15 junho 2005

Portugueses em Espanha

1. Domingo, ao fim da tarde, saí do Porto com destino a Burgos, com uma breve passagem pelo Marco. Pelo caminho, encontrei, para além dos já habituais numerosos camiões TIR, dezenas de carrinhas de passageiros de matrícula portuguesa e outras tantas de matrícula espanhola (de agências de rent-a-car), todas elas carregadas de operários portugueses. Às sextas-feiras, ao fim da tarde, o percurso é feito em sentido contrário. Param em quase todos os cafés que encontram pelo caminho, bebem cerveja a granel (não sei se os condutores também), e percorrem as autovias a grande velocidade, muito para além do que a lei permite. É preciso chegar o mais cedo possível, seja para lá, seja para cá...
Não espanta, por isso, que em recente acidente de viação ocorrido às portas de Burgos, a maioria dos envolvidos fosse portuguesa. Espanha invade-nos com as suas empresas; Portugal invade Espanha com mão-de-obra barata. Sim. Também estou em condições de precisar que os operários portugueses que trabalham em Espanha às ordens de empregadores portugueses ganham lá o mesmo que ganhavam cá, o que os transforma em trabalhadores de segunda perante os seus colegas espanhóis e gente de segunda, como não pude deixar de registar de cada vez que se notava que eu era português.
2. Cheguei ao Tribunal de Burgos à hora previamente combinada com o meu colega espanhol. Veio buscar-me à porta, um pouco atarefado, porque tinha julgamento. Estava irritado porque o julgamento dele já devia ter começado... há vinte minutos. Não pude deixar de sorrir. 20 minutos, compañero? Tens que ir a Portugal ver o que a coisa dói...
Enquanto o julgamento dele não começava, fomos buscar um processo e seguimos para a sala do Ilustre Colegio de Abogados disponível no tribunal para tirar fotocópias. Um esquema simples: cada advogado tem um cartão magnético, que carrega no local, o que lhe permite tirar as fotocópias de que precisa na máquina que ali existe. Ele foi para o julgamento e eu fiquei a tirar fotocópias.
Julgamento rápido, tal como ele tinha prometido. Claro. Era um acidente de viação. E tal como se passava com o processo que eu fotocopiava, o relatório da Guadia Civil tinham tudo o que era preciso para definir a culpa. No meu caso, só fotografias eram mais de 100. Nada - nenhum pormenor - tinha sido deixado ao acaso.
Éramos para ir para o escritório do compañero analisar o processo. Não não valia a pena: ali ao lado, a menos de dois minutos, estavam as instalações do Ilustre Colégio de Abogados. Uma biblioteca cheia. Um espaço agradável. Deve ser bom ser advogado em Espanha.

9 comentários:

JCA disse...

Que inveja...

Carvalho Negro disse...

Há coisas que não devem dizer-se. Quem vai acreditar?

Carvalho Negro disse...

Só os frequentadores...

M.C.R. disse...

Raios partam o D. João IV...

ÓSCAR ALHINHOS disse...

Caro Carteiro:
Eu bem digo e penso que tenho razão:
Isto começou mal logo no início com o D. Afonso Henriques a bater na mãe e a conseguir a independência....
Depois, quando a história se encarregou de repôr a normalidade, em 1580, logo havia de aparecer esse fatídico ano de 1640...
Triste sina a nossa que temos de ter: os Santanas, os Sócrates; os Valentins; os Pintos da Costa; as Fátimas Felgueiras, etc...
Bem sei que nuestros hermanos também têm o Gil e Gil, mas, confesso, eu preferia...

Coutinho Ribeiro disse...

Ah, e eu também preferia. Quando atravesso a zona entre Zamora e Quintanilha e daí até Vila Real, penso: se fosse hoje, nem Espanha, nem Portugal fariam guerra por aquele pedaço de terreno. Estou a ver Zapatero e Sócrates a dizer, ouve lá, meu, fica tu com isto, Não, nem pensar, diz Sócrates, este terreno tem mais a ver com a planura do lado de lá.
Isto na questão do terreno, que não é a mais importante.
No que é mais importante, faz-me sofrer. ~Há 30 anos atrás, Espanha era um país miserável. Hoje somos nós os miseráveis da conversa

Mocho Atento disse...

Carteiro,

Sempre fomos mais miseráveis do que a Espanha, mesmo há 30 anos!

Não iludamos as questões. Portugal nunca teve Glória. E quando teve a possibilidade de a ter (Descobrimentos, Ouro do Brasil, Europa), jogou-a fora e desperdiçou-a.

Mas, por outro lado, não há país agradável como este (apesar de tudo). E por isso estamos a ser "invadidos" por gente de toda a Europa, que vem para cá viver. E não é apenas por causa do sol e do bom tempo, mas também pela simplicidade e hospitalidade das pessoas. Não conheço nenhum outro país europeu em que as pessoas discutam no autocarro e conversem com quem vai ao seu lado, sem terem sido apresentados.

As elites deste país estão totalmente divorciadas da realidade do nosso povo. Os pseudo-intelectuais deste canto da Europa andam muito entretidos em resolver os problemas que não existem (ou que só existem na cabeça deles). Porque os problemas reais e concretos da nossa sociedade constituem miudezas que só podem incomodar os pobres seres inferiores.

E basta analisar as Corporações que têm a respojsabilidade de pensar e aplicar o Direito. O espectáculo é muito triste e pobre!

M.C.R. disse...

Caro Mocho Atento: coneço mais um laego par de países onde as pessoas são expontaneas e falam com toda a gente. Até na alemanha isso me aconteceu. Era só encontrar um idoso e pedir uma informação.
O país é agradável mas também não caiamos nos dizeres do "brigadeiro Chagas" sicut Eça: "Portugal é pequeno mas é um torrãozinho de açúcar."
Os estrangeiros que aqui se estabelecem são ( e muito...) atraídos pelos baixos preços e pelo clima quente. O mesmo poderão dizer Marrocos ou o Brasil invadidod por milhares e milhares de estrangeiros.
quanto aos intelectuais convirá distinguir: nem todos serão nefelibatas, que diabo!! E quanto ao povo: nada pior que endeusar o povo ou a sua pretensa simplicidade. foi com a boca cheia de povo (e com muito povo a vociferar) que se ergueram os grandes despotismos do século XX.

Mocho Atento disse...

Caro MCR

Eu não endeuso o povo, nem sequer tenho tendências basistas.

Considero é que a política e toda a actividade social deve resolver os problemas das pessoas.