30 novembro 2005

Homenagem a Fernando Pessoa

ACIMA DA VERDADE estão os deuses.
A nossa ciência é uma falhada cópia
Da certeza com que eles
Sabem que há o Universo.

Tudo é tudo, e mais alto estão os deuses,
Não pertence à ciência conhecê-los,
Mas adorar devemos
Seus vultos como às flores,

Porque visíveis à nossa alta vista,
São tão reais como reais as flores
E no seu calmo Olimpo
São outra Natureza.

Ricardo Reis


------------
AQUELA SENHORA tem um piano
Que é agradável mas não é o correr dos rios
Nem o murmúrio que as árvores fazem…

Para que é preciso ter um Piano?
O melhor é ter ouvidos
E amar a Natureza

Alberto Caeiro
----------------

TODAS AS CARTAS de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que sãoRidículas

Álvaro de Campos

13 comentários:

Cabral-Mendes disse...

Compadre, o Fernando Pessoa, depois de muito navegar em águas esotéricas, "descobriu" a Verdade...

Mas nem de propósito a escolha, também, do seu primeiro poema, acerca da verdade...ele há coisas...

Um Abraço.


Eis o poema


Salvé, Nobre Padroeira

Ó glória da nossa terra
Que tens salvado mil vezes,
Enquanto houver portugueses
Tu serás o seu Amor

Ave maria
Ave Maria, tão pura
Virgem nunca maculada
Ouvide a prece tirada
No meu peito de margura.

Vós que sois cheia de graça
Escutai minha oração,
Conduzi-me pela mão
Por esta vida que passa.

Oh! Senhor, que é vosso filho
Que seja sempre connosco,
Assim como é convosco
Eternamente seu brilho

Bendita sois vós, Maria,
Entre as mulheres da Terra,
E voss'alma só encerra
Doce imagem d'alegria.

Mais radiante do que a luz
E bendito, oh Santa Mãe!
É o fruto que provém
Do vosso ventre, Jesus!



Ditosa Santa Maria,
Vós que sois a Mãe de Deus
E que morais lá nos céus
Orai por nós cada dia.

Rogai por nós, pecadores,
Ao vosso filho, Jesus,
Que por nós morreu na cruz
E que sofreu tantas dores.

Rogai, agora, oh Mãe querida!
E (quando quiser a sorte)
Na hora da nossa morte
Quando nos fugir a vida.

Fernando Pessoa

Primo de Amarante disse...

Caro amigo compadre:
Como sabe, Fernando Pessoa parece ter sido Rosa Cruz e, naturalmente, teísta. Tal como diz Ricardo Reis, a ciência não responde à questão da existência de Deus. Ela diz respeito ao sentido do mundo e este, como diria Wittgenstein, está fora do mundo. No entanto, tem uma relação bipolar com o homem: transcende-o, mas só na imanência, na interioridade, pode ser conhecido.
No programa de Filosofia do 10º ano esta questão é levantada. Foi das rubricas do programa que mais gostei de trabalhar num manual que fiz. Mas isso não fez com que deixasse de ser agnóstico: ordem da razão não é a mesma que a ordem da fé. Nem, penso eu, que a fé é um melhor saber ou simplesmente um saber. As questões da fé colocam-se perante o absurdo, o sem sentido, que funciona como um “murro” na inteligência. Por exemplo, com a inexplicação de um suicídio de alguém muito próxima de nós que nos parecia ser feliz. Aí parece haver necessidade de uma categoria explicativa que nos transcende. E é uma situação deste género que fica no limite entre a crença e o agnosticismo. Mas falta sempre um empurrão e este não pode resultar de conveniências pessoais, do desejo fácil de superar uma situação. O respeito por nós mesmos exige que saibamos fazer o “reconhecimento interior” da autenticidade da crença. E porque isso não acontece, fica a dúvida no agnóstico.

Silvia Chueire disse...

Não há uma só vez que ao ler poemas de Pessoa eu não fique encantada.

Abraços,
Silvia

M.C.R. disse...

Meu caro Delfim
Cuidado que o Pessoa escreveu tanto que dá para tudo.
De todo o modo é um poeta imenso, aquilo é um mar
Durante anos tomei café nos "irmãos unidos", ao lado da Suiça, sob o quadro do almada: o café era fracote mas Pessoa em pessoa tinha estado ali.

Cabral-Mendes disse...

A atracção pelo mistério encaminhou Fernando Pessoa para o campo do oculto, na busca de uma verdade e de um conhecimento espiritual que transcendesse o campo do imediatamente visível.

Estes campos são percorridos através da assimilação de princípios e orientações templárias e rosa-crucianas, como bem diz o meu caro MCR.

Foi levado a uma crise profunda em virtude da tradução de obras de teosofia, esta uma teoria que pretendia fazer a síntese da filosofia religião e ciência.

Enfim, parece incontestado que pertenceu à Maçonaria.

O ocultismo, a alquimia, tudo isso foram temas que o atormentaram.

Contudo, creio que para o fim da vida, voltou-se, de certo modo, para Deus.

Primo de Amarante disse...

Não esquecer que há muitas maçonarias ( GOL a R., os D.H., etc). D. António Barroso, Bispo do Porto(tem uma estátua em Barcelos), que foi recentemente beatificado, foi da maçonaria, como está hoje demonstrado. Só a carbonária é que foi anticlerical e de juramento ateista.

Primo de Amarante disse...

E, ainda, o 1º Congresso sobre a maçonaria foi feito na Universidade Católica do Porto. Nele, para além do GM do GOL, estiveram muitos especialistas, nomeadamente da Universidade de Comilhas- quase todos jesuitas. As conclusões, penso que estão disponíveis no Centro do Porto da U.C.

Cabral-Mendes disse...

Meu Caro Compadre, apenas me aflige que os indivíduos que subscrevem coisas como o “Diário Ateísta” e que são membros da “República e Laicidade” são também membros (pelo menos alguns que se saiba) da Maçonaria ( qual o ramo não sei) e que escrevem coisas de por os cabelos em pé! Veja por si próprio:

http://www.geocities.com/republaicidade/

http://www.ateismo.net/diario/2005/11/histrias-do-cristianismo.php


http://www.ateismo.net/diario/2005/11/dirio-atesta-2-aniversrio.php

E ainda há uma página que eu neste momento não encontro, acerca da peregrinação que teve lugar em Lisboa, a qual tece horrores inenarráveis acerca da mesma.

Quanto a tolerância, estamos conversados com estes senhores...

Até existem muitos militantes do PS que se consideram ultrajados com esta promiscuidade (e intolerância) por parte do sector mais radical do PS, ou seja, daqueles que ainda anseiam por Afonsos Costas...

Um Abraço e Bom Fim de Semana!

Primo de Amarante disse...

Em todas as instituições há gente que fala do que não sabe. Bom, mas eu não tenho nenhuma procuração para defender a maçonaria. A minha preocupação é apenas a de tentar informar do que julgo saber e mais nada. Aliás, fui a uma sessão do Congresso que referi e conheci um Jesuita, prof. catedr. de Comilhas que teceu os maiores elogios á maçonaria na peninsula ibérica, particularmente na defesa da liberdade.

M.C.R. disse...

Eu confesso que a maçonaria me desperta uma forte gargalhada e não poucas perguntas.
A gargalhada é pelo facto de uma série de pessoas adultas e provavelmente respeitáveis andarem em certos dias vestidas com aquelas coisas ridículas mormente os aventais...
as perguntas são outras:
Acreditam mesmo naquilo?
Acham aquilo consonante com o tempo que vivemos?
Estarão de facto convencidas da existência do grande obreiro e outras que tal?
Acreditam e vivem sem surpresa os ritos, as iniciações e toda a restante parafernália?
Levam-se mesmo a sério?
Digo isto com toda a seriedade o mesmo aliás diria de outras sociedades, secretas, religiosas, políticas cuja "simbólica" me parece envelhecida sem sequer aspirar a ser tradicional.
note-se que também me parecem surpreendentes esses revivalismos templários ou essa malta que se intitula cavaleira de malta etc.
dito isto preocupa-me ( e o caso P2, na itália foi sintomático) que através dessas "fratrias" se exerçam influências políticas, se atribuam cargos, se protejam negócios ou se liquidem adversários.
com a idade que tenho já pouco tenho a perder mas ás vezes fico arrepiado com as histórias que oiço.
Última nota: isto também vale para a Opus...

Primo de Amarante disse...

Já disse que não tenho procuração para defender a maçonaria, mas não deixo de pensar sobre o papel que essa instituição desempenhou na história da revolução liberal e socialista democrática em toda a Europa. Tenho os 4 volumes da obra do general Silva Dias sobre "Os primórdios da maçonaria em Portugal". É uma obra (apoiada pelo Instituto nacional de Investigação Científica) imprescindível ao conhecimento da luta pelo liberalismo e pelo próprio socialismo.

Quanto à indumentária, ela é tão ridícula como a que é usada em outras instituições. Só depende do ponto de vista e do momento histórico de quem analisa. Tem a sua carga simbólica, como o fato e a gravata nas cerimónias. Não me parece que isso seja relevante para analisar uma instituição.

Também não me parece que se possa generalizar o caso P2. Todas as instituições têm as suas “nódoas”, tal como as pessoas, mas não é por isso que se definem ou se pode avaliar toda a sua vida.

Primo de Amarante disse...

E convém não deitar tudo no caixote do lixo da história. Estamos a ficar tão velhinho e pode aparecer quem leve isso a sério.
Não esquecer que para muita gente, amigo M.C.R., já somos uns cotas!

M.C.R. disse...

Meu caro compadre
A idade é a idade, é a idade é definitivamente a idade. Não é vício nem virtude. O grave seria cair na senilidade ou no infantilismo.
Os trajes da maçonaria são o que são. ridiculos. Não são fardas, são algo que se põe e que a grande maioria dos maçons não saberia sequer interpretar...
A maçonaria desempenhou como a igreja, ou como a tropa umcerto papel na NOSSA revolução liberal, e isso porque a corte preferiu ficar pelos brasis demasiado tempo.
quanto ao socialismo -pelo que sei - e lá vou lendo tudo o que me cai na mão - não lhe vejo papel de qualquer relevo. A maçoaria foi republica não foi socialista (na acepção que o socialismo tinha no fim do séc XIX. E como sabe nunca foi bem vista durante a 1º internacional (a socialista) e muito menos nos países ditos "socialistas". Que agora seja transversal ao espectro partidário (ignoro se há maçons comunistas) é apenas mero efeito do centrão. De que ela é suporte e beneficiária! Um abraço deste cota