06 julho 2008

Estes dias que passam, 117


Black-out forçado

Só quando cheguei a Lisboa é que descobri que não trazia a ligação internet do computador. Isto irrita-me na medida em que, sem a ligação o computador transformava-se numa carga quase inútil. Quase e não totalmente porque também o uso para resolver problemas de bridge e, na passada, jogar umas partidas livres. De todo o modo, fico sem mail, sem acesso aos blogs de que gosto e sem poder meter a minha foice nas searas alheias.
E por falar nisso, em foices, searas, horizontes vermelhos et alia, eis que o triste partido comunista português me oferece uma de primeira. Então aquela rapaziada, sempre pronta a azucrinar os ouvidos do povo (que não é sereno) com a falta de liberdade em Paços de Ferreira ou em Birmingham, Alabama, entendeu não saudar a libertação de Ingrid Betancourt porque isso poderia subentender um apoio ao regime de Uribe (por acaso eleito democraticamente, por muito que nos custe as suas convicções políticas)... Isto, é o grau zero da política e o grau cem da estupidez. Por quem nos toma o PCP? Será que esta gente não cora quando arreia uma giga deste tamanho? Tomam-nos por parvos, ou são de facto parvos, tontinhos de atar?
Até aquele tiranete de pacotilha da Venezuela, o ex-golpista Chávez, que o PCP elevou à categoria de padroeiro dos pobres e oprimidos, se congratulou e telefonou ao negregado Uribe!!
Mas o PCP não! O PCP não verga, não se desvia do justo caminho, do justo “sendero” fosforecente por onde prossegue a sua heróica caminhada para o abismo. Estes tipos parecem lemmings suicidas, e se calhar são...

Deixemos o PCP e vejamos o que se passa por outras bandas. Agora que um grupo de soldados colombianos, infiltrados até aos altos comandos da guerrilha levou a cabo uma operação notável de inteligência e de eficácia, toda a gente se põe em bicos de pés. Todos ajudaram, todos fizeram, todos estiveram na selva, todos... É evidente que não há milagres (excepto em Fátima e na Federação Portuguesa de Futebol) e que o exército colombiano teve quem lhe fornecesse material, quem o treinasse. Todos os exércitos o têm. Mas à vista desarmada parece-me que foram uns magalas colombianos que se embarcaram nos helicópteros, que desembarcaram, que distribuíram bacalhoada entre os torcionários de Ingrid e dos seus companheiros. Foram colombianos que imitaram a voz do chefe da pandilha criminosa que dá por FARC, aliás ninguém está a ver franceses e americanos sequer israelitas a falar o espanhol colombiano com os tiques das FARC, pois não?
Foram estes tipos que arriscaram o coirão, são estes tipos que morrem nos combates, são os familiares deles que são raptados, mortos ou feridos. Impunha-se pois, um pouco de respeito, menos paternalismo, menos paleio.
Isto aplica-se também ao senhor Sarkozy, presidente da França. Ninguém lhe nega (ou a Chirac seu antecessor e curiosamente um modelo de contenção neste episódio) o interesse que manifestou, as iniciativas um tanto ou quanto canhestras que tomou, o apoio aos filhos de Ingrid, o avião emprestado. Todavia, estou em crer que os Estados Unidos, muito menos loquazes, terão feito muito mais. Custa-me admitir isto, sobretudo quando me lembro de Bush mas “amicus Cato sed magis amica veritas” (ou seja em portuga corrente, amigo de Platão mas mais da verdade).
Agora, pôr-se em bicos de pés, dar a entender com a brutal candura que usa que tudo (ou quase) passou pela França é ridículo. Mesmo se o senhor Barroso, essa nossa desgraçada exportação para Bruxelas, se tenha apressado a falar primeiro de Sarko do que de Uribe.
Eu não conheço o senhor Uribe de parte nenhuma, não gosto do ar da criatura e menos da sulfurosa fama que o acompanha. Todavia, desculpem lá qualquer coisinha, Uribe é o único na fita que foi coerente até ao fim. Recusou negociatas, percebeu que neste momento, a única hipótese é dar com força na FARC enquanto ela anda atordoada com as mortes, naturais ou não, dos seus dirigentes, com as suas derrotas no terreno (mesmo que seja no Equador...) com a multiplicação das deserções e com a condenação internacional. E Ingrid Betancourt bem o percebeu e claramente o disse. Por ela, que estava a ferros na selva (seis anos, quatro meses e não sei quantos dias) as conversas moles tinham-se traduzido apenas em mais dor, mais sofrimento, mais tempo. Vê-se bem que os partidários da linha soft nunca estiveram presos. Um preso está-se nas tintas para os processos, o que quer é ser solto e quanto antes. E, a certa altura, está mesmo disposto a arriscar tudo para se salvar. Foi o que sucedeu com Ingrid que apesar de saber o risco que corria tentou evadir-se três vezes. Percebem, ou precisam de um desenho?
Já agora: o parlamento português entendeu na sua gigantesca clarividência apresentar um voto de satisfação. Pena é que durante meses, alguns dos mais conspícuos deputados tenham achado natural que se vá até à Venezuela dar palmadinhas nas costas de um figurão que objectivamente esteve sempre do lado da FARC, que chegou a pedir que a retirassem da lista das organizações terroristas, que telefonava ao senhor Marulanda, que lhes permitiu ter quartéis de inverno em território venezuelano e que, segundo tudo indica, terá ajudado financeiramente os grupos criminosos, como parece deduzir-se do que já se sabe dos registos de computador do número dois da FARC.
Ainda me lembro, de há poucos meses, sermos uma pequena minoria, aqui na blog-esfera a proclamar a nossa solidariedade com Ingrid Betancourt. Cito, de memória o João Vasconcelos Costa, o João Tunes, o Rui Bebiano, o Luís Carlos Januário entre outros bloggers (e perdoem-me os que omito). E não cito, porque me envergonha, um homem que me habituei a respeitar, que apoiei politicamente quando sozinho se lançou á conquista da Presidência da República, contra tudo e contra os prognósticos. Fica mal, muito mal, aquela conversa xoxa e desastrada com Chávez. Há gente com quem não se deve sequer falar e muito menos elevá-la à categoria de pessoas respeitáveis. Presta-se um mau serviço á democracia, á causa da liberdade e ao socialismo democrático. Um péssimo serviço.

2 comentários:

Jacinto disse...

Faz bem lê-lo.
Os meus cpmts.

Carlos Fortunato disse...

Dr.Marçelo boa noite . . . Parabens , gosto muito de continuar a ler aquilo que escreve.
cumprimentos
Carlos Fortunato