08 janeiro 2006

Vão-se os anéis, salvem-se os dedos

Quando há anos atrás soube que a Assembleia Municipal do Marco (com um voto contra) havia aprovado uma proposta para que fossem recusadas as minhas crónicas neste Jornal, pensei que isso se reduzia à concepção que Ferreira Torres tinha da democracia. Mas, ressalvadas as devidas distâncias, tenho de reconhecer que está a ser desenvolvida uma cultura de poder que tem da informação uma noção parecida. Perdeu-se a noção de que a liberdade de imprensa é um bem da sociedade antes de ser um direito de profissionais. E, como bem fez notar Hannah Arendt, tal liberdade só pode ser exercida do exterior da esfera política e, em democracia, não existe delito de opinião. A responsabilização dos jornalistas faz-se pelo direito de resposta e pelo recurso aos Tribunais.

Mas, para além do procurar banir a escrita de um cronista inconveniente ou do “blackout”, o poder político encontra sempre outras formas de coagir a liberdade de imprensa: pressiona os jornalistas a desenvolverem, no seu trabalho, uma autocensura que embarace a sua livre interpretação dos factos, restrinja o seu sentido crítico e escrevam ou revelem somente o que é agradável. Para além deste tipo de pressões, já se procura atingir as questões mais subliminares, como, p.ex., o caso de um candidato a presidente da República considerar falta de isenção uma eventual publicação da sua imagem com o dedo no nariz. E porquê?!... Porque se passou a privilegiar o espectáculo em detrimento das ideias. E, como se trata de Mário Soares, não se pode dizer que estas lhe faltem. O problema parece ser outro: é que a produção da crença nas ideias ou nos argumentos não surge apenas da competência das palavras que são ditas, mas da coerência com o que se disse noutras ocasiões. E, havendo contradição nessa relação, a única saída é a de tratar o eleitor como um consumidor de espectáculos e não como cidadão. O político fica, então, reduzido ao domínio da aparência, do puramente teatral, e, nesta circunstância, o dedo no nariz é uma imagem que não seduz e, por isso, se torna perigosa.

A recusa desta cultura dá, cada vez mais, força a Manuel Alegre. É que, paradoxalmente, do sucesso de Manuel Alegre depende a renovação do PS.

JBM in: JN

5 comentários:

O Hóspede disse...

O tema do poder da comunicação social está abundantemente estudado. O que não estará tão estudado é o papel do político profissional especialista em comunicação social. Cada vez mais a mensagem publicada é manipulada por políticos especialistas em comunicação social, a que acrescentam a ligação directa ao poder dos media para fazerem passar a sua mensagem.

Hoje os “sites” de muitos organismos públicos são autênticos jornais de parede, em que sob a capa da informação aos cidadãos, passam notícias “directivas” acerca da acção meritória das políticas que executam.

Os próprios jornalistas são envolvidos nessa teia. Quando pensam que dar ou não dar uma notícia é uma decisão deles, o que se passa é que muitas vezes decidem condicionados por variáveis que nunca equacionaram, pela simples razão que a gestão política da comunicação social, feita a partir dos gabinetes dos executivos políticos, é um fenómeno recente neste país.

Aliás, penso que a maioria dos jornalistas nem aceita esta posição. Como é que podem aceitar que a notícia negativa que publicaram sobre o político Y foi cientificamente programada, muitas vezes com semanas de antecedência, no gabinete do político que criticam?

Coutinho Ribeiro disse...

Eu essa história nem conhecia ou se conhcia, não me lembro dela. Mas é boa e bem à maneira da ditadura em que vivemos. Mas olhe, compadre, há por aí muita gente que lida mal com a com. social. Conheço um presidente da Câmara que, nas suas anteriores funções, se tornou conhecido pelas cartas que enviava às direcções dos jornais a queixar-se do "reduzido" impacto das suas palavras nas notícias sobre actividades em que participava.

Primo de Amarante disse...

Nã são só os sites, são as publicações das autarauias (com fotografias páginas sim, páginas sim do autarca), e os milionários vencimentos de assessores de Imprensa de autarcas, cujo papel não é só serem "recadeiros" do autarca, como ainda pressionar jornalistas e, até, administradores dos jornais, como tem acontecido no Porto.

Esta é a doença mais grave da democracia.

Caro carteiro: se perguntar ao Baldaia (pai) ele confirma-lhe essa história. Foi o único a votar contra.

O meu olhar disse...

A pressão que é feita sobre os jornalistas, de uma forma evidente ou encapotada, faz realmente parte do dia a dia dos jornalistas. Por isso admiro quem, nesse meio, consegue manter uma margem saudável de autonomia sobre o que escreve. O que parece não ser o caso de uma razoável percentagem de jornalistas. Claro que digo isto de cor, mas não sendo humanamente possível medir tudo, tenho que falar pelo que me apercebo e do pouco que sei.
Todos nós, na nossa vida profissional, estamos sujeitos a inúmeras pressões, de diversa natureza, umas mais fortes que outras. A cada um as suas escolhas. Cada um deve saber onde disse sim ou não e as respectivas consequências.
Costumo dizer que há portas que não se devem abrir. Fechá-las de seguida poderá ser impossível.
Por isso, admiro quem consegue manter uma margem saudável de autonomia sobre o que faz, ou não faz.

Primo de Amarante disse...

Naturalmente, todos nós, de uma forma ou de outra, temos experiência de ter sofrido pressões. Mas é bem diferente a ingerência dos politicos nas notícias, o transformar jornalistas em recadeiros, o recusar publicidade (pública) aos jornais que dão notícias inconvenientes, o intervir no trabalho jornalistico através de pressões sobre as administrações e, ainda, o de fazer "o número" do escãndalo pela publicação de uma fotografia (que não é uma montagem)para se colocar no papel de vitima dos meios de comunicação.

E ainda por cima, como se não houvesse telhados de vidro!!!