03 janeiro 2006

Diário Político 10

Em guisa de explicação: num longínquo Julho de 1986 (20 anos já...) entendeu o “Expresso” convidar um repolhudo grupo de pessoas do Norte para dizer de sua justiça sobre o “dialogo Porto Lisboa” com o título “Elogio da diferença”. Não sei ainda hoje porque fui convidado mas a verdade é que aviei duas respostas em vez de uma e o jornalista que escolhesse. A coisa saiu em finais desse mês mas com as respostas todas misturadas numa artística montagem de textos que mais parecia uma salada de brócolos que tornava difícil perceber os nossos desacordos e até por vezes, a paternidade da frase. Em homenagem forte, mas com algum eventual desacordo, aos Compadre Esteves e JCP, aqui dou à estampa ambos os textos (um deles absolutamente virgem nestas andanças) desejando a todos os frequentadores deste agradabilíssimo caravanserail um ano de 2006 pleno de alegrias e realização pessoal.

BICA OU CIMBALINO?

1. "Se Paris tivesse uma Cannebiére seria uma pequena Marselha", contam-me apologistas do Midi francês. "Roma é preguiçosa", dizem os milaneses. "Madrid é uma Las Vegas criada pelos reis de Castela", poderiam repontar os de Barcelona. E por aí fora.

2. Tenho por mim que a primeira culpa das capitais é o serem-no e, eventualmente, julgarem que o resto do país é paisagem. Nas capitais a dinâmica municipal desaparece ou é ocultada pela nacional. Os favores do poder sobrepõem-se ao esforço da sociedade civil, tornam-na mais dependente, criam na musculatura citadina adiposidades pouco saudáveis pese embora o vermelho das faces ou o brilho dos olhos.

3. E nós os do Porto? Vestimo-nos de inocência ultrajada, protestamos e, sempre que não somos capazes, deitamos culpas ao Terreiro do Paço, à cintura industrial, aos burocratas (como se os não tivéssemos também cá...), ignorando complementaridades historicamente comprováveis e um destino que se tece desde há mais de oito séculos.

4. Fosse o Porto capital (Deus nos livre!) que diriam os lisboetas? Seriam diferentes as queixas contra o poder? Temo bem que não. Vou mais longe: que imagem tem do Porto Viana, Braga, Aveiro, Vila Real ou Viseu?

5. As capitais concentram meios, gente e poder. Atraem imigrantes. É natural. As provincias blasonam de trabalhadores, de reserva moral, de dinamismo. Exportam gente. Também é natural.

6. Desconcentre-se o poder, reorganize-se o país, liberte-se a sociedade civil, renovem-se a audácia, o orgulho bairrista e o gozo de arriscar e tudo se resumirá a essa pequena e amável diferença: Bica ou Cimbalino? Café.


PORTO DE ABRIGO OU PORTA DO FUTURO?

(BICA OU CIMBALINO 2)


Aos do Porto chamam-nos tripeiros. Tudo isto porque por alturas da conquista de Ceuta os nossos maiores deram toda a carne que tinham e enganaram a fome com as tripas. Corre uma vaga suspeita que Lisboa ainda se julga nas vésperas do empreendimento marroquino. Será assim?

A atentar no discurso oficial poucas dúvidas restarão. Ministros, jornalistas e intelectuais quando falam no Porto tratam-no como o benjamim a quem já se permite usar, aos domingos e dias santos de guarda, calça comprida. O Porto é, para esta efémeras criaturinhas, a capital do trabalho e, às vezes, a capital do Norte. Do Norte longinquo dos Natais antigos, dos presuntos e chouriços, das tias velhas que ainda bordam lençóis de noiva. O Porto é também óptimo para comprar mobílias, fios de ouro, sapatos e comer á fartazana. Os mais ousados admitem, contrariados, que, entre noivas à vianeza e tocadores de cavaquinho, haverá no Porto alguma croissanterie ou outra novidade do mesmo teor. Em contrapartida faltam-lhe essas três marcas distintivas da luso-post-modernidade: as touradas, o fado e as "noites longas". E a Gulbenkian, claro!

Para o portuense, "andrade" e amador do verde branco, Lisboa é uma imensa repartição cheia de contínuos vestidos "au dernier cri" e de ministros incapazes. Sem a vantagem do "El Corte Inglês" a 100 km. Lisboa é logo a seguir a Fátima e antes do Algarve e tem um jardim zoológico. Há quem acrescente: "terra de mouros cercada pela cintura industrial, falida até ao tutano".

Quando nos assumirmos como cidadãos desta nossa cidade, quando não esperarmos nada e tentarmos tudo, quando provarmos que não é preciso ser capital de coisa nenhuma, quando não mendigarmos os favores de S. Bento ou de Belém, muita coisa mudará a começar por este incómodo complexo de segunda cidade.

"O Tejo não é mais belo que o rio da minha aldeia" digo cidade.

Julho de 1986

4 comentários:

Primo de Amarante disse...

Gostei muito do seu texto e tocou-me o sentido que lhe deu. Mas eu nunca fui um regionalista chauvinista. Devo a minha maneira de ver o mundo, a vida e as pessoas ao tempo que passei em Lisboa. Sou essa circunstância, como diria o Filósofo. Gosto do Porto e do Norte porque aqui estão as minhas raízes. Mas vejo o Norte com olhos de Nacional e não o contrário. Sei que se a capital fosse o Norte, Lisboa faria a mesma figura que caracteriza o Porto. E estou consigo, quando acredita que no dia em que deixarmos de mendigar alguma coisa a Lisboa, muita coisa mudará. E há também uma outra questão: fala-se muito do eixo Cascais-Lisboa, como o local geométrico do que há de pior no País. Pois bem! Numa dessas festas de Natal de antigos companheiros (Lar da JUC) falemos desse eixo e reparamos que por aí vivem, em número avantajado, Nortenhos mais preocupados com Lisboa do que com o Porto. Falamos desse deputado da Iberdrola, do Jardim Gonçalves, do Pacheco Pereira e de muitos outros. Como vê a conquista de Lisboa aos Mouros tem sido continuado, causando mais danos a Lisboa do que ao Porto.

Obrigado pela sua simpatia.

Cabral-Mendes disse...

Este belo texto d’Oliveira transportou-me a tempos já muito recuados, aí há uns 25 anos, em que eu, na cidade do Porto, ao pedir uma “meia de leite” à menina postada ao balcão do café, subitamente dei conta que ela não compreendia o que eu lhe pedia já pela terceira ou quarta vez…dê-me aí uma chávena de leite com um pouco de café…foi mesmo assim! 25 anos na história do nosso País é falar de dois países muito diferentes, apesar dos problemas básicos se manterem…

Ainda me lembro de um amigo que me indicou uma pensão barata no centro do Porto, já não sei a rua, e eu e minha legítima termos estado toda a noite a ouvir águas correntes, portas a abrir e a fechar…ai a inocência!

Mas sempre fiquei com uma paixão pelo Porto, desde que o conheci.

Com efeito, a minha mulher trabalhou algum tempo aí na cidade, nos anos 80. E ficou-me uma grande paixão pela cidade em si, pois dela ressalta uma cor nostálgica que vai bem comigo: é o cheiro, a natureza que a "invade", a luz maravilhosa.
Lembro-me que ao tempo, arranjámos um apartamento na Rua do Vilar, precisamente junto ao Seminário, e era descer a rua e lá estávamos, aos fins-de-semana (apanhava o "foguete em Santa Apolónia e lá ia eu ao Porto...) junto ao Douro!

Um País tão pequeno, não tem sentido a existência de rivalidades de intrigas de invejas (coisa feia a inveja!).

Somos todos viajantes da mesma barca…

Um Abraço, d’Oliveira!

dlmendes

Primo de Amarante disse...

Caro amigo Delfim: eu também tive essa experiência (de dormir numa pensão)em Lisboa. Simplesmente, na altura andava no Seminário dos Olivais. Imagine o escãndalo!... Muito embora já não fosse um inocente (pois fui para os Olivais depois de ter feito estudos liceais num externato), esses tempos não eram como os de hoje.

dOliveira disse...

Ainda bem que V. me fala da luz especial do Porto. Um arquitecto amigo disse-me uma vez que tal se devia em muito à colocação das janelas à flor de sacada. As casas apresentariam assim grandes superfícies espelhadas que, acrescidas à cobertura de azulejos tão característica da construção novecentista, davam essse esse ar transparente, essa particular luminosidade dos dias cinzentos e liquídos. Será?
De todo o modo o Porto era uma bela, rude e rica cidade. Com as duas últimas décadas do século passado, a construcção de qualquer maneira, a ganhunça torpe dos novos ricos, tudo se foi ou está a ir. Produto de uma velha velha família burguesa desta região, ligada imemorialmente ao vinho do Porto, sinto-me cada vez mais só e mais órfão numa terra que se descaracteriza, que se polui de arquitectura falsamente despida mas absolutamente cinzentona e inimiga de árvores, canteiros, flores, gente e pássaros.
Quem acode a uma cidade prestes a implodir?