07 junho 2008

Estes dias que passam 112



Os ratos que rugem


Estava para deixar passar sem comentário a (agora famosa) ida de Manuel Alegre à festarola do Teatro Trindade.
Explico-me: aquilo, aquele ajuntamento sem pés e com pouca cabeça não merecia o tempo que uma pessoa leva a escrever um texto sobre o “eminente” significado político da reunião.
Bem fez o PCP que nem lhes ligou. Pudera! Com duzentas mil pessoas na rua, referir as escassas quinhentas ou seiscentas que enchiam a sala do Bairro Alto, era dar à coisa uma importância que não estava nos planos do partido e que, de facto, bem vistas as coisas, não tem.
Porém, o PS, sempre desatento e sobretudo sempre ansioso, viu na reunião um fantasma (ponhamos que, a exemplo do que escreviam Marx e Engels, há mais de cem anos, que viu o aterrador espectro do comunismo) e assustou-se, como há cem anos a boa burguesia em ascensão se assustou com a Internacional.
Teria o PS razões para se afobar ao ponto de lançar alguns dos seus “chiens de garde” (muito ladrar mas pouca ameaça) contra a presença de Alegre? Parece-me que não. A festinha era confidencial e sem o alarido inconsequente e queixoso do pobre Vitalino Canas, sem as eructações de Lello e sem a prestação ridícula de mais um par de figurinhas sensíveis, a reunião a pedir mais esquerda teria ficado no limbo das alminhas perdidas. Nisto de política só existe o que é falado.
Mas as pobres criaturas que se puseram em bicos de pés a ladrar à canela de Alegre (que chega bem para eles todos mesmo a fazer estas piruetas inconsequentes e sem sentido) não têm feeling. Pior: não têm a noção da galinhola e de política “política” e de ideário socialista estão parcamente fornecidos. Faltaram-lhes uns aninhos duros, de oposição a sério, no tempo em que isso doía e trazia consequências desagradáveis.
Ao trazer a participação de Alegre para o pretório da opinião pública portaram-se como meia dúzia de galinhas pedrês a falar das águias que voam um pouco (bastante) mais acima delas. De facto, e bem vistas as coisas, a discursata (frágil) de Alegre até ajudou. Afinal o PS é um partido múltiplo, com correntes de opinião, capaz de criticar os seus dirigentes, como se apressaram a dizer alguns socialistas mais sensatos e mais prudentes que sabem ou pensam que Alegre é um património socialista seguro e que já mostrou valer um largo par de votos.
Os patéticos acusadores de Alegre deram dimensão insuspeitada à iniciativa do Bloco, tornaram-na mesmo politicamente interessante, coisa em que, à partida, nem Louça decerto acreditava.
Criaram mais uma guerrilha tonta dentro do grupo parlamentar e dentro das estruturas centrais do PS.
Puseram o país a perguntar-se se, de facto, Alegre não teria razão em se juntar ao grupúsculo bloquista.
Tornaram mais visível a atrapalhação que reina na equipa dirigente do PS quanto à escolha de um candidato à Presidência da República, sobretudo sabendo-se, como se sabe, que há mesmo entre os mais altos hierarcas do PS, uma forte tendência para apresentar Alegre como candidato.
Finalmente, com a sua impudente precipitação, puseram em cima da mesa, aos olhos do público pagante, que somos todos nós, a questão da deriva preocupante da crise, do aumento de preços, da falta de perspectivas para se sair deste beco.
O PCP neste momento deve estar a mandar cestinhos de cerejas e outros mimos de época a estes auto-proclamados críticos de Alegre.
Disse no início, e repito, que considero esta “lança em África” de Alegre uma espadeirada na água turva. Uma asneira, dê lá por onde der. O PS, mesmo este PS, é de facto, incontornável. É uma tristeza mas é mesmo assim. Duvido que me apanhe o voto (e eu sempre votei nele) mas não é substituível pelo bloco ou pelo PC. Está cada vez mais à direita, sem dúvida, mas isso é mais resultado da vontade de acreditar em lideres carismáticos (Jesus! Logo o Sócrates!...) do que uma tendência profunda e “genética” como ora se diz a torto e a direito. O PS andou sempre a derivar entre o oportunismo contrabandeado pelo continuo assumir de um passado histórico de cento e tal anos (que além de ser medíocre do ponto de vista ideológico não teve sequer qualquer relevância do ponto de vista político) e a necessidade de se afirmar membro de pleno direito da social democracia europeia. O PS português viveu mal o conflito Soares – Zenha como vive mal com a sua bastardia maçónica. Viveu mal o conflito gerado por Manuel Serra, viveu mal a expulsão dos trotskistas do POUS, conviveu mal com os militantes trazidos por Sampaio e está demasiado agarrado a um aparelho medíocre criado à pressa nos fins de setenta e princípios de oitenta. A sua frente sindical é uma manta de retalhos, a sua jota é tão fraquinha quanto as congéneres de direita e actualmente não passa de uma agencia de empregos políticos e a sua frente autárquica pode rever-se no conflito latente que pode fazer perder a câmara de Matosinhos.
Pese a tudo isto, que é muito e é grave, só um autista é que não quer ver, o P.S. consegue ter uma vitalidade que vem justamente da mesma matriz dos seus defeitos: é feito por gente livre, com opiniões que porventura mereceria dirigentes mais interessantes e mais interessados na coisa pública, na causa da social-democracia e na auscultação da opinião pública isto é dos portugueses.
O que não merece é estas criaturas que volta e meia se tomam pelo que não são: políticos a sério.

o texto acima estava escrito e em lista de espera. Só quando o "postei" é que li o texto do meu camarada JCP. Discordo dele, como se vê mas não é, nunca seria, uma resposta ao texto dele que reflecte uma apreciação de um compagnon de route (ou militante) do PS e que milita e militou em situações bastante adversas, se é que o nome de Marco de Canaveses diz alguma coisa aos leitores. Não quereria de nenhum modo que alguém, depois de uma leitura enviesada, pensasse que JCP faz parte dos meus alvos. Bem pelo contrário, faz parte daquela massa generosa e limpa e profissional que torna o PS perdoável aos olhos dos cidadãos que, como eu, se afligem, com estes malabarismos a que assistimos.
Mas como cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a quem quer que fosse aqui se deixa este aviso á navegação.
mcr

1 comentário:

Anónimo disse...

Vivemos num país sem rumo essa é a verdade. José Socrates, foi levado ao colo por um povo sedento de novidade, sedento de gente nova na politica, sedento de ideias não ideais, acabaram por ter uma grande idiotice! Mais ou menos o que muitos esperavam depois dos episódios egocêntricos que realizaram e produziram a divina comédia "co incineração"!!! Manuel Alegre tem ideias próprias, isso ja todos viram...afinal o que está ele a fazer no PS? Que corra enquanto é tempo!