22 fevereiro 2006

estes dias que passam 13

1 Tento nestas páginas (?!) ir dando conta do que me surpreende, apoquenta ou indigna. Num tom mais de conversa do que apologético. Não sou um evangelista nem sequer um opinion maker. Nem me interessa sê-lo. Sou apenas um cidadão normal que paga os seus impostos (que remédio!) e que entende dever prestar o seu depoimento. Não acredito que isso mude o mundo, o país a cidade, sequer o bairro onde vivo ou o círculo de amigos e conhecidos com que convivo diariamente. O que escrevo é tão só um sinal de acordo ou desacordo. Para que (e em suposta contradição com o que acima escrevi) não se me acuse de ter fechado os olhos ou assobiado para o lado quando os tempos e o modo eram insuportáveis.
2 Repego pois em algumas “vexatae quaestines” que resolvera nunca mais tocar. Uma porque descobri que o senhor Procurador Geral da República em 1969, na crise estudantil de Coimbra, estivera do outro lado da barricada com a polícia e o governo e outra porque pareceu-me intuir em certos amigos e companheiros que estimo e respeito uma opção religiosa que os fazia sentir-se particularmente sensíveis perante uns desenhos sobre Maomé. Todavia estes dez dias de ausência por razões meramente familiares e pela estadia na Póvoa do Varzim revendo amigos, falando sobre livros, essa minha antiquíssima paixão, conhecendo gente (e aqui refiro o actual director do Instituto Cervantes em Lisboa, um galego tonitruante que ama os nossos escritores de Camilo a Brandão, de Garrett a Cesário: isto sim é que é um embaixador cultural!) foram inquietantes e por isso aqui estou de novo a falar do que quisera calar.
3 Mas vamos às nossas encomendas: o senhor PGR não ata nem desata sobre o mistério das gravações telefónicas. Sª Ex.ª tem todos os meios mas não apanha sequer o mariola que lhe rouba duas galinhas no pátio da casa... Eu já sei que a rusga ao jornaleco “24 horas” se deve ao facto de haver objectivamente um crime e que será o de explorar os telefones constantes da lista. Seja! Que bela coincidência! Mas que este é um belo meio de afastar as atenções sobre quem mandou, quem recebeu quem utilizou e quem desviou as listas, é. Quanto ao resto: tudo como dantes quartel general em Abrantes. Ou seja: NICLES!
Politicamente, e Sª Ex.ª o Senhor PGR é titular de um cargo absolutamente político e politicamente escolhido, trata-se de um triplo tiro no pé. Como já deve estar habituado (eu não queria, apesar da honra, ser membro inferior de S.ª Ex.ª porque ao fim destes dois anos já estaria feito um passador...) não se importa. Vamos fazer uma aposta: nunca mais se vai saber nada deste mistério tão lusitano e tão fadista.
4 Já ninguém tem qualquer dúvida que os bonecos do jornal Jilland Posten só indignam as elites muçulmanas retrospectivamente. Foram precisos quase cinco longos meses para os ulemas, os mollahs, os emires e restantes criaturas religiosas ou não, despertarem para o pavoroso sacrilégio e lançarem as massas na rua. Felizmente recuperaram imenso terreno: os mortos já são mais de cem e as embaixadas vão ardendo alegremente. As manifestações que nunca se viram depois de cada bomba, cada atentado (e esses começaram muito antes das torres gémeas...) cada inocente morto, têm agora lugar perante o olhar compreensivo do senhor professor Freitas do Amaral. E solidário, acrescento. S.ª Ex.ª além de propor um jogo de futebol entre os algozes ocidentais e as vítimas médio-orientais (Oh argúcia! Oh diplomacia!) descobriu agora que o “white man’s burden” de Kipling, o imperial, era afinal uma ignomínia e uma atrocidade sem nome contra um Islão (Islão quer dizer comunidade de crentes...) inocente e civilizado. O facto de, para nós ibéricos, ter havido um Tariq ou um Mussa, para já não falar em Almançor, não lhe deve ter ocorrido ou, piedosamente, já perdoou essas pequenas impertinências. Afinal eles deixaram-nos a nora, os algarismos e a catedral de Córdova... Espero que o senhor ministro dos negócios estrangeiros resolva pedir públicas desculpas pela participação portuguesa nas batalhas do Salado e de Navas de Tolosa, para já não falar na iminente devolução do Algarve aos seus legítimos proprietários mouros.
5 O senhor professor deu aos portugueses uma lição de solidariedade com a Europa a que pertencemos e à União Europeia a que aderimos. Mostrou-se sobretudo altamente solidário com o Reino da Dinamarca tornando muito do nosso dia-a-dia a frase “algo está podre no reino da Dinamarca”. E isto não surpreende: pois não é verdade que Diogo Freitas do Amaral é um eminente autor dramático com peças que fizeram a glória do Teatro da Trindade e mostraram ao mundo que cá também temos um Shakespeare ou um Racine ou um Ibsen ou mesmo um Chiado?
6 Já aqui perguntei uma vez como é que se obtém o estatuto de apátrida. Agora que o nosso Delfim Lourenço Mendes já exerce de contributor espero uma resposta que me seja favorável. A minha família vive (dizem os livros...) nesta terra desde os alvores da nacionalidade. De alguns ancestros sei que foram guerreiros, militares e coisas igualmente repelentes. Terão chacinado uns tantos mouros inocentinhos, castelhanos velhacos para já não falar no gentio oriental e africano. Não mereço viver no país suave de Freitas do Amaral. Também não quero. Portanto enquanto não me exilo para as Franças e Araganças (estou à espera do euro-milhões...) aceito a apatridia e o ferrete de viver em Portugal, pátria que será para mim lugar de exílio, como belamente dizia o Daniel Filipe. E de certa maneira já estou habituado pois vivi (malvivi, sobrevivi...) sob a paternal mão de Salazar e discípulos até ao meu 33º ano. Não me crucificaram, claro mas fizeram-me algumas paternais advertências. Também o Dr. Freitas cá viveu nesses tempos, dir-me-ão. Claro mas ele do lado em que fazia sol e eu do outro.
7 E a Póvoa do Varzim? Perguntarão os que sabem destas minhas manias literárias. Pois a Póvoa lá estava, feínha como sempre, mas calorosa com a malta da escrita. Boa lição dá a muita terra pequena e periférica. A festa dos escritores é também a festa dos leitores como eu. A malta lá se vai encontrando, ouve umas mesas redondas, por vezes redundantes, encontra uma cabazada de amigos e conhecidos, entorna umas cervejas e aqui vai disto: muita conversata com os de sempre desde o Prado Coelho com dez quilos a menos até ao Francisco Belard a quem seria uma caridade oferecer dez quilos. E depois apareceram o Zé Carlos de Vasconcelos, o Manuel Rui, o Virgílio Alberto Vieira e os editores do costume (João Rodrigues, Carlos Veiga Ferreira e Manuel Valente entre outros. Mas cito estes por velhíssima amizade e alguma cumplicidade). E defeitos? Pois além da Póvoa não ser tão bonita como Vila do Conde, por exemplo, o defeito maior é o da fartura: lançaram-se trinta ou quarenta livros, uma enxurrada mesmo para maníacos pertinazes como eu. De todo o modo foi bom conhecer os novos autores (e no Bonheur dou-vos conta de uma), perceber-lhes a ferramenta e a oficina. Fiquei muito impressionado com uma jovem brasileira Adriana Lisboa que já anda publicada por aí e que nos leu uns textos belíssimos. Vão por mim: a senhora escreve bem. Muito bem, mesmo. O nosso Anto apanhou uma boleia e lá deu um arzinho da sua graça. Quem lhe leu o livro, gostou, ou pelo menos assim mo disse. Agora é ver se ele, de vez em quando, nos concede um postal com um poema. Aqui. Nesta casa que é dele, também. O mundo não pode ser só pgr e Freitas que diabo. Também havemos de ter direito a um (mesmo que ténue) raio de sol.
8 Parece que algumas das pessoas que apoiaram o Manuel Alegre resolveram formar uma espécie de associação política que sem ser partido iria tentar intervir na “res publica”. Não estou lá, não estarei lá e acho forte asneira aparecer a intervir e a “candidatar-se”, por exemplo, a uma que outra junta de freguesia. Partidos disfarçados com o rabo de fora são uma má e vesga consequência de uma luta cívica que justamente criticou a partidite aguda dos partidos tradicionais. Mas isso é só com eles. Eu, que aqui assumi desde o primeiro dia a candidatura Alegre, não dou para esse peditório.
Como diria o nosso José: j’ai d’autres chats a fouetter! Um abraço José. E dê notícias, homem de Deus, dê notícias.

Nota: isto escrevi antes do caldo se entornar. Pensei eliminar um que outro trecho mas depois disse ao meu botãozinho do umbigo: que se lixe; era o que faltava calar-me depois de tanta mordaça no tempo da outra senhora. Quem não gostar que mo diga que para isso há-de ter computador e demais parafernália. Só sai hoje?, paciência. Vai para presentes e ausentes, queiram eles ou não. Se isto fosse papel teriam a possibilidade que Camilo tão bem sintetizou numa carta: “Exº Senhor: acabo de passar ao ventre da mãe terra pelo esófago da latrina a sua carta”. Se vos apetecer façam o mesmo, ainda que só virtualmente.

4 comentários:

Silvia Chueire disse...

A Adriana é ótima escritora.

Abraços,
Silvia

jcp (José Carlos Pereira) disse...

Quando ouço falar no mundo da escrita e dos editores, lembro-me invariavlemente do malogrado Manuel Hermínio Monteiro, que "ergueu" a Assírio & Alvim.
Tive o privilégio de ficar imenso tempo à conversa com ele no aniversário de um amigo comum e de saborear as suas deliciosas histórias - da escrita, da cultura, da gastronomia, dos vinhos, das recolhas efectuadas no Portugal profundo.
Um senhor dos livros, que desapareceu pouco depois.

Cabral-Mendes disse...

Frequentávamos o mesmo ginásio - ali perto da sua livraria, na Rua Passos Manuel (Lisboa); o ginásio ficava e fica na Rua dos Anjos...e era um vício ir à sua Livraria...depois de uma boa sessão de fitness...

M.C.R. disse...

Estes gajos fazem ginástica... !