17 junho 2005

Gaudeamus Igitur 9

O BAPTISMO CÍVICO-POLÍTICO DE
JEAN PIERRE LOBHO
ou
A AFRICANIZAÇÃO VISTA DESDE PESCARA


Em 1972 teve Pescara a honra insigne de hospedar a sessão de Verão da Faculté Internationale pour l'Enseignement du Droit Comparé. O mérito cabe por inteiro ao Professore R. Balzarini, reitor da privada "Libera Universitá degli Studi Gabrielle D'Anunzio", professor da Universidade de Trieste e, dizia-se, antigo membro do governo da república de Saló. Se o era não se dava por isso. "Barzo", para os veteranos daquelas andanças turístico-jurídicas, recebia com requintes de príncipe napolitano a chusma jovem e bem humorada dos comparatistas. Ele era quartinhos individuais em pequeno e simpático hotel, praia privativa (!!!), entrada gratuita na boite mais "in" e, espanto dos espantos, uma "mensa" universitária que apresentava lista variada e chefe de mesa prestabilíssimo e vestido a preceito. O programa extra escolar deu direito a um orgiástico fim de semana nas ilhas Tremiti e a duas estadias na montanha consumidas em copiosos banquetes, passeios para esmoer e concertos de rara qualidade para o toque cultural da praxe. Houve mesmo quem tivesse tido tempo para, no intervalo da praia, do ténis, da boite e do resto, frequentar as aulas e os seminários que tornaram aquele Verão inesquecível para este vosso criado.

A comunidade estudiosa e itinerante dos jus-comparatistas atingia as duas centenas entre alunos e professores e vinha das mais variadas partes do mundo, ainda que com uma enorme supremacia europeia. Do velho continente destacavam-se um poderoso misto hispano-catalão, a tribu galo-belga, a aguerrida hoste germânica e um pancadão de italianos que jogava em casa. No lote dos exemplares únicos avultavam o que estas traça, um luxemburguês de fino trato e um zairense do povo lingala, formado por Bruxelas, conservador até dizer basta e que dava por Jean Pierre Lobho (este Lohbo era mesmo o portuga Lobo ainda que o seu usuário fosse negro negríssimo). Parece que vinha de uma poderosa família de chefes que, nos fins do sec XVIII, chegara à fala com sertanejos lusitanos que lhes terão oferecido na mesma bandeja nome, religião, panos e missangas em troca do direito de comerciar por aqueles cafundós.

Sabedor da presença de um filho do nobre povo nação valente e imortal, logo Lobho se apresentou com protestos de amizade e repulsa q.b. pelos que, na mata angolana, se opunham ao império do Minho a Timor. Se bem recordo a poderosa etnia lingala não morria de amores pelas autoridades congolesas (que já tinham afogado em sangue o Katanga e o Kasai), marechal Mobutu incluído. Julgo que também não iam à bola com o MPLA que deveria parecer demasiado severo para um povo comerciante e contrabandista .

A princípio a postura do JP deixou-me incomodado que, por esses mimosos tempos, ainda acreditava na "progresia" africana tanto mais que tinha sido colega, amigo e companheiro de infortúnios vários de muitos que desafiavam a salazarice dominante. Porém, o diabo do zairense tinha uma real e sentida paixão por África, falava sete ou oito vernáculos e era um portento a explicar as máscaras Dogon ou a história Kikuiyo. Sobretudo, sobretudo não se armava em "classe dirigente" e discorria sobre os patrícios mais humildes sem paternalismo.

Exprobrei-lhe, sob o aplauso de Anne N., belíssima e ardente afro-americana e "leftist" como convinha, a ingenuidade política, recomendei-lhe 3 doses de Franz Fanon (ele há um tempo para tudo até para o pobre Fanon..) e apresentei-o ao sofisticado grupo de veteranos na comparatística de que eu era um dos mais sólidos pilares.

Singrava a sessão de Pescara envolta no dolce farniente próprio da estação calmosa quando, qual tormenta de verão, nos surge, insone e lívido (digamos cinzento antracite) o nosso JP Lobho. Telegrama urgente da pátria longínqua, logo confirmado por todos os jornais, informava o nosso amigo e o mundo em geral, que o tal de Mobutu resolvera africanizar o país, torná-lo, não direi mais - ou sequer - democrático, mas menos neo-colonizado. Dados os manifestos inconvenientes em mexer com os poderosos interesses estrangeiros, de que o presidente recebia farta côngrua por baixo da mesa, tinha Sua Magnitude Que o Pariu decidido acabar com a notória e escandalosa herança colonial que se traduzia no facto de a maioria dos zairenses citadinos usarem nomes europeus e cristãos. Vai daí ordens eram transmitidas, dare-dare, à populaça, para se dotar de nomenclatura indubitavelmente tropical. O marechal lui-même ajuntava a Mobutu os nomes Sese Seko de insofismável proveniência africana.

JP estava inconformado. Sentia-se africano dos quatro costados, era preto retinto e não percebia o alcance político-cultural de (para além do seu nome irrevelável dado nas cerimónias rituais) inventar um novo nome. Levava a desfaçatez ao ponto de perguntar se, subitamente, se reescreveria uma história outra do quintal do rei Leopoldo que em Berlim se traçara para conter os apetites veementes de ingleses, alemães, franceses e portugueses.

JP achava que sendo JP há 25 ou 30 anos tinha direitos históricos e comprovados sobre o Jean-Pierre com que o tinham conduzido à pia baptismal e que ainda o Zaire não era Zaire, nem sequer Congo ex-belga, e já ele escrevia, num cursivo decente, nos seus "cahiers d'écolier" o nome e, quiçá, como no verso de Éluard, a palavra "liberté".

Todavia, a ordem, vindo de quem vinha, era indiscutível. Havia que escolher nome e dar constância do mesmo no consulado zairense mais próximo para obter novo passaporte.

Entendeu a turbamulta jurídica que a ocasião requeria festejo a condizer pelo que jurando todos, embora, que entre os seus pares JP continuaria JP, haveria que encontrar nome capaz para o reafricanizado Lobho. Foram dias de frenética procura, de alianças e traições para fazer vingar um nome que junto ao Lobho (que por fas ou por nefas permaneceria!!!...) mostrasse ao mundo, ou pelo menos a Kinshasa, que os dois apóstolos estavam excelentemente substituídos.

Não me alongarei - até porque os anos passaram e a esclerose avança a todo o vapor dissipando os poucos farrapos de memória que me restam - sobre a enorme quantidade de propostas que deram entrada na mesa presidida por um romeno de nome Mihail Giugaru e secretariada pela catalã Montserrrat Poblet e por um holandês discretíssimo que dava por Cees Berensen.

Também não revelarei o nome actual do JP não vá o doido ter voltado à pátria madrasta deixando inconsoláveis os amigos de Bruxelas. Menciono, por junto e atacado, as três menções honrosas que a douta se bem que ligeiramente alcoolizada assembleia elegeu: Lobho Pincho Moruno y Olé (proposta conjunta do bloco ibérico e de um irredentista chileno); Lobho Lualua Tantan, apresentada pelo bloco belga (valão) e pelo representante do Grão Ducado do Luxemburgo, Édmond Gérard; Lobho é pericoloso spogerse da autoria da dupla JC Brégi (França) e Michael Reynolds (Reino Unido).

Contra esta última proposta houve dois votos: o da Maeve O' Donahue representante da Irlanda e o da comunidade italiana (com a exclusão da Vanna Caravella que o achava "romântico e cosmopolita") que afirmava a pés juntos que no nome havia dois verbos e que aquilo não passava de um anúncio escrito nas janelas dos comboios italianos e que significava apenas é perigoso debruçar-se. Os italianos são gentilíssimos mas têm muito mau perder...


Gaudeamus igitur!

Nota: navegam neste blogue três distintos articulistas originários do Marco de Canavezes. Parece, ou é mesmo evidente, que também por lá, existe um soba que trata os seus munícipes como súbditos. Vai esta crónica para eles como pobre mas claro sinal de solidariedade e voto de esperança num futuro autárquico mais condizente com a democracia. Portanto para os senhores “compadre Esteves”, JCP e Carteiro, com um abraço do escriba e antigo juscomparatista m.c.r., saravah!

4 comentários:

Primo de Amarante disse...

Obrigado, camarada.

jcp (José Carlos Pereira) disse...

Também eu agradeço, caro MCR, o abraço e o voto de esperança.

Silvia Chueire disse...

Gostei de lê-lo, MCR, o que tem acontecido sempre.

Abraços,
Silvia

Coutinho Ribeiro disse...

Obrigado, Caro MCR. E que seja como diz.