08 novembro 2008

estes dias que passam 132

Eu não consigo perceber se a Srª Ministra da Educação está em seu perfeito juízo ou se já nasceu assim. Não gostaria de me pronunciar sobre a eventual inteligência da referida senhora se bem que me veja obrigado a pôr em dúvida essa capacidade quando a oiço dizer, com estas que a terra há-de comer, que uma manifestação que provavelmente reuniu 120.000 (cento e vinte mil!) professores é uma mera manobra de chantagem de uma minoria sobre a maioria dos professores que querem avaliar, ser avaliados, enfim que querem o mesmo que a Srª Ministra.
Dando de barato que os manifestantes serão mais ou menos oitenta por cento do total de efectivos da função magistral, verifico mesmo assim que o discurso da responsável ministerial é tontamente autista e reflecte a inabalável confiança dos cegos, para não dizer dos talibans, da Educação Nacional.
Esta Ministra, cuja carreira profissional assombra os mais calmos é a Miss Bush do ensino português. Creio, seriamente, que a pobre Senhora está convencida de que ouve vozes celestiais e eventualmente de que tem estigmas nas mãozinhas. A não ser assim, como seria possível pensar, estamos perante um caso grave de autismo já não político mas simplesmente social.
Não sou professor, nunca me passou pela cabeça sê-lo, reconheço que aqui como em todas as restantes profissões há malandros e preguiçosos (e lambe botas, claro...) mas tenho amigos que o são. Por sorte minha, trata-se geralmente de pessoas com grande prestígio entre os colegas, entre pais de alunos e, mais importante, entre estudantes. Falar com eles, desde os seus sonhos até às suas dificuldades, é uma dramática lição e uma viagem à mais abjecta burrice do sistema português. À mais incontrolada demagogia que passa pelas notas subitamente altas nas provas de matemática, ao patético "Magalhães", na realidade o internacionalmente conhecido Classemate, ou à arrogância dos quadros das DRE, local privilegiado da sabujice e da delação.É também uma viagem à desenfreada fuga para a aposentação, perdendo dinheiro, mesmo se os ordenados de base já não fossem famosos. Assistir a esta hecatombe do espírito faz relembrar outros e igualmente sombrios tempos que muitos de nós vivemos. Só que aí o poder não se refugiava em razões tão vazias como as actuais.



23 comentários:

Fartinho da Silva disse...

José Pinto de Sousa tem duas alternativas:

a) deixa cair a estalinista ministra e tudo por ela produzido;

b) cai com ela.

Agora bola está do lado do Primeiro Ministro.

Mocho Atento disse...

A Ministra tem toda a razão.

Os professores deviam era pensar em trabalhar.

A avaliação é fundamental e como todos os sistemas novos ten dificuldade em avançar e é incómodo.

Ser professor tem de ser orientado para o sucesso do processo de ensino.

E deixar de ser emprego certo, razoavelm,ente bem pago e com poucas horas de trabalho!

Há muitos professores que trabalham muito e são exemplo. Esses devem ser louvados e incentivados na progressão na carreira. Os outros devem ser reciclados ou dispensados. Doa a quem doer!

O sitema de educação português é dos mais caros e dos mais ineficientes e ineficazes da Europa. A culpa não é ´só dos professores, mas também e sobretudo dos pais. Mas é preciso fazer alguma coisa para mudar o sistema, sob pena de este País ser definitivamente inviável.

Manifestações como estas já as vimos muitas vezes! E quase nunca tiveram razão os manifestantes ...

jorge pereira disse...

Pois é, Mocho, mas muitos dos professores que trabalham muito foram os que ficaram prejudicados no acesso a professor titular e, muito provavelmente, serão prejudicados nesta avaliação. Porque, na bandalheira que vivemos, há avaliadores que estão a pedir planos de aulas de todas as aulas ( e não apenas das assistidas), há casos de professores de Ed. Tecnológica que vão avaliar professores de Ensino Especial (na minha escola tenho um desses casos!). Não está em causa a avaliação, da qual nenhum bom professor tem medo. Depois disto ainda acha que a ministra tem TODA a razão, Mocho?

DA disse...

Fiquei curioso com este frase:

"Esta Ministra, cuja carreira profissional assombra os mais calmos"

Poderia concretizar?

Fátima R disse...

Neste momento, faltam-me as forças! Sou resistente, mas a mentira muita vezes repetida desarma-me, fico petrificada.Fico sem ânimo.
Estive em Lisboa, mas, ontem, ao ouvir os nossos governantes tive vontade de chorar. Chorar de revolta!
Fátima Reimão

Primo de Amarante disse...

Fico espantado com o meu amigo mocho atento. Havia uns escuteiros que obrigavam as velhinhas a atravessar a rua, mesmo quando não queriam e faziam isso só para fazerem uma “boa acção”. Este meu amigo, manda a velhinha ficar em casa só porque atravessar a rua gasta a sola dos sapatos e pode falar de coisas que não são “convenientes”.

Sempre achei que eram assim os “bons escuteiros”!....

Que é que mocho atento sabe da vida dos professores na escola? Concorda que o professor de trabalhos manuais, só porque ocupou vários cargos na escola, vá avaliar as aulas de direito? Sabe que a grande maioria dos professores já são, hoje, eventuais? Sabe quanto ganha um professor eventual? E o facto do “sistema de educação português ser dos mais caros” (o que não é verdade!) não permite que os professores se manifestem contra injustiças? E 80% dos professores a manifestarem na rua não deveria fazer pensar qualquer ministro da educação? Afinal, um ministro pode governar contra aqueles que executam a sua política de educação?

Há dias encontrei uma colega, das poucas que a matemática tiveram alunos nos exames nacionais com 20. Perguntei-lhe como ia a escola e desatou num choro convulsivo, porque não suportava aquela vida. Como ela há muitos professores e, por isso, a classe onde há mais pedidos de aposentação, todos os dias, é a de professor.

Meu amigo escuteiro faz-me lembrar o pai do magala que acha que só o seu filho leva o passo certo no batalhão que faz o juramento de bandeira.

jcp (José Carlos Pereira) disse...

Esta manifestação, tal como a anterior, demonstrou a força da corporação e não necessariamente a força da razão. Por isso, se a ministra e o Governo estão convictos devem prosseguir a sua política e serão julgados nas próximas eleições.
O país não pode ficar eternamente refém das corporações, sejam magistrados, médicos, professores ou outros.

Primo de Amarante disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Primo de Amarante disse...

Agora, substitui-se rapidamente a ideia de dignidade profissional por interesses corporativos. E já em absoluto desapareceu o conceito de classe social. E isso é sempre acompanhado pelo desprezo pela luta sindical. Mas haverá democracia, desprezando-se o papel dos sindicatos, o direito às manifestações e à defesa da dignidade profissionel?

Curiosamente, é bom lembrar que, a organização partidária teve a sua origem em organizações sindicais!

E por que será que nunca aconteceu tantos pedidos de aposentação de professores, todos os dias, como acontece com este ministério?

Também a ideia de convicções tornou-se numa palavra-armadilha. Serve para fidelizar umas coisas e já não serve para fidelizar outras,muito mais importantes e mais reveladoras do carácter de um governo, como, por exemplo, as promessas eleitorais.

Convém, no entanto, não esquecer que, em nome das convicções fizeram-se os maiores crimes da história. Em regimes democráticos a ética da convicção não pode ser separada da ética da responsabilidade. E 80% dos professores a contestarem determinado tipo de avaliação deveria obrigar qualquer governante democrata a avaliar as suas convicções sobre o seu entendimento de avaliação que promove.

Um governo responsável e democrático terá de pôr sempre a seguinte questão: “não estaremos a fazer algo que conduza a consequências perversas?” A disposições para reconhecer erros são virtudes democráticas. Isto é o que separa a democracia do totalitarismo. Leia-se “Sociedade aberta e os seus inimigos” (K.Popper).

As manifestações fazem-se como um direito a dizer que algo está mal. Não entender esse sinal é nada entender sobre o que é a democracia e o exercício da cidadania. Não podemos utilizar estas palavras como palavras-fetiche com que enchem a boca os novos-ricos da democracia. Se as manifestações não são para levar a sério penso, então, que seria mais transparente proibi-las. E nisso o velho regime foi coerente!

Esta ministra não lê os sinais que lhe foram dados nesta manifestação e é como se dissesse estou-me a marimbar para as mesma. Faz lembrar velhos tempos, os tempos dos senhores das únicas convicções verdadeiras, os que só aceitavam as corporações.

O Ministério da Educação tornou-se o senhor da verdade absoluta sobre o conceito de avaliação e isso não o separa de todos os ministérios de regimes totalitários. Agora, até já diz que os sindicatos não são credíveis. Podia concluir que havia um conflito de interpretação do seu entendimento de avaliação e do entendimento do sindicato,mas não! Recusa o diálogo, como qualquer regime totalitário.

Não esperava que o PS chegasse a tanto!...

Primo de Amarante disse...

Só mais uma coisinha. Mas para que servirá um País?!.. Para não ser refém dos interesses dos seus cidadãos ou nacionais?!.. E então é refém de quem?!... Do Sócrates?!... Ele muda tanto de ideias!...

Primo de Amarante disse...

Só mais isto: toda a gente sabe que a postura desta Ministra nada tem a ver com convicções, mas com uma estratégia que parte do convencimento de que uma postura arrogante e autoritária, contra manifestações e contra professores (ou outra qualquer classe profissional), dá votos. São resquícios do Portugal profundo, o que procura na voz autoritária do chefe a voz do dono. O povo gosta que os seus eleitos se comportem como quem doma touros.

E Sócrates que é da Cova da Beira e a ministra Maria de Lourdes que foi professora primária (uma ano, apenas: depois foi só anos sabáticos para mestrado e doutoramento, no caso da Lourdinhas, porque a outra personagem recorreu às novas tecnologias e fez carreira por fax - esta gente não tem muito apego ao exercíco duma profissão) no Gerês tem isto na alma.

A minha posição é a de que vão tourear para outro lado (já para não falar no vernáculo nortenho)!

Primo de Amarante disse...

ACABO DE LER O QUE DIZ MANUEL ALEGRE SOBRE A MINISTRA E A POLÍTICA DA EDUCAÇÃO NO JN.

Só há uma diferença entre o que aqui escrevi e o que ele escreveu no JN. Manuel Alegre diz-se chocado, eu já espero tudo desta Ministra e deste Governo. Também não me surpreendeu o que se passa no BPN, o que se passa na CGD, nos negócios com a MOTA e Engil, no Código de Trabalho que foi aprovado, etc. etc.

Este governo é do socialismo africano, nada tem a ver com as sua raizes republicanas, levantou voo da realidade e já é incapaz de perceber o descontentamento que vai lastrando. Espero ver as reacções dos intelectuais orgânicos, quando o PS cair redondamente nas sondagens, tal como vislumbro e já há muito merece.

JM Coutinho Ribeiro disse...

Entre os tais 120 mil professores que estavam na manif haveria certamente bons professores. Professores preocupados. Professores que acham que o sistema de avaliação é incorrecto, Professores que entendem que a situação não é boa para a qualidade do ensino. Mas também estava lá uma amiga minha que é professora (não sei se boa, se má) que, há dias, me dizia que estava desolada com o critério pelo seguinte: vai ser avaliada por um professor titular que foi seu aluno e que é titular "apenas" porque tem mestrado e ela não. Ora, esta não me parece uma boa razão para estar contra.

Primo de Amarante disse...

Caro amigo: fiz o mestrado, há muitos anos, dos primeiros, na altura em que este era de 4 anos mais um. Hoje, é de 18 meses. Em virtude do acordo de Bolonha, muitas universidades estão a aconselhar os alunos, nesta fase de transição, a fazerem um trabalho para terem o mestrado e assim ficarem com um grau superior à licenciatura que passou a ser de 4 anos. Compreenderá que o mestrado deixou de ter a importância que já teve. Além disso, há mestrados e mestrados, Não compreendo que quem tem mestrado em audiovisuais possa avaliar um professor de química ou vice-versa! Aliás, muita gente, enquanto fez o mestrado usou de licença sabática e não deu aulas. E como pode avaliar quem não deu aulas?

Uma avaliação assim, não gera confiança, divide os professores e é necessariamente entendida como injusta. Hoje, estive com um colega que foi economista numa empresa e, agora, está no ensino. Disse-me que sempre foi avaliado e que, agora, na escola onde trabalha nem ele nem ninguém entende o que pretendem com a avaliação que o Ministério determinou.

A minha filha já fez avaliação e foi avaliada na Autoeuropa. Toda a gente concorda com o método que é simples e funciona. Tem cinco itens e quatro etapas: auto-avaliação, avaliação dos colegas e avaliação pelo chefe. Depois, cada avaliado tem o direito ao contraditório. Finalmente, é ponderada a classificação, em função de todos os contributos.

Não lhe parece que este método, sem titulares avaliadores, seria mais simples?

JM Coutinho Ribeiro disse...

Camarada e amigo: aparentemente tem razão. E eu não sei do assunto para o debater. Logo, só falo em episódios que me relatam e sobre esses tenho opinião. E, aí, não me parece bem que quem foi aluno de alguém não possa ser avaliador do anterior professor.

O meu olhar disse...

Email enviado para o endereço do incursões

Frequentadora da "Educação do meu Umbigo" fui trazida até aqui! Gostei do que li!

Não posso, contudo, deixar se comentar o que foi dito anteriormente. Sou professora de 53 anos, 32 de serviço. Já passei por muitas reformas, por avaliações, por um estágio de dois anos com aulas assistidas por quatro orientadores diferentes… Não tenho medo de ser avaliada! Hoje, sou professora titular e avaliadora. Não suporto a ideia de, sendo licenciada em História, tenha de avaliar colegas de Geografia e Religião e Moral; tenha de avaliar colegas com mais tempo de serviço do que eu e, principalmente, tenha de avaliar segundo uma grelha emanada deste ministério em que os professores são penalizados por morte de um familiar, por licença de casamento, por ter tido um filho ou por acompanhar este ao médico. Além disso, serei penalizada pelo facto de alunos abandonarem a escola. Imaginem-me a ter de resolver problemas sociais que até as comissões de acompanhamento de menores não conseguem resolver!

Além disto, ainda tenho de suportar a campanha publicitária do Magalhães! Mas creio que este país não merece melhor. Afinal o nosso 1º até tirou a licenciatura ao domingo!

Fátima Reimão

Primo de Amarante disse...

Camarada:
Sabe, o problema desta avaliação é que ela não se destina a estimular as competências da prática do avaliado, mas persegui-lo.

É um instrumento de “revanche” por quem nunca foi professor, no sentido que deve ter o exercício de uma profissão. Apenas passou pelas escolas e sempre fez carreira política.

E como sabe, toda essa “gente” sempre foi “desprezada” pelos que fazem da sua profissão a sua vida. Esta “gente” aproveita, agora, os cargos que tem para se vingar: é como se dissessem: agora vais pagar a pouca importância que nos deste!

Aliás este tipo de reacção também aparece em muitas pessoas que estão contra os professores. Não serão todos, mas muitos apoiam a Ministra para se vingar de um ou outro professor com quem não resolveram problemas passados.

E depois Sócrates acha que dá votos proceder como os domadores de leões (as ditas corporações).

Nunca percebi o que levará um democrata a acolher essa estratégia, pois a democracia surgiu da necessidade de encontrar um sistema com duas qualidades: 1º,onde ninguém fosse demasiado poderosa; 2º onde o diálogo (em vez do sangue) pudesse resolver conflitos.

No ensino privado também se faz avaliação. Deve haver alguma razão que justifique não haver neste sector nenhum problema!

No meu blog, há tempos, coloquei o site donde foram copiadas as fichas da avaliação (aliás, isso na altura também apareceu nos jornais) e referi que essas fichas tinham sido rejeitadas no país que as promoveu. Por que foram aplicar um sistema já repudiado?!...

Fará sentido que um sistema destinado a aperfeiçoar uma prática de ensino, esteja a causar tanto desgaste psicológico, tanta desilusão, tantos danos na confiança dessa prática, a ponto de tanta gente fugir dessa profissão?!...

Que conclusão é que se pode, então, tirar?!...

É obvio que uma avaliação assim não serve os objectivos próprios duma avaliação: estimular boas práticas. O ME não vê isso, porquê?!...

Naturalmente, por que se serve da “avaliação” para promover outros objectivos.

Haverá alguém que, olhando para esta crise provocada pelo dito sistema de avaliação que o ME arrogantemente tenta fazer aplicar (com tanta demagogia à mistura) e não para os professores que detestou, possa tirar outra conclusão?!....

JM Coutinho Ribeiro disse...

Camarada: Tirando a questão de saber se o sistema de avaliação é o melhor - que isso não sei -, há que não perder de vista que todas as corporações são avessas às mudanças. Mesmo que elas possam vir a revelar-se boas para o que interessa: os resultados do trabalho das corporações

Primo de Amarante disse...

Mas nem tudo se pode reduzir a interesses corporativos, nem se pode dizer que todos os interesses corporativos são maus.

Primo de Amarante disse...

Além disso, mudar ou reformar nem sempre significam melhorar.Imagine que lhe mudavam todos os livros e processos que tem no seu escritório. Já reparou no tempo que perdia a colocar as coisas no sítio e o desespero que isso lhe causava?

JM Coutinho Ribeiro disse...

Mau exemplo, camarada!
Então o que tem sido feito nos últimos anos nas coisas do direito? Mudanças de leis, mudanças de leis, mudanças de leis. Um verdadeiro regabofe... E, no entanto, vamos aguentando.

Primo de Amarante disse...

E farão bem?!...
Penso que o Bastonário não dá esse sentido!

Aliás, eu referia-me à desorganização de quem mudasse de sitio das coisas no seu escritório sem a sua anuência.

Primo de Amarante disse...

Mas já nos afastamos muito do tema inicial. Um bom fim de semana e até à próxima tertúlia. Um abraço para si e para o mocho atento