02 janeiro 2006

Cartas de amor

Apetece-me escrever cartas de amor daquelas, longas longas, como as que escrevia no princípio num bloco de notas que depois enviava completo, com as páginas em branco e tudo, como se todas as páginas fossem flores que eu levava nas minhas mãos e entregava num gesto largo, quase teatro, que eu sempre fui de gestos largos no sufoco com que matava a timidez disfarçada. Tento escrever do novo essas cartas, mas eu agora não sei, perdi-lhe o jeito, o que é normal quando se passa tanto tempo em que não se escreve cartas de amor porque se desaprendeu a amar.
Mas hoje, mesmo sem jeito, apetece-me escrever cartas de amor, um gesto inútil porque não sei onde estás, depois daquela despedida tola, a mais desajeitada de todas quando em vez de perguntar o número de telefone, apenas consegui um estúpido Será que voltaremos a ver-nos? e tu piscaste-me o olho com aquela graça que só tu tens e me disseste que sim, claro que sim, que haveríamos de fazer uns jantares temáticos, coisa que te ocorreu no momento, porque acho que nenhum dos dois sabia a que temas te referias, mas que me deixou a planar sobre o rio enquanto te afastavas e eu com o sorriso aberto de quem te trazia comigo e adormecia em ti para acordar em ti na manhã tardia de um tempo novo.
Não. Acredita que nem sequer estou desolado porque me mostraste que tenho andando enganado quando andei todos estes anos a jurar que só acreditava no amor à primeira vista. Confesso-te que quando entrei naquela sala olhei-te e mal te vi e não te amei, tal era o constrangimento pelo meu ar de cão vadio intruso que só procurava o aconchego de quem conhecia. Só meia hora depois, já à mesa, quando voltei a ver-te e os nossos olhos se cruzaram e se desviaram, - não, não sei quem desviou primeiro nem isso interessa -, e eu vi que os teus olhos escuros tinham a fundura e a rebeldia do mar que batia mesmo ali à nossa frente, àquela hora bravio e escuro, é que eu tremi, porque esses eram os olhos que eu sempre vi numa imaginária princesa afegã.

4 comentários:

Silvia Chueire disse...

Pois...O carteiro não parece afinal ter perdido o jeito como temia. : )

Abraços,
Silvia

Cabral-Mendes disse...

Ao ler este pequenino conto (adoro pequenos contos! Ai MCR!!...) de Coutinho Ribeiro (ai que pena não continuar!...) imaginei a cena algures no Porto, ali já para a Foz, numa casa com vista para o mar, a noite muito escura e o encontro que se deu em casa de amigos…e o desenrolar da acção…e lembrei-me de um romance que aí tenho nas estantes, lido em tempos mais agitados, e fui buscá-lo, um romance pequeno, de amor ardente, intenso, como os franceses adoram escrever…é o “Creezy” do Félicien Marceau:

Ora, atentem bem:

“ma Creezy, notre amour nu, aride et furieux. Je ne le savais pas alors. Je le sai maintenant. Sur le dossier du fauteil du pilote, j’ai pris ta main. Tu l’as retirée. Puis ta main est revenue”.

Não vos parece que este texto vai directo ao coração do nosso Carteiro?…


Caro Carteiro, “Omnia vincit amor” ( o amor vence tudo).

dlmendes

Coutinho Ribeiro disse...

E eu, na minha insónia que regressa por motivos bem mais saudáveis, comovo-me com o seu comentário, meu caro Delfim Lourenço Mendes. :-)

M.C.R. disse...

Ah Carteiro!!!
traga-nos sempre desse correio, homem.