e abrace a natureza e, tal como dizia Oscar Niemeyer, abrace igualmente os outros animais, nossos irmãos neste planeta. Utopia? Quantos objectos hoje existentes, quantos remédios, quanta coisa não terá sido dita de utópica, impossível, coisa de loucos, etc, etc? Quantas? Porém, hoje existem apesar de muito boa gente ter dito que jamais existiriam, que não passava de uma utopia.
Tudo o que existe à face da Terra ou é criação natural ou intervenção humana. Nesta, muita coisa é indigna, muita coisa é nobre! Tal como qualquer um de nós, feitos "metade Deus metade Demónio", isto é, seres contraditórios por essência, capazes do melhor e do pior, navegando entre essas duas margens a que só a Ideia dá sentido diverso e superior! Esta a minha convicção, a minha prática no dia-a-dia. Da qual não retiro prebendas nem vantagem, tão somente a satisfação de cumprir com o caminho livremente escolhido, o de estar ao lado dos humilhados e explorados em luta pela dignidade!

M.C.R. disse...

Calma aí, malta!
Não deitem fora a criança com a a água do banho!
É verdade que a história é feita de mil e uma cores, e não a preto e branco. Porventura para Vasco Gonçalves fosse a preto e branco e mais duas ou três pinceladas. Mas caro Magalhães, lembre-se que a pré "guerra civil"foi ateada por todos. Repito: por todos. A "reacção" foi ameaçada das mais terriveis coisas. Eu mesmo tive de ir falar com amigos revolucionários militares que detinham, sem advogado, sem visitas da família e sob ameaças delirantes uns desgraçados que eram reaças mas não eram bombistas!!! O Mário Soares foi ameaçado de mil javardices por muito pcp estilo Zita Seabra e por muito mrpp estilo Durão Barroso e por aí fora.
Vamos lá a ver se, como adultos e democratas, assumimos de uma vez por todas, o nosso papel na História, na história com H grande em que, por um milagroso momento fomos actores.
Meu Deus (ainda por cima sou totalmente agnóstico...): as burrices que disse, as que fiz, os erros de julgamento...Mas fi-lo honradamente pensando que era para o bem geral, há que dizê-lo. E estou mais pobre...(o que se calhar prova que continuo burro...)
Sobre a bondade das nacionalizações, Magalhães amigo, estamos conversados. Não podemos hoje falar do nariz de Cleopatra. Sei lá se a EDP fez mais do que fariam as hidro-eletricas. Quanto à nacionalização da banca e de TUDO o que ela controlava, então nem falo. Até os soviéticos tentaram prevenir o Dr Cunhal que, por sua vez, tentou prevenir o general Vasco Gonçalves, como consta de numerosos textos que por aí ciculam.
Funalmente, sou amigo da Manuela Cruzeiro desde os tempos de Coimbra. Admiro-lhe a paciência e o esforço.Mas o resultado é infelizmente hagiográfico e passa ao lado da história tal e qual a vimos e vivemos.

josé disse...

Caro Compadre: compreendo a sua homenagem e até nem me custa associar-me. A pessoa, em si mesma, é respeitável e como ser humano, estou em crer que Vasco Gonçalves era generoso e sério.

Não é essa a tonalidade da discussão, e a culpa em boa parte foi minha, por causa dos desvios.
Mas mantenhamos essa parte intacta.
E como Vasco Gonçalves também é um símbolo,- de algo não concretizado, mas profundamente querido por muitos e muitos H. Magalhães que também respeito nas suas convicções mas não aceito nas teorias que lhes servem de base, -a discussão instalou-se.
Por mim, ainda bem.

E para acrescentar achas, acho uma piada imensa ao facto de o caro H Magalhães dizer que foi uma estupidez acabar com as inovações artísticas nascentes no dealbar do séc. XX na Rússia e que passaram para a União Soviética, filtradas por um crivo de censura em nome do povo.

Os russos são um povo ilustre e deram nomes ao mundo dignos de registo, nas artes e na literatura.
A música não precisa de elogios; a literatura não está á espera de reconhecimento. A pintura mostra um quadro soberbo.

Mas...tudo isso esmoreceu e se esbateu nos anos de ouro do socialismo en route para o comunismo.
Porquê?! Alguém se incomodou a sério em perceber porquê?!
FOi uma estupides aquilo que fizeram à vanguarda russa?! POis foi, mas segundo a minha teoria, não foi propriamente uma estupidez. FOi a consequência lógica da ideologia!

A inovação e a invenção criativa foram contrárias ao sectarismo e à burocracia que pretendia criar o Homem Novo segundo parâmetros estabelecidos a régua e compasso.

Daí ao fenecer da criatividade, foi um passinho.
Curioso, é pensar que aqui não se aplica com rigor o célebre verso " não há machado que corte a raiz ao pensamento"!! Há! Isso é que há!
Chama-se censura de direito e de facto. Impedir a criação e a divulgação e reprimir a manifestação criadora! Reduzir á expressão mais simples de uma cela prisional, um pintor um músico e um artista,é capar-lhe a capacidade de criação.
Foi o que aconteceu.
Álvaro Cunhal, na prisão tinha lápis e papel para desenhar e escrever.

Quantos artistas na URSS, nos tempos de Estaline e até do seguinte, se podiam gabar do mesmo?!

PS não sei porque aparece esta maçada do josé, mas o meu nome é José. Mesmo.

M.C.R. disse...

Ora até que enfim que se toca num ponto muitíssimo sério: as vanguardas e o seu fim á mão dos burocratas da cultura. Vejamos: a revolução russa eclode num momento de enorme agitação artística e intelectual. A esmagadora maioria dos artistas e intelectuais adere sem reservas á revolução, fiada talvez nas promessas de Bukarine. O velho Gorki, exilado em Capri dá o seu apoio. Maiakovsky, Pasternak, Essessine, Mandelstam, os grandes pintores e cineastas toda a gente foi, alvoraçada, tentar fazer a revolução. No Ocidente aconteceu o mesmo. Cubistas, dadaístas, alguns (poucos) futuristas, a fina flor dos pintores, etc., puseram-se entusiasticamente ao lado da revolução de Outubro (que por acaso foi em novembro...o que tem consequências).
Tudo isto foi LIQUIDADO pelos Jdanovs & Companhia. Na URSS e em todo o lado. Com uma diferença. Na URSS matavam-se os irredentes como se mataram centenas de milhares de militantes comunistas, Atenção caro Magalhães: dos cinco primeiros comités centrais do PC(b) da Rússia, já só havia um sobrevivente em 1939! Chamava-se Yossip Vissaronovitch Djugatchivilli mas passou á história com outro nome. Os artistas iam para o gulag ou suicidavam-se: quem não se lembra de Maiakovsky ou de Essenin? Mandelstam morreu miseravelmente na prisão. Quanto a Babel não se sabe bem como morreu em 41.
Há tempos, logo no início da minha colaboração neste espaço de liberdade e de discussão, publiquei um post sobre a queima de livros levada a cabo pelos nazis. Tenho agora oportunidade de dizer que não foram os únicos e que, com tanto ou maior rigor, o mesmo se fez para lá dos Urais, No Ocidente já se ia nos anos 50 e ainda havia um burocrata do pc franc~es que acusava variados intelectuais do ocidente de DE ESQUERDA de serem hienas lúbricas e de outros mimos. chamava-se Kanapa, Jean Kanapa. E mesmo por cá um senhor chamado Saramago dizia coissas infames no diario de Notícias já em 1975. sobre outros intelectuais, Vamos lá: não os fuzilou. Já é um progresso, Pensando bem pode haver alguém que diga que ele talvez não tenha tido oportunidade...

josé disse...

Ficam aqui algumas imagens de uma exposição de finais de 2004, em ROma.

Não foi esta exposição que vi, mas anda lá perto.
As fotos eram fantásticas.

Aqui

Amélia disse...

Discordando do papel de V.Gonçalves como 1º ministro e, na prática, homem de mão de Cunhal,(aonda bem que não levaram a cabo os seus propósitos -é essa a minha opinião) reconheço a sua honestidade e falta de ambição pesssoal -e coerência.
A ele devem os actuais homens no poder o estarem lá - e nenhum deles teve a decência de estar no seu funeral.Acontece a quem é grande:de mal com os homens por amor de el.rei, mal com el-rei por amor dos homens...como dizia Afonso de Albuquerque(figura não muito simpática, também) no passado.

josé disse...

Por acaso, não vi nenhum dos "grandes" da política actual no funeral do V. Gonçalves. Vi uns inflamados a gritar "fascismo nunca mais" e "o povo unido nunca mais... bla bla", num exorcimso atávico para afugentar a dor da morte e a estranheza dos enterros, se calhar.

Mas pensando melhor, a figura pública que foi V. Gonçalves durante uns largos meses de 74-75 merecia outra consideração.
Foram meses de brasa em que milhões de portugueses se viram envolvidos. Uns, a favor; outros decididamente contra. Poucos indiferentes.

Não sei se teve enterro católico, com missa de corpo presente.
Se teve e se o padre tinha mais de 50 anos de idade, estou certo que na altura do PREC, esse mesmo padre esteve contra o V. Gonçalves. E contudo, oficiou mesmo assim a cerimónia ritual do enterro.

Tudo isto é estranho e redunda numa estranha forma de encarar a vida pública, de figuras públicas.
Mesmo reformado e afastado, Vasco Gonçalves merecia a homenagem política. COmo adversário ou como companheiro de luta.

Mas se calhar sou eu que estou errado, pelos vistos.
Só que me lembro de nos congressos os políticos de partidos adversarios serem convidados para estarem presentes. Será assim tão diferente, este viver em sociedade pretensamente civilizada?!
Estarei errado?!