20 junho 2007

regresso pouco edificante


Há momentos em que a sensação de estar a viver em surrealidade se me impõe de tal forma que até a minha fraca memória os regista por muito tempo.

Certamente por isso me recordo ainda, exactamente, da incredulidade com que ouvi as 1ªas notícias que davam conta de que a nomeação de Santana Lopes, como 1º Ministro, era uma hipótese para valer no pensamento do Presidente Jorge Sampaio. Algo bizarra, mas não exactamente surreal, foi a sensação de, dias depois e ao fim de tantos anos, me ver de novo metida numa manif ...
Reminiscências que me ocorrem, agora, ao tentar encontrar um fio para o registo desta meada de sensações de estranheza que me vêm assolando, a espaços, em medida geometricamente progressiva desde há dias.

Ouve-se, lê-se, vai-se sabendo, vai-se acumulando e às vezes sossegando também, pois houve quem reagisse, chegando agora a haver clamores tão audíveis que lá acabam por ser ouvidos até pelos novos aparatchiks do regime que, pública e denodadamente, juravam ser pelo menos surdos (ainda que alguns afiançem que é apenas para disfarçar). E às vezes é um pequeno nada que nos tira do sério.

Deve ter sido isto que me sucedeu hoje, ao ouvir, repetidamente, até à exaustão mesmo, nas televisões, como se de uma notícia fresquinha como pãezinhos acabados de sair do forno se tratasse, que António Balbino Caldeira tinha sido constituído arguido(*) em processo crime, por mor dos seus posts, no Do Portugal Profundo, sobre o percurso académico de Sócrates (o que li eram relatos factuais documentados e a exposição daquilo que o nosso 1º, himself, classificou de dúvidas legítimas... mas admito que me possa ter escapado alguma coisa). Fonte citada: o Expresso on line de hoje.

Sucede que a fornada começara a ser cozida e servida, com primor, neste post do próprio B. Caldeira, há 5 dias já (sim, cinco dias), tendo tido mais de 2000 comensais. É certo que Carlos Rodrigues Lima, que assina o artigo no Expresso, para além de citar bastamente o blog, avança com uma cacha: o processo terá sido desencadeado por José Sócrates, leia-se, Sócrates terá apresentado queixa contra o blogger (bem, convenhamos que era óbvio desde o início, caro Watson...). Mas os jornalistas da Sic Notícias não só não mencionaram a fonte originária como, pelos vistos, nem se deram ao incómodo de lá ir espreitar, pois acrescentaram tais pontos ao conto que acabaram por virar a história do avesso.

Depois de dias a encher o copo com o deserto da margem sul, com o crescendo de suspeições sobre interesses ocultos dos empresários que pagaram o estudo sobre a viabilidade do novo aeroporto em Alcochete a terminar, em anti-clímax, com a revelação de que, afinal, cada um tinha pago uns poucos tostões e que a clandestinidade era só por causa de miunfa; com as críticas à miunfa por parte dos opinion makers de salão, esses heróis dos princípios em programa word; com a memória ainda fresca da tão comentada afirmação do PGR de que, nos processos em que se averiguam eventuais actuações ilegais de autarcas, seriam sobrestados os desenvolvimentos que pudessem influenciar as eleições que se avizinham em Lisboa e, de seguida, com os jornais a publicarem informações em alegado segredo de justiça, visando políticos e partidos políticos, invocando para tanto um relatório da PJ que citam abundantemente, num timing e a uma cadência sistemática demasiado óbvios para poderem ser tidos, mesmo pelos mais ingénuos, por afã de cachas e mera coincidência; com tantas outras violações do segredo de justiça sem notícia das correspondentes iniciativas processuais por quem de direito; com a drenagem que faz recear o regresso do tempo das maiorias silenciosas; com Rio cada vez mais descaradamente big-brother; com António Lobo Xavier a desvendar hoje, na Quadratura do Círculo, que afinal o ministro, aliás, governo, era jámé salomé pela frente e fosquinhas por trás (salvo seja), mas com condições, claro, que isto não é o Ó da Joana; com tudo isto e muito mais que nem vale a pena referir, ou de que de momento já nem me lembro, a notícia mal contada pela Sic Not foi a gota que fez transbordar o copo e me levou a vir aqui desabafar, com um despudor que há muito não ousava. (**)

Do demais, com a sobredosagem deste tipo de informação dia após dia, mais a sensação de nada poder fazer e de haver já muito quem opine e bem, vai-se criando distância, num enganador mecanismo de sobrevivência. Da mesma forma que, quando passam aqueles imagens em close-up de crianças com fome, algures em África ou num outro lugar que se quer longínquo, mudamos de canal, antes que o seu olhar nos desconcentre de um qualquer House ou CSI mesmo ali ao lado.

Não, este meu regresso não é mesmo nada edificante (e, em verdade vos peço, abstenham-se de me contariar neste particular, por favor :(


(*) o mais exaltante é que B. Caldeira vai também ser ouvido como testemunha, no processo instaurado (na sequência de denúncia apresentada pelo advogado José Maria Martins) para averiguação da existência de eventuais ilegalidades no dito percurso académico de José Sócrates (info dada no post acima referido). As matérias em investigação terão, no mínimo, muito em comum, pelo que é com curiosidade expectante que aguardo os próximos desenvolvimentos desta curiosa figura jurídica: o arguido-testemunha.

(**) esteve para ser há dias, ao ler que a Loja das Meias vai deixar o Rossio, por ter a clientela endinheirada fugido da Baixa, razão pela qual se vai mudar para... Angola. Pois.


10 comentários:

António Balbino Caldeira disse...

Muito grato pela sua solidariedade, cara Kamikaze.

Estou preparado porque a perseguição não é nova, como sabe. Agora fica mais intensa, com a difamação - essa sim! - e calúnia. Os factos são terríveis - não consentem desmentidos. Daí a vingança.

carteiro disse...

Isto é que se chama boa produção :-)

Gomez disse...

Cara Kamikase:
Não a vou contrariar, porque sou bem mandado :-)
Mas ainda bem que apareceu aqui a partilhar estas perplexidades.

O meu olhar disse...

Olá Kami, depois de ler este seu post de um só fôlego fiquei sem respiração e desanimada. É que isto de pôr tudo a olho nu, por junto, desanima, e ainda mais se pensarmos no pouco que podemos fazer.

Bem vinda e ao seu desabafo sofrido!... :)

M.C.R. disse...

Santana, podes voltar que há ainda piores do que tu...
ou
quem se mete com engenheiros leva!
ou
continuo a perguntar como é que um cavalheiro pode requerer o estatuto de apátrida.
Lopes volta que os violinos do chopin tocam as castanholas do teu bravo sucessor.
ou
o nojo vai ter tudo. Como o medo!

Kamikaze (L.P.) disse...

Quando a campeã do optimismo responsável, a O meu Olhar, desanima mal vão as coisas... mas minha cara, vc sabe bem que as cores com que vemos a vida também as podemos escolher e eu bem avisei que este escrito era apenas um desabafo muito pessoal :)

jcp (José Carlos Pereira) disse...

Confesso que não acompanho os restantes neste ressentimento com a pátria e seus dirigentes.
Os factos são terríveis? Vingança? Perplexo, queria crer que era normal que um cidadão que se sente difamadao accione quem muito bem entenda (se é que foi isso que aconteceu). Os tribunais lá estarão para julgar. Só as "nossas" conclusões é que são válidas?

jcp (José Carlos Pereira) disse...

Confesso que não acompanho os restantes neste ressentimento com a pátria e seus dirigentes.
Os factos são terríveis? Vingança? Perplexo, queria crer que era normal que um cidadão que se sente difamadao accione quem muito bem entenda (se é que foi isso que aconteceu). Os tribunais lá estarão para julgar. Só as "nossas" conclusões é que são válidas?

carteiro disse...

Hombre:
É claro que o Eng. Sócrates tem todo o direito de se queixar criminalmente quando se sente difamado. Do mesmo modo que quem sinta que tal queixa é injusta pode sempre lançar mão de uma queixa por denúncia caluniosa. Do mesmo modo que tu tens todo o direito de estar optimista em relação ao estado do país. E até tens direito de estar sempre a favor do Sócrates, sejam quais forem as circunstâncias. É por esta liberdade que me bato. E é por ter medo que ma tirem que protesto.

O meu olhar disse...

Kami, essa do optimismo responsável é interessante. Eu costumo dizer que sou como o Obelix, devo ter caído um caldeirão quando era pequena, só que poção que me dá força é o optimismo

Sabe JCP, eu fico desgostosa com muita coisa que se está a passar nomeadamente no sector da saúde, mas não tenho uma descrença relativamente ao Governo de uma maneira geral. Eu sou das que defendo que muitas das coisas que mudaram só pecaram por tardias. Todavia, há coisas com as quais não concordo de todo, como seja uma visão exclusivamente economicista em sectores onde o olhar deveria ser social.