25 dezembro 2005

Dia de Natal

A festa de Natal é uma das mais belas e fraternais celebrações da humanidade. Tem origem na distante Idade Média, por volta do séc. III, por contraposição à festa pagã do solstício de Inverno, a festa do deus Mitra. Esta divindade, de origem persa, era muito popular. Considerava-se que se tinha aliado ao sol para obter o calor e a luz que faziam com que as raízes das plantas rompessem a terra e florissem. E foi um pouco o que aconteceu connosco, quando Deus se tornou homem para iluminar os caminhos da humanidade. Terá sido isso que concluiu o Papa Júlio I, ao fixar o 25 de Dezembro como dia do nascimento de Jesus. É óbvio que o 25 de Dezembro não assinala cronologicamente o nascimento do Menino Deus, mas a data que melhor configura o significado de Jesus ter nascido para tornar o mundo mais fraterno e justo. Conta a Bíblia que um anjo anunciou a Maria que daria à luz Jesus, o filho de Deus, que viria ao mundo para salvar os homens. O sentido da vinda do Messias passou, assim, a modelar e a dar significado à festa do Natal.

E, sendo assim, tal como a terra tem de proporcionar boas condições para permitir que a semente floresça, a Mãe de Jesus teria de garantir as condições necessárias ao crescimento do seu menino, por forma a que Ele fosse, como refere a Bíblia, exemplo, caminho e vida de um mundo mais justo e mais humano. Entretanto, «Ele – como dizia Leonardo Coimbra na sua obra “Jesus” – sabe esperar, fazer-se oculto, pequeno, humilde, companheiro e amigo, para dar ás almas o exemplo da sua vida, o calor das suas certezas, o infinito afago do seu coração transbordante».

O Natal ganhou, assim, um significado de incomensurável riqueza. Associa-se à ideia de luz que dá esperança ao futuro, de mãe que sabe proteger os seus filhos e de humildade que nos torna verdadeiros e justos. E Natal é tudo isto, quando significa romagem à Terra que nos viu nascer, crescer e fazer amigos; quando nos abre aos valores da família, da solidariedade e da justiça; e quando nos faz magnânimos perante adversários e desprotegidos.

Numa época marcada pela hipocrisia, pela arrogância e pelo oportunismo pragmatista, convém relembrar o significado do Natal para encontrar o rumo que dê esperança ao nosso futuro colectivo.

JBM. in: JN. 25/12/2005

Obs: Desejo a todos os incursionistas um Feliz Natal e um Ano Novo que corresponde às melhores expectativas.

4 comentários:

Cabral-Mendes disse...

Caro Compadre, li o seu artigo sobre o Natal no nosso “Incursões” e no “JN”deste Domingo. Uma delícia…um texto repassado de Verdade e de…Fé! Não diga que não…
Parece-me que César das Neves tem muita razão: os agnósticos têm muita fé!...

Para além disso, o Compadre explica muito bem o contexto histórico do Natal. Na verdade, as origens de muitas tradições que caracterizam as celebrações modernas do Natal perdem-se no tempo. Vejam-se as festas romanas e a influência dos romanos através das celebrações em honra do deus Saturno, o que constituía um ponto alto do ano.
Mas, mais importante, é a sua chamada de atenção para o verdadeiro significado do Natal!

Esta passagem é de um valor inestimável (gostaria de ter escrito isto…):

“O Natal ganhou, assim, um significado de incomensurável riqueza. Associa-se à ideia de luz que dá esperança ao futuro, de mãe que sabe proteger os seus filhos e de humildade que nos torna verdadeiros e justos. E Natal é tudo isto, quando significa romagem à Terra que nos viu nascer, crescer e fazer amigos; quando nos abre aos valores da família, da solidariedade e da justiça; e quando nos faz magnânimos perante adversários e desprotegidos.”

Lindo!!!!!!!!!

Deus se fez homem! No Natal, a liturgia chama-nos a meditar sobre o mistério da Encarnação. Um mistério insondável onde o Eterno entra no Tempo, o Infinito no finito e o Intangível no corpo de um Menino…

Faltam 4 minutos para a meia-noite. Tenho pena do Natal estar a acabar…Mas, que digo eu? O Natal é todos os dias! (ou deveria sê-lo…)

Um grande abraço, JBM!
dlmendes


(Vou partir para Castela...regressarei ao burgo para o final do Ano...)

ovo de colombo disse...

As festas do Solesticio de Inverno tinham lugar independentemente da divindade ser Mithra ou não. Uma coisa só esporadicamente está relacionada com a outra.
Mithra tem a particularidade de ter nascido a 25 de Dezembro numa gruta e de uma virgem. Esta foi uma das componentes que Constantino utilizou para criar uma religião que fosse universal - à escala do imperio - e que era absolutamente essencial à sobrevivencia do império.
O mithrianismo era uma religião de mistérios que estava fortemente implantada entre as elites romanas e o exercito...

Primo de Amarante disse...

É verdade. Eu sabia, porque estudei isso num seminário sobre antigas religiões e é interessante os denominadores comuns e interferências que há entre elas na resposta às expectativas naturais do Homem. O que põem um problema: será que o Homem busca naturalmente respostas para os seus problemas num ser que o ultrapassa?
Por vezes, nos limites da capacidade de sofrimento por que passamos, sinto que isso é evidente.
Obrigado pelas sus achegas.

O Compadre Delfim exagera a meu respeito -- mas isso é próprio das pessoas de bom coração. A virtude está nos seus olhos e não em mim.

A continuação de um bom Natal e de bom Ano.

Anto disse...

Historicamente correcto. E uma pitada de esperança e de solidariedade não faz mal a ninguém.Mesmo a um agnóstico como eu.Um abraço natalício.