06 janeiro 2006

Farmácia de serviço nº 15

QUI SE MANGIA BENISSIMO
ou a vera receita do spaghetti alla bolognese
que animou muitas noites berlinenses

para a Lena agradecendo jantar
poesia e piano
e para o Didi em não podendo nós
desfazermo-nos dele


Nos idos de 70, e durante um par de meses, estanciei em Berlim para acompanhar a minha legítima (a 1ª, a Maria João, para quem segue um beijinho) num curso de alemão no Goethe-Institut. Aproveitei a boleia para me enfronhar, de novo e melhor, nos ínvios caminhos da língua e cultura alemãs pelo que assentei praça no Grundstuffe 1 enquanto a João navegava já pelo 3.

Pese embora o muro, Berlim era uma festa e o Goethe o seu vero umbigo pois ficava a menos de cem metros da Kurfürstendamm e a 500 da Technische Universität, cidadela revolucionária por excelência de uma cidade que venerava Rudi Dutschske e a Rote Armée Fraktion.

No GI coube-me por colega, entre outros igualmente bizarros, um italiano, natural da Sardenha, que logo no primeiro dia -e na primeira aula!!!- ao ver a nossa professora, assobiou num sardo puro e grandiloquente e rematou: Che bell culo!

A exclamação do sardo teve eco imediato em dois cavalheiros respeitáveis: um espanhol assistente de história chamado Martin e o próprio que estas vai traçando. O "sedere" da Frau "não sei quantos" era merecedor do entusiasmo do ilhéu e o resto também e a descaradona sabia-o.

A Sardenha é uma ilha de poucos recursos turísticos e de muitos pastores que, nas horas vagas, raptam cidadãos normalmente ricos para obter o respectivo resgate. Não tem a fama merecida da Sicília até porque os seus bandidos além de discretos operam individualmente a maior parte das vezes. Todavia nesta arte de redistribuir o PIB italiano, trasfegando da península para a ilha farta dose de liras a troco de um raptado, mostram-se admiravelmente eficazes. Quando lhes dá para ser cidadãos sérios (signifique isso o que significar na Itália) emigram para o continente e entram no mercado de trabalho comum à maioria dos emigrantes: por baixo e mal pagos.

O sardo desta história de que não recordo o nome (lembrando-me todavia do da namorada piemontesa que dava por Gabriella e era grande e bem feitona - ainda hoje me pergunto porque raio me hei-de sempre lembrar das mulheres e seus atributos e não dos marmanjões que elas trazem à arreata -) caiu-me logo no goto e, com o espanhol Martin, dois americanos ambos John, respectivamente "little" e "big", uma espanhola Maria, uma francesa Martine, a João e a Gabriella organizou-se uma trupe para gozar a cidade, o curso e a nossa "juventud, divino tesoro" da melhor maneira possível. Por grata amizade e para que não vá anonimamente ao encontro da glória literária fica o sardo doravante crismado de Giuseppe, Peppino para amigos e meninas.

Aproveitar Berlim e o resto significou organizarmo-nos, dividir os maravedis (lá eram marcos, moeda forte que na altura valia oito escudos dos nossos e quatro marcos da RDA no mercado negro), comprar os géneros na cantina do exército francês que aquartelava, como nós de resto, na zona de Wedding, tradicional bairro proletário. Farto gozo nos deu, enquanto durou, a escandalosa e ilícita compra nos estabelecimentos militares, dirigida pela atrevidíssima Martine, rapariga de peito de rola, olho azul e minha emérita professora de argot.

Comia-se pois, muitas vezes, em conjunto nas acolhedoras cozinhas do Studentenheim que nos servia de casa. Quando a faxina calhava ao casal italiano era certo e sabido que para a mesa saía uma farta dose de spaghetti alla bolognese.

Não sei ainda hoje, e já lá vão 25 anos, meia vida, se o spaghetti era realmente bom, se a nossa fome o sublimava ou se, simplesmente, eram os nossos sonhos e o cheiro de Berlim que transformavam, com a ajuda de um "Valpolicella" barato mas tinto, esses jantares em festins.

Fosse o que fosse era bom. Aqui vai pois a receita aldrabada no acidental mas garantida no essencial de

SPAGHETTI alla BOLOGNESI
(berliner Art)

ingredientes:

cebola, cenoura, tomate descascado e sem pevides, azeitonas pretas descaroçadas, alho, azeite, orégão, louro, sal, pimenta acabada de moer, carne de vaca acabada de picar, presunto, toucinho fumado, salpicão, vinho branco e obviamente as massinhas (por favor: spaghetti e se possível italiano!!!)

modus operandi:

refogue-se a cebola e em azeite enquanto um amigo/a serve um pouco de vinho branco seco (um vinho de conversar...) e nos recita a "oda a la cebolla" de Neruda ( "Odas elementales")
em estando a cebola meio loira junte-se-lhe o alho finamente cortado a cenoura picadinha (quantidade ao gosto da clientela) e aloira;
ao som de Bandiera Rossa entra em funções o tomate, pelado e despevidado que foi, e vai frufrulhando em lume brando. Meio copo de vinho branco pode, nesta altura, baptizar o petisco;
as carnes picadas e devidamente abastecidas de sal pimenta e orégãos começam o seu banho lustral nos líquidos que murmuram no tacho. Para que a cerimónia siga os veros rituais entra em cena um cavalheiro natural de Sevilha e que corre mundo sob o nome de Fígaro (recomenda-se a gravação que conta com a divina Callas no papel de Rosina). Deixe-se correr, inteiro, o 1º acto. Na impossibilidade de se operar com Rossini ( a quem se deve um tornedó) é permitido pela maioria dos autores recorrer aos serviços do senhor Wolfgang Amadeus Mozart e testemunharemos, com a conveniente compostura, as Bodas ou, pelo menos, todo o 1º acto;
durante este rosário de adições à frágil cebola foi-se usando de cuidado, tirando ou repondo, colher a colher (e lembremos que, a todo o momento, "a colher na boca" de Hélder é bem vinda), colheradas do molho espesso que empoça qual lava cheirosa o vulcão domesticado em que por artes musicais se transformou o amável utensílio de alumínio.

E as azeitonas? - perguntará maliciosamente a Lena. -As azeitonas ó nefelibática pianista, as azeitoninhas pretas e cortadas, entraram em seu tempo já as carnes tinham ganho cor e já ténue, mas decidido, o perfume do cozinhado invadia a sala onde se oficiará dando ao dente.

E o vinho? -insistirá, desta feita, o dono da casa, a calva vermelha e luzidia e a cara idem mas de malícia. "O briol" ,branco como se disse, e se deve, entrou de contrabando com o barbeiro de Sevilha mas só um copinho, e mal cheio, que isto é mediterrâneo o mesmo é dizer pouquidão de recursos e muita, mas muita, imaginação.

a latere:
a latere ( se bem que traiçoeiro o latim é muito útil) ferve, já, em recipiente autónomo, água com a pitada de sal que Deus manda e algumas gotas de azeite. Em estando as molhangas mais rescendentes que um chulo parvenu em sábado de festejos (litros de Tabac, brilhantina ou gel em excesso, unha comprida e guitarreira manicurada como se deve) sacrifiquem-se os spaghetti em toda a sua inteireza no caldeirão de Pero Botelho e aí permaneçam 10 minutos ou o tempo que for necessário para ficarem "al dente".

Nesse exacto momento escorrem-se os spaghetti, constipam-se em água fria e corrente e voltam ao fogo no mesmo tacho em que sofreram a anterior sauna e serão energicamente remexidos num pouco de manteiga que os esperava já meio derretida.

finale maestoso:
em recipiente apropriado servir-se-ão os spaghetti bem misturados com o molho que há de estar quente, espesso e cheiroso. É geralmente aceite pela doutrina e pela maior parte da jurisprudência, o uso discreto de parmesão ralado com que se polvilhará o prato que copiosamente enchemos.

Bom apetite e que os deuses imortais que regem o mare nostrum pai da Europa nos permitam encher a mula por muitos e bons e em boa companhia e, já agora, que o vinho seja do das bodas de Canãa ou, pelo menos, do Douro e com mais de dois anos.

Nota: esta receitinha tem já barbas (e provectas, valha-lhe Deus) e foi como no começo se diz dedicada à Lena e ao nosso querido companheiro Anto a quem alguns coimbrinhas de outras épocas chamam carinhosamente Didi. Ele merece. E ela ainda mais que o atura desde sempre.

nota final : no texto fala-se de uma estadia em Berlim"há vinte e cinco anos". Claro que agora já são 35!

nota ainda mais final: num comentário á morte do António Gancho eu esperneava e chorava baba e ranho por não encontrar a minha "Edoi Lélia Doura". Os Reis Magos fizeram o favor de me iluminar e lá a encontrei junta com as coleccção completa dos caderninhos Oiro do Dia. A altura do volume não lhe permitia a sã convivência com as restantes obras do H. Helder.

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