21 março 2008

Estes dias que passam 101


A história miserável da professora da “escola” Carolina Michaelis que é praticamente agredida por uma aluna perante a passividade de uma inteira turma de estudantes que filmam a cena e se divertem, diz tudo do estado a que chegou o ensino.
Os professores são meros verbos de encher, uma espécie de criados das famílias para tomar conta dos “meninos” enquanto o papá e a mamã andam na ganhunça para poder ir oito dias para o Algarve, para poder pagar a prestação do segundo carro, para se irem embrutecer de sol em Torremolinos, no nordeste do Brasil, ou na República Dominicana (muito mais fino!!!...). ninguém quer que a Escola funcione, que aí se aprendam os valores mínimos da vida em sociedade, o respeito, a solidariedade e já agora um par de conhecimentos para singrar na vida.
Telemóveis na sala de aula são o pão nosso de todos os dias. Conversas idem. Os meninos não podem ser postos fora da sala porque o processo disciplinar é negativo para o professor, além de que corre o risco (certo, quase garantido) de ser vítima de uma agressão dos meninos, dos pais dos meninos ou das autoridades ministeriais.
Esta professora que teve medo de se queixar, que só se queixou quando viu para sua vergonha a história a correr em filme na internet, tinha muitos anos de ensino. Está no topo da carreira. Os cabelos embranqueceram-se-lhe a ensinar pequenos selvagens, filhos de grandes selvagens, protegidos pelos selvagens ministeriais que só querem ver as estatísticas lá fora a melhorar.
Repararam que um tal Rui Nunes (cito o “Público”) assobiou para o lado e disse que “deve ser a escola a resolver o assunto”?
Repararam que ninguém do tal ministério da Educação disse uma palavrinha amável, solidária á professora? Repararam que a dona Lurdes, acha que (sic) “não há clima de violência generalizada na escola”?
Isto quando se sabe que por queixa directa (e devem faltar as outras as que se não fazem, por medo, por pudor, por vergonha) há um professor agredido por dia.
Alguém aí desse lado do computador pode ainda espantar-se com cem mil professores na rua?
Alguém aí acha que numa escola em que o clima é ameno como se vê, se pode aceitar a tal avaliação quando as reprovações dos meninos podem acarretar consequências bem maiores que um par de encontrões, três dichotes grosseiros e a o rosto na internet?
Alguém por aí, desse lado do computador, pensa que é possível pôr o carro diante dos bois, pedir resultados quando o clima ameno desta escola risonha e franca é o que se vê?
Há por aí alguém que ache mal que a tal ministra do tal ministério poderia sem vergonha pegar na merda do telemóvel e dizer uma palavra à professora agredida?
Ou a tal ministra do tal ministério da tal educação que os pariu está à espera das nossas reacções para amanhã com rádios, jornais e televisões à ilharga, e esse escarro do conselho das Escolas e o outro, o da Federação dos papás que recebe grossa maquia dos cofres ministeriais (para quê?, pergunta-se) vir dar um beijinho repenicado na cara da pobre mulher que daqui a dias vai ter de enfrentar uma turma de pequenos estúpidos que a viram ser humilhada sem um gesto?
Estes pequenos de que falo são grandalhões, tem idade para ter juízo, para apanhar dois bofardos na cara imbecil e cheia de acne, dois bofardos que lhes encolha o sorriso canalha, o gozo miserável de serem vinte e muitos contra uma mulher só e indefesa.
Vamos a uma aposta? Alguém, desse lado do computador, acredita que vai haver um par de expulsões, uma dúzia de suspensões? Quem aposta que, ao fim e ao cabo, tudo passará com uma pseudo-desculpa à professora e um aviso a esta e outras como ela que deixem os telemóveis tocar, que deixem os meninos atender a chamada, mandar uns sms, perguntar a solução do ponto, enfim continuar a bagunça?
Num país civilizado, a ministra já teria sido chamada á ordem, o conselho directivo da escola já se teria demitido, os professores já teriam declarado greve. Greve!
Eu não sou professor, valha-me Deus!, não quero ser professor, mal por mal antes lixeiro que é trabalho mais limpo e menos perigoso. Mas ao ler nos jornais e ao ver na televisão estas vergonhas, sinto vontade de pegar na primeira coisa que tiver à mão e zurzir os costados dos meninos, dos funcionários do ministério, das DREN dos federados paisinhos que obsequiam as ministras e lhes sacam o dinheiro e não é pouco para fazer que andam mas não andam. Esta gente que quer a modernidade, menos Estado e melhor Estado, logo que pode arranja uma organização e vai de mão estendida pedir um subsídio de funcionamento.
Ou seja só são contra o Estado omnipresente e omnipotente quando este não lhes larga uma esmola, não os compra, não os corrompe.
Alguém, desse lado do computador, ao ver isto sente prazer, orgulho, sequer conformidade em ser português?

alguma alma sensível dirá que este texto tresanda a sentimento. Tem razão. Está tal e qual se escreveu sem sequer ter mudado uma vírgula. De vez em quando é necessário deixar falar a indignação mesmo que isso nos traga futuros amargos de boca e ao lê-lo mais tarde verifiquemos que o estilo é pobre. Haja alguém que diga o que se deve dizer logo e sem rede.

3 comentários:

Rui disse...

Tem toda a razão.
Mete raiva a cobardia reles que aqui se evidencia (lembro-me também das praxes: são os mesmos energúmenos).
Mas a mim, que sou professor, o que me mete mais raiva é saber que os professores a quem foi retirada a autoridade na sala de aula, ficam também sem autoridade para proteger essa imensa quantidade de miúdos e de miúdas que acabam vítimas fáceis destes selvagens.
É que eu posso deixar a escola e ir para outro emprego. Eles não.

Nota: destaquei uma parte do seu texto e coloquei-o devidamente identificado no meu blog, espero que não se importe.

josé disse...

O que provocou este estado de coisas, foi...a paixão!

Veja lá! A paixão do governante Guterres é agora seguida, de modo assolapado e serôdio, pela actual equipa de Lurdes, Lemos e Pedreira, e mais associados, do ISCTE.

Falo do ISCTE? Falo, sim senhor. Por causa, cá de umas coisas.

JSC disse...

Quando tudo parecia ter batido no fundo verifica-se que ainda há mais chão para cavar, que ainda não se atingiu o fundo do fundo. De qualquer modo não me parece razoável que se dois anos ou três anos de governação como a causa de todos os mães na educação.

O problema vem de trás, é anterior ao tempo em que os alunos mostraram o traseiro desnudado ao Sr. Ministro da Educação. Por essa altura os telemóveis ainda estavam a iniciar o seu caminho mas os desmandos na educação já eram mais que conhecidos, debatidos e tolerados. Tão tolerados como o “arrependimento” da “aluna”, que depois de se declarar arrependida já tem um coro a pedir clemência ou como dizia o Dr. António Vitorino, na sua prelecção de 2.ª Feira, “é o começo” para uma boa solução.

E os colegas que apoiaram, riram e se deliciaram com a cena, bem representada no dito “a velha vai cair”, também já pediram desculpa e mostraram arrependimento?

Quanto aos pais de todos estes alunos, acredito que se sintam vítimas do sistema, mas só isso!

Face ao absurdo a que se chegou, apenas resta pedir o absurdo maior, crucificar alguém para tudo permaneça igual. É o que se está a pedir.