19 dezembro 2005

Pensamento (em tempo de campanha)

«A razão, discernimento do verdadeiro e do falso, decisão e juízo, é coisa rara e pouco difundida. Assunto de elites e não de massas. Quanto a estas, elas são guiadas, ou melhor, movidas pelo instinto, a paixão, por sentimentos e ressentimentos. Não querem nem sabem pensar. Apenas sabem obedecer e acreditar. Acreditam em tudo o que se lhes diz, desde que o façamos com suficiente insistência. Desde que lisonjeemos as suas paixões, os seus ódios, os seus temores. É portanto inútil procurar mantermo-nos dentro dos limites da verosimilhança: pelo contrário, quanto mais grosseira, maciça e cruamente mentirmos, tanto melhor acreditarão em nós e nos seguirão.»

Alexandre Koyré. “Reflexão sobre a mentira” Ed. Frenesi.

10 comentários:

Cabral-Mendes disse...

As massas, efectivamente, sempre foram muito irracionais. Daí, as tragédias na História do Homem: salientaria a Revolução Francesa e o seu cortejo de horrores, a propagação do Iluminismo com as suas falsas luzes...a história negra da Alemanha hitleriana...

As massas não se interrogam, antes tornam-se acéfalas, são apenas levadas, diz bem o Autor, pelas suas paixões, diria que necessariamente más neste contexto, e pelos seus ódios...veja-se a política dos últimos tempos...a acicatar a inveja, mal nacional.

Disse bem António Guterres, no Centro Cultural de Belém, onde tive o prazer de o aplaudir, aquando de uma homenagem a José Saramago, creio que em 1999, que este é um País de invejosos!

Como a história recente lhe deu razão!!

Por inveja Caím matou Abel.

Foi por inveja que o pecado e a morte entraram na História do Homem:
"Deus criou o homem para a imortalidade
e como uma imagem da sua própria eternidade;
mas pela inveja do demónio
entrou no mundo a morte".
(Sab. 2, 23)

Também Jesus foi morto por inveja (Mt 27,18), por parte daqueles que não tinham o seu poder e a sua autoridade.

“A inveja e a ira abreviam os dias, e a inquietação acarreta a velhice antes do tempo” (Ecles. 30,26).


Os maus pastores de hoje ignoram tudo isto...


Como disse Voltaire, "Mintam, mintam sempre; um pouco sempre fica".


dlmendes

Primo de Amarante disse...

Caro Amigo:

A frase parece que nunca foi dita por Voltaire.

A minha interpretação do excerto do Filósofo da história das ideias, Koyré, é diferente. No meu entender, coloca dois problemas: o da ética do discurso.Utilizando os conceitos clássicos diria que no discurso há um pathos, um ethos e um logos. Os políticos preocupam-se mais com o pathos, os sentimentos que despertam no auditório e, por isso, quando julgam que o auditório é frágil, procuram que o seu discurso (logos) desperte o pathos no sentido que o querem manipular. Um orador com carácter (ethos) preocupar-se-ia com o seu dever de verdade, de sinceridade e de justeza. Propunha uma reflexão, em vez de condicionar. E falta-nos uma cultura política a este nível. Segunda questão: a democracia não se assegura sem uma revolução cultural, no sentido de haver politicas que tenham como prioridade programas que promovam o desenvolvimento de um pensamento livre e, por isso, autónomo, através da educação, da arte, do teatro, do cinema, da televisão, etc. Quanto mais culto e instruído é um povo, mais democracia é possível, porque mais claras e reflectidas são as expressões da sua vontade e menos os efeitos de arrastamento colectivo se dão. O povo não é culpado por ser susceptível de se deixar arrastar pela manipulação, mas sim os que pretendem condicionar a sua vontade. E nestas eleições já há demagogia a mais.Já nem parece uma campanha eleitoral, mas uma telenovela de má qualidade. Apela-se mais á infantilização dos sentimentos, como nas telenovelas, que a uma reflexão sobre o que pode dar sentido ao nosso futuro colectivo. Vamos perdendo a esperança e ficando cada vez mais decepcionados.

Primo de Amarante disse...
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Primo de Amarante disse...

Ao escrever tenho sempre a sensação de ter um discurso enfatuado, o que me chateia. E, depois,ao refrear-me fico sempre sem dizer tudo o que queria dizer. Gostava, por isso, de acrescentar o seguinte: não há outra forma de promover a responsabilidade, que não seja a de retomar o lema de Kant: «ousa pensar!»

Eu sei que há quem tenha escrito uma visão muito negativista do iluminismo, quem tenha visto no iluminismo a causa dos aspectos mais negativos da Revolução Francesa e de uma ideia de ordem e progresso totalitária e cruel. Sei que em nome de uma certa ideia de razão surgiram muitas tragédias.

De facto, a luz da razão não pode deixar de ser vista como opressora, quando a opressão se exerce em seu nome.

Mas, há uma outra forma de entender o iluminismo que releva a importância da sua componente de emancipação. E, quer queiramos ou não, a emancipação das pessoas, individual ou colectivamente consideradas, não pode ser feita de outra forma que não seja a de seguir o apelo de Kant. Se queremos pensar sem a tutela de outro, temos de usar a nossa própria razão.

A Ilustração (pensar de forma livre) foi, apesar de tudo, a proposta mais generosa da emancipação que surgiu na história da humanidade. Sem o pensamento critico a espécie humana não se libertaria da opressão, da tirania e da superstição. Devemos-lhe a ideia de um saber posto ao serviço do homem, a bandeira dos direitos humanos, as propostas de paz e tolerância e o impulso para construir um mundo mais humano, porque mais livre e responsável.

Não há critica que não seja racional e uma razão que não seja critica não pode ser iluminista.

Penso, por isso, que precisamos de um novo iluminismo, dum iluminismo que tenha em conta que a razão já não é, como pensava Descartes, unívoca, mas plural (depende dos paradigmas em que se apoia) e, por isso, dialógica. Entendo o diálogo como um esforço para encontrar denominadores comuns (sem alienação) que convergem na procura de uma solidariedade responsável, a única que pode abrir caminho a um entendimento entre pessoas e povos e desenvolver a esperança que precisamos para acreditar num futuro melhor para todos.

Naturalmente, a razão precisa de outros validadores, como a fé, o afecto e o coração. Mas estes, sem o filtro da razão critica não superam a minoridade da infantilização e, consequentemente, só nos podem deixar no obscurantismo.

Cabral-Mendes disse...

Estamos habituados às mentiras (eleitorais e outras) de sempre – todos os caminhos, neste Portugal decadente, conduzem ao mesmo cruzamento: os miseráveis para um lado, os abastados para outro.

As assimetrias, que não deveriam ser tão gritantes, afinal agudizam-se.

Quem trabalha assiste à deterioração da sociedade, enquanto quem (des)governa exibe arrogância e manipula a opinião dos incautos (diria dos ignorantes…).

O “povo”, esse continua como sempre, adormecido ao som do “Panem et circences” para que não se aperceba da ruína deste Estado, dito “Pós-Social,” onde quem desejar alimentação, saúde, educação e segurança – requisitos básicos à sobrevivência dos cidadãos – precisa pagar caro para tê-los.

Querido Amigo, falou e bem da “infantilização dos sentimentos.” O poder joga efectivamente com isso, pois sabe que o povo continua, em larga escala, ignorante e primário, fácilmente manipulável pelas piores razões.

Este nosso Estado português converteu-se numa máquina de engorda para aqueles que o administram e nós somos os pobres carvoeiros que alimentam as caldeiras.

Ai quando vejo os políticos na televisão..lembram-me os feirantes a gritarem alarvemente “Quem dá mais? Vai uma, vai duas, vai três, olha ali aquela senhora…leva ali aquela senhora!”…

Portugal, nos dias de hoje, parece uma cópia reles de uma qualquer república das bananas sul-americana.

Concordo, consigo, Compadre, a decepção é grande, a desilusão imensa…

Os Pirinéus aprisionam-nos…

dlmendes

Cabral-Mendes disse...

Ai Compadre, que fui ultrapassado...o meu amigo já tinha outro comentário e que belo comentário!

Já me tinha apercebido que o meu amigo pugna por um outro Iluminismo, que não repetisse os erros do passado. Mas acho tal desiderato difícil, pois os pressupostos desses iluminismos são sempre os mesmos.

Para o iluminismo a razão era o ponto de partida e de chegada para um mundo novo. E esse mundo novo era o ponto de partida para o principal empreendimento deste racionalismo: a guerra contra a religião e o homem crente.

É o meu amigo que acaba por dizer que “sem o filtro da razão critica” não se supera “a minoridade da infantilização e, consequentemente, só nos podem deixar no obscurantismo.”

É esta qualificação da antiga sociedade como “obscurantista” que me leva a desconfiar de todo esse movimento e dos “enciclopedistas”.

Parece que quem rejeita as “luzes” deste racionalismo é considerado obscurantista…

Mas é essa razão crítica” que matou o Mistério e todo um mundo de Poesia.


Esse mundo de Fé e Mistério, a Comunidade Cristã Ocidental, o chamado Santo Império, acabaria de cair por terra com a chamaa Paz de Vestefália.
Esta, que acabou com a guerra dos Trinta Anos em 1648, foi o registar da mudança. Representou o fim da era das guerras religiosas da Europa. Naufragara a supremacia militar espanhola e o sonho da reconstrução do Império de Carlos V.

Mas, com o Tratado de Vestefália, que veio a criar uma nova estrutura política na Europa, foi por demais afectada a Igreja Católica, através da secularização de muitos principados eclesiásticos, e pelo reconhecimento internacional outorgado aos soberanos protestantes. De tal modo que o Papa Inocêncio X condenou o Tratado, considerando-o como nulo, na sua Bula “Zelo domus Dei”, sem qualquer efeito prático aliás, o que só demonstrou à saciedade a impotência política daquele.

Em síntese, enquanto que na Idade Média, sob o primado da ética cristã, que iluminava toda a “Respublica Christiana”, propendia-se para a subordinação do Estado ao Direito, agora com a destruição daquela, vai dar-se antes o predomínio do Estado sobre o Direito: O primado do político impõe-se. Ontem, como e sobretudo, hoje, meu caro amigo.


É claro que na Europa houve um período bem negro: no século. XVII deu-se uma orgia de ódio, fanatismo e massacres que só terá paralelo com o século XX (a devastação da Europa na I e II Guerras Mundiais...).

Mas, entre Voltaire e Erasmo, por sexemplo, prefiro este último, pois com ele temos a apologia da ética, da moral, da paz, vendo-se a política como algo que não devia ser axiologicamente neutro, mas impregnado dos valores do Evangelho.

Ora, vamos lá dizer isto nos nossos dias!

Ou dizer, como São Tomás de Aquino que a lei natural continha um preceito fundamental: fazer o bem e evitar o mal. E que o fim do Estado seria não só o bem comum, o bem da comunidade, mas também o bem da pessoa individualmente considerada!
Como se dizia antigamente, “Adeus minhas encomendas!”

Ai, Compadre, chamam-me, já é tarde.

Olhe, achei piada a ter dito que tem a “sensação de ter um discurso enfatuado, o que me chateia”.

Nada disso, “a gente” sabe que é o Filósofo a falar!
(agora também ao ler o que escrevi, bem me parece que fui um chato…ai se o MCR nos lê…o que dirá!)

Um Abraço!
dlmendes

Primo de Amarante disse...

Agora estou como o carteiro: acordo pelas cinco da manhã e nunca mais durmo. O que me vem à cabeça é o que é "chato". Para fugir, levanto-me e ligo a televisão. Mas o sacrifício de olhar para o que nada me diz, obriga-me a regressar à cama. Nas notícias mais recente, duas mereceram a minha atenção. A mais importante foi a chegada de Luís Santos, o piloto que esteve preso durante 14 meses na Venezuela. É impressionante o que lhe aconteceu. Percebo bem os seus sentimentos em relação a uma justiça que não funciona. Penso que o caso de Luís Santos deveria fazer-nos pensar em muitos Luís Santos que também entre nós existem, sem a visibilidade de um piloto preso na Venezuela. A segunda, foi a noticia dos resultados de uma sondagens. Não é que estas últimas sondagens que coloquei em post adiantem muito ao que sempre pensei. È natural que perante a crise que todos vivemos, os eleitores prefiram uma candidatura que fale mais no rigor que nas liberdades democráticas, que prefiram abdicar de algumas liberdades em favor duma linha que lhes pareça ter autoridade para resolver os seus problemas.

O que digo acaba por salientar um pouco o que defendi no meu último comentário. A vida está mal, porque as instituições funcionam mal e as instituições funcionam mal, porque temos maus políticos e temos maus políticos porque assim o quer quem os escolhe. É o ciclo da crise. Os políticos são o espelho de um povo. No entanto, há entre nós quem tome posição, diga «não vou por aí» e use a luz da razão para criticar. A crítica (não falo do maldizer) é uma forma de promover a reforma das instituições, de obrigar a corrigir o que está mal. E se olharmos para trás percebemos que foi a luz da razão que obrigou a tornar o mundo mais humano, muito embora também tenha havido graves erros feitos em nome dessa luz, como já referi. Mas, se tomarmos como referência os direitos humanos, percebemos os avanços que a luz da razão promoveu.

Estamos no advento que significa colocar-nos numa postura de espera. O Natal, como festa cristã, surgiu no séc. III por contraposição à festa pagã do solstício de Inverno. Por alguma razão o Natal estará ligado a uma posição do Sol!... E o sol é a imagem deslumbrante da luz que, por sua vez, foi para o iluminismo a metáfora da razão.

Cabral-Mendes disse...

Meu caro Amigo,

ainda umas linhas:


A fé no progresso, na ciência, na técnica, foi a apologia do renascimento e das Luzes, convictos que estavam aqueles homens que tinham destronado o “obscurantismo” religioso.

Mas a fé desmedida na ciência, sem preocupações sociais, políticas, éticas, conduziram a grandes desastres, às já referidas por mim I e II guerra mundiais…a Stalines…

Como afirmou Heidegger, "Só um Deus nos pode ainda salvar."


dlmendes

Primo de Amarante disse...

A fé na ciência veio, caro amigo, do positivismo e não do iluminismo. O positivismo entrou, inclusivamente, num paradoxo. Como sabe, ergueu a ciência a uma religião

Cabral-Mendes disse...

Caro amigo..."touché"!