03 abril 2008

Diário Político 80


Troca de Galhardetes

O senhor Jaime Gama, deputado e nessas exactas funções, entendeu in illo tempore chamar Bokassa ao senhor Alberto João Jardim, presidente, já nesse tempo, do governo regional da Madeira.
Zangas de ilhéus, pensei, que já nessa altura não ia à missa do senhor Gama, peixe (no dizer do senhor Mário Soares) de águas profundas (demasiado profundas e glaucas para mim). Arrufos entre os Açores e a Madeira, nada mais, espuma dos dias mornos do parlamento, dias em que mesmo uma ideia pequenina demora a sair.
Todavia, a bem-pensância nacional comoveu-se. Choveram indignações e comoções. Só o visado é que pareceu não se importar demasiado com a comparação. Ao fim e ao cabo, Bokassa tinha-se coroado imperador, o que não é mau para um indígena de uma ilha bananeira e turística.
Agora o senhor Gama, sempre deputado, convém dizê-lo, entendeu exaltar as virtudes desconhecidas e conhecidas do senhor Alberto João sempre presidente da região da Madeira. Comoção geral, desta feita nas hostes (minguadas) do socialismo madeirense. Mais comoção e algum ranger de dentes no partido dito socialista.
Calma, malta, no pasa nada! Continuamos no reino da fantasia e dos enredos peninsulares. O profundo Gama (onde é que eu já ouvi esta?) está tão delirante agora quanto estava no dia da “bocaça”. Ou não. Ou nunca esteve delirante, e sempre foi assim. Que esta criatura tenha desde há trinta e tal anos ocupado uma cadeira em S Bento e que dele, ao fim de tanto tempo, só lembremos estas bocas, diz muito do personagem, não acham?
Tanto mais que ele agora já é presidente da Assembleia da República, figura cimeira do Estado e do estado a que isto chegou.
O senhor Alberto João continua, aliás, a não se comover. Dá ideia de que não se sentiu insultado da primeira vez e, tão-pouco, louvado desta. Ele lá sabe porquê. Provavelmente porque conhece o senhor deputado Gama e, como bom ilhéu, sabe o que vale a opinião de tão robusto talento.
Alberto João, tonitruante presidente de região autónoma, ficará na história mais pelas obras que fez, mais pelo desafio que representou, mais pelo sistema que implantou na Madeira, do que Gama, o profundo. Não se pense que o estou a elogiar ou que gosto minimamente da criatura. Não gosto. Nunca gostei, aliás. O que aliás não tem a mínima importância para o buldozer político que Alberto João é.
Á Madeira acabam por ir todos. E por beijar a mão do apodado Bokassa, o mesmo é dizer que ele mereceu o título imperial. Agora estará por lá o senhor Presidente da República. Vamos lá a ver os mimos que trocará com Alberto João. Provavelmente não será tão encomiástico quanto Gama mas também Cavaco passará mais à história do que o cavalheiro açoreano.
Será esta previsão de falta de futuro na pequena história pátria que terá convencido o deputado Gama a entrar para a crónica pelo menos como autor de uma piada?
Pena não ter graça, mas já alguém viu um peixe de águas profundas ter espírito?

D'Oliveira

1 comentário:

JM Coutinho Ribeiro disse...

Marcelo:
O erecto AJJ não se compacede com os flácidos gamas