26 dezembro 2005

estes dias que passam 11

O Tannenbaum, o Tannenbaum
Wie treu sind deine Blätter


Este ano o Natal anunciou-se carregado cá para as nossas bandas: quinze dias antes o meu sogro sofreu uma convulsão e partiu o colo do úmero. Eventualmente invejosa de tal sorte a minha sogra partiu o pé, uns dias depois.
A minha mãe ao saber destas aventuras, não quis ficar atrás e partiu o pulso esquerdo.
Eu sei que alguns dos meus leitores me reprovam uma certa capacidade para fantasiar. E têm alguma razão porque eu adoro histórias, gosto de as contar quase tanto como de as ouvir. Todavia estes eventos são verdadeiros como punhos. Eu mesmo parti o que restava de um dente reconstruído e à pala disso fiquei com uma placa esquelética solta: desembolsei cerca de 300 euros (chorei-os bem chorados!...) mas recompus-me a tempo para o bacalhau natalício e restantes desvarios gastronómicos. Os nossos doentinhos também lá vão indo com mais queixa menos queixa e o Natal passou-se sem outras catástrofes.
Contadas as tristezas, vamos aos milagres natalícios. Quem por penitência, masoquismo, ou até eventualmente por gosto me lê, recordará uns textos que aqui publiquei sob o título genérico de “Gaudeamus Igitur”. Em alguns deles mencionava o meu caríssimo amigo Jean François Bregi (melhor dizendo Maître J.F. Bregi, estrela do foro gaulês e cavalheiro de muitos méritos e muito espírito). Perdera-o eu de vista há mais de trinta anos, depois de termos feito juntos vários ciclos de Direito Comparado por várias faculdades desta vasta Europa.
Então não é que, regressado ao Porto e abrindo o correio electrónico dou como uma mensagem daquele mafarrico dando notícias, pedindo novas deste desamparado lusitano e corrigindo mesmo um pequeno pormenor de uma historieta por mim contada!!! Aqui à puridade, digo-vos: chorei de alegria e comoção. E mesmo agora, duas horas passadas, ainda me sobra una furtiva lacrima teimosa a escorrer-me pela bochecha.
Como se fora pouco, durante a minha estadia lisboeta (eu a minha mais que tudo temos praticamente toda a família por lá) apanhei a jeito o meu tio Quim, companheiro insubstituível das peregrinações por alfarrabistas (que ele conhece de gingeira...) e, ala que se faz tarde, rumámos à Livraria Histórico Ultramarina, ali na Travessa da Queimada, onde eu ia tentar encontrar uma publicação que me tinha encantado quando teria os meus oito ou nove anos de idade: trata-se de uma série de textos editados pelo antigo SNI entre 1936 e 1943. São ao todo 43 brochuras de escassas 16 páginas cada, relatando episódios da história portuguesa. A bem dizer o seu valor científico é nulo mas, aqui donde vos escrevo esta, avisto 21 metros de estante carregados de livros de História, fruto do gosto que na minha meninice tais publicações me suscitaram. Numa das várias transumâncias que a minha família fez perdera-se este conjunto e nunca mais encontrara rastos dele. Há semanas, também em Lisboa, um alfarrabista disse-me que por vezes, de longe em muito longe, se encontrava um que outro exemplar. Entrei pois na Histórico Ultramarina sem grandes ilusões. A conversa com a proprietária daquele monumento à cultura (são salas e salas cheias de livros preciosos) também não pareceu ter grande resultado mas, quando, de monco caído, me preparava para sair ela perguntou-me se eram publicações independentes ou uma série. A quase cinquenta anos de distância, arrisquei: “Era uma série”. Alto e pára o baile! Como uma seta a gentilíssima alfarrabista desandou por três salas, e milhares de livros, trepou a um banco providencial e ZÁZ: ali estavam amarelecidas pelo tempo 41 dos 43 fascículos! Mas há mais: ao lado, e suponho que completa, uma edição em dezassete volumes de “Os grandes Portugueses” da mesma época, das mesmas autora e ilustradora. E querem saber a melhor: também tinha lido estes livrinhos mas, com o passar dos anos as duas colecções tinham-se convertido numa só nas dobras de uma memória que já não é o que era.
Duzentos metros abaixo, carregado com esta triunfal compra e aliviado de 80 euros, irrompi pela Barateira onde, bambúrrio dos bambúrrios, me tornei proprietário de nada mais nada menos do que 20 (VINTE) romancinhos do Salgari.
Se acrescentar que um irmão amigo e generoso me ofereceu nove dvd do David Lean (e entre eles o maravilhoso Breve Encontro) há que convir que esta expedição à capital do império teve alguns pontos altamente positivos.
Entrementes – e sempre para fanáticos do vício solitário da leitura – lembrei-me de oferecer um livrinho de Philippe Delerm a um menino de sete anos. O livro tinha um título engraçado “É mesmo fixe” e um subtítulo na mesma onda “’Tá-se mesmo bem” e na badana dizia-se que era apropriado para baixas idades. E parece que sim: umas horas depois o destinatário da oferta, de seu nome Tomás Carneiro, já tinha lido dez páginas e declarava que o livro era mesmo fixe. Ora toma!
São histórias destas que me reconciliam com o Natal desnaturado e consumista a que assistimos e que muitas vezes vivemos. Ou como também diz a canção:
O Tannenbaum, o Tannenbaum
Ein Baum von dir mich hoch erfreut
.

Nota: alguns bloguistas mais corajosos que porventura queiram possuir uma separata chamada Gaudeamus Igitur farão o favor de me enviar as respectivas direcções. Faria especial gosto em receber a direcção do distinto cavalheiro e missionário in loca infecta Delfim Lourenço Mendes para o mesmo fim ofertante..
2 se alguém avistar os volumes 15 e 16 da “História Pátria”, ed. SNP, entre 1939 e 1940 faça-me o alto favor de o arrematar que eu sou pessoa de boas contas.
3 Vários companheiros desta aventura bloguista puseram bonitos postais natalícios. À falta de melhor retribuo com estas lérias e desejos de Bom Ano de 2006

3 comentários:

Coutinho Ribeiro disse...

Podia ter corrido melhor, é verdade. Folgo, contudo, por ver com está com o bom humor de sempre. Abraço.

Silvia Chueire disse...

Serei repetitiva. Uma delícia a crônica. E o Natal apesar dos pesares, foi bem. Reencontrar amigos, esta é a melhor época.

Abraços,
Silvia

Cabral-Mendes disse...

É muito difícil encontrar palavras que traduzam o prazer indizível de ler MCR!

"eu adoro histórias, gosto de as contar quase tanto como de as ouvir" diz o nosso MCR!

Também eu adoro histórias!!!

Que o nosso MCR conte muitas!!!

Faz-me lembrar a minha meninice, quando devorava livros que me faziam sonhar e subir a outras paragens!...