02 julho 2004

BACH SEGÓVIA GUITARRA



Guitar on a Chair, by the cubist Juan Gris (1887-1927)



BACH SEGÓVIA GUITARRA

A música do ser
Povoa este deserto
Com sua guitarra
Ou com harpas de areia

Palavras silabadas
Vêm uma a uma
Na voz da guitarra

A música do ser
Interior ao silêncio
Cria seu próprio tempo
Que me dá morada

Palavras silabadas
Unidas uma a uma
Às paredes da casa

Por companheira tenho
A voz da guitarra

E no silêncio ouvinte
O canto me reúne
De muito longe venho
Pelo canto chamada

E agora de mim
Não me separa nada
Quando oiço cantar
A música do ser
Nostalgia ordenada
Num silêncio de areia
Que não foi pisada


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Geografia


contributo de Ifigénia

4 comentários:

Primo de Amarante disse...

Sofia deixou-nos, mas ficará para sempre a sua poesia. Ninguém pode ficar indiferente á sua sensibilidade, à forma como tratou o homem, a natureza (mar de Miramar, a claridade de Lagos)e a propria vida. Os seus contos são de uma ternura imensa. Talvez fique para a história como a maoir poetisa do nosso tempo.

til disse...

Lembro-me de Sophia, no fim da década de 60, a ler poemas na Faculdade de Letras de Lisboa. Com uma dignidade helénica. A morte ajuda-nos a convocar os deuses e a memória.

Anónimo disse...

Perdemos um dos maiores vultos da nossa poesia e também uma referência invulgar de participação cívica, pois que, se cantou o "espantoso esplendor do mundo", nunca se alienou do "espantoso sofrimento do mundo".

Em sua homenagem, partilho mais este poema da própria Sophia:

UM DIA

Um dia mortos gastos voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala


Sophia de Mello Breyner Andresen in "Dia do Mar"

Silvia Chueire disse...

in petto
para sophia

dei mais um passo na direção do poema
quando percebi tuas palavras.
a luz entre os versos insubmissos,
na indignação ou na carícia.
na observação amorosa do mundo
ou na coragem.

dei mais um passo no amor das coisas
e dos homens,
expresso com a limpidez da água
e a cor das paisagens.

dei mais um passo no sentido de ser,
ao encontrar a emoção capturada
em seda ou mar,
que depois libertaste como pássaros.
teus pássaros que nos tocaram.

dei mais um passo no rumo inusitado
da música, da substância das palavras.
que não sendo minhas
falam tanto e tão agudamente
a minha língua.

tu viste o nascer do meu amor.

silvia chueire