20 dezembro 2005

estes dias que passam 9

Nasceu
Foi numa cama de folhelho
Entre lençóis de estopa suja
Num pardieiro velho
..........................
Ninguém há-de cantar a história do menino
ninguém lhe vai chamar o Salvador do Mundo


Álvaro Feijó


1. Já aqui o terei dito mas, na dúvida, repito-o: sou cão que conhece dono, fiel aos amigos e grato. Começo pois com este excerto de um célebre poema do Álvaro Feijó, poeta que muito estimo, irmão do Rui e tio da Luísa e da Teresa, gente que conheço vai para mais de quarenta anos. E com esta homenagem a essas amigas e amigo, vai uma abraço aos incursionistas todos que se preparam para enfrentar o Natal. Aguentem-se no balanço, não abusem das rabanadas, lembrem-se da alegria de serem pequeninos e que o bacalhau com todos perfume a mesa e aqueça as almas (com esta o nosso querido Delfim, vai dizer que não há criaturas perdidas no reino do Senhor mas a gente perdoa-lhe).

2. A buliçosa Associação dos Professores de Português saiu a terreiro com um comunicado em que lamentava que o Ministério da Educação tivesse abandonado a extinção dos exames naquela disciplina. Que os exames além duma maçada não provam nada e põem em causa o aturado labor de um par de anos de eficiente ensino. Ora toma, que é para tabaco! Estes cavalheiros (e cavalheiras, acrescento para não me chamarem misógino) não acham que o panorama que daqui se descortina quanto aos frutos dos seus ingentes esforços pedagógicos é raquítico para não dizer antes um palavrão mais apropriado. Suas Excelências entendem que sendo o exame uma sanção às suas justas aspirações de trabalhadores da educação melhor seria (mesmo no naufrágio completo que se conhece) que se não realizasse. Uma coisa assim como o jogo dos quatro cantinhos: não agarraste canto. Não tem mal. É tudo uma brincadeira. Aceitando que terão razão, eu até proporia que se não ensinasse português às criancinhas inocentes, coitadinhas. E, já agora, que se dispensassem os senhores professores. A porta é por aqui, pedagogos. Desandem e vão inscrever-se no centro de emprego mais próximo.
3. No volume 3º da sua monumental biografia política de Álvaro Cunhal, Pacheco Pereira esmiúça beneditinamente o feroz ataque que, durante o “período sectário” foi levado a cabo contra a LER e a Vértice. Comandados por António José Saraiva, uns intelectuais do PC entenderam atirar-se com unhas e dentes aos primeiros dissidentes: Piteira Santos, Lopes Graça, João José Cochofel e Mário Dionísio. A LER foi pelo cano mas a Vértice, graças aos membros da sua redacção coimbrã (os irmãos Joaquim e Egídio Namorado e Luis Albuquerque, entre outros) apesar de comunistas resistiram galhardamente e mantiveram a confiança e a solidariedade com os atrás citados ex-militantes do mesmo parido.
Para quem, independente de esquerda, que entrou na Vértice cerca de dez anos depois, é consolador saber agora com todos os pormenores esta história de dignidade e resistência. Para quem foi amigo do Joaquim e do Luisinho (era assim que meu Pai o chamava...) é uma imensa alegria. E não pequeno orgulho, cela va de soi, mon cher lecteur José.

4. O Eduardo Prado Coelho, escreve no Público de 19 pp. que tem um fraco pelo “Natal dos hospitais” (!!!) Para quem o não conhece isto torna-o mais humano e próximo. Para quem é seu amigo desde os tempos heróicos do festival de cinema da Figueira, isto explica certos gostos cinematográficos do Eduardo ( agarra esta Eduardo...). Todavia o abaixo assinante não tem muito que galhofar à custa desta “horterada” do E.P.C. É momento de confessar que de há muitos anos a esta parte não perco o desfile militar do 14 de Julho nos Campos Elísios (via televisão, claro... Mas se lá estivesse juro que não falhava...). então quando passa a Legião Estrangeira é o fim da picada. Eu bem que tento justificar-me com a leitura do Beau Geste em pequeno, com a Revolução Francesa e o Povo em Armas contra a nobreza opressora mas, aqui à puridade, nem eu mesmo acredito em mim. Gosto daquele maldito desfile e pronto... Não há volta a dar-lhe.

5. Anda por aí um banco a fazer publicidade, pespegando (em página inteira, há que dizê-lo) com uma reprodução do Fils de l’homme de Magritte. Meu Deus ao que chegaram os meus heróis surrealistas...

6. Vai um cidadão pela rua e só vê uns bonecos raquíticos vestidos à Pai Natal agarrados às janelas e varandas como quem sobe carregado de prendas. Parece que são de fabrico chinês. O mau gosto ocidental aliado à capacidade oriental de massificar dá nisto. Do horizonte que seria vermelho resta-nos só esta imagem pífia que, entretanto, prova como o Ocidente se conquista mais facilmente com o mau gosto do que com as máximas do “pequeno livro vermelho”.

7. Tendo começado com um excerto de Álvaro Feijó entendi acabar este meu bilhete de Boas Festas com um outro desse magnífico poeta que se chamou Malcolm de Chazal:
Quem despisse
a noite
veria
o corpo de Deus.

10 comentários:

O Hóspede disse...

Como o MCR deve saber, em matéria de “período sectário” Pacheco Pereira sabe bem do que fala. Na época dourada dos “m-l”s o grande biógrafo PP mediu meças com o super sumo do sectarismo. Depois foi o que se sabe. Um poço de coerência. Coerência que se mantém na biografia de Álvaro Cunhal. PP leva uma vida de combate contra as teses cunhalistas. Se bem em recordo o grupo onde PP militou é profundamente maltratado, no plano ideológico, por Álvaro Cunhal num livrinho intitulado “Radicalismo Pequeno Burguês de Fachada Socialista”, editado em 1971.
O problema do PP é que Álvaro Cunhal é uma figura especial. Político, artista, escritor. Ou seja, a memória mítica de Álvaro Cunhal resistirá aos seus biógrafos e ao próprio PC, tal como a Vértice resistiu “apesar de comunistas” como os irmãos Joaquim e Egídio Namorado e Luis Albuquerque terem assegurado a sua redacção

M.C.R. disse...

Se sei caro Hóspede...se sei. Devo porém dizer, em abono da verdade, que esta biografia é até à pag 474 do 3º volume, um excelente estudo e a figura de Cunhal não sai beliscada, antes pelo contrário.
Perezando embora os sonhos e ideais da juventude, como V. aliás terá reparado, mantendo-me fiel (apesar de "olhar para trás angustiado") à sua essência, admito porém que haja quem mude com honradez e sinceridade. PP foi, se bem me lembro, o "papa" de um dos grupúsculos m-l. Não era o pior mas também não deixou quaisquer saudades. Julgo até que do estricto ponto de vista ideológico era fracote. Ou seja muito mais leninista que marxista, e o leninismo parecia-me ele próprio de segunda mão e caricatural.
Voltando á vaca fria: a biografia política de Cunhal é de facto boa (até ao momento) e creia-me, caro Hóspede, sei do que falo. E aliás já são muitos os altos quadros e militantes históricos do PC que lhe concedem longas entrevistas, documentação e lhe lrespondem a dúvidas. Também eles perceberam que se está perante um trabalho de longo fõlego e bastante decente.
Com o meu sogro (já morto) Jorge Delgado ("Sérgio" nas fileiras do partido nos anos 40) fui aprendendo esta história, tornando-me um pouco amigo de várias dessas figuras (os Martins, p. ex.) hoje retratadas. A partir de 60 fui compagnon de route um tanto ou quanto crítico mas compagnon quand même. Ainda há pouco tive na mão o famoso texto assinado por Francisco Vale (Cunhal) sobre as questões de estética. Vem num número da Vértice que possuo. Reli-o, encantado, por ainda o ter e nesse exclusivo ponto PP é impecável.
PP neste 3º volume (correspondente aos anos de prisão de C. na Penitenciária e em Peniche) foca demoradamente os aspectos artista plástico e escritor gastando na sua análise para aí cem páginas... Não há dúvidas que o valoriza e está mesmo fascinado.
Quando digo que os meus amigos Namorado e Albuquerque resistiram "apesar de comunistas" é apenas para acentuar o facto de eles terem tido a enorme coragem política de não ir no canto de sereia de Fogaça & Cia, "sectário" primeiro e "anarco-liberal" depois. Os dois adjectivos são, claro, de Cunhal e não são por minha parte mais do que isso...
Admiro a coragem dos que, dentro de um partido, se atrevem a pensar pela sua própria cabecinha. Estive, antes e depois do 25 A, em partidos e, à conta dos meus maus pensamentos, tive várias vezes de enfrentar críticas, tentativas de escomunhão e outra mesquinhices de igual tom.Sei pois do que falo. A Vértice não fechou nem foi fechada e por mais vinte anos foi uma das pouquíssimas luzes da esquerda intelectual em Portugal. Como a Seara Nova e em certa medida o Tempo e o Modo. Permita-me que lhe diga que isto não é pequeno serviço á causa da liberdade e do futuro. No caso de ter sido controlada pelo grupo capitaneado por Saraiva, teria certamente desaparecido rapidamente. Mas isso é futurar o passado claro.

Cabral-Mendes disse...

Meu querido MCR,

Apreciei essa da “gente perdoa-lhe”…

Obrigado pelo seu perdão e dos demais incursionistas que fazem o favor de me aturar…

Mas, já agora, e para não desmerecer, aqui vão mais umas linhas, em coerência, e do Chazal:


(O sonho de vida de Chazal, disse-o ele, foi este):

"Etre Jesus-Christ sans être Dieu;

être un Saint tout en restant homme;


E esta?!...

Um Abraço


Em tempo: já estou ansioso de provar uns sonhos de abóbora…onde costumo almoçar asseguraram-me que os vão ter mas desconfio muito destas modernices…a minha avó Adélia, que Deus tenha, é que fazia estes de uma maneira!...Aqui em Lisboa já nem sabem o que isso é…

Olhe, MCR, agora por causa dos sonhos de abóbora, fez-me lembrar a minha infância, quando passava longos “verões” ali no Ribatejo, para os lados de Abrantes, pronto, ali em Alvega, um pequenina vila ( ainda continua pequena…) mesmo junto ao Tejo.

Isto dava pano para mangas…Olhe, o homem é um ser com história, e esta é o espaço e o tempo do possível.

Na nossa infância tínhamos a nítida impressão de que o Tempo passava mais devagar. Decorria uma eternidade até o período de férias chegar; o Natal, sempre ansiosamente aguardado, era um evento que se repetia muito raramente. Ele agora aí está, muito pertinho de nós, mais uma vez…

À medida que crescemos a história inverte-se. Parece que o tempo se acelera. Quando nos damos conta já estamos prestes a ultrapassar o primeiro semestre para, logo em seguida, nos surpreendermos com as primeiras cores natalícias. E, apesar dessa mudança de percepção, sabemos que as intermináveis horas da infância contêm os mesmos fugazes 60 minutos da fase adulta. No fundo, é a nossa vivência que muda a partir de certa idade, e não o tempo. O tempo não muda. Os movimentos dos ponteiros do relógio apenas registam a nossa passagem dentro do tempo. O tempo não passa, nós é que passamos dentro dele.

Resta-nos evocá-lo, no nosso pensamento. Os bons momentos passados, claro, pois as nossa memórias dolorosas não vale a pena trazê-las à superfície. Aliás, é impossível voltar ao passado. Afinal, que faríamos nós com ele? Não o podemos modificar, não podemos rever aqueles que nos deixaram…e, como disse um amigo meu, aliás recentemente falecido, Padre Franciscano, Frei Adelino Pereira, no seu livro “Clamei por Vós, Senhor!”, “Todo o nosso bem é este nosso instante apenas. O passado passou e o futuro ainda não veio”…

Ainda hoje, por via de uma notícia que li no “DN” acerca de uma sessão de leitura de poemas na Livraria Minerva em Coimbra, precisamente sob o tema “ O Natal na Poesia Portuguesa”, a qual iria incluir poemas de David Mourão Ferreira (que tem um poema muito belo mas muito pungente sobre o Natal) me lembrei que, para além da beleza e da ternura desta época, com o referido passar do tempo, vamos criando uma certa nostalgia por todos aqueles que já não estão entre nós e que nos fazem falta, precisamente a nós que ainda andamos a peregrinar “por este vale de lágrimas”…

Ora veja lá, meu querido MCR, no que deu as rabanadas e o bacalhau…

Estas nossas memórias…fingem que foram passear e, na primeira oportunidade, voltam e não pedem licença para entrar…


Um Abraço!

Delfim Lourenço Mendes

M.C.R. disse...

Isto já não são comentários mas uma saborosa conversa à lareira da memória.
O tempo caro Delfim encurta-se e o Joaquim Namorado deu-me uma vez uma explicação matemática: quando temos dez anos um ano é um décimo da nossa vida vivida, com vinte é já só um vigésimo e assim por diante. Por isso é que vamos sentindo essa aceleração que, ahimé, prenuncia outras tristuras: um dente que era são e já o não é, um cabelo branco, umas escadas que já se sobem vagarosamente.
O Natal é terrível por nos dar essa pungente sensação: falta gente à mesa (ai o meu pai... que falta!!) os miúdos crescem, enfim...
Eu sou mais das rabanadas. Mas sei fazê-las e se calhar este ano terei de as fazer. Bom Natal e um abraço

josé disse...

O EPC a gostar dos Natais dos Hospitais lembra o Lobo Antunes a declarar que afinal a literatura que mais o impressionou não foi a dos clássicos mas a do Emilio Salgari! Que também será um clássico- mas em tom menor.

O Natal dos Hospitais dos tempos de antanho, nem era espectáculo medíocre, na qualidade musical. Era apenas ligeiro. E os números de magia e de circo, bem como as rábulas de revista, também não se afiguravam deletérios para o bom gosto da época.

Quanto à Vértice, lembro de a comprar para ler um texto corrido a idiossincráticas referências, de um certo Aníbal Almeida, prócere da esquerda clássica e cultor de citações e referências ácidas.
Tenho saudades de escritas assim, mesmo em contra-mão.
Os indivíduos originais e que se copiam apenas em poucos exemplares, são cada vez mais raros.
Um dos meus preferidos e que descobri agora ter sempre admirado, chamava-se Manuel Antunes. Jesuíta de formação religiosa e curioso da natureza humana.Escrevia números inteiros da Brotéria, com pseudónimos.

Um bom Natal, aussi! A tout le monde, évidemment.

M.C.R. disse...

O Aníbal Almeida, professor na fac de Direito em Coimbra, morreu há já alguns anos. Um cancro dos difíceis. Era do CITAC e fui amigo dele e do irmão ainda felizmente vivo, o Fernando António Almeida, autor de boa poesia e um livro delicioso, aliás dois: "Esmirna, cidade azul" e "Marina noiva da vida", ("anos 80" e "Vega" respectivamente). É também o autor de uma saborosa série de roteiros em Portugal que começaram no Expresso.

josé disse...

Se forem os roteiros dos lugares notáveis de "comes e bebes", por esse país fora, temo bem que lhe deva alguma coisa de precioso: o prazer de disfrutar de algumas iguarias do Portugal desconhecido.
Sei lá, assim de repente lembro-me da Taska Rasca. Fabuloso entreposto de alimentação racional, no Sul dos nossos Algarves.

M.C.R. disse...

Não, não são esses ou pelo menos não os recordo assim. Mas garanto que a leitura de "Pelos caminhos de Portugal" (D. Quixote) dá um grande gozo pela escrita limpa e desmpoeirada, pelo saber repartido como quem se esconde pela modéstria e por toda uma série de felizes observações que espantam e alegram o leitor. O Fernandão é um carácter...

josé disse...

Fico esclarecido. Mas temo que passe a desfrutar de menos complacência quanto à correcção na escrita...

Silvia Chueire disse...

Li e com interesse, como sempre aliás. Começo a entender um pouco das questões específicas de Portugal. Um dia aprendo. : )
É um gosto, eu já disse mas gosto de repetir, ler os seus textos e os dos comentadores. As reminescências, as imagens, as diferenças de opinião. É bom "conviver" com esta tiqueza.
Um grande abraço,
Silvia